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terça-feira, novembro 04, 2008

O pote de ouro



Esses dias me lembrava – aliás, Mab é que me lembrou – daquele filme do Woody Allen, “Husbands and wifes” onde dois homens são vizinhos de porta, um mora de frente para o outro. Um deles, casado, observa a casa do vizinho da frente, solteiro, pelo olho mágico. Vê lindas mulheres chegando, música e sinais de festa. Quando ele entra, a mulher dele está de bobs no cabelo, com máscara na cara, roupão e assistindo TV. Ele suspira desanimado, pensando na vida do vizinho. No dia seguinte, a mesma cena ao contrário: o homem que dera a festa no dia anterior olha pelo olho mágico o vizinho da frente. De ressaca, solitário, domingão. A cena que observa é o marido saindo com a esposa, uma cesta de piqueniques e filhos. Ele suspira, desanimado, pela vida do vizinho.

Ambos têm razão. Ambos são felizes. Ambos são tristes. Porque não dá pra se ter tudo. Definitivamente não dá.

A cena toda poderia ser resumida na frase “a grama do vizinho é sempre mais verde”, mas há maneiras mais sofisticadas – e enganosas – que nos fazem perceber (ou não) isso. O fato é que toda vida olhada por trás do olho mágico ou por cima da cerca é mais glamurosa do que realmente é. Só que não se pode perder de vista que há gramas mais verdinhas do que a nossa, bastando para isso abrirmos mão do nosso pasto conhecido – só para continuar nas metáforas gramíneas. Mas a questão é: como saber até que ponto estamos idealizando um lugar que não existe ou até que ponto esse lugar realmente está ali ao alcance dos que se dispuserem a ir até lá? A “felicidade” - com todas as aspas – deve ser o nosso horizonte? Que, como todo o horizonte, foge cada vez que chegamos perto?


Eu ando em dúvida se o pior é o tédio ou o sofrimento. Porque o sofrimento me parece ser o primeiro passo pra mudança – não necessariamente alguém muda com o sofrimento, mas fica a dúvida se é possível mudar sem ele (sem querer advogar em favor da dor, mas é difícil pensar se alguém muda se não for por um grande e imenso incômodo com a situação atual). O tédio parece encobrir os verdadeiros sintomas como uma nuvem meio cinzenta, que a gente nunca sabe pra que lado vai nem onde realmente está. Na dúvida, deixamos ele ali. Daí pra dor, já é um avanço.

Mas a dor também não é garantia de nada. Afinal, entre o gozo e a dor os limites são tênues. Aliás, se confundem em muitos casos e você nem precisa ser masoquista pra saber disso. Por ser conhecida, a dor é um lugarzinho confortável. É bom reclamar. Fica sempre uma dúvida de que, em algum lugar, possa existir a salvação. O pior é sair e descobrir que não existe salvação. Que não existe um lugar melhor. Constatar que tudo aquilo que se supunha a resposta para os problemas é também um local de dor. Aí você já não tem pra onde voltar. Nada mais é seguro. Você fica preso numa espécie de limbo – que, como a gente sabe, foi abolido pelo Papa. Esse papo de que é preciso mudar, nem que seja pra uma dor diferente nem sempre funciona. A dor conhecida é muito melhor do que uma nova.

Mas volto a dizer: a diferença entre constatar que uma certa dose de dor sempre vai haver (e você aprende simplesmente a lidar com ela) ou quando estamos sofrendo inutilmente, já que é possível sim, ir para outro lugar, é que são elas. Na dúvida, muita gente prefere o tediozinho. A nuvenzinha. Afinal, não tá doendo. Às vezes o problema é não doer.

domingo, março 30, 2008

Into my wild

Eu quero viver de um jeito novo, só isso. Se não dá para mudar o mundo, é preciso que eu tente ao menos mudar a mim mesmo. Só que não quero fazer isso sozinho. Já me sinto suficientemente sozinho, não sei se por culpa minha ou não" (Paul Auster, em "Desvarios no Brooklyn).


Ando em um momento meio Paulo Coelho. Achando que o Universo está conspirando – ainda não tenho certeza pelo quê ele está conspirando. Talvez a melhor palavra seja convergência. Quando passo um tempo pensando em uma questão, parece que todas as coisas à minha volta me gritam a resposta. Na verdade não se tratam de respostas, mas do fato de sempre enxergarmos aquilo que nos toca mais.

Hoje fui ver o novo filme do Sean Pean (amo, amo, amo...em todos os sentidos. Nos mais luxuriantes, inclusive. Adoro o nariz torto e a capacidade dele se fazer horroroso em certos ângulos. Como se não bastasse, o cara pegou a Madonna. Period. Ele não precisava fazer mais nada da vida porque ele foi o grande amor da Madonna. Pára. Mas ele faz. E deu pra fazer além de papéis muito, muito fodas, filmes muito, muito fodas). Voltando à razão, o filme é “Na natureza selvagem” (Into the wild). Dirigido e roteirizado por ele, baseado na história real de Christopher McCandless, recém graduado, com perspectivas de cursar direito em Harvard,que simplesmente resolve doar suas economias (U$ 24.000,00) pra caridade e sair com uma mochila nas costas rumo ao Alasca, em 1992. A história dele foi transformada em livro pelo jornalista Jon Krakauer. A velha narrativa do herói que parte em uma viagem que se revela uma experiência espiritual radical. Até aí nada demais. Diversas outras histórias falam disso. Se você quiser saber mais da história (e não se importa em saber o final do filme) clique aqui. O filme é ingênuo e romântico. Mas de um jeito bom.

(Parênteses: acabo de descobrir que o ator principal, Emile Hirsch – isso lá é nome de homem? – é o mesmo de "Alpha Dog". O protagonista. Quase não o reconheci).

Começando o post novamente: ando inquieta com a capacidade de respondermos de forma convencional (leia-se: de acordo com o que a sociedade pensa e espera) e de forma não-convencional à nossa própria vida. E o quanto o convencional pode se mostrar não convencional e vice versa. Complicou? Explico. Falo das singularidades que construímos para lidarmos com nossas vidas e de como elas obedecem a padrões – até mesmo quando estão supostamente fora dos padrões. “Não cabe ao homem colocar-se em oposição à sociedade, mas manter-se em atitude compatível com as leis do seu ser”.

Não-corresponder-às-regras-da-sociedade (e quando eu digo isso acho que dá pra entender do que eu falo), se tornou também corresponder. O fato é que num mundo onde não há mais modelos o modelo virou o anti-modelo. O que dá na mesma. O caminho continua bifurcado em direção à construção de uma singularidade – e não múltiplo, como de fato ele é. Existem tantas quanto indivíduos nessa Terra. “Não gostaria que alguém adotasse meu modo de vida por motivo nenhum; pode ocorrer que antes que o aprenda, eu já tenha descoberto outro pra mim, e além disso desejo que haja no mundo tanto quanto possível pessoas diferentes. Gostaria, sim, que cada um se empenhasse em descobrir e seguir seu próprio caminho, em vez do trilhado por seu pai, sua mãe ou seu vizinho”.


II


Tem uma propaganda absolutamente cretina passando. Da Fiat. A moça entra e diz algo como: “ai, depois de um dia de trabalho exaustivo, entrar no carro e sentir esse cheirinho de novo compensa qualquer coisa!”. Se a única recompensa de uma vida desgraçadamente exaustiva é um cheirinho de um carro novo...sinceramente, eu prefiro não ter carro. Ou não ter nariz. “E oh, que trabalheira dá a casa. Polir o diabo das maçanetas e esfregar as banheiras num dia de sol desses! Melhor não ter casa para cuidar”.

E pensar que 99% das pessoas do mundo vão viver esperando a hora de bater o ponto, o final de semana, as férias, e achando que isso é normal...me inquieta. Não é possível que tanta gente goste da mesma coisa. Ou eu sou a única pessoa lúcida do Universo ou, assim como Simão Bacamarte, talvez deva me trancafiar num hospício – pois quando você acha que só você está certo, o errado é você (“se o homem não acerta o passo com os seus companheiros é porque talvez ouça um tambor diferente”).

Aliás, propagandas de carro são um prato cheio na construção de singularidades-padrão. Compre aqui a sua singularidade, motorista! Num financiamento em seis anos! Num país onde a identidade em geral (e masculina em particular) se afirma pela posse de um veículo automotor, você é instigado a ser diferente o tempo todo – desde que compre a marca X.

Tinha uma em que a menina dizia que faz parte de um grupo de pessoas que não segue moda. Por isso o carro dela era Y. Tem uma outra cretina sobre desodorizante de carro. Diz que todo mundo usa aqueles do tipo folhinha pendurada no retrovisor, mas você pra ser diferente, deve usar o Gleid carro não sei o quê. “O gosto, infantil e bárbaro de certos homens e mulheres, pela última moda leva muitos à constante roda vida e a queimarem pestanas no caleidoscópio de formas e cores para descobrir qual é a crista da onda na geração atual. Os fabricantes, por sua vez, já sabem que esse gosto é puro capricho”.

E o mais bizarro é que isso funciona. As pessoas acham graça e nem percebem que elas fazem parte. E que a resposta pode ser andar de bicicleta, mas também pode não ser, porque se isso passa a ser um padrão, exclui a capacidade de ser singular. A resposta é a sua resposta. Mas a resposta dói. Dá trabalho. Leva tempo. E quem tem tempo?


III


O Filme do Sean Pean me lembrou muito “Juno”, outro excelente filme em cartaz. Nada ver as histórias – vai ver sou eu, enxergando semelhanças, porque minhas perguntas é que se parecem. “Juno” fala sobre uma adolescente que engravida de um cara que ela nem tá namorando. Mas Juno é estranhamente anti-convencional na sua convencionalidade – assim como “Na natureza selvagem”. Quando você acha que o filme vai dar uma reviravolta surpreendente ele pega o caminho mais óbvio – que logo se revela nem um pouco óbvio.

O que eu estou querendo dizer é que respostas convencionais ou não-convencionais não existem a priori no mundo. Não são conceitos absolutos. Existem em contextos.

E vendo esse filme do Sean Pean eu pensei em quantos de nós já saímos em busca do sonho da viagem de mochila nas costas como o padrão do jovem-rebelde-que­-se-auto-conhece. Mesmo que ele vá de avião e fique em um hotel cinco estrelas com tudo pago pelo pai. É o modelo on-the-road pasteurizado. Jack Kerouac em 90 minutos – ou em 15 dias, uma capital por dia, todo fotografado e com pilhas de turistas japoneses ao seu lado. Viva. Acumule experiências. Faça a fila andar.

O filme é o oposto disso tudo. O moleque é um aspirante a escritor e leitor voraz e as referências à Thoureau são constantes, além de Tolstoi e Jack London...O cara simplesmente resolve viver. Ele não faz nada, pois ele vive. Zen-budismo, sem uma referência sequer. Ele não precisa de dinheiro – e, sério, na boa, isso não é hipocrisia, a gente não precisa de dinheiro mesmo. "Um homem é rico em proporção ao número de coisas que pode prescindir”.



IV

Poderia ficar aqui ad eternum dando exemplos. Do cara que se acha doidão e contra o sistema porque cheira aos 35 anos de idade – com o dinheiro do pai – do hippie da Cantão (loja), do Punk de boutique, da pessoa que se acha alternativa porque vai à Lapa (sábado à noite, junto com a torcida do Flamengo)...há singularidades para todos os gostos. Até o show do Ozzy Osbourne pode ser pago em 3 vezes no cartão. O cara come morcego no palco, mas você parcela no cartão. Alguma coisa está fora da ordem. Ou dentro demais.

Casal de atores cabeeeeuça, inteligentes e mudernos, faz propaganda de banco particular. Bancos são instituições mancomunadas com o demo, como todo mundo sabe. Mas tudo bem, porque eles podem. Ai, se fosse a coitada da Grazzi ou qualquer ex-BBB! Aí era ferro em cima. Mas grandes atores podem fazer propaganda de bancos. Porque eles patrocinam as peças, então tudo bem. É uma causa nobre.

E Pitty-Poser canta na final do BBB: “seja você, mesmo que seja bizarro” – e caiba na tela do BBB. Canta contra o sistema. Faz biquinho, entra de preto e de coturno – que ela deve ter comprado a uns 700 reais. Faz carinha de não assisto-a-esse-programa-chato-mas-estou-aqui-apenas-cumprindo-meu-papel. É preferível a Cláudia Milk (copyright by Battle). Entre a Sandy e a Pitty eu sou mil vezes a Sandy. Ainda que ela represente um conjunto de valores com os quais eu não compactuo. Mas eu tenho a impressão de que ela é ela (e pode ser apenas uma impressão, ou pode ser que o assistente de imagem dela seja mais eficiente que o da Pitty).


V


Todo mundo tem seu preço. O problema é que tem gente que se vende barato demais a troco de coisas muito caras.


VI



Tenham um bom domingo, crianças.

(Todas as partes em negrito e entre aspas referem-se ao livro “Walden ou A vida nos bosques” de Henry David Thoureau. Que, estranhamente, foram se encaixando no texto, e não o contrário. I Ching, Bel).

sábado, janeiro 26, 2008

Além, muito além de 68...


Vou eu, a desinformada, caminhar no Aterro, como de costume. Ando pra cá, ando pra lá e começo a ver tendas e mais tendas, palcos, pessoas distribuindo folhetos...ok, mas um dos eventos que sempre acontecem ali. I-pod no talo, não percebo o que é. De repente, já voltando, dou de cara com um cartaz: Fórum Social Mundial. Hein? No meu quintal? Aquele que acha que “um outro mundo é possível” e que, em Porto Alegre os estudantes tiveram suas barracas assaltadas, as meninas tinham que ir ao banheiro em grupos, pois os casos de estupro foram muitos? Aquele em que até o Tchááábez já falou? Aquele?

O Fórum Social é um evento hilário. Afinal, enquanto Os Caras se reúnem em Davos, eles brincam por aqui. É como se papai e mamãe dissessem: “agora vocês vão brincar no parquinho, que a gente precisa conversar um assunto sério”. Deixam as pessoas achar que estão fazendo alguma coisa para que um outro mundo seja possível, enquanto eles, de fato, ditam as regras, num reino muito, muito distante.

Observando melhor pude ver os tipos freqüentes nesse tipo de evento. Os hippies-sujinhos (que pra mim podem todos pegar uma nave espacial em São Tomé das Letras e irem pra outra dimensão encontrarem o Raul Seixas), os Alunos de DCE (aqueles que nasceram na zona sul, estudaram nos melhores colégios e depois vão brincar de Che Guevara na faculdade – mas ao primeiro sinal de emprego com alto salário eles cortam o cabelo e vestem um terno), também sujinhos. Claro, a sujeira é parte importante. A esquerda tem essa idéia preconceituosa do proletariado: que ele é sujo, daí tentam se vestir como o que eles imaginam que seja o proletariado.

Um outro mundo é possível? Claro! Em Marte, com outra espécie. O Capitalismo, assim como a minha bunda, ainda está forte como rocha, mas um dia vai cair. Pode demorar, mas é inevitável. Por isso, façam um favorzinho pra Titia Carrie: me poupem. Me poupem desse disCUrsozinho. I have so much to do...

Só espero que limpem tudo no final.

PS: Já viram “A culpa é de Fidel”, da filha do Costa Gavras? Muito bom...

terça-feira, janeiro 22, 2008


Novelas são obras de ficção. Ainda que realistas, pautam-se por situações inusitadas e absurdas – não entrarei no mérito de que a realidade é mais absurda do que a ficção; que ficção não é mentira, é apenas uma convenção; que a arte nunca representa, mas apresenta lados da realidade e todos os problemas decorrentes da complexa relação entre a arte e realidade, nem o que significa essa última.

O fato é que uma reitora perua como a Suzana Vieira, numa universidade particular como a dela, até passa no quesito credibilidade – o coordenador do campus onde eu dava aula, cuja universidade também era um nome duplo, pintava o cabelo de preto. Aquela coisa suuuper natural, sabe? Grecim 2000. E adorava arrotar conhecimentos sobre a elite do pensamento nacional (e seu relacionamento com ela) e seu passado na universidade pública, enquanto foi pra privada (com trocadilho) para encher a burra de dinheiro. Mas voltando a Suzana. Tudo bem ela ser perua e ter um cabelo louro até na cintura e unhas de gavião. Tudo bem ela ir com um mega decote em uma reunião cujo reitor e namorado dela está sendo acusado de racismo. Tudo isso é crível. Agora o que eu não entendo, realmente não entendo, é que existam tantos professores que façam oposição direta a ela e continuem professores. Por muito menos – acreditem, muito, muito menos – eu vi pessoas, colegas professores, rodarem no meio do semestre. A universidade não se incomodava nem de pagar uma mega multa. Era demissão sumária. Ou perda de turma no meio do semestre. Você chegava e descobria que sua turma não era mais sua (não, não vou contar do aluno-pitboy que quis me bater; do segurança que ficava armado na porta da sala dos professores, com a desculpa que era por causa do caixa 24 horas e não deixava os alunos incomodarem os professores; do funcionário que passava fiscalizando se os professores estavam dando aula; dos alunos globais – sim, da rede grobo –; do verdadeiro desfile de modas e tal).


Como se não bastasse, em muitos capítulos atrás, a família da personagem da Letícia Spiller estava falando sobre a universidade. A garota, que é super inteligente – e usa um óculos fundo de garrafa, porque sabe como é, né? Quem é inteligente usa óculos –, dizia que queria estudar numa universidade pública e não na Pessoa de Moraes, a universidade da Suzana Vieira, particular. Aí o pai dizia: “deus me livre de enfrentar engarrafamento!” – pois as grandes universidades públicas do Rio ficam distantes da Barra, onde a família mora e onde a Pessoa de Moraes está localizada (humm...qualquer semelhança...). Aí a Letícia Spiller dizia: “pior não é o engarrafamento. Pior é cair um pedaço do teto enquanto você está estudando”. Oquei. É verdade. Mas aí ela completa: “sem contar que universidade pública não investe em pesquisa. Tudo que se produz em pesquisa no país vem das universidades privadas”. Uou! Peralá. Aí passou dos limites. Tudo bem, a gente até acredita na hipótese de que uma universidade particular (quando eu digo particular eu excluo as PUCs) possa ser de excelência, em algumas áreas. E que na universidade pública cai reboco da parede, isso cai. Mas dizer que a pesquisa vem da privada...puxa, isso é a única coisa que a universidade pública pode se orgulhar. De investir em pesquisa. De ter verba. Não acho legal dizer exatamente o contrário em rede nacional.

E a Pessoa de Moraes está fazendo um provão para pessoas carentes. Me lembrou esse meu coordenador Grecim 2000 que, dizia “nós é que promovemos uma verdadeira política das cotas”. Daí você passa a falsa idéia de que a universidade é para todos, pois se você não passou numa pública, porque não pôde estudar em um bom colégio, com tempo suficiente e cursos extras, pode passar numa particular. E que vai ser igual o estudante que saiu da pública. Mentira. Não me venham com esses papos de que “é aluno que faz a universidade e não a universidade que faz o aluno”. Baseado nesse princípio, a pessoa não precisa nem ir pra universidade. Basta ir pra uma biblioteca e estudar por conta própria. Você vai pra uma universidade pra ter um título, acima de tudo. Um título que vai ter mais ou menos peso, dependendo da universidade. E o que eu vejo, pelo menos em jornalismo é: os grandes editores, os grandes jornalistas, os cargos de chefia, são ocupados por pessoas de universidades públicas ou da PUC. Redes de universidade privada formam mão de obra barata. Formam a massa do jornalismo. Não que haja alguma coisa errada com isso. De jeito nenhum. Mas acho uma sacanagem você vender o sonho de que a pessoa pode chegar a ser a Fátima Bernardes (que fez UFRJ), quando ela não vai passar da seção policial do Extra. E dizer que “isso sim é inclusão social” e que somos todos iguais.

Eu dei aulas em universidade pública (um semestre) e privada (dois anos). Eu cursei universidade particular e pública. E eu vos digo: é impossível ser a mesma aula nos dois locais. Porque na universidade privada há um grau de coerção tamanho que o professor não pode dar uma aula que a média não entenda. E a média é sempre baixa. Cada vez mais baixa. E tem aquele papo do professor ter que dizer algo de todos entendam. Que, até eu dar aula, eu acreditava. Mas chegamos a um ponto que isso não é mais verdade. Claro que a universidade pública tem o problema do professor que falta, do maluco que dar a aula que quer, do outro que passa o semestre falando sobre os pré-socráticos quando a ementa da disciplina é sobre novas tecnologias...professor ruim e bom há em todo lugar. Mas o fato é que quando o aluno é um cliente e, como tal, tem sempre razão, a qualidade das aulas que você dá fica prejudicada. Saúde e educação não podem ser tratados como negócio.

Atualmente – bom, pelo menos até dois anos atrás, quando eu dava aula – nenhuma universidade privada do Rio, com exceção da que eu lecionava, pagava em dia os seus professores. Porque o nível de inadimplência é altíssimo entre os alunos. Os gastos em uma universidade são enormes. Logo, sobra pro professor (eu tenho uma teoria conspiratória de que grandes redes de ensino privado lavam dinheiro em atividades ilegais, mas deixa pra lá...). Então não tem como professor ser contra o reitor e não ser sumariamente demitido. É uma piada. Não tem como aluno fazer manifestação. Basta ele ir à coordenação, com mais dois ou três, que os professores em questão são demitidos. A rotatividade é muito alta. Tem muita gente querendo entrar. Tem cada vez mais gente fazendo mestrado e doutorado. A fila anda. Nenhum professor é insubstituível. Além disso, as universidades privadas não tem porque manter muitos professores doutores. Pois, por lei, eles são obrigados a pagar mais. Só que eles só precisam ter um número mínimo de doutores. Completado esse número, eles demitem. Se não é prejuízo.

Claro, óbvio e evidente que toda regra há exceção. Claro que tem alunos de universidades públicas com empregos merda e de privada em cargos de chefia. Também vai da vivência de cada um, de outras experiências...mas eu estou generalizando um comportamento. Além disso, estou falando basicamente de cursos de Comunicação, que são os que eu conheço um pouco mais.

Mas o que eu tô dizendo? No país que a gente vive, soa um pouco discussão do sexo dos anjos falar entre universidade pública e privada e as chances de arrumar emprego. É o roto falando do esfarrapado. A maçã falando que o tomate é vermelhinho.

quinta-feira, dezembro 13, 2007

Falando sério


A questão da CPMF se tornou algo, como quase tudo em política, que não faz a menor diferença para a população. Dizem que os produtos devem abaixar um pouco, porque pagávamos taxas embutidas nos produtos por causa da CPMF. Alguém aí acredita nisso? As pessoas que a criaram, hoje são contra e quem era contra, quer manter - como disse a Bella ali nos comentários. De onde você conclui: tem alguma coisa muito errada.

Vai fazer falta? Sim. Mas se pensarmos que, junto com quase todos os impostos que pagamos, esse era mais um que NÃO era empregado no que o Estado deveria nos dar, a gente fica pensando: vai fazer falta? Não. Afinal, já não era aplicado em saúde nem em nada.

Vão criar outro? Claro. Que também será NÃO utilizado pelo governo.

O Lula tinha dito que ia utilizar a CPMF na saúde. Quarenta milhões na saúde. Ué, mas não foi ele que, um tempo atrás, disse que tínhamos um sistema de saúde perfeito? Então pra que usar 40 milhões em algo que já está perfeito?

O problema no Brasil é que todas as soluções viram problema. O provisório vira definitivo, enquanto a lei, o ordinário, vira exceção. Precisaram baixar uma portaria no Pará dizendo que menor, ainda mais do sexo feminino, não pode ficar em cela com adultos homens. Quer dizer: baixa-se uma portaria que diz o que a lei já diz – e não é cumprida.

E a aprovação da população ao governo Lula cresceu.

quarta-feira, novembro 21, 2007

Esqueceram de mim


Minha teacher sempre esquece coisas aqui em casa. Já esqueceu o celular, o material dela...é o autêntico caso de só-não-esquece-a-cabeça-porque-está-grudada-no-corpo. Hoje esqueceu da aula. Fantastic! Tudo bem que era aula extra, mas ela anotou na agenda. Eu vi. E o celular tá fora de área.


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Mandei um e-mail para Orientador. Assunto: “Senhor, por que me abandonaste?” e dentro perguntei: “Você não me ama mais?:o” (ele já captou meu senso de humor pândego e entende as minhas piadas). Ele liga em seguida, o pobrezinho, todo esbaforido, falando que mandou domingo meu capítulo e também mandou o convite pro livro – que não recebi. Isso que dá ter e-mail próprio – ele tem um provedor ou domínio, sei lá, próprio. Falou que ia mandar de novo.


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Ou seja: todo mundo deu pra me esquecer hoje. Tudo bem.


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Jacaré chegou? Não. Nem o e-mail dele. Vou ter que ligar de novo.


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Meu orientador é um super popstar do mundo acadêmico. Tava indo pra uma gravação hoje de manhã. Volta e meia aparece na Globonews, no Arquivo N sobre a Rússia, na execução do Sadam... Mas a melhor de todas foi a resposta que eu ouvi ele dando a um jornalista da Veja que ligou pro celular dele, querendo entrevistá-lo: “eu não falo com a imprensa marrom. Se vocês quiserem me pagar pra eu escrever um artigo, tudo bem, desde que ele saia assinado”.


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Quando eu crescer quero ser que nem ele.


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Sem contar que os e-mails dele são absolutamente hilários. As “observações interessantíssimas” aos meus escritos também. O problema é que ele é tão sarcástico que às vezes ele me sacaneia sem que eu perceba – a não ser um tempo depois. E eu também aprendo sempre palavrinhas novas com os e-mails dele. Preciso de um dicionário pra ler as suas observações. Isso sem contar os termos em inglês, francês, italiano e russo. Quando é em russo eu peço pra sair.


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E o cara ainda seqüestrou embaixador americano – seqüestro, não; “captura com fins revolucionários”, como diz ele – na época da ditadura e ainda fez treinamento de guerrilha em Cuba, nos anos 70. E ainda jogam pedra nele, acusando-o de ter “traído a causa”. Bom, depois de ter sido torturado barbaramente e exilado de seu país por anos “em nome da revolução socialista” que, até hoje, nunca foi bem sucedida em nenhum lugar do mundo (não me venham com historinhas de Cuba) as pessoas tendem a mudar um pouquinho, vocês não acham? Começam a ver que não é por aí. Triste é quem nem viveu aqueles tempos e ainda acredita piamente em Marx. Aí é fácil. Aí vira um Hugo Tchábez (como diz a Cam Seslaf).


Me impressiona muito que ele, meu orientador, mantenha a lucidez e o bom humor depois de tudo que ele já passou na vida por causa dessa bosta chamada Brasil. Eu teria dado um tiro na cabeça – aliás, muitos ex-militantes se mataram – se eu tivesse passado por tudo que ele passou por causa dessa birosca de país.


Esses dias tive uma discussão com pessoas sobre o conceito de democracia. Tudo bem, não acho que vivamos num estado democrático no capitalismo. Tem direito quem tem dinheiro. Ponto. Mas daí dizer que Cuba ou Venezuela são democracias...


Ninguém vai me convencer que um lugar onde todo mundo tenta fugir seja bom. Ponto.


Ah, os comunistas também são perseguidos nos EUA. Tá. Ninguém tá negando isso. Mas pega a lista de perseguidos – e o grau de perseguição – da China socialista e compara com os EUA (até porque existe menos comunistas do que opositores ao governo Chinês). Pega o número de vítimas de Stálin e Mao. Tá, tem Guantánamo, tem perseguição aos muçulmanos depois do 11 de setembro. Mas ninguém aqui tá dizendo que os EUA sejam a oitava maravilha do mundo nem modelo de democracia. Só não venham em dizer que Cuba e Benessuêla (de novo Cam) sejam democráticas, né? Poupem-me.


Leiam “Trilogia suja de havana”, do Juan Pedro Gutierrez.


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Fecho com Churchil: “A Democracia é a pior forma de governo, fora todos os outros”.


*


Eu acredito demais na maldade humana pra crer que algum governo será algum dia justo. O fato é: se tem humano incluído logo alguém vai querer lucrar e vai restringir esse lucro a uma minoria. Pelo menos assim tem sido há uns 2.000 anos, mais ou menos. Claro que as coisas podem mudar. Sempre podem. Mas daí dar o meu corpinho em nome de uma causa...

Enfim, Bial.

domingo, setembro 30, 2007

Ainda sobre Tropa de Elite ou It's (not) only cinema but I like it!


Eu não ia falar mais sobre isso, porque eu estou com cada vez menos paciência para assuntos sérios neste blog. Essa não é a proposta. A proposta aqui é realizar exercícios literários relativizando barreiras entre o ficcional e o real - além de cooptar pessoas para o meu projeto de dominação do mundo e pegar geral. Eu já sou séria demais na vida real pra fazer deste espaço um local de crítica de qualquer coisa – ainda mais da cultura de massa, da qual sou apologeta confessa e enaltecedora das propriedades intelectuais de Rock, um lutador e afins (e isso não foi uma ironia). Mas às vezes eu não resisto e tenho vontade de dar meus pitacos sobre assuntos quentes. Sim, esse é um daqueles looongos posts, leitor taquigráfico.

Antes de mais nada queria dizer que achei muito legal o que a Andrea escreveu sobre o fato da blogosfera ter levantado a bola sobre o filme bem antes da mídia tradicional. É nóis de Eco!
. Sim, é muito bom não ter editor, Andréa! Esse é o melhor emprego de jornalista que eu poderia arrumar. Pena não ter salário.

É impressionante que o debate sobre o filme tenha se resumido a polarizações “contra” ou “a favor”. Criticuzinhos e criticuzões falaram sobre isso nas últimas semanas em blogs, revistas e jornais. Você pode ser contra ou a favor do BOPE, mas contra ou a favor do filme?!! Longe de querer apontar uma suposta autonomia da esfera artística em relação à sociedade, é importante lembrar que o filme é escrito sob o ponto de vista do BOPE, então seria de se espantar se não reproduzisse este. Seria o mesmo que esperar que uma filmagem de Mein Kampf, livro de Adolf Hitler, não fosse anti-semita. A arte não pode ter a responsabilidade de consertar a realidade. Por que esse filme foi feito nesse momento, por que a sociedade aplaude e por que ele gerou tanta celeuma são questões muito mais interessantes, a meu ver. Enquanto as reações forem gritar “caveira!” ou “fascista!” ficaremos no mesmo lugar. Não é essa a questão. E qual é a questão? São várias. Não tenho a pretensão de apontar todas e nem dizer que são as únicas. Apresento uma visão parcial de alguém que não é especialista no tema.

Eu sou contra o que o BOPE faz, sou contra o caveirão, não sou a favor da pena de morte e não acho que a tortura se justifica num “estado de exceção” - além de ter minhas dúvidas sobre o fato do BOPE ser tão incorruptível assim (não vou entrar numa discussão de “e se matassem, estuprassem, esquartejassem sua filha...” e argumentos desse tipo. Sou contra e ponto e esse post não é o lugar para enumerar as razões. Já falei sobre isso algumas vezes aqui). Claro que o BOPE deve entrar em casa de trabalhador e sentar a porrada. Claro que devem errar tiro e matar inocente – o filme coloca que o BOPE nunca erra um tiro. E de maneira nenhuma isso é justificável porque “estamos em guerra” e na guerra se morrem inocentes também – o Osama também disse isso ao atacar o World Trade Center. Mas esse filme me fez, pela primeira vez, entender, compreender o BOPE e a polícia. Continuo não aprovando. Não concordo, mas passei a entender. Pela primeira vez pensei no policial honesto. Podem não ser todos incorruptíveis, mas comecei a pensar nos que são, de fato, incorruptíveis e o dilema que enfrentam. Me fez pensar nos que fazem Direito na PUC, como o Matias (é Matias, mesmo?), tem que fechar os olhos quando os amigos fumam maconha e esconder que é PM. O leitor deve estar se perguntando: “o que adianta entender, mas não concordar?”. Pode ser ainda muito pouco, mas quando nos colocamos no lugar do outro é sinal de que conseguimos desenvolver a compaixão – e compaixão não é peninha; é talvez o primeiro passo para se mudar uma situação.

Uma das frases do filme ficou ecoando na minha cabeça: “quando morre policial ninguém faz passeata”. Esse foi o primeiro filme a falar do ponto de vista da PM. Policial também é gente. Também é povo. A gente – zona sul, zelite – esquece disso.

E esse filme irritou a Zona Sul. Irritou o Arnaldo Bloch, pois fala que o consumidor de drogas é também – não só o único – financiador dessa guerra. Dizer que o consumidor é completamente isento é de uma ingenuidade tão grande quanto acreditar que ele é o único responsável. Existiria traficante se não existisse quem comprasse? Outra coisa que irritou os “intelectuais de esquerda” e jornalistas é mostrar a venda de drogas na universidade. Pelamordedeus! Qualquer um que fez faculdade no Brasil sabe que se vende e consome droga à vontade em qualquer campus universitário, seja de universidade pública ou privada. Negar isso é negar o óbvio ululante.

Acusaram o filme de ter apaziguado a figura do capitão Nascimento – pois no livro há cenas muito mais chocantes onde ele oprime a população, como por exemplo quando obriga uma fila de meninas do morro a fazer sexo oral nele. É sempre muito complicada a adaptação de obras literárias para o cinema. Certos ângulos são privilegiados e, não raro, esses ângulos promovem a heroicização dos personagens, quando se trata de uma produção massiva como um filme desse tipo que é claramente bandido X mocinho. Impossível não torcer pelo Capitão Nascimento – ainda mais sendo feito pelo espetáculo do Wagner Moura, o gostosão do momento (e bota gostosão nisso). Impossível não vibrar quando o Matias pega o Baiano e “dá na cara” mesmo, que é pra estragar o velório. Mas, daí achar legal as fotos de bandidos totalmente desfigurados que alguns amigos me mandaram - entendendo erroneamente uma mensagem que eu passei com as máximas do capitão Nascimento (pra quem não leu, clique aqui) - vai uma longa diferença (quem quiser ver as fotos me escreva que eu mando. Só aconselho pra estômagos realmente fortes). Uma coisa é o filme, outra a realidade. Mas se você fala isso é tachada de colocar a cultura numa esfera autônoma, onde se pode tudo. Não é isso.

E o que é então? É pensar as contradições, pensar dialeticamente o que um filme deste representa. Pensar que este filme não legitima nem apregoa posições fascistas da sociedade e sim É a sociedade. Gostar do filme não é necessariamente – embora possa também ser – apoiar o BOPE. Você não é fascista por ter torcido pelo Capitão Nascimento. Pois a arte pressupõe um grau mínimo de abstração que te transporta pro universo artístico. Você lê ou vê Carrie, a Estranha e torce pra que ela bote fogo na cidade toda mesmo, afinal ela foi sacaneada pelos colegas da escola e eles merecem. Mas isso não quer dizer que você vá por fogo na sua cidade por qualquer um que te sacaneie. Você vê Assassinos por natureza
e torce por Mickey e Malory, mas isso não quer dizer que vá sair por aí matando – a não ser que de fato você seja perturbado. Você imita o de Niro na frente do espelho dizendo are you talking to me? Are you reaaaally talking to me?, mas não vai sair porrando todo mundo feito o Travis. Você torce por Vincent Vega e nem por isso será um matador. É isso o que fazem os grandes atores: deixar as pessoas apaixonadas por personagens que você sairia correndo na vida real. Te fazem ter pena do Olavo ter morrido no último capítulo – não por acaso feito pelo mesmo Wagner “tesão!!! U-hu!” Moura. Porque você vê humanidade neles. Você pode não concordar, mas compreende. Compreende que, talvez, sob as mesmas condições de temperatura e pressão – muita pressão – você agisse da mesma forma. Ou não. Compreende apenas que eles são humanos e nada do que é humano pode ser tão estranho assim.

Acreditar que o filme incentiva posições como as de matar bandido indiscriminadamente é acreditar que a superestrutura ideológica – pra cair numa abordagem marxista, já que muitas críticas do filme se dizem de esquerda e acusam o filme de ser de direita - reproduz a base material da sociedade ipsis literis – o que contradiz o que o próprio Marx disse sobre a famigerada metáfora: pra gente não se esquecer da dialética, de que no meio do caminho há a dialética. Se a cultura É a sociedade, ela teria o poder de influenciar as ações? Mas ao mesmo tempo se há um grau mínimo de abstração, no qual somos transportados momentaneamente para outra realidade, estaríamos, de alguma forma reproduzindo essa sociedade nos filmes? E isso seria tão ruim assim ou deveria servir para pensarmos sobre nós? Tostines vende mais porque é fresquinho ou é fresquinho por que vende mais? Jacaré no secu anda?

Enfim, elucubrações. Hipóteses. Discordem. Palpitem. Pensem. Eu vou ali ver minhas seriezinhas de TV. Meus enlatados que emburrecem e nos quais eu fui exposta desde a mais tenra idade – se vocês forem expostos a esses horríveis produtos da cultura de massa vão ficar burros assim que nem eu, pois a Nídia, a Dona Nída, manipula. Mas acima de tudo, vejam o filme. Seja comprado no camelô ou no cinema – não importa. Veja.

Escrevi pra caralho hein, plebe? Sabem o que isso significa. Vinte comentários. Ou então pede pra sair. Eu não sou moleque. Minha farda é preta.

sexta-feira, setembro 28, 2007

Preguiça


Eu ia escrever sobre a polêmica em torno de Tropa de Elite (o filme), mas me deu uma preguiiiiiça. Tipo: é sério que alguém esteja julgando o filme? Que ele é fascista e tal e cousa? Que tal olharmos para o nosso próprio rabitcho? Para as razões que nos fazem ter essa polícia – que, ainda que eu não concorde em absoluto e duvide que seja tão incorruptível assim, é a única que “funciona” (com milhões de aspas)? Ou o porquê de as platéias aplaudirem as cenas de tortura? Aí dá trabalho, né?


E o filme pra mim tem um mérito enorme que é fazer a ligação entre tráfico e os preiboi da Zona Sul que fumam unzinho nas aulas da Puuuuuc, enquanto discutem Foucault. E depois seguem pra protestar contra a violência. Como se uma coisa não tivesse nada a ver com a outra. Chato, né? Chato ver que financiamos o tráfico. (Se legalizassem...mas pra quê, né? Assim a política perderia dinheiro, os políticos perderiam dinheiro...).


Ah! E que fique registrado: eu comprei a cópia pirata e vi. E estava muito boa. E sou totalmente a favor de iniciativas piratas. Hein? Se reproduzissem meus textos por aí? Não, não me importo em absoluto desde que citem a minha autoria – é, ainda tenho essa vaidade intelectual...Ou vocês acham que eu acho que algum dia vou realmente ganhar dinheiro, a vera, escrevendo? Sei que vou ter sempre que ter outra atividade pra me sustentar. E às vezes acho que tem que ser assim. Há que se preservar alguma autonomia na arte e pra isso, há que se ter um ganha pão.

Essa semana eu entrevistei um milionário pra minha tese. Não só um milionário, mas um sujeito assim ó com o poder. Saí cansada. Nunca vamos sair dessa merda. Cheguei a conclusão que já “evoluímos” muito. Chega. Subloquem pros EUA. Invadam a Amazônia de uma vez.

Eu só tenho medo de acabar na fila do INPS. Sério. Eu tenho alguns medos na vida: de ser presa, de ficar louca, de virar mendiga e passar fome. Tirando isso, eu já me conformei com o fato de que nunca serei rica.

sábado, setembro 15, 2007



Matéria do Idéias, do JB de hoje fala sobre clássicos da literatura. A reporti começa a matéria falando: “É como duelar com moinhos de vento. Desembarcar numa ilha repleta de cíclopes. Ou desafiar o tempo, internando-se em um sanatório no alto de uma montanha”. Pensei comigo: ela está falando de Dom Quixote, de Cervantes; A Odisséia, de Homero e A Montanha Mágica, de Thomas Mann, respectivamente. Depois percebo que o Ulisses
que ela queria falar era o do James Joyce Que até tem relação com o de Homero. A reporti confundiu a Odisséia (de Ulisses ou o Odisseu, daí Odisséia. Hãn? Hãn?), de Homero, o grego, trocentos séculos a. C. com o Ulisses de James Joyce, o irlandês, que escreveu em 1922. Por que eu notei isso? Porque em momento algum ela fala de Homero no texto. E não há desembarque em ilha de cíclopes em Joyce (ainda que os capítulos façam referência aos personagens mitológicos gregos). Claro, ela nunca leu nenhum deles.

Tudo bem eu também não. Parei de ler Ulisses na página 82, A Montanha Mágica na 181 e Dom Quixote eu nunca tentei. Mas eu não saio escrevendo bobagens em jornal. E eu pelo menos sei do que se tratam.

Como se não bastasse eles vão entrevistar a anta-mor da Fernanda Young – que sentiu falta de identificação com os personagens de Ulisses – e o quadrúpede do Deonísio da Silva que diz que Ulisses é “pesado e dispensável” – onde está meu frontal...eu não me sinto bem...eu estou enxergando pontos coloridos no horizonte. Estou vendo seres de luz e um caminho dourado me chamando.

Por que eu parei de ler Ulisses? Por que é difícil pra caralho (dizem que Finnegans Wake, também do Joyce, é simplesmente impraticável. Imagino). Sei que os clássicos obedecem a critérios de canonização historicamente determinados, onde perpassam relações de legitimidade e inserção dos críticos no próprio campo literário e não necessariamente parâmetros de qualidade exclusivamente. O que faz de uma obra um clássico e outra do mesmo período não o seja é um conjunto de fatores dentre os quais a qualidade é um deles. Às vezes, inclusive, o reconhecimento é póstumo – haja visto o já batido exemplo de Shakespeare, que era considerado muito pop em sua época e de outros incontáveis "gênios malditos". Não acredito em obras eternas e universais que retratem uma essência humana, do Pólo Norte do século XX ao Japão feudal. Mas daí dizer que Ulisses é “dispensável”. Sinceramente...

E eu fico pensando...e essas pessoas estão aí, né? Dando entrevista em jornal, falando merda na televisão...participando de mesas na Bienal...cagalhos. Por mil cagalhos literários, Batman.

Uma historinha sobre a Fernanda Young. Não sei se vocês sabem, mas ela é de Niterói. Beleza. Daí que conheço uma pessoa que conhece ela. São contemporâneas, estudaram no mesmo colégio e coisa e tal. Essa pessoa trabalhava numa livraria onde a FY ia todo dia encher o saco. Falar merda. Falar que Machado de Assis é uma merda (já a ouvi falando isso em outros lugares). E essa pessoa era uma leitora voraz de Hemingway. E FY diz ser uma fã do referido escritor. Só que ela falava altas merdas sobre o Hemingway. Coisas de quem nunca tinha lido.

Enfim, pra que eu digo tudo isso...Me sinto um homem do subsolo...

segunda-feira, junho 25, 2007


Pitboys da Barra da Tijuca – a Miami carioca - , voltando da naiti na madrugada de sábado, espancaram uma empregada doméstica em um ponto de ônibus. Simplesmente pararam o carro, desceram e bateram na mulher. Por acaso um taxista viu e anotou a placa do carro. Eram todos de condomínios de classe média alta da Barra e universitários (eu ainda vou ver o dia em que algum ex-aluno meu vai aparecer nessas matérias, porque eu sempre acreditei no potencial daqueles garotos!). Por sorte ela teve ferimentos relativamente leves – saiu com um olho roxo, algumas escoriações, mas saiu andando.

A “justificativa” dos marginais foi de a de que eles pensaram que ela era “só uma prostituta”. Assim como os moleques que incendiaram o índio Galdino em Brasília não sabiam que ele era índio e pensaram tratar-se “apenas” de um mendigo.

Quer dizer: se fosse prostituta podia. Se fosse mendigo podia. Afinal, são cidadãos de segunda classe, segundo os pitboys da Barra.

E qual a ligação disso com tudo o que a gente vê todo o dia nos jornais: certeza da impunidade; inversão dos valores (que valores, cara pálida?); incompetência na administração pública; verbas de serviços essenciais sendo desviadas? Nenhuma?

Um dia a conta vai chegar. Com juros.

segunda-feira, maio 28, 2007

A RCTV e o silêncio das esquerdas


Participo de algumas listas de discussão “de esquerda” que me mandam diversos manifestos contra ou a favor de um monte de coisas. Quase sempre recebo os mesmos textos duas, três vezes. Em geral, são abaixo-assinados ou petições de apoio à democracia, contra autoritarismos, a favor de movimentos sociais diversos. Na maioria das vezes eu concordo e até assino. Outras não são nem um pouco democráticas – pelo menos no meu entender -, como o link que eu recebi para ver “as verdadeiras notícias de Cuba”. (Nada, ninguém ou coisa nenhuma vai me convencer que é bom você viver sob uma ditadura – ainda que o argumento que venha em seguida seja sempre: “mas não vivemos em uma ditadura? A ditadura do Capital?”. Sim, vivemos. Mas eu prefiro essa à do Fidel. Acho perfeita aquela frase do Churchill: "Ninguém pretende que a democracia seja perfeita ou sem defeito. Tem-se dito que a democracia é a pior forma de governo, salvo todas as demais formas que têm sido experimentadas de tempos em tempos". Há quem veja nisso uma perspectiva liberal. Eu não).

Mas o que eu queria dizer com isso é que me espanta que em nenhuma dessas listas tenha aparecido nenhuma manifestação contra o fechamento da RCTV, rede privada venezuelana. Hugo Chávez, por considerar que a TV agiu na tentativa de derrubar seu governo – governo esse, ditatorial – fechou a rede. No seu lugar, mais uma rede estatal louvando Chávez e a sua “revolução bolivariana”.

Achei isso uma das coisas mais repulsivas de todos os tempos. E estranhei que não tenha havido nenhuma convocação nessas listas para nenhuma manifestação em frente ao consulado da Venezuela; nada, nada. Silêncio.

Lembrei-me de um trecho de “Os justos”, peça de teatro do Camus que eu li recentemente. Os personagens são socialistas revolucionários que se preparam para matar o grão-duque. Na hora H um deles titubeia, porque há crianças na carruagem:


Stepan: Não tenho paciência para essas patetices. Só quando nos decidirmos a esquecer as crianças, só nesse dia seremos os donos do mundo e a revolução triunfará.

Dora: Nesse dia, a revolução será odiada pela humanidade inteira.

Stepan: Que importância tem, se a amarmos o bastante para a impor à humanidade inteira e a salvar de si mesma e da escravatura?

Dora: E se a humanidade inteira rejeitar a revolução? E se o povo, por quem lutas, recusar que os seus filhos sejam mortos? Deveremos matar, mesmo assim?

Stepan: Sim, se for preciso, e até que o povo compreenda. Eu também amo o povo”.



Ou seja, a esquerda ama mais o povo e o entende mais do que a direita e em nome disso pode fazer qualquer coisa. Até fechar uma rede particular de televisão (mas com certeza a esquerda deve ter alguma teoria conspiratória sobre o fato, que não é bem isso e blá blá blá). Até matar. Até a revolução. Mesmo que o povo não queira. É a velha idéia de que o povo é uma criança, não sabe o que faz e precisa ser conduzido. É a vanguarda revolucionária que deve dirigir a massa. Alguma diferença do discurso da direita? Em "fazer o bolo crescer para depois dividi-lo"?

Sinto dizer que no Senado a única pessoa que se manifestou contra o fechamento da RCTV foi o...Sarney (!!!).

Esse mundo...vocês sabem. Não me pertence. Nem o da esquerda, nem o da direita.

segunda-feira, abril 02, 2007


Eu sei que a gente já deveria estar acostumada com as coisas que o nosso presidente fala. Mas, assim como o calor, eu nunca vou me acostumar. Mesmo sabendo que o mundo já acabou e que nós estamos vivendo um pesadelo. Ouvi-lo condenando a greve dos controladores de vôo é absurdo. É mais do que absurdo. É surreal.

Primeiro porque ele foi um sindicalista e deveria saber como a greve é um direito legítimo de todo trabalhador. Segundo que a justificativa foi que “não se pode parar um serviço essencial”. Ora, mas essa é a prerrogativa da greve! Parar um serviço essencial! Se não for essencial, não há sentido! Por que a greve de professores universitários não faz o menor sentido? Porque ela já entrou no calendário letivo. Então você sabe que de dois em dois anos haverá greve e você vai estudar/trabalhar em janeiro e metade dos alunos não vão e a matéria será dada nas coxas. (E que, claro, a pós graduação não pára nunca, afinal não tão aí pra perder dinheiro da Capes e do CNPq).

Agora, uma greve dos controladores de vôo é realmente importante porque o país literalmente pára – e o que é melhor: atinge classes média e alta. E isso não é descaso com a população. Descaso é o governo ter deixado a crise chegar a esse ponto, mesmo com sucessivos avisos. Ao contrário, eu me sinto muito mais segura em saber que eles pararam ao invés de estarem trabalhando em péssimas condições. Acho que mais serviços essenciais deveriam parar.

Infelizmente no caso dos controladores de vôo não dá pra simplesmente liberar as catracas – que eu acho uma das maneiras mais incríveis de greve, pois além de não prejudicar a população ainda fode os donos nas empresas. Aliás, acho que cada categoria deve encontrar a sua forma de protesto. Por exemplo, como eu já disse: professores e greve, absolutamente nada a ver. Terrorismo? Seqüestro? Quem sabe? (Agora é que os caras do Tribunal mandam me prender). Não sou uma pacifista. Quando o diálogo acaba a violência é justa e válida. Mas no caso dos controladores de vôo foi perfeito. Só espero que as coisas realmente andem (ou melhor, voem).

Nojenta a posição do Lula. Nojento um dos editoriais do Grobo durante a crise. Bom, mas o que esperar, né?

domingo, março 11, 2007

Na onda século XIX...




Para encher um vazio
Ponha de volta Aquilo que o causou.
Baldado cobri-lo
Com outra coisa – sua boca vai mais se
escancarar –
Não se pode soldar o abismo
Com ar.

(Emily Dickinson. Trad: Aíla de Oliveira Gomes)



Esses dias entrei em contato com a obra de uma poetisa que me deixou profundamente impressionada: Emily Dickinson. Conhecia-a apenas de nome, nada sabendo de sua vida e de seus poemas. Confesso que o que me chamou a atenção, a princípio, foi a sua história de vida. Porque eu adoro fofoca e especulações. E porque eu gosto de trajetórias estranhas.

A Bela de Amherst, como ficou conhecida em função de ter nascido na cidade de mesmo nome, no estado de Massachussets, EUA, teve uma vida reclusa e de poucas, porém intensas relações. Nunca publicou nada em vida – apenas 7 poemas, à sua revelia, anonimamente – mas após a sua morte, quando a irmã vai limpar o seu quarto, descobre cerca de 1800 poemas guardados. A poetisa é considerada, hoje, um dos maiores nomes da poesia moderna norte americana, tendo preconizado, inclusive, vários traços do modernismo.

Vamos às fofocas e detalhes sórdidos, então.

II

Emily nasceu em 10 de dezembro do 1830 (século XIX, né gente? Ouuutra coisa). Filha de uma família abastada e extremamente conservadora, estudou nos melhores colégios. Após concluir os estudos, volta para sua casa para cuidar dos pais. Assim como sua irmã, Lavínia – Vinnie – nunca se casou.

Passado um pouco dos trinta anos se refugiou em sua casa, no seu quarto especificamente, e nunca mais saiu de lá. Sua melhor amiga, Susan Gilbert, casa-se com seu irmão Austin Dickinson. Além da estreita amizade e do parentesco agora consolidado passam a ser também vizinhas. As duas casas – a de Emily, chamada de The Homestead e a de Susan, The Evergreens - abrigam o que se transformou no museu da poetisa hoje em dia. A Evergreens conservou-se exatamente igual, incluindo o interior. Casinhas fofas no melhor estilo norte-americano do século XIX.

Com Susan manteve intensa e apaixonada correspondência e reza a lenda que teria escrito algumas poesias mais calientes pra ela. O irmão teria apagado o nome de Susan de alguns poemas antes de publicá-los. Pois é. Dizem que a moça era lésbica ou bissexual, havendo poucas chances dela ter concretizado algo de fato – século XIX, moçada, uma das regiões mais puritanas dos EUA.

Adjetivos como Grande Reclusa, excêntrica, estranha e até mesmo um diagnóstico de agorafobia são encontrados na trajetória de Emily – mas convenhamos que se você é um solteirona do século XIX de uma cidade do interior lhe sobram poucas opções, concorda leitor? A exceção se faz a pequenas viagens à Filadélfia, Boston e Washington, para cuidar de problemas de saúde. Dizem que numa dessas viagens teria conhecido o clérigo Charles Wadsworth, que teria sido o alvo de alguns poemas. Samuel Bowles, um editor de jornal e Otis Lord, um amigo de seu pai também são outras especulações sobre os possíveis affairs da moçoila. Assim como no caso de Susan, nada fica realmente provado.

Seu estilo é classificado como complexo, metafísico, lírico e inovador na forma. Extremamente melódica e ritmada, sua poesia foi musicada algumas vezes e representa enorme desafio para todos aqueles que se aventurem na sua tradução. Entre os que já se aventuraram no árduo trabalho está Manuel Bandeira. Já foi comparada a William Blake e devedora do século XVII. Sua poesia não era exatamente o que esperavam de poesias de moças do século XIX.

O medíocre crítico literário Thomas Higginson - que tentará burilar o estilo de Emily quando esta o procura ainda em vida para publicar seus poemas - e Mabel Todd - uma editora obscura que freqüentava a casa das irmãs Dickinson - serão procurados por Lavínia após a morte da irmã e tornar-se-ão os responsáveis pela obra da moça.

Falece em 15 de maio de 1886, na mesma cidade na qual viveu a vida toda. À parte todas as ilusões biográficas que fazem parte da vida de todos, uma história de vida fascinante. Se pegou a cunhada ou não, se comeu o clérigo ou não, isso não diz nada sobre o trabalho dela. O mais interessante é a trajetória de alguém ambígua, excêntrica, densa e prolífica. De uma estranha, como qualquer um de nós.

sexta-feira, fevereiro 09, 2007

Sem palavras


Capa de ontem do Globo: milícias instalam portão em entrada de favela. Morador é obrigado a comprar a chave – e todos os serviços – da milícia. Qualquer semelhança com o
Gueto de Varsóvia não é mera coincidência.

Aí quando eu escrevo um texto em que o Gilberto Velho, antropólogo, compara a violência carioca ao nazismo, alguns leitores o chamaram – e me chamaram conseqüentemente – de anta.

Capa do Globo de hoje: garoto de 6 anos é arrastado 7 km preso ao cinto de segurança, durante um assalto em que a mãe não conseguiu tirá-lo do cinto e os bandidos arrancaram com o carro. Até os próprios policiais ficaram chocados com o estado do corpo.

Eu sou contra matar bandido não porque eu sou boazinha mas principalmente porque não só não adianta, como também piora a situação. As milícias são a maior prova disso.

Mas aí me dizem que eu sou uma intelectual distanciada dos problemas do povo...

É, devo ser. Realmente ir até a esquina e ver a carinha linda do João, o garoto que morreu, estampada em todos os jornais de hoje, em todas as bancas e ver as pessoas comentando em todos os lugares não faz parte da minha realidade. É muito distante de mim.

E se ser intelectual é perceber a relação entre desigualdade social, corrupção (do mais alto governante até o PM que aceita suborno – e com o salário que ele ganha, é difícil não aceitar) e violência, oquei, eu sou intelectual. Se pareço arrogante é porque acho que é muita ignorância quem não consegue perceber que esses problemas vêm todos juntos, em cascata, há séculos sendo gerados nesse país. Desculpem-me, eu realmente não tenho paciência com gente ignorante e que deseja permanecer nesse estado só pra não mudar de idéia. Ninguém tem culpa de ignorar um assunto. Todo mundo ignora certos assuntos, mas diante dos fatos continuar ignorando que enfiar a porrada nos bandidos – e só isso – vai adiantar alguma coisa só sendo imbecil. A não ser quem também leva algum com essa história toda.

Recebi um e-mail me convidando a sair de branco domingo com uma fita vermelha no pulso esquerdo. Respeito esse tipo de reação, mas não é a minha praia. Não vou sair de branco pra expurgar a minha culpa e tristeza por viver numa bosta de um país como o nosso e ficar um pouquinho mais calma, voltando pra casa achando que eu fiz a minha parte. É preciso deixar o ódio crescer. Infelizmente será preciso que cada cidadão tenha perdido alguém nessa guerra para quem sabe comecemos a pensar em algo. A ver que cada pequeno ato como votar, subornar guarda ou desviar dinheiro público alimenta tudo isso.


Vamos tomar uma Skol e aproveitar o verão que a gente vai contar pros nossos netos (se eles sobreviverem). Vamos pular carnaval, afinal a vida continua. Vamos sair na capa de Caras. Vamos ver a Juliana Paes dizer como emagreceu mais sei lá quantos quilos e depois achar um absurdo quando garotas morrem de anorexia. Vamos celebrar todas as celebridades instantâneas. E vamos continuar achando que nenhuma dessas coisas estão interligadas. Quem sabe se tudo piorar a um grau muito pior do que os nossos piores pesadelos a coisa comece a ter que melhorar porque simplesmente não tem mais pra onde ir – e como o mundo é redondo e não há mal que sempre dure e nem bem que só perdure um dia essa bosta muda até por falta de opção. Até lá, vamos ser imbecis. Todos juntos. Vamos lá.



Vamos celebrar a estupidez humana
A estupidez de todas as nações
O meu país e sua corja de assassinos
Covardes, estupradores e ladrões
Vamos celebrar a estupidez do povo
Nossa polícia e televisão
Vamos celebrar nosso governo
E nosso estado que não é nação
Celebrar a juventude sem escolas
Crianças mortas
Celebrar nossa desunião
Vamos celebrar eros e thanatos
Persephone e hades
Vamos celebrar nossa tristeza
Vamos celebrar nossa vaidade
Vamos comemorar como idiotas
A cada fevereiro e feriado
Todos os mortos nas estradas
Os mortos por falta de hospitais
Vamos celebrar nossa justiça
A ganância e a difamação
Vamos celebrar os preconceitos
O voto dos analfabetos
Comemorar a água podre
E todos os impostos
Queimadas, mentiras e seqüestros
Nosso castelo de cartas marcadas
O trabalho escravo
Nosso pequeno universo
Toda a hipocrisia e toda a afetação
Todo roubo e toda a indiferença
Vamos celebrar epidemias:
É a festa da torcida campeã
Vamos celebrar a fome
Não ter a quem ouvir
Não se ter a quem amar
Vamos alimentar o que é maldade
Vamos machucar um coração
Vamos celebrar nossa bandeira
Nosso passado de absurdos gloriosos
Tudo que é gratuito e feio
Tudo o que é normal
Vamos cantar juntos o hino nacional
A lágrima é verdadeira
Vamos celebrar nossa saudade
E comemorar a nossa solidão
Vamos festejar a inveja
A intolerância e a incompreensão
Vamos festejar a violência
E esquecer da nossa gente
Que trabalhou honestamente a vida inteira
E agora não tem mais direito a nada
Vamos celebrar a aberração
De toda a nossa falta de bom senso
Nosso descaso por educação
Vamos celebrar o horror
De tudo isso
Com festa, velório e caixão
Está tudo morto e enterrado agora
Já que também podemos celebrar
A estupidez de quem cantou esta canção
Venha, meu coração esta com pressa
Quando a esperança está dispersa
Só a verdade me liberta
Chega de maldade e ilusão
Venha, o amor tem sempre a porta aberta
E vem chegando a primavera
Nosso futuro recomeça:
Venha que o que vem é perfeição...
(Perfeição - Renato Russo)


segunda-feira, dezembro 18, 2006


Jornalista da Globo acusado de receber propina da máfia das máquinas caça-níqueis. O repórter se justificou dizendo que estava tentando se infiltrar na máfia pra escrever um livro e obter informações pra uma matéria. William Bonner-Hommer lê um comunicado dizendo que a rede Globo sabe que só a justiça pode dizer se o cara é culpado ou não e bla bla bla, mas por via das dúvidas vão afastá-lo, pois ele estava usando métodos que não condizem com a ética da empresa (ou algo do tipo).

Interessante que o Tim Lopes, quando morreu, estava fazendo uma coisa totalmente fora dos padrões éticos jornalísticos e muito parecida com que o cara supostamente está tentando fazer (se ele estiver falando a verdade). Sim, caro leitor, câmera escondida não é ético. Não é certo. Preservar as fontes é um dos princípios básicos do jornalismo. A não ser quando é de interesse de todos. Aí pode. Mas é aí que a porca torce o rabo. Quem decide o que é de interesse de todos?

Eu acho muito difícil que o cara esteja falando a verdade, mas a base do direito é que todo mundo é inocente até que se prove o contrário. Caso ele esteja falando a verdade a vida dele virou um inferno pra sempre. Nunca mais ele arruma emprego em nenhum grande veículo, mesmo que se prove a sua inocência. Por que em jornalismo a retratação nunca é igual ao escândalo fresco.

Essa é a base do jornalismo no mundo todo: dois pesos e duas medidas. É uma profissão cuja ética é totalmente incompatível com a prática. Sei que quase toda profissão encontra seus dilemas éticos, mas o jornalismo é fundamentado num paradoxo ético (nem sei se isso existe, mas acabei de criar).

Ainda bem que eu não sou jornalista, né?

segunda-feira, dezembro 11, 2006

"Crasse" teatral


Eu acho o cúmulo atores protestando contra uma lei que incentiva patrocínio ao esporte. Fazem isso baseados no fato de que o esporte tem mais visibilidade do que o teatro. Logo as empresas vão preferir investir num atleta que vai pras Olimpíadas do que em uma peça.


Daí brigar contra uma lei que não está tirando dinheiro deles, apenas amplia a possibilidade de empresas descontarem em seus impostos o patrocínio que dão aos atletas é o cúmulo da picaretagem. Ninguém tá querendo patrocinar futebol milionário, mas esportes que não têm visibilidade, como...bom, se eles tivessem visibilidade eu saberia citar algum.

Por que a arte deveria ser prioridade? Por acaso arte é mais importante do que esporte? Pra mim até é. Vou muito mais ao cinema e ao teatro do que assistir a competições de qualquer coisa. Mas esporte socializa. Esporte pode ser um dos caminhos para livrar a sociedade de crime, droga e conferir identidade. Ensina cidadania, respeito e uma série de coisas. A arte também, eu sei. Mas então porque temos que optar entre um ou outro?

Esses dias vi a história de uma garota, campeã de karatê, no quadro da Regina Casé no Fantástico, que mora numa favela do Rio e não pôde ir a um campeonato mundial na Europa porque não tinha grana pra passagem. Agora vem Dona Fernanda Montenegro, Dona Natália Timberg, senhoras que muito honram as artes cênicas do país, tirar doce da boca de criancinha? Acho feio.

Façam que nem a Marieta Severo e a Andréa Beltrão: comprem um teatro que aí vocês nunca dependerão de ninguém. Criem alternativas.

Sem contar que empresas A, B ou C terão interesse em ver seus nomes ligados ao teatro, enquanto X,Y e Z ao esporte. Aí terão as “empresas amigas da arte” e as “amigas do esporte”. Não é lindo? Todo mundo com direito a ser patrocinado. Ninguém pegando o de ninguém.

Eu queria que a Companhia das Letras editasse meus livros. Acho, sinceramente, que eles deveriam investir em novos autores. Mas nem por isso eu vou lá e fico dizendo que eles deveriam para de editar o Rubem Fonseca, porque ele já é um autor consagrado, já tá velhinho e deveria ceder a vez pra quem precisa.

Faz arte quem precisa e muito, não quem quer. Já esporte faz quem tem comida no prato. Por questões óbvias. Os dois são muito importantes, por razões distintas. Agora, não é "despindo um santo pra vestir o outro" que vamos conseguir alguma coisa.

segunda-feira, novembro 27, 2006

Somos todos boas pessoas



A respeito da discussão abaixo, por coincidência estava eu, ontem, lendo um artigo do Gilberto Velho, professor de antropologia do Museu Nacional da UFRJ, onde ele analisa casos de violência no Rio de Janeiro no final dos anos 60 e 90, e que veio bem a calhar *.

Ainda que a comparação pareça inicialmente esdrúxula para alguns, peço que tenham paciência e leiam até o final. Gilberto Velho inicia seu artigo citando uma conferência proferida pelo sociólogo americano Everett C. Hughes, na McGill University, em Montreal, em 1948. Nesta conferência, que mais tarde transformou-se no artigo célebre “Good People and Dirty Work”, o sociólogo analisa a conivência dos alemães com o nazismo. Nas palavras de Velho (todos os negritos são meus):


“Existia uma cumplicidade entre essas boas pessoas e aquelas que faziam o trabalho sujo de prender, torturar e matar judeus, comunistas, ciganos, inimigos políticos do regime em geral, homossexuais e qualquer tipo de pessoa que pudesse ser considerada perigosa ou inadequada. Os SS eram basicamente o corpo de especialistas do regime encarregados de despoluir a sociedade (...) Hughes não diz que as good people desejassem o extermínio dos judeus ou de qualquer outro grupo. Sabiam algo sobre os campos de concentração, mas de forma fragmentada e incompleta (...) Em geral judeus, ciganos, comunistas etc eram encarados como estranhos, distantes e eventualmente perigosos. Como diz um dos entrevistados de Hughes, algo precisava ser feito” (p. 108).


Pulemos para a violência urbana carioca da década de 90. Gilberto Velho analisa algumas falas de parentes e amigos de vítimas da violência. A conclusão à que ele chega seria chocante se não estivéssemos no estado (e no Estado) em que estamos:


“As nossas pessoas boas, de um modo geral só são sacudidas quando ocorre uma tragédia dentro do seu limitado in-group. É fascinante em termos sociológicos e chocante em termos éticos ver pessoas se deslocando dentro de uma sociedade injusta e violenta, anestesiadas diante da miséria, sofrimento e violência que afligem permanentemente os out-groups, no caso a maioria esmagadora da população (...) Assim, nos aproximamos da Alemanha nazista com seus good peoples e dirty work, analisados por Hughes. As ações dos SS, do DOI-CODI, dos esquadrões da morte, dos corpos de segurança privados desempenham essa função de sanear a sociedade dos excessos dos subversivos, das minorias e dos pobres. A consciência das boas pessoas fica protegida porque não se envolvem diretamente com a poluição social. A maioria só se abala quando um parente ou uma pessoa muito próxima vai para o campo de concentração ou é seqüestrada, presa, torturada e/ou assassinada” (p. 110).


Continuando, na mesma página:


Vários [pessoas atingidas indiretamente pela tragédia] falam nos assaltantes e criminosos como inimigos que devem ser eliminados, custe o que custar. A maioria é favorável à pena de morte e regimes mais rigorosos no sistema penitenciário. Uma minoria estabelece a relação entre violência e os problemas de pobreza e distribuição de renda”


(Só um adendo: Gilberto Velho não é comunista, nem socialista e dá aulas em um dos programas de pós-graduação mais elitizados do Brasil)

Isso não significa assumirmos uma posição de vitimizar o miserável e o criminoso e desculpar tudo. Ou, como crê o Lula, que onde tem escola não tem violência. Isso é simplista demais. Mas que há uma relação, isso há.

Mas beleza. Vou assumir o papel de advogada do diabo. Vamos partir do pressuposto que estamos em guerra civil e temos mais é que matar mesmo (afinal “Eles” também não “Nos” matam?), lei de Talião, piriri pororó. Eu me pergunto: adianta? Adiantou nos Estados norte-americanos onde existe a pena de morte? Diga aí, Joana! Os países com menor índice de criminalidade do mundo - a maioria países nórdicos, ou europeus - têm pena de morte? Têm? Me digam! Diga aí Alix! Não é isso o que a gente vem fazendo há décadas? Matar bandido? Esquadrão da morte é dos anos 70. Melhorou um pouquinho, um mínimo que seja? Lembro-me da frase do garoto do documentário "Falcão": se mata um de nois, nasce mais dois. E se matar dois nascem quatro. Numa progressão geométrica de ódio e sangue. Mas, por hora, sacia nosso desejo pessoal de vingança, né? E afinal, somos pessoas boas. Alguém tem que fazer o trabalho sujo.

Ah e se matassem, seqüestrassem, estuprassem, esquartejassem etc etc um filho(a) seu(sua)? - questão sempre levantada pelos defensores da pena de morte e do "bandido bom é bandido morto". Provavelmente eu quase morreria de dor, ia querer matar, esfolar, torturar. Talvez contratasse um matador profissional. Talvez me matasse. Não dá pra saber a menos que você passe por isso (tanta coisa na vida eu já disse que não faria e fiz...). Cada um terá uma atitude. O que eu não posso é dar ao Estado o direito de matar. Porque amanhã pode ser eu, que avancei um sinal de trânsito sem querer (ou porque tá de madrugada e eu não quero ser assaltada), não escutei o apito do guarda e levei um tiro, supostamente porque resisti à prisão. Amanhã pode ser você a tomar uma dura no ônibus e, por ser o único negro, vai ser o único a tomar porrada - afinal, se quase todos os negros são pobres, se quase todos os ladrões são negros (estatisticamente é), e se ladrão tem que apanhar, logo você que é negro deve ser ladrão e merece porrada! Amanhã pode ser o seu filho que – num ato ilícito, é verdade – é pego fumando maconha e entra na porrada. E depois que a violência se institucionaliza, aí meu amigo...são décadas até mudar isso. Haja vista que ainda estamos pagando nossas dívidas de vinte anos de governo militar com uma polícia ineficaz, corrupta e violenta. Eu morro de medo de policial, mesmo não tendo feito nada contra a lei. Gelo ao passar por blitz. E olha que eu sou mulher, tenho cabelo liso, sou branca e bonitinha, então supostamente eles teriam mais benevolência comigo. Mas sempre acho que eles vão começar a atirar num bandido e um tiro pode pegar em mim.

Por isso não podemos dar medalha pra senhora que reagiu ao assalto – uma senhora que faz uso de uma infinidade de medicamentos; que tinha porte ilegal de arma; num episódio extremamente nebuloso, em que em nenhum momento o bandido foi ouvido. Nem armado o sujeito tava! Diz a senhora que ele estava com um porrete. O cara dorme na rua! Alou! Eu não sei quanto a vocês, mas se eu dormisse na rua eu também teria um porrete ao meu lado!! Pode ser realmente que ele tenha tentado assaltá-la. Mas tentativa de assalto ainda é menos grave que tentativa de homicídio com arma ilegal, ou eu tô louca? (sim, porque sempre trabalho com essa possibilidade, vai ver eu enlouqueci e tô entendendo tudo errado). Tudo bem, aí entra o argumento da legítima defesa, entram os advogados... Pra isso existe a Justiça. Não tô dizendo que ela deveria ser condenada. No máximo, processada e absolvida – nos meus parcos conhecimentos jurídicos. Mas medalha, não, gente! Medalha, não. Querem apostar quanto que essa mulher sai candidata a vereadora nas próximas eleições - com algum slogan surreal tipo “vovó do ferro” - e ainda será eleita?

Me desculpem, sei que muitos vão discordar, mas meus impostos são pra aumentar - e muito!! - o salário e a formação dos policiais, melhorar a justiça e as condições sociais da população. Acho que isso garante mais segurança do que tiro ao alvo no meio de Downtown. Quero que a polícia me proteja e isso NÃO significa fazer bang bang no meio da rua. Aí vira terra de Malboro. Então só me avisem – e pro resto da população - que a gente saiu do estado de direito e voltou ao estado natural, porque aí, maluco, ah..., aí eu compro até AR15 e aprendo técnicas ninja de defesa pessoal. Ou me mudo de vez pra Andrelândia. Só não podem mudar a regra do jogo com este em curso e avisar só pra uns poucos. Tem que combinar com o adversário, como diria Garrincha. Senão é barbárie. É holocausto. E aí o que vamos responder quando nossos netos perguntarem: “Vovó, onde a senhora estava quando jogaram uma bomba no Complexo do Alemão? Eu tenho um amiguinho que é neto de um morador de lá e ele diz que o avô dele era motorista de ônibus, honesto e não tinha nada a ver com a guerra”?



* “O grupo e seus limites”. In: VELHO, Gilberto. Projeto e metamorfose. Antropologia das sociedades complexas. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1999.