A respeito da discussão abaixo, por coincidência estava eu, ontem, lendo um artigo do Gilberto Velho, professor de antropologia do Museu Nacional da UFRJ, onde ele analisa casos de violência no Rio de Janeiro no final dos anos 60 e 90, e que veio bem a calhar *.
Ainda que a comparação pareça inicialmente esdrúxula para alguns, peço que tenham paciência e leiam até o final. Gilberto Velho inicia seu artigo citando uma conferência proferida pelo sociólogo americano Everett C. Hughes, na McGill University, em Montreal, em 1948. Nesta conferência, que mais tarde transformou-se no artigo célebre “Good People and Dirty Work”, o sociólogo analisa a conivência dos alemães com o nazismo. Nas palavras de Velho (todos os negritos são meus):
“Existia uma cumplicidade entre essas boas pessoas e aquelas que faziam o trabalho sujo de prender, torturar e matar judeus, comunistas, ciganos, inimigos políticos do regime em geral, homossexuais e qualquer tipo de pessoa que pudesse ser considerada perigosa ou inadequada. Os SS eram basicamente o corpo de especialistas do regime encarregados de despoluir a sociedade (...) Hughes não diz que as good people desejassem o extermínio dos judeus ou de qualquer outro grupo. Sabiam algo sobre os campos de concentração, mas de forma fragmentada e incompleta (...) Em geral judeus, ciganos, comunistas etc eram encarados como estranhos, distantes e eventualmente perigosos. Como diz um dos entrevistados de Hughes, algo precisava ser feito” (p. 108).
Pulemos para a violência urbana carioca da década de 90. Gilberto Velho analisa algumas falas de parentes e amigos de vítimas da violência. A conclusão à que ele chega seria chocante se não estivéssemos no estado (e no Estado) em que estamos:
“As nossas pessoas boas, de um modo geral só são sacudidas quando ocorre uma tragédia dentro do seu limitado in-group. É fascinante em termos sociológicos e chocante em termos éticos ver pessoas se deslocando dentro de uma sociedade injusta e violenta, anestesiadas diante da miséria, sofrimento e violência que afligem permanentemente os out-groups, no caso a maioria esmagadora da população (...) Assim, nos aproximamos da Alemanha nazista com seus good peoples e dirty work, analisados por Hughes. As ações dos SS, do DOI-CODI, dos esquadrões da morte, dos corpos de segurança privados desempenham essa função de sanear a sociedade dos excessos dos subversivos, das minorias e dos pobres. A consciência das boas pessoas fica protegida porque não se envolvem diretamente com a poluição social. A maioria só se abala quando um parente ou uma pessoa muito próxima vai para o campo de concentração ou é seqüestrada, presa, torturada e/ou assassinada” (p. 110).
Continuando, na mesma página:
“Vários [pessoas atingidas indiretamente pela tragédia] falam nos assaltantes e criminosos como inimigos que devem ser eliminados, custe o que custar. A maioria é favorável à pena de morte e regimes mais rigorosos no sistema penitenciário. Uma minoria estabelece a relação entre violência e os problemas de pobreza e distribuição de renda”
(Só um adendo: Gilberto Velho não é comunista, nem socialista e dá aulas em um dos programas de pós-graduação mais elitizados do Brasil)
Isso não significa assumirmos uma posição de vitimizar o miserável e o criminoso e desculpar tudo. Ou, como crê o Lula, que onde tem escola não tem violência. Isso é simplista demais. Mas que há uma relação, isso há.
Mas beleza. Vou assumir o papel de advogada do diabo. Vamos partir do pressuposto que estamos em guerra civil e temos mais é que matar mesmo (afinal “Eles” também não “Nos” matam?), lei de Talião, piriri pororó. Eu me pergunto: adianta? Adiantou nos Estados norte-americanos onde existe a pena de morte? Diga aí, Joana! Os países com menor índice de criminalidade do mundo - a maioria países nórdicos, ou europeus - têm pena de morte? Têm? Me digam! Diga aí Alix! Não é isso o que a gente vem fazendo há décadas? Matar bandido? Esquadrão da morte é dos anos 70. Melhorou um pouquinho, um mínimo que seja? Lembro-me da frase do garoto do documentário "Falcão": se mata um de nois, nasce mais dois. E se matar dois nascem quatro. Numa progressão geométrica de ódio e sangue. Mas, por hora, sacia nosso desejo pessoal de vingança, né? E afinal, somos pessoas boas. Alguém tem que fazer o trabalho sujo.
Ah e se matassem, seqüestrassem, estuprassem, esquartejassem etc etc um filho(a) seu(sua)? - questão sempre levantada pelos defensores da pena de morte e do "bandido bom é bandido morto". Provavelmente eu quase morreria de dor, ia querer matar, esfolar, torturar. Talvez contratasse um matador profissional. Talvez me matasse. Não dá pra saber a menos que você passe por isso (tanta coisa na vida eu já disse que não faria e fiz...). Cada um terá uma atitude. O que eu não posso é dar ao Estado o direito de matar. Porque amanhã pode ser eu, que avancei um sinal de trânsito sem querer (ou porque tá de madrugada e eu não quero ser assaltada), não escutei o apito do guarda e levei um tiro, supostamente porque resisti à prisão. Amanhã pode ser você a tomar uma dura no ônibus e, por ser o único negro, vai ser o único a tomar porrada - afinal, se quase todos os negros são pobres, se quase todos os ladrões são negros (estatisticamente é), e se ladrão tem que apanhar, logo você que é negro deve ser ladrão e merece porrada! Amanhã pode ser o seu filho que – num ato ilícito, é verdade – é pego fumando maconha e entra na porrada. E depois que a violência se institucionaliza, aí meu amigo...são décadas até mudar isso. Haja vista que ainda estamos pagando nossas dívidas de vinte anos de governo militar com uma polícia ineficaz, corrupta e violenta. Eu morro de medo de policial, mesmo não tendo feito nada contra a lei. Gelo ao passar por blitz. E olha que eu sou mulher, tenho cabelo liso, sou branca e bonitinha, então supostamente eles teriam mais benevolência comigo. Mas sempre acho que eles vão começar a atirar num bandido e um tiro pode pegar em mim.
Por isso não podemos dar medalha pra senhora que reagiu ao assalto – uma senhora que faz uso de uma infinidade de medicamentos; que tinha porte ilegal de arma; num episódio extremamente nebuloso, em que em nenhum momento o bandido foi ouvido. Nem armado o sujeito tava! Diz a senhora que ele estava com um porrete. O cara dorme na rua! Alou! Eu não sei quanto a vocês, mas se eu dormisse na rua eu também teria um porrete ao meu lado!! Pode ser realmente que ele tenha tentado assaltá-la. Mas tentativa de assalto ainda é menos grave que tentativa de homicídio com arma ilegal, ou eu tô louca? (sim, porque sempre trabalho com essa possibilidade, vai ver eu enlouqueci e tô entendendo tudo errado). Tudo bem, aí entra o argumento da legítima defesa, entram os advogados... Pra isso existe a Justiça. Não tô dizendo que ela deveria ser condenada. No máximo, processada e absolvida – nos meus parcos conhecimentos jurídicos. Mas medalha, não, gente! Medalha, não. Querem apostar quanto que essa mulher sai candidata a vereadora nas próximas eleições - com algum slogan surreal tipo “vovó do ferro” - e ainda será eleita?
Me desculpem, sei que muitos vão discordar, mas meus impostos são pra aumentar - e muito!! - o salário e a formação dos policiais, melhorar a justiça e as condições sociais da população. Acho que isso garante mais segurança do que tiro ao alvo no meio de Downtown. Quero que a polícia me proteja e isso NÃO significa fazer bang bang no meio da rua. Aí vira terra de Malboro. Então só me avisem – e pro resto da população - que a gente saiu do estado de direito e voltou ao estado natural, porque aí, maluco, ah..., aí eu compro até AR15 e aprendo técnicas ninja de defesa pessoal. Ou me mudo de vez pra Andrelândia. Só não podem mudar a regra do jogo com este em curso e avisar só pra uns poucos. Tem que combinar com o adversário, como diria Garrincha. Senão é barbárie. É holocausto. E aí o que vamos responder quando nossos netos perguntarem: “Vovó, onde a senhora estava quando jogaram uma bomba no Complexo do Alemão? Eu tenho um amiguinho que é neto de um morador de lá e ele diz que o avô dele era motorista de ônibus, honesto e não tinha nada a ver com a guerra”?
* “O grupo e seus limites”. In: VELHO, Gilberto. Projeto e metamorfose. Antropologia das sociedades complexas. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1999.