Mostrando postagens com marcador Crônicas de Carrie. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Crônicas de Carrie. Mostrar todas as postagens

terça-feira, janeiro 06, 2009

Aqui jaz


Atividades artísticas/intelectuais assemelham-se muito mais com o cultivo de plantas e animais do que se supõe. Não é à toa que a palavra “cultura” tem sua origem na cultura animal ou vegetal – o cultivo da soja, do milho; a criação de porcos, de galinhas. Apenas muito recentemente na história da humanidade – século XVIII – o sentido metafórico de cultura se torna usual. Assim como cultiva-se milho, se cultivam mentes (ver Raymond Williams, váááários livros, inclusive um que se chama "Cultura").


Ter um blog é como ter um jardim. Aliás, melhor seria dizer que escrever é como jardinagem. Talvez essa não seja a metáfora mais adequada, pois eu não entendo nada de jardinagem... Nem de escrita - dirá o leitor sarcástico.


As idéias surgem como sementinhas. Podem florescer ou não, dependendo do cuidado que você despende a elas. Para que a semente brote é preciso que o solo esteja saudável, fértil e arado. Depois é preciso acompanhar o crescimento da planta.


Um blog não pode ficar abandonado. Você tem que cuidar. Formiga Irmã diz que tem horas em que eu venho aqui e abro a janela, deixo entrar o sol, varro a casa, sirvo cafezinhos, faço sala e apresento pessoas. É mais ou menos isso. É o olho do dono que engorda o gado. É preciso ver se não está crescendo ervas daninhas. Se não há invasores. Jogar aguinha. Podar. E cuidar da grama. Um blog é um jardim com grama, basicamente. De vez em quando há algumas flores mais nobres, uns xaxins com plantas, mas o dia a dia é a grama. Você precisa cuidar pra que a grama esteja sempre certinha. A grama são os posts do dia a dia. A calça-jeans-com-camiseta-branca. Embora nem sempre surpreenda, é uma escolha confortável e acertada. Vai mais ou menos agradar muita gente – ou pelo menos não desagrada a tantas.


As pessoas me perguntam (ra ra. Os fãs que que me perseguem pelas ruas, né?): nossa, mas como você consegue atualizar o blog diariamente? E eu digo: mas eu não escrevo nenhum Ulisses. Tudo o que eu coloco é grama. Escrevo como quem cuida de um jardim ou de uma horta. Às vezes o trabalho é só capinar. Uma vez ou outra há uma samambaia chorona – bem chorona – ou até uma orquídea. Cactos. Muitos cactos que machucam quem não conhece meu jardim. É que meu jardim tem um mapa que fica bem na entrada dele. Pouca gente consegue ler.


Todo texto passa por um processo de amadurecimento. Alguns amadurecem ainda na cabeça, só precisando ganhar forma. Outros são publicados, mas serão eternas crianças: nunca amadurecerão. Fico eu a correr atrás deles pela casa, com a mão na cabeça, dizendo “esse menino não tem jeito!” ou simplesmente rindo quando ele faz alguma palhaçada. Há ainda aqueles textos que apodrecem. Vêm à tona ainda frescos mas, por algum motivo, apodrecem depois de publicados. Quem os come passa mal.


Há ainda textos que eu escrevo e deixo guardado. Eles ficam em uma gavetinha, calados, sentados em uma prateleira, junto com minhas bonecas, esperando qual será o destino deles. As vezes apodrecem e realmente vejo que o destino era o lixo. Nem por isso foram menos inúteis. Pelo menos não apodreceram dentro de mim. Serviram como adubo. Em outras, ficam pulando e me atazanando a vida. Dizendo “aqui, ó! Lembra de mim, lembra de mim, por favor!!!”. Aí eu mexo aqui, mexo acolá e ele fica pronto pra ser publicado.


Tudo isso pra dizer que resgatei um antigo texto, achando que ele seria dessa categoria mas não era - têm isso também: textos são temperamentais e nos enganam. Coitado. Nasceu morto.

Tem um tema que eu venho escrevendo e reescrevendo e nunca consigo publicar. O texto morre antes. Paciência. Escrever é também, dentre as inúmeras outras coisas, exercer uma virtude que eu tenho pouquíssimo: a paciência consigo mesmo.

sexta-feira, janeiro 02, 2009

Um post ressaquento


Ai, pessoas. Detesto esses blogueiros que só se desculpam pela ausência, mas não tem jeito. Às vezes acontece. Acho que nunca fiquei tanto tempo sem blogar. Nem posso dizer que é falta de tempo, mas falta de internet + preguiça + chuva.

Estou aqui, nos cafundós das Gerais, praticamente ilhada – às vezes a chuva cai ininterruptamente por mais de 24 horas. Comendo, dormindo, sendo acordada pelas infindáveis discussões da minha mãe com as minhas tias (sempre sobre temas que definirão o rumo da humanidade, como por exemplo o ano em que Fulano morreu, qual a cor exata que Beltrana passa no cabelo, do que afinal morreu Sicraninha ou outros que tais), pelo velotrol da minha sobrinha ou pelo meus primos mais novos com os amiguinhos. Nas horas mais vagas, ou que a chuva dá uma trégua, dou uma volta na rua, aperto criancinhas, encontro amigos e primos. No dia de Natal caí, enganada, num baile funk no clube local – me enganaram, eu achei que era um baile do clube, mas era um baile da Eclipse Night Club. O momento áureo do baile foi quando soltaram uma fumaça, tipo um gelo seco (pra mim era peido alemão) e nós nos trancamos do lado de fora da janela. Ah é. Também foi engraçado eu entrando de graça e ainda por cima com uma lata de cerveja. Me fizeram terminar de beber a cerveja do lado de fora – mas eu consegui entrar de graça. Porquê eu não sei. Talvez seja pelo fato de eu ser uma espécie de Serena Van Der Woodson local – cada cidade tem a Serena que merece. NY tem a Blake Lively, Andrelcity tem Carrie White. Yep. Depois estava indo embora descalça, com Formiga Irmã me dando bronca de eu estar muito devagar quando fui resgatada por um dos meus primos. Ainda fomos pra casa do meu tio beber cerveja até o dia clarear.

Mas o fato é: a idade chega para todos nós e eu não consigo sair mais dois dias seguidos e beber até cair e chegar as nove da manhã (ah, meus 15 anos!). Preciso de um dia pra me recuperar. Se não Dona Henriquetta reclama que eu to atrasada no crochê.

O Reveillon foi também muito bom, e só tenho a declarar que estou de ressaca até hoje – sem contar uma febre que ameaça.

Agradeço todas as mensagens bonitinhas que vocês colocaram nos comentários. Queria ter feito um post estilo “Retrospectiva 2008” e “Planos para 2009”, mas passou o momento e eu não fiz.

Anyway, Bial. Mudando de assunto.


Sábado eu fui a um típico evento caipira: encontro de violeiros numa fazenda perto de Madredeus. Alguns dos maiores violeiros de Minas Gerais (e arrisco a dizer, do Brasil) estavam presentes. A fazenda era muito bonita e, apesar da chuva, do barro que fazia os carros deslizar e dos banheiros químicos foi tudo muito bom.

Só um parêntese: eu queria saber quem foi o infeliz que inventou o tal do banheiro químico. Ponto 1): Qual é a química usada em tais recipientes do demo, já que nunca se viu um banheiro químico limpo. Ponto 2): Não raro, a luz do banheiro não funciona (papel higiênico até tinha, milagrosamente). Então era acertar no alvo segundo intervenção divina, uma vez que eu não ia sentar onde eu não conseguia sequer enxergar. Ponto 3): Banheiro químico é a certeza absoluta de que ninguém vai lavar as mãos depois. No banheiro normal há pelo menos a ilusão de que as pessoas – principalmente os homens – lavam as mãos. No banheiro químico, esqueça. Ponto 4): O que é a descarga que fica dando automaticamente? Além disso, um dos banheiros foi posto meio de banda e eu sempre imaginava aquela casinha caindo e eu rolando e sendo encontrada de calças na mão, com meio metro de papel higiênico usado colado no meu rosto.

Outra coisa: o barro. Quase aconteceu comigo o que aconteceu com mamãe certa vez. A estrada de Gotham City para cá era toda de terra há um tempo atrás – hoje em dia sobram poucos quilômetros só de terra, quase tudo foi asfaltado. Então bastava começar um período de chuvas pros carros atolarem. Certa vez, no meio de um atolamento, mamãe saiu do carro, de tamancos – os velhos tamancos dos anos 70. No que ela pisou no barro e levantou o pé o tamanco ficou. E nunca mais foi encontrado. Como diria uma amiga de mamãe: “nós fomos as rainhas do chantilly”. Pois bem. Estou eu, andando com meus sapatinhos pretos comprados em New York City, quando um deles ficou no barro enquanto eu fui obrigada a pisar só de meia com o pé – ou eu me desequilibraria e cairia no chão. Voltei de barro até o joelho, quase. Mas pelo menos não perdi os sapatos.

Tirando essa parte chata, o evento em si foi muito legal. E me deu margem pra pensar em vários projetos de doutorado, mestrado bla bla bla. Pois, depois que você entra no mundo acadêmico é um caminho sem volta. Você passa a olhar tudo com os olhos de eu-acho-que-isso-daria-um-bom-projeto. E bom projeto se traduz em dinheiro pra você trabalhar onde todo mundo se diverte, ou se divertir enquanto está trabalhando - que nem o ginecologista da Gisele Bündchen ou o urologista do Santoro (especialidade, aliás, do meu velho pai). Se você está na área das Ciências Humanas e Sociais que nem eu tudo pode resultar em um bom projeto. Só basta ter imaginação.

Apesar de anos de freqüência em Minas Gerais eu sou leiga na música caipira ou de viola – não confundir com música sertaneja, aliás, abordaremos esse tema já, já caro leitor.

Então vários pontos me impressionaram.
Pra início de conversa, qualquer fã ardoroso de um único estilo musical é meio mala. Além de meio mala, afirma o seu gosto denegrindo os alheios. Vide punks, sambistas, roqueiros, jazzistas, pagodeiros...Com os violeiros não poderia ser diferente. A música de viola é a melhor do Brasil porque expressa a verdadeira cultura brasileira.

Ponto número 1: a autenticidade é critério de valor. Evidentemente, autenticidade segundo os critérios definidos por eles mesmos. Em conseqüência disso, toda e qualquer manifestação da cultura de massa – e aí entra a música sertaneja – é vista como nociva à verdadeira música de viola. Menos o Almir Sater. O Almir Sater ajudou na popularização do ritmo, com a novela Pantanal. O Almir Sater é legal. Ainda que ele vá no Faustão. Ele pode.

Ponto 2: por ser a verdadeira música de raiz, autêntica, bla bla bla, ela é uma forma de resistência cultural. Odeio – O-D-E-I-O – essa palavra resistência – a não ser quando utilizada em contextos de física newtoniana (ou sei lá que parte da física trabalha com resistência, atrito e bla bla bla). A cultura é móvel. A cultura é maleável. Se você precisa resistir bravamente pra que um ritmo não acabe, alguma coisa está fora da ordem. Longa bibliografia sobre o assunto (Hermano Vianna, Canclini, Barbero, Formiga Senior...).

Ponto 3: lá pelas tantas um dos caras que tavam cantanto me vem com o papo de que “esse evento é uma resistência cultural contra as eguinhas potocós da vida”. Cara...Deixemos a eguinha potocó em paz. Se ela existe, é porque existe gente que gosta e ouve. Deixemos a Mulher Melancia, os pagodeiros e os axés todos em paz. Eu, a-nível-de-selumano-enquanto-pessoa-gente, não curto. Mas, nem por isso digo que isso não é música.

Além de tudo, o cara que tava pregando contra a eguinha potocó e a favor da viola é um “violeiro zona sul”, daqueles criados em apartamento que resolveu estudar viola. Como diria meu primo, criado a Danoninho. Então, a pergunta é: se o critério de música “de raiz” é ser “do povo”, como ele mesmo parece alardear, quem é mais “do povo”: o violeiro-danoninho ou o Lacraia? Um evento a 90 reais a mesa pode ser considerado “pro povo” e “do povo”? Cultura popular pra quem?

Resumindo, minhas questões seriam basicamente as seguintes: 1) o que caracteriza a moda de viola e o que a distingue do sertanejo? (caipira é sinônimo de viola?); 2) Quais os critérios de valor para se julgar a boa moda de viola? Quem são as autoridades culturais e como elas estabeleceram? 3) Autenticidade X massificação.

Esse assunto dá pano pra manga e, com certeza, já devem existir bons trabalhos abordando algumas dessas questões. Eu, me recolho na minha insignificância de apenas curiosa, aliada a algumas parcas leituras sobre o tema. Além disso, minha ressaca ainda não me deixa pensar com clareza. Mas fica a sugestão.

sábado, novembro 22, 2008

You have no idea what I'm talking about. But, believe me: you will. Someday.
Estou vendo - pela enésima vez - pedaços de Beleza Americana, o filme do Sam Mendes, com o Kevin Space, que concorreu ao Oscar e bla bla bla. Esse filme é um dos que mais me marcou na vida (ao lado de A Vila, do Shayamalan-cara-do-Sexto-Sentido-que-eu-nunca-sei-falar-o-nome; de O show de Truman; Clube da Luta; Pequena Miss Sunshine e Matrix. Mas depois eu falo mais sobre isso).
Para além da crítica a sociedade americana, que pra mim é uma das camadas mais superficiais, é um filme lindo, triste, engraçado, sensível, tocante, comovente...enfim. Acho que eu já devo ter falado nesse filme umas duzentas mil vezes aqui, assim como do desenho da bruxa do pica-pau e o Alexandre Frota (aliás, eu queria aproveitar...). Mas eu estava pensando aqui enquanto assistia ao final: o personagem do menino, o traficante que namora a filha do Kevin Space, que pra mim é a pessoa mais sã do filme inteiro, vai se fuder de verde e amarelo (só lembrando: quem mata é o pai dele, porque é um viado enrustido e acha que o Kevin Space é gay e tá comendo o filho dele. Depois de dar um beijo na boca do Kevin Space e ele dizer que não é bem isso ele fica louco ante a possibilidade de ter beijado o vizinho e resolve matá-lo). Ele vai ser preso, o garoto. Todas as provas estão contra ele: a gravação da menina pedindo pra matar o pai (e quando ela diz que está brincando ele já não está mais gravando); as cenas em que ele filma o Kevin Space pelado, no começo do filme; todas as filmagens da menina, o fato dele ter sido internando num hospital psiquiátrico (porque o pai acha ele fumando maconha); o fato dele ter saído de casa com todo o dinheiro (porque o pai expulsa-o achando que ele era gay); o fato dele ter acesso ao quarto cheio de armas do pai, um militar aposentado. Em suma: a acusação vai deitar e rolar e mostrar como o menino desajustado e problemático aliado a garota negligenciada pelos pais e com baixa auto-estima se mostraram um coquetel Molotov prestes a explodir. Dessa forma, matar o pai dela seria lucrativo para ambos. A defesa até poderia alegar que a mãe dela também é suspeita, por ter chegado em casa na hora, por ele ter descoberto o caso dela com o corretor imobiliário fodão e por ela estar carregando uma arma. Mas, após alguns exames balísticos descobiriam que não se trata da mesma arma. O filme é todo muito bem bolado para que a culpa recaia sobre o menino, ainda que ele seja o que menos tem motivos de o fazer.
É, essa sou eu: precupada com o destino de personagens de ficção de um filme que eu já vi 789.326 vezes.
Mas então, voltando àquela listinha lá de cima. Todos esses filmes são emblemáticos pra mim (vejam bem: há outros filmes que eu gostei tanto quanto esses, ou até mais, mas estes me marcaram profundamente). Examinando cada um deles, vejo o quanto em comum eles têm. Questionamento da realidade como nos é dada com roupagem holywoodiana. Eu preferia dizer que os filmes que mais me marcaram foram do Fellini, Kurosawa, Godard ou algum indiano obscuro. Mas não seria verdade.
Outra coisa que me impressiona em Beleza Americana - e talvez esteja presente nesses outros filmes em maior ou menor escala - é que são pequenas mudanças de atitude do(s) personagen(s) principai(s) que os fazem mudar de vida. É uma mudança de olhar diante do mundo. Um novo ângulo que se adquire mediante uma pequena alteração. Porque na vida real as mudanças acontecem, na maior parte dos casos, essa forma. Tanto que, no final, o personagem do Kevin Space desiste de comer a amiguinha da filha. Depois que ela diz ser virgem ele vê o que ele está prestes a fazer e - especulações minhas - talvez se dê conta de que a vida dele já mudou. O que inicialmente fora a mola propulsora de sua mudança - comer a menina - quando se apresenta como real possibilidade perde o sentido, pois a mudança maior já foi operada na vida dele. Ainda que ele continuasse casado com aquela mulher e ela tendo caso com o corretor imobiliário fodão, isso não importava. Ainda que ele estivesse trabalhando na lanchonete vendendo hamburgueres, it doesn't matter. Ele morre feliz. Ainda que essa felicidade tivesse durado tão pouco - o que também não importa já que, no final, tudo o que conta são esses momentos, segundo a "mensagem" final do filme.
Enfim. Eu sou uma pessoa que tem problemas com a realidade.

quinta-feira, outubro 09, 2008

Novas cores

Acabo de deparar-me com os primeiros fios de cabelo branco. Não é que antes eu nunca achara nenhum. Já tinha achado – aliás, é sempre Formiga Irmã quem acha – um ou outro cabelo branco perdido. Mas eram casos isolados. Hoje eu achei dois de um lado e uns dois de outro. Dois pares.
Tinha acabado de almoçar e estava no banheiro da universidade, escovando os dentes e passando batom. Hoje eu coloquei duas piranhinhas, que eu costumo usar, uma de cada lado, puxando o cabelo pra trás, de forma que os cabelinhos das têmporas fiquem visíveis (aquele cabelinho novo que nasce onde se formam as “entradas”). Os vi ali, no meio do cabelo preto e dos dois dedos de cabelo castanho que nascem sem tinta. Ali, parados no meio do nada, pareciam bebês recém nascidos, meio sem lugar, olhando o mundo assustados, ainda tentando se acostumar ao mundo. E eu, como uma mãe de primeira viagem, me pus a investigar a natureza deles, como uma mãe examina pela primeira vez o seu filho. Mútuo reconhecimento.

Cabelos brancos não são sinal de velhice, necessariamente. Minha amiga Fló tem cabelos brancos desde os 18 anos e Formiga Irmã e Irmão Engenheiro também os têm desde os 25 anos, mais ou menos – eles têm cabelos espessos, escuros e ondulados; já eu, Formiga Sênior e Rimão do Meio temos cabelos mais finos, lisos e uma poucos mais claros (e que demoram a branquear. Formiga Sênior, apesar de Sênior, tem muito menos cabelos brancos que Formiga Irmã. Esta, como todos sabemos, dorme em um sarcófago de formol, repulsivo hábito que a conserva com a tez aveludada e que é responsável pela inconveniente pergunta: “quem é mais velha, você ou ela?” ao que eu sempre faço questão de responder. “Ela. Só dez anos mais velha que eu”. Que na verdade são 9, mas eu gosto de deixar o interlocutor sem graça).

Mas então. Voltando aos cabelos brancos. Examinei meus novos amigos com curiosidade, assim como eles me devolviam o olhar. Dois estranhos de (re)conhecendo. Desde quando estariam ali? Pelo tamanho diminuto, eram recentes. Entretanto, talvez já estivessem há alguns dias e a boa luz do banheiro e o penteado que eu fizera propiciaram a visibilidade somente hoje. Se é que há, de fato, alguma relação entre preocupações e cabelos brancos, sem dúvida os preparativos e primeiras semanas de Nova York foram dignos de cabelos brancos. Pra sempre eu vou me lembrar que na primeira vez em que me deparei com cabelos brancos foi em Nova York. Como uma espécie de coroamento da minha vida adulta. Agora é que começa. Agora é que vai ficar realmente bom.

Num piscar de olhos imaginei a minha velhice. Rosto ceifado de rugas, porém ainda os mesmos olhos de quando eu era bebê e alguns mesmos pensamentos. Hoje eu reparava uma moça comprando café na minha frente e em como a pele dela era absolutamente perfeita, com todos os poros fechadinhos dando o famoso aspecto de pêssego. Nunca tive a pele assim. Nem com todas as maquiagens do mundo. Quando criança, talvez. Desde a adolescência onde meu corpo experimentou uma tempestade de hormônios – e ao que tudo indica não ficou muito feliz com isso – que minha pele, por mais bem tratada e sem espinhas que esteja tem sempre esse aspecto de poros dilatados. Alguns, completamente arreganhados, sem solução. Buracos negros. Que eu chamo de crateras. Outros mais discretos que eu melhoro com produtos. Mas sempre um certo alargamento generalizado (sim, eu conheço o NormaDerm da Vichy).

É, eu sei, só eu os vejo assim. Os “defeitos” sempre são maiores pra gente. Tive um namorado que dizia que era bonito meu rosto com essas pequenas marcas e cicatrizes. Eu também passei a achar. Fazem parte de quem eu sou. Sem-querer-soar-uma propaganda-da-Natura-mas-já-soando, as marcas são quem nós somos. São as marcas que nos diferenciam. Cada vez mais eu acho que os defeitos são o que de melhor temos. Por isso evito de falar de algumas pessoas nesse blog. Pessoas que eu não posso falar dos defeitos eu não falo. As pessoas são tudo junto: defeitos e qualidades. Não consigo tecer um retrato perfeito sem dizer também os defeitos. Não poupo nem a mim porque pouparia os outros?

Envelhecemos desde o primeiro dia de vida, eu sei. Estamos a cada segundo mais velhos. E isso é o que de melhor pode acontecer – do contrário é sinal de que você morreu. Lidamos com a morte todos os dias da nossa vida. A qualquer momento ela pode acontecer. Como um raio que corta um dia de céu azul. No entanto, é um susto cada vez que somos sacudidos com essa perspectiva ou qualquer aspecto dela.

Quando eu fiquei menstruada – com 11 anos – minha segunda reação foi chorar. A primeira foi fingir que não era comigo, até que a minha mãe disse “minha filha, eu acho que você ficou menstruada”. Isso porque mais cedo eu brincava de usar absorvente. Achava legal. Assim como eu achava legal me vestir com as roupas da minha mãe. Mas quando foi pra valer eu não gostei. Tanto que meu corpo explodiu em espinhas. O corpo fala, é a mais óbvia das verdades. E talvez eu chorasse porque na minha sabedoria infantil já soubesse que, mesmo com 11 anos, o tempo já cravava sua foice na minha jugular – mas ele o fizera, volto a dizer, desde o momento em que eu vim ao mundo.

Vendo esses pequenos, talvez ainda solitários fios de cabelos brancos, a um mês de fazer 32 anos, eu pensei: como é bom estar viva. Estranho. Mas bom. Cada vez mais eu aprendo a aceitar os fios brancos, as marcas, o estranho, o torto, o buraco (de celulite, da marca de espinha), as pequenas veias azuladas e arrebentadas, a pequena adiposidade na região abdominal (tão minha, tão infantil!) como o que me definem. Não só, mas também.


Claro que uns tratamentozinhos aqui e outros ali também não matam ninguém.

domingo, junho 22, 2008

Falando joãofanquicamente


João Francisco, meu priminho de apenas dois anos, filho do meu querido primo Júlio, o Primo Poeta, contador e encantador de causos, é detentor das mais engraçadas histórias de criança que eu conheço. Quer dizer, engraçadas pra mim. Talvez por eu achar que ele se parece muito comigo quando eu era criança. Espiritualmente falando. João Francisco é muito austero e grave. Do alto de seus dois anos, tem os olhos castanho-escuros profundos de adulto. Ao mesmo tempo – e ao contrário de mim – João é totalmente popular na minúscula cidadezinha do interior de Minas onde mora. É totalmente simpático aos chamados pingaiadas da cidade (mistos de bebuns, mendigos e malucos, tão comuns em qualquer grande cidade, mas que no interior são conhecidos de todo mundo e tratados como celebridades locais, personagens folclóricas que compõem o vasto cabedal do anedotário mineiro interiorano). João adora conversar com os pingaiadas.

Outra característica de João desde a mais tenra bebezice é sua capacidade desconcertante de encarar os outros. Certa vez, quando ele contava ainda com apenas um aninho, veio com os pais passar o Natal em Gotham City. Ao chegar, todo mundo fazendo muita festa pra ele. “Ai, que fofinho!” “Oooooi, Joããããõ! Tudo boooom??!!”. E ele sério. Não chorava, não ria, não fazia nada, só olhava todo mundo. Colocaram-no sentado na cama de casal do quarto onde eu durmo. Ele pensando: “ok, tá tudo bem, eu estou calmo”. Mais nhenhenhens de adultos enlouquecidos. Ele pensando: “tá tudo bem, não vou chorar nem me irritar”. De repente, num rompante incontrolável tipicamente seu, Formiga Irmã deu um beijo na coxa dele. O que se seguiu foi um olhar glacial de João Fanquico para minha irmã. Como quem diz: “ei, peraí! Na coxa, não! Eu tô aqui tentando ficar calmo, não perder a pose, mas na minha coxa não!”. Engraçado que ele não chorou, não gritou, mas passou o resto do dia olhando com muita desconfiança para minha irmã, sempre com esse olhar de colocar o outro a distância. Como quem diz: “quem é essa louca que sai beijando as coxas das pessoas?”. Claro. Pois para João Fanquico ele é um adulto. E você não sai beijando coxas de adulto em público, em ocasiões sociais, né?

Daí que “olhar de João Fanquico” passou a ser uma expressão utilizada entre a minha família – principalmente entre mim e Formiga Irmã, que temos todo um vocabulário próprio – para designar olhares gélidos. “Aí eu dei um olhar de João Fanquico pra ele e ele se tocou”. “Ei, não me dá esse olhar de João Fanquico, não!”.

João já sabe distinguir entre os livros do pai quem é Machado de Assis, só pela foto da capa. Pega livros e finge que está lendo.

Quando João estava com um ano e meio, mais ou menos, nasceu seu irmãozinho, Marco Antônio. Todos pensavam que João teria ciúmes do irmão. Mas não. Ele tomou para si a tarefa de irmão mais velho. Ficou mais grave e austero ainda. Anda de mão pra trás que nem o avô. Acha que ele já é grande e o irmão ainda é criança. Cuida do irmão. Quer saber onde o irmão está – diz: “cadê o imão?”. Não duvido nada que da próxima vez que eu o vir ele já esteja grisalho.

Um dia, estavam alguns adultos fazendo brincadeirinhas com Marco Antônio, do tipo que adultos fazem, com direito a vozinhas infantilóides, no estilo “Cadêêêê o Marco Antônio? Eu vou pegar eshe menino! Eu vou pegar o neném!” e em seguida perceberam o João fazendo a mesma brincadeira com o irmãozinho: “eu vou pegar eshe menino! Cadê o neném?”.

Certas vez estávamos todos na casa das minhas tias e o João começou a querer colocar o irmão em pé para brincar. Aí nós dissemos que o irmão ainda era pequeno, não sabia nem andar e nem ficar sentado. Não era grande como o João, que já sabia andar. Isso foi suficiente para deixá-lo todo prosa e sair andando pela sala, todo empertigado, coluna ereta, nariz empinado, exibindo toda sua habilidade em andar. Como quem diz: “é, eu sei andar! Olhem pra mim! Eu sou grande”.

Agora toda vez que eu e Formiga Irmã queremos mostrar que sabemos alguma coisa a gente sai andando que nem o João Fanquico. Ou dizemos: “aí eu saí andando joaofanquicamente”. Já está subentendido que é quando você quer mostrar que tá podendo – ainda que você seja muito pequeno.

Tipo eu em Nova York. Vou sair andando joãofanquicamente por lá. Não quero nem saber. Vou fazer a entrevista no consulado joãofanquicamente, vou passar pela imigração joãofanquicamente...Vou chegar na NYU joãofanquicamente. Porque a gente sempre é pequeno em relação a alguém e sempre é grande em relação a outrem. Aristóteles dizia que a coragem é uma virtude que só existe no presente. Não existem pessoas corajosas, e sim atitudes corajosas. Um indivíduo pode ter sido covarde a vida toda e de repente ter um ato de coragem. Ou vice versa. A coragem não existe em estado absoluto – e será que alguma virtude existe?

O que me faz lembrar de um desenho que eu adoro que passa no Cartoon Network: "Coragem, o cão covarde". Coragem é um cão super covarde, mas que vive tendo que enfrentar situações de risco. E ele vai e enfrenta. Morrendo de medo, mas enfrenta. Ele faz o que é preciso fazer. Ainda que com medo, mas faz. Se ele pudesse escolher, ele não faria. Só que há momentos na vida em que não há escolhas – quer dizer, sempre há, mas há momentos em que ou você escolhe ou sucumbe à sua própria covardia. Então, seria Coragem, o cão, realmente covarde ou extremamente corajoso por, ainda que com medo, conseguir tomar atitudes corajosas? Coragem é agir, ainda que com medo, ou nunca ter medo, mas não se colocar em situação de senti-lo? Mas vale um medroso que vai lá e faz ou um corajoso que nunca age? Ainda segundo Aristóteles, quem nunca tem medo é um tolo. A coragem é agir diante do maior perigo. Manter a calma, quando todos ao seu redor já perderam.

Às vezes, diante de uma situação de medo ou ansiedade desnecessária, eu volto aos meus tempos de atriz. Penso: como agiria uma pessoa corajosa nessa ocasião? Eu ajo como se eu estivesse calma. Finjo pra mim mesma que eu sou uma pessoa normal. Que eu sou outra pessoa. E chego a fingir tanto que até eu acredito em mim. Ou me sinto como um expectador da minha própria vida. Vejo as pessoas todas acreditando e penso: “he he he...que legal! Tô conseguindo enganar todo mundo! Acho que até eu mesma!”. E chego até mesmo “a fingir que é dor a dor que deveras sinto”. Que nem a piada do louco que vive com uma coleira puxando um cachorro imaginário. No dia em que os médicos vêm fazer a supervisão pra ver se ele pode ser solto ele guarda a coleira e diz: “hein, cachorro? Não tenho cachorro nenhum”. Quando os médicos vão embora ele pega o cachorrinho imaginário e diz: “enganamos eles, Totó!”. Eu me sinto enganando todo mundo. Saio andando joaofanquicamente e acho que ninguém está percebendo o quão pequena eu sou. Mas talvez o segredo seja esse. Não ser corajoso, mas parecer. Ainda que apenas para si mesmo - que afinal é o que mais importa.

quarta-feira, março 12, 2008

Dores que movem montanhas


Uma das melhores coisas que eu fiz na minha vida foi ter feito escola de teatro. Ainda que eu não tenha seguido na carreira de atriz, foi dos maiores aprendizados. Em uma (boa) escola de teatro levada a sério, você se conhece horrores. Tudo bem que eu acho que a maioria dos nossos problemas sejam de ordem inconsciente – e o inconsciente, essa caixa preta que temos dentro de nós, nem sempre se torna consciente; na maioria dos casos ele fica lá escondidinho, fazendo você sonhar que está transando com o seu vizinho de óculos que é ao mesmo tempo o Woody Allen e a Feiticeira (pra falar o sonho mais “publicável” que eu tenho), e o máximo que você consegue é mexer umas coisinhas aqui e ali e mudar, quiçá, alguma coisa. Mas eu descobri coisas que se referem ao domínio da razão ou da consciência fundamentais pra minha existência. O famoso “conhece-te a ti mesmo”.

Descobri, por exemplo, como as pessoas tinham uma imagem errada de mim. Ou talvez eu não soubesse quem eu realmente era. Descobri como, pela minha filosofia e postura (física e de vida), as pessoas achavam que eu era uma pessoa brava, mal humorada e agressiva. Não que eu não seja, mas às vezes eu tava bem, tranqüila, e passava uma imagem carrancuda. Ou, em diversas vezes ouvi dos meus professores que eu era uma pessoa sem energia. Me lembro de uma professora gaúcha que me dizia: “tu é mole, guria!” e também de um professor de música que chamou um grupo de alunos "com problemas" e disse de uma amiga minha (que hoje faz aquela peça "O Surto" que a energia dela era excessiva e que ela podia passar um pouco pra mim, que faltava. E todas essas classificações correspondiam a verdade, em alguma instância. Porque era assim que eu tinha aprendido a me mostrar pros outros. Ou era assim que eu tinha me acostumado a ser. Mas, como disse a Ana Manga, a gente não É. A gente se reinventa.

Descobri que eu tinha extrema facilidade para fazer personagens violentas, agressivas, más, sarcásticas, amarguradas, velhas, entediadas...mas não personagens leves, jovens, soltas, felizes...Em geral eu sempre fazia as personagens mais velhas, mesmo quando contracenava com gente mais nova que eu. Descobri que eu poderia ter humor. Tacharãn! Eu nunca pensei que eu pudesse ser engraçada. Foi na escola de teatro que eu aprendi que eu podia ser engraçada, ainda que nunca fosse um humor rasgado, pastelão, clownesco – que eu acho incrível. Seria sempre aquela coisa meio dark, irônica, sarcástica. E eu sempre me perguntava, como atriz, se valia mais à pena insistir em fazer o que eu sabia de melhor e ficar no fácil ou tentar melhorar meu lado ruim – mas não aparecer tanto, não ser chamada pra fazer nada, não ser nunca tão boa...

Aprendi a ser menos tímida e a usar meus defeitos de forma favorável. Acho que é do Antunes Filho a frase: “coroa o teu pior”. Quando ouvi essa frase, tive uma revelação. Sim, o meu melhor é o meu pior. Aprendi que às vezes, de tanto fingir, você mesma acaba acreditando. E isso pode ser bom em algumas situações. Aprendi que todos nós desempenhamos personagens – bom, isso eu também aprendi nas minhas aulas de antropologia e sociologia – e que somos muitos ao mesmo tempo (tô parecendo a Tati do Big Brother!).

Bom, mas o que eu queria mesmo falar é sobre as aulas de Corpo que eu tinha. Aulas de Corpo é como a gente chamava a aula de expressão corporal. Assim como tínhamos a aula de Voz, a aula de corpo era uma aula que visava retirar o registro cotidiano de movimento, limpar o repertório do ator, para que ele desenvolva o seu instrumento (o corpo) de forma a poder interpretar diversos papéis. Não se trata de malhação pura e simples – apesar de também passar por isso – mas de treinar o seu corpo para diversos personagens, já que, segundo o método de interpretação de Stanislawiski, você deve partir das emoções e do físico simultaneamente – por isso é um método psico-físico – pois as coisas acontecem de dentro pra fora E de fora pra dentro, SIMULTANEAMENTE. Como o instrumento do ator é o seu corpo, deveríamos afinar nosso instrumento diariamente, como pianistas repetem escalas.

Nesse caminho eu conheci uma professora muito bacana, atriz de teatro, chamada Marilena Bibas. De idade indefinida – dessas pessoas que tanto podem ter 43 anos como 65 – essa sunsei, nissei ou não sei era/é uma figura ímpar e a ela eu devo o fato de ter me formado na CAL. Ela me deu aulas em duas cadeiras: de Corpo e de Interpretação. Quando o dono da escola quis me reprovar (abafa o caso...longa história), ela foi uma das poucas professoras que me defendeu com unhas e dentes. Ela simplesmente acreditou em mim desde o momento em que ela colocou os olhos em um trabalho meu. Ela me fez ver que a emoção, a sensibilidade e todas as características fundamentais para o trabalho do ator eram, de fato, fundamentais, mas tão importantes quanto a técnica e o trabalho árduo – e bota árduo nisso. Ela era – e ainda é – foda. Estudou na Itália, é co-fundadora do Tá na Rua, grupo do Amir Haddad, e trabalhou oito anos com ele. Aqui está o link da companhia teatral dela pra quem se interessou.

A Marilena era seguidora de um tipo de teatro chamado Teatro Antropológico, baseado nos conhecimentos de Eugênio Barba e Grotowski, e que têm suas raízes no teatro japonês. Aliás, ela estudou com o próprio Barba. Esse teatro acredita, sobretudo, em um treinamento físico para o ator, capaz de deixá-lo apto para o trabalho cênico – incluindo aí voz. Um corpo desperto. Esse tipo de treinamento é 8 ou 80. Tinha colegas que detestavam e nem por isso eram piores atores. Eu me apaixonei e, após ter tido aula com essa mulher, resolvi segui-la. Ela dava aulas em um estúdio ali em Laranjeiras, na General Glicério. Lá vou eu fazer aula com ela. (Parece que agora ela dá aulas em Ipanema, como diz esse link aqui).

O curso foi das melhores coisas que eu fiz dentro da área de teatro. Ela partia de um treinamento físico exaustivo, aliado a uma base teórica (e eu sempre precisei de bases teóricas...). E ainda por cima ela era uma pessoa calma, doce, mas extremamente firme e enérgica. Ao mesmo tempo ela tinha uma coisa meio Mestre dos Magos ou Senhor Miagui. Dava uns livros do tipo “A arte cavelheiresca do arqueiro zen” ou falava umas frases meio desconexas que você ficava o resto do dia pensando. O fato é que no auge dos meus 22 anos aquilo me impressionava bastante. Mas como era na prática? Fazíamos um treinamento coletivo que incluía aquecimento, movimentos de acrobacia em um colchão, movimentos de ioga, de kung fu, basicamente. Havia também os exercícios de ressonância vocal, onde você aprendia a “jogar” a voz pra cabeça, pro peito ou pra que parte fosse. Depois montávamos uma seqüência de movimentos, ou melhor: uma partitura de movimentos – cada um montava a sua, baseada nos movimentos que a gente tinha treinado – e, bem depois, o texto era acrescido a essa seqüência. Na prática isso não era utilizado em cena, mas era de um resultado fabuloso.

E havia as “exibições” ao final da aula. Depois de um tempo de casa, eu passei, junto com outra amiga, a ser uma das "exibidoras". E coisa toda era brutal, tanto é que a gente tinha que ir de joelheira e, não raro, saía toda ralada. E dentro desta idéia tem uma coisa chamada “o princípio da exaustão” que – me perdoem se tem alguém que entende muito de teatro me lendo agora, pois faz tempo que não leio sobre essas coisas nem faço nada e posso estar cometendo algumas generalizações e superficialidades – pode ser traduzido em trabalhar o cansaço a seu favor. Porque a série era tão brutal, tão violenta, tão difícil executar em alguns casos (você plantava bananeira, dava cambalhotas, fazia aquela vela da ioga só apoiada no pescoço...loucura) que eu alguns casos você tinha a certeza que ia desmaiar. E a gente aprendia a não desmaiar e descansar dentro do cansaço; respirar (incrível como a gente esquece de respirar!) e fazer o mesmo movimento de forma leve.

Nesses dias que eu venho começando a correr eu lembro sempre desse princípio da exaustão. Todo mundo que corre conhece isso. Tem um momento na corrida em que você pensa: vou morrer, vou desmaiar. Claro que você deve ter bom senso de correr aos poucos e, em um momento desses, parar. Mas, depois de um tempo, você percebe que não vai desmaiar. Não vai morrer. Que talvez seja só o seu corpo dizendo: “ei, eu não estou acostumado a esse movimento! O que está acontecendo? Eu quero deitar e comer chocolate!”. Daí você aprende a relaxar dentro da corrida. Quem sabe diminuir ou fazer de uma forma mais leve. Lembro que, no aquecimento, quando a gente corria, a Marilena sempre dizia: "corra com se o topo da sua cabeça quisesse chegar ao teto” (corríamos em círculos, dentro do estúdio com um piso de madeira). Não é dar impulso ao corpo, é apenas ter essa percepção. Corríamos descalços, havia pessoas muito gordas, mais velhas e todas conseguiam fazer. Cada uma no seu ritmo. Foi o período da minha vida em que eu fiquei mais magra.

Dentre os muitos conhecimentos que eu levei desse treino, aprendi (além de onde ficavam meus ísquios) não só a superar limites, vencer medos e voltar a fazer coisas que nem em criança eu conseguia fazer. Acima de tudo, aprendi a reverter a dor em algo prazeroso (e não se trata de práticas sado-masoquistas). A respirar mesmo nas situações mais difíceis. Que se você aprende a trabalhar com elas a seu favor, logo se mostram suas aliadas. O que tem a ver com o outro post em que eu falava sobre defeitos que são qualidades.

Vocês devem estar se perguntando com quantas coisas boas, porque eu não continuei na carreira de atriz. Bom, porque eu também aprendi a ver o momento em que a dor se torna insuportável, não podendo mais ser usada ao meu favor. Chegou um momento em que não era possível mais respirar. Ser atriz era, para mim, dolorido demais. E não passava nunca. E deixou de ter prazer, porque as condições de trabalho são tão difíceis, tão complicadas e passam por tantas coisas que o lado do prazer parou de fazer sentido.

Fazer doutorado dói muito. É um tanto de si que você expõe em qualquer trabalho da área humana e se depara com seus limites e problemas e é difícil pra caramba, do ponto de vista pessoal. Mas tem o prazer. Ainda. Tem condições de trabalho menos inóspitas. Tem reconhecimento.

Escrever dói também – escrever em geral. Mas se encaixa na mesma idéia acima. O Ruy Castro, em um texto que abre um livro do Woody Allen, diz que o escritor é alguém com um espinho debaixo da unha, mas que não consegue parar de escrever. Acho que é por aí. Não é alardear um tipo de arte sofredora, mas é um incômodo. Na vida somos movidos por incômodos. Se não, ficamos parados. Agora, é preciso também saber a hora de parar. Antes que o espinho gangrene o dedo e você acabe perdendo-o.

Acima de tudo, o teatro me ensinou a me jogar. Em tudo. A não ter medo do ridículo. Eu, como toda pessoa tímida, tinha um medo danado do ridículo. Só que esse medo apenas revela o quão pretensiosa eu era. Quem eu achava que eu era que não podia errar nem ser ridícula?
O teatro me ensinou a tentar. Uma, duas, milhões de vezes. Dentro do seu limite - mas expandindo-o a cada vez. O teatro me ensinou que a único jeito de fazer as coisas é indo com tudo, abrindo o peito e respirando.
PS: Esse post é dedicado a Formiga Irmã. Num oferecimento da Sublimes Corporations and Organizations.

sexta-feira, dezembro 21, 2007

Sinais de vida


Uma casa sempre se modifica com a chegada de uma criança. Mesmo que momentaneamente. Pequenos cantinhos denunciam a presença desses pequenos seres; umas vezes angelicais, em tantas outras, diabretes.

Brinquedos são esquecidos em cantos remotos da casa. Brinquedos trazidos no intuito de acalmar os ânimos, fazer companhia durante a papinha ou tomar banho. Objetos transformados em brinquedos às pressas. Caixas, caixinhas, sacos plásticos, papéis. O brinquedo melhor é sempre aquele que não é. Portas fechadas, escadas cuidadas, objetos se dividem entre pode e não-pode, entre os que quebram ou não quebram, engolíveis ou não engolíveis. Brinquedo ou arma. Brinquedos que rebatizam objetos.

Gritinhos são escutados. Risinhos. Musiquinhas de brinquedos são repetidas à exaustão, a ponto de colar na sua memória como chiclete. Desenhos vistos e revistos. Brincadeiras que se repetem. Ordens e ameaças que se repetem. Educar é repetir.

O cheiro de criança se espalha pela casa. Em copos. Banheiros. Lápis de cor se espalham pelo chão – ainda que a maior diversão seja apenas manipulá-los, descobrindo o mágico mundo das cores, pois a coordenação ainda não deixa que eles sejam empunhados adequadamente.

Estamos na fase dos encaixes. Do leva e traz. Organiza e bagunça. Diz Formiga Irmã que é toc(inho) infantil. Tudo tem que ser ordenado para depois bagunçado.

E as formas. E texturas. Todas as formas e texturas são milimetricamente exploradas por mãozinhas ágeis. Todos os sentidos apontam que por perto há uma criança.

Dia desses li lá no Mme Mean um texto da Criada de Madame sobre o filho dela que tem 13 anos e a puberdade se anunciando – e com ela, promessas de um espaço vazio; do filho que partirá em breve – de uma condição de criança, pelo menos. E a ponta de melancolia que há nisso. Na outra ponta, Cam Seslaf, que acaba de ter seu bebê, a Catarina (e eu vejo todos os nomes que eu penso pros meus filhos sendo colocados...) falava a um dia da maternidade e da última tarde que ficaria sozinha, pelo menos por muito tempo. E a ponta de melancolia que há nisso.

As duas têm quase a minha idade – por volta de 30 anos. Dois momentos opostos e a mesma sensação. Simetricamente oposta. Penso que a decisão de ter ou não ter filhos também é bastante similar. Ambos têm sempre uma ponta de melancolia. No final, não se muda nada. E se muda tudo.

Então, para que se ter filhos? Pra nada. Para se ter.

quarta-feira, outubro 24, 2007

Chora em mim


Eu não sei que estranhas associações me fazem gostar tanto de chuva. Aliás, eu sei. Mas é que ainda me surpreendo gostando de chuva como se fosse a primeira vez.

Lembro-me de chuvas longínquas, numa infância pré-histórica, aonde as chuvas quase sempre vinham acompanhadas da falta de luz. E eu amava quando acabava a luz. Eu torcia para que acabasse a luz. Ainda que sentisse um pouco de medo - eu sempre gostei das coisas que me dão um pouco de medo. Sem televisão, sem qualquer outra diversão a não ser ficar quieto com os próprios pensamentos e com o dos outros. Conversar com o pai e a mãe e os irmãos, todos juntos, desobrigados de seus reais compromissos. Tréguas no estudo, no trabalho, na vida. Apenas um momento de estar. Imaginava-me em outro século, em outro tempo, em outro país. A falta de luz dava a real dimensão da modernidade, como se a natureza dissesse vocês podem até ter progredido, mas olha como ainda não são nada perto de mim. Quando a luz voltava e todos comemoravam, fingia também gostar, mas no fundo ficava desapontada em ter que abandonar este lugar. Ou melhor: este não-lugar.

Além disso, eu nunca fui uma criança muito solar. Sempre gostei das brincadeiras dentro de casa e, principalmente, aquelas que um dia de chuva propicia: cabaninhas, comer brigadeiro na panela vendo sessão da tarde, jogos de tabuleiro, pipoca, chocolate quente, contar e ouvir histórias. Sem pressa.

Até hoje a chuva me acalma. É como se, enfim, algo lá fora se igualasse a algo aqui dentro. De mim. Enfim o mundo faz sentido. Por algumas horas que seja. A chuva silencia minhas vozes internas – ou as refresca pelo menos. A chuva parece alguém que baixou a guarda, a defesa, que, enfim, deixou correr.

A defesa civil pede: não saia de casa hoje. Desabamentos de terra. Aqui dentro as coisas já desabaram há muito tempo. Que bom – não os desabamentos, mas não sair de casa. A defesa civil me autoriza a ser o que eu sempre sou. Um ser caseiro. Sem precisar dar desculpas. Inventar pretextos. Não. A defesa civil mandou. Eu obedeço. Precisam esperar a chuva passar para fazer o trabalho de contenção de encostas. Aqui dentro as encostas não podem ser contidas. Eu deixo tudo desabar e depois vou brincar em cima da montanha de terra. Fico pulando e acenando pros helicópteros: aqui, aqui!

E o cheiro de terra molhada depois que tudo passa. As enormes poças de água. Barquinhos de papel. Como se o mundo acordasse de uma longa noite e se sacudisse todinho como um cachorro. O mundo saiu do banho e tá com aquela cara de limpinho. De novo. Pronto pra começar mais uma vez.

quarta-feira, setembro 19, 2007

Tempo, tempo, tempo...





Estava vendo aquele filme – quer dizer, partes dele – De repente 30, com a Jennifer Garner. Trata-se basicamente da velha fórmula reaproveitada por Hollywood diversas vezes da criança/adolescente que se vê de repente adulta – como em Quero ser grande, Tal pai, tal filho e Sexta feira muito louca. Afinal, que criança nunca quis crescer rápido?

O filme em questão fala de uma menina de 13 anos que, no seu aniversário, cansada de ser impopular no colégio e de andar com os nerds, deseja fortemente estar com 30 anos. Seu desejo, num passe de mágica transforma-se em realidade e ela percebe, ao longo do filme, a série de bobagens que cometeu ao longo de sua vida. Impossível não lembrar de outros clássicos dos anos 80 como Peggy Sue, seu passado a espera, Em algum lugar do passado
e De volta para o futuro, onde, por motivos diferentes, se torna possível viajar no tempo – e vou ficar só nos anos 80.

(Parênteses: confesso-lhes que, dentre os superpoderes nada me fascina tanto quanto o poder de voltar no tempo. Que teletransporte que nada! Invisibilidade, força sobre-humana, poder voar por aí... Nada me parece mais tentador do que viajar no tempo. Poder reencontrar pessoas queridas que já morreram e consertar erros do passado me parece irresistível. E quando escuto as pessoas dizerem que se pudessem voltar ao tempo fariam tudo igual eu só posso pensar que ou as pessoas são muito estúpidas ou minha vida deve ser mais errada do que a dos outros. Bom, mas não é exatamente sobre volta ao tempo que eu quero falar – isso fica pra outro post).

Quero falar sobre esse sentimento de se ver de repente com 30 anos. Ou quarenta ou cinqüenta. Porque, de alguma forma, nós também acordamos de repente com 30. Claro que só posso falar dos 30, pois é a idade que eu tenho. Não por termos nos submetido a algum feitiço do tempo
– aliás, excelente filme também. Mas simplesmente porque às vezes os anos somem e não sabemos onde eles foram parar.

Principalmente as gerações pós-anos 60. Com a invenção da juventude como modo de vida, pode-se ser jovem com qualquer idade. E você se vê, de repente, com 30 anos e vivendo como se tivesse 18. E isso não necessariamente é uma coisa boa. Principalmente se você não se casou e não teve filhos, os 30 anos podem diferir em pouca coisa dos 20. Talvez você saiba algumas coisas, tenha um pouco mais de dinheiro – na melhor das hipóteses. Só que, no final, você tem 30 anos. E você fica naquela de onde foram parar meus anos. Por mais que você tenha vivido, aproveitado e bla bla bla. Porque o sentimento de perda sempre existe. Você descobre que é um personagem dos filmes do Kevin Smith ou dos livros do Nick Hornby. Esperando eternamente quando a sua banda vai ser descoberta, seus quadrinhos serão publicados e seu filme sairá. Mas, no fundo, continua atrás de um balcão. Esperando o momento em que sua vida vai acontecer.

Há dois extremos nesse caminho do não-envelhecer. Um é virar uma patética caricatura de si mesmo, como aquelas pessoas que pintam o cabelo de cores inacreditáveis jurando que estão disfarçando a idade, tampam a careca com penteados esdrúxulos, fazem plástica até virarem o clone da Elza Soares e andam apenas com pessoas mais jovens – como se a juventude pudesse ser contraída por osmose. Outro extremo é aquela pessoa que “acredita” na idade, nos marcos. Tenho trinta, quarenta, oitenta anos, logo chegou a hora de fazer isso e não fazer aquilo mais. Acreditam no tempo, na idade.

Eu? Eu acho tudo muito estranho. E não sei como terminar esse texto. Então vai assim.


quarta-feira, agosto 15, 2007

Brincando de adulto


Já contei aqui o caso em que Lacan (o “pai” da psicanálise juntamente a Freud), já no final da vida, cutuca a sua vizinha de mesa e diz: “na verdade eu tenho cinco anos”. O que para muitos pode apresentar um sintoma de quase senilidade do velho para mim tem bastante significado e é absolutamente dotado de lógica. Porque em certas coisas – e eu me pergunto se não são nas que realmente importam – continuamos crianças, entre três e sete anos. Isso às vezes é bom. Às vezes é terrível.

Há diversos setores da nossa vida que podem se manter infantilizados. O paladar, por exemplo. Há adultos que permanecem com o gosto de criança. Não toleram álcool, gostam de coisas molinhas e docinhas. Ou batata frita e sanduíche. Comida de criança. Já vi o Jô Soares falar algo parecido: que o gordo é alguém cujo paladar não cresceu. É possível. Alguns tipos de gordos, pelo menos.

Outro tipo de infantilização na idade adulta é uma certa dependência emocional que mantemos com nossa família e amigos mais próximos, que nos faz temer a separação, ainda que temporária, de forma quase irracional. Tudo bem, todos nós gostamos de manter pessoas queridas ao nosso redor, mas temer uma temporada longe de seus entes queridos, recusar um emprego só porque ele fica em outra cidade ou não querer morar fora da casa dos pais me lembra quando eu era criança e chorava pra ir pra escola. Na minha cabeça aquelas cinco horas que eu passaria ali seriam dolorosas demais, mesmo já compreendendo que meus pais me pegariam ao final do dia. Era como se algo no meu idílico recanto caseiro tivesse se quebrado pra sempre. Como Eva, eu provei do fruto do conhecimento e me foi negado o paraíso.

(Aqui abro um parênteses para uma história: certa vez, eu devia ter uns 7 anos eu acho, fui dormir na casa de duas vizinhas minhas que eram gêmeas. Depois das brincadeiras, quando apagamos a luz e fomos dormir, eu senti uma súbita e acachapante tristeza, uma saudade dos meus pais avassaladora, que foi crescendo e me levando a um estado desesperador. Tive que acordar a babá delas e pedir pra que me levasse de volta pra casa. Como explicar racionalmente uma saudade de pessoas com quem eu estava até poucas horas antes e com quem estaria algumas horas depois e que se encontravam nem a cinqüenta metros de mim? Impossível. Ainda guardo a sensação de conforto quando enfim pude deitar na minha cama em casa. Sim eu era uma criança estranha. Continuo, aliás. As duas coisas. Hoje até moro sozinha, mas ainda me pego às vezes com saudade dos meus objetos. De como eles ficam solitários sem mim).

Outro tipo de infantilidade, talvez uma das mais comuns, é na área dos relacionamentos amorosos. Em geral as mulheres culpam os homens de infantilidade, mas essa característica não escolhe gênero. O ideal de amor romântico que infelizmente ainda vigora na nossa sociedade é egoísta, ingênuo, birrento e possessivo. Fazemos manha pra termos nossos desejos atendidos. Quando isso não ocorre há beicinhos e outros tipos de retaliações. Claro que evoluímos no beicinho. Ele não é tão óbvio hoje em dia, mas ainda permanece.

Há pessoas que têm uma total incapacidade para a vida prática. Pagar contas em dia, administrar uma casa, ter compromissos, prazos...gerir uma vida adulta.

Pra não dizer que não falei de flores, há também qualidades que conservamos A mais importante é a qualidade de brincar. A criança brinca com seriedade. Enquanto ela é o monstro, ou está montando seu jogo sua atenção está totalmente ligada naquilo. Nada existe fora do seu mundo. Mas ao mesmo tempo ela pode desmanchar isso de uma hora pra outra e não pensar mais no assunto – nenhuma criança perde o sono pensando em como solucionar o seu Lego ou em novas roupas para a sua Barbie. No fundo ela sabe que é só uma brincadeira. Ainda que leve extremamente a sério. Não por acaso o verbo em inglês que significa “interpretar” é o mesmo que “brincar”: “to play”. Pois esse é o ideal de todo ator: ser aquela personagem, naquele momento, com um misto de seriedade e descompromisso. E depois deixar ela lá – onde for, no reino das coisas encantadas.

O que também me lembra a atenção correta que os budistas pregam. Fazer cada pequena atividade do dia a dia - lavar louça, tomar banho, estudar, malhar – focada somente naquele instante, como se aquilo importasse por si só. Esvaziar a mente sem pensar no que você precisa fazer depois que terminar a tarefa. Viver o instante. Carpe diem.

Minha irmã Vivi quando era criança dava aula para as bonecas dela. Tinha uma escolinha na área onde ela batia ponto de uma da tarde às cinco. Com diário e tudo. Meu irmão tinha uma fazendinha montada no quarto. Ele acordava as seis da manhã e ia tirar leite. Minha irmã fez Letras e deu aula durante dez anos – depois cansou. Meu irmão foi fazer agronomia, mas desistiu com um semestre. É que às vezes a brincadeira fica chata. E crianças não insistem em brincadeiras chatas. Se tá chato ela tenta outra.

Eu não compactuo com a visão de que crianças são pessoas puras e boas e a infância é um período dourado. Crianças são adultos em miniatura. Piorados. Adultos mal acabados, mas que, como expus no parágrafo anterior, ainda não têm certos vícios mofados dos adultos. Minha infância foi difícil, não porque me aconteceram coisas difíceis, mas porque é difícil encarar o mundo pela primeira vez. Ainda mais quando se é uma criança estranha. E eu ainda não sabia que todos nós somos.

Eu tenho um primo que não bebia água na infância. Não bebia. Só tomava chá. Água pra ele era um tremendo esforço. E ele tinha que fingir na hora do recreio, depois do futebol, quando todas as crianças se enfileiravam, barulhentas, no bebedouro, que ele também bebia água. Ele entrava na fila só pra fingir que bebia. Porque ele queria se sentir igual às outras crianças. Mas não era. Porque ninguém é. Só que a gente passa a vida tentando ser.

Eu sei o que vocês estão pensando: que a minha família só tem louco (tenho outro primo que odeia doce desde pequeno e tudo que lembre o gosto adocicado. Até tomate e pão de hamburguer). É verdade. A informação procede. Ou talvez falemos mais do que os outros.

O fato é que, aos 30 anos de idade cada vez mais eu me pego com 03 anos. Medos infantis, muitos medos infantis, vontade de sair correndo pulando só nas pedras pretas da calçada, contar estrela no céu e fazer cabaninha no meio da sala comendo leite condensado com toddy ouvindo história de fantasma. Mas a gente tem que crescer, né? Algumas características infantis não pegam bem pra uma mulher de trinta anos. Algumas eu realmente não gosto.

Me lembro do meu pai, que quanto mais se aproximou do seu final, cada vez mais se aproximou também do seu início: sua infância. Quem o conheceu nos últimos anos, sempre brincalhão não acredita que ele pudesse ter sido sério algum dia. Talvez seja isso a vida. A gente cresce e descobre que tudo aquilo que precisava saber sempre esteve ali. Tudo que queríamos sempre foram novas brincadeiras.

domingo, agosto 12, 2007

O amor no tempo do brócolis


Fui fazer compras no hortifruti hoje e me espantei em ver a animação. Sábado, de manhã – quer dizer, 11 da manhã, mas ainda assim de manhã, ainda mais pra um sábado. E o hortifruti bombando. Eis que eu comecei a notar uma grande concentração de homens. Uau. Homens. Esse artigo tão raro, nem sempre numa boa safra, mas sempre útil. Aí comecei a lembrar do episódio de Mothern que eu acabara de assistir, onde uma delas conhece um cara num sacolão da esquina – ela de chinelo e meia. Olhei pro meu pé e eu estava de havaianas e com as unhas sem fazer. Quem disse que o amor escolhe horário?

Toda mulher solteira sabe que à noite todos os gatos são pardos - e vira-latas. Não se consegue nada que preste na noite. Dentre os ótimos locais para se conhecer homens estão velórios, trabalho, cursos – desde que você não invente de fazer corte e costura -, universidades, casa de amigos, batidas de trânsito e supermercados de madrugada. E agora eu acrescento mais esse local: sacolões e quitandas sábado de manhã. Ou feiras. É verdade que a chance dos homens serem casados também é grande. Mas você descobre rapidamente ao ver o aleijão reluzente na mão esquerda, enquanto apalpa as laranjas. No caso dele não usar aliança ou ter apenas uma namorada, olhe o tamanho do carrinho. Se ele tiver com uma cestinha: solteiro. Mas às vezes não é o tamanho que importa – embora quase sempre ajude bastante – mas o prazer que ele proporciona. Isto é: veja o que ele carrega dentro do carrinho ou cestinha. Se ele compra porções individuais ou congelados é solteiro. Se tiver danoninho ou trakinas de morango run, Forrest, run. Ele é casado e tem filho. Ou tem o paladar de uma criança de 5 anos – o que também é motivo para você correr. Ele pode estar com uma cestinha só dando um reforço pro almoço da patroa. Mas isso você também descobre pelos produtos – se for uma lata de creme de leite e uma coca 2 litros, desista.

Sem contar que hortifruti são...inspiradores. Você fica lá, apalpando melões, pepinos...enfim.

Supermercados 24 horas são o que há em matéria de homem. Que homem casado faz compra de madrugada? Além disso, você encontra pessoas que têm uma carreira e não têm tempo de fazer compras durante o dia, e não um desocupado qualquer. Se for uma dessas redes mais caras, tipo o Zona Sul ou o Pão de Açúcar aumentam as chances de você pegar um profissional liberal, recém separado, meio sem prática para questões domésticas – e provavelmente sem o menor saco para outro relacionamento, but who cares? Enquanto você não acha o homem certo, divirta-se com os errados. Ele pode puxar papo perguntando se aquela marca de iogurte é mesmo boa, se você conhece aquele queijo e você pode pedir ajuda na escolha do vinho. Se ele tiver na prateleira de produtos de limpeza, analisando a diferença entre o Pinho Brill Lavanda ou o Fresh Limon aí eu gamo completamente.

Eis que hoje estou andando pelo hortifriuti e vejo um espetáculo de um rapaz. Olhos verdes – ou azuis, sei lá – porte atlético, pero no mucho. Tatuagem no braço. Tênis e mochila – humm...esportista. Escolhendo bananas! Que saudável! Cestinha! Oba! Cestinha é um ótimo sinal! Mas o tumulto era tão grande que eu não pude me aproximar. Entrei na enorme fila e ele ainda estava escolhendo frutas. Fiquei como Baudelaire, imaginando o amor que eu poderia ter tido se aquele desconhecido tivesse parado e não simplesmente se perdido na multidão.

terça-feira, agosto 07, 2007

Cansaço


O que é o movimento Cansei?! Gente, me lembrou o painho, personagem do Chico Anísio. Aquele que dizia: Affff, tô morta! Por que, na boa: eles cansaram do quê? Não que eu não ache que a famigerada e vilipendiada crasse mérdia, da qual eu faço parte, não possa se manifestar. Não que eu ache que as vaias do Pan! ao Lula foram orquestradas pelo César Maia, mas fazer um movimento de mobilização cujo apelo é “cansei”? Qual a utilidade prática disso, exceto a catarse? Me lembrou o “Basta!”, outro movimento de indignação que surgiu na zona sul carioca, quando uma moradora de São Conrado estendeu uma faixa com esses dizeres em sua janela. E aí? Cansou? Basta? E como é que fica? Hora nenhuma ninguém pensa que esse “caos” que aí está - há quem questione se ele de fato está aí - é fruto de nós mesmos! Cansou do quê, santa? De se olhar no espelho?

Sem contar que isso me lembra os editorais “Basta” e “Fora” que saem nos jornais às vésperas do golpe de 64. E à campanha ideológica feita por alguns setores das direitas para que o povo acreditasse que o país estava vivendo um caos com a ameaça comunista do Jango. Não, eu não tô querendo comparar nem dizer que pode haver um golpe – ridículo – nem que “isso é coisa pra desestabilizar o governo que mais fez pelo Brasil em toda a História” – mais ridículo ainda. Mas, que é engraçado é.

Eu também tô cansada. Tô cansada de ver vídeo no Youtube mostrando a Narcisa, o Boninho, o Bruno Chateaubrind e outros (de)formadores de opinião jogarem ovos nas pessoas do alto de seus prédios – e depois acham um absurdo quando se espanca uma doméstica.

Tô cansada de ver caras e quems e afins com atrizes de merda que tem personal stylish pra dizer o que elas devem vestir e depois aparecem fazendo a linha olha-como-sou- simplesinha-e-acordo-já-assim – e depois acham um absurdo quando garotas morrem de anorexia ou se candidatam a reality shows em busca de fama instantânea. Se eu tivesse dinheiro pra comprar roupa a não ser na Renner eu não ia dar pra um maluco me dizer o que vestir nem fudendo.

Tô cansada de gente que condena político que recebe propina - e depois dão uma cervejinha pro Seu Gualda pra ele aliviar a multa do IPVA atrasado.

Tô cansada de ver o Alemão se enturmando com seus amiguinhos globais.

Tô cansada de quase todas as revistas. Tô cansada do machismo da Playboy. Não por mostrar fotos de mulheres peladas. Eu acho bonito ver fotos de mulheres peladas. Mas por se intitular uma revista de homem e mostrar entrevistas super legais enquanto que as revistas de mulézinha como a Cráudia, Nova etc só mostram “10 dicas pra descobrir se seu namoro vai dar certo”. Muito cansada de ser tratada como imbecil.

Cansada de explicar pras pessoas o que eu faço. Cansada de explicar porque eu não me casei, porque eu não tenho filhos, porque eu não tenho namorado...muito cansada.

Cansada das novelas. Do jornais. De sériezinhas metidas a engraçadas do Miguel Falabella com supostos bons atores e filmes do Daniael Filho. Muito cansada. Vocês não imaginam como.

E você, amigo leitor? Do que se cansou?

terça-feira, julho 31, 2007

Eufemismos do mercado


Eu acho muita picaretagem cursos que colocam “investimento” ao invés de “preço”. Aí é mais barato? Da mesma forma esses dias vi escrito “facilitadora” ao invés de professora ou palestrante ou sei lá que porra a pessoa era. Tipo, parece vaselina, sabe? Facilitadora?! Facilitadora me lembra parteira.

Esse tipo de gente é o mesmo que fala coisas como “aluno-empreendedor” ou “nosso cliente” (ao invés de nosso aluno, nosso paciente) ou gestão de pessoas – e eu, na minha cabeça doente, fico sempre criando correlatos como “digestão de pessoas”, enquanto imagino uma jibóia terrível e enorme digerindo um ser humano inteiro no seu estômago; eu sou o Calvin depois de grande. E é o mesmo que usa palavras inglesas inseridas no cotidiano – a sério – do tipo timing, coffee-break (qual o problema com “intervalo” ou “pausa pra o café?”), feedback, over e outras tantas de fácil tradução no português.

Essas pessoas em geral são aquelas “dinâmicas”. Odeio gente dinâmica - vocês não podem imaginar quanto. Não, ainda que vocês consigam imaginar estarão errando. É mais ainda. Eu posso usar todo meu dinamismo para bater nessas pessoas.

São as mesmas que vestem a camisa da empresa. Eu visto a de força (Já imagino um ótimo slogan pra uma clínica de doentes mentais: todos os funcionários de camisa de força e em cada uma escrito: “vestindo a camisa de empresa”. Publicitários?).

E essas mesmas pessoas acreditam em vivências para melhorar a relação empregado-empregado, empregado-chefe ou empregado-qualqueroutrapalavraqueelepossausarohífen ou acreditam no diálogo – desde que você fale no ouvido que eles escutam, claro.

E fazem reuniões cretinas - aos sábados, de preferência - e obrigam funcionários a se deslocarem do seu sacrossanto lar para ouvir não o que ele pode fazer pela empresa, mas o que a empresa pode fazer por ele. E ele apenas balança a cabeça, sorrindo, pensando que o que a empresa poderia fazer por ele é deixá-lo dormir um pouco mais no dia de sábado. E ri das piadinhas cretinas do chefe, mesmo aquelas ofensivas aos alunos/funcionários mais pobres – mesmo sabendo que esse chefe cretino veio de um lugar muito mais pobre, mas que ele prefere esquecer, citando as palavras em inglês no cursinho equisprésss da Curtura Ingresa que ele fez depois e adulto.

E o mais incrível é que essas pessoas passam realmente a acreditar naquilo que dizem. Sim, porque ninguém agüenta ser tão cretino se realmente não acreditar naquilo que faz. Ou vocês imaginam essas pessoas chegando em suas casa e tendo crises de consciência? Nãããão. Claro que não. A pessoa introjeta a cretinice.

Otimizar. Racionalizar o tempo. Investir. Empreendedorismo. Administrar. Equalizar. Enxugar. Cortar gastos. Tudo virou questão de administração, marketing e vendas. Foda-se se é educação, saúde ou papel higiênico. Você virou um cliente.

Por isso eu ainda admiro os que vão na contra-mão. Ainda. Porque, por mais que as pessoas digam que não há como fugir, há sim. Ou pelo menos há como criar brechas. Mas você, funcionário, que se dá desculpas dizendo que “se não fosse eu, outro faria meu serviço”, “não há como mudar” ou “o jogo é esse” e ainda - o pior de todos – “só faço o meu trabalho”, saiba que há sempre os que se recusam. Mesmo com família, etc, etc, há os que se recusam. Há. Se você está aí é porque você escolheu. Pelo menos admita isso. Ninguém é inocente.

Eu já trabalhei num lugar desses. Me demitiram. Claro. Eu não me encaixava no perfil da empresa – obrigada! Provavelmente se não me demitissem eu ainda estaria lá...não sei. Não posso dizer. O fato é que vocês já saíram de um lugar – ou de uma relação – que, quando você estava lá era ótimo, mas só quando você saiu é que percebeu o quanto era ruim? Pois é. Mais ou menos isso.

Mas desde então eu disse não algumas vezes. E espero continuar dizendo.


sexta-feira, julho 27, 2007

Da arrogância


As pessoas, em geral, costumam se irritar com a arrogância. Eu não. Dizem: “nossa, como você agüenta fulano ou sicrano?”. Esse não é o defeito que mais me incomoda em um ser humano. Porque arrogância é um troço tão patético que só me causa riso. Sim, porque você acreditar que sabe realmente alguma coisa sobre algum assunto é, no mínimo, risível. E no máximo sonolento.

O arrogante é, antes de tudo, um inseguro. Alguém que duvida de suas próprias certezas - e vê nisso um problema, ao invés de aproveitar. Daí precisa externá-las com tamanho grau de assertividade que beira a agressão. De forma que não sobre espaço para dúvidas – pois o arrogante não quer ter dúvidas, ele acha a dúvida coisa de gente fraca.

A maioria dos arrogantes não percebe que o são. Não percebe que às vezes basta um tom de voz, uma palavra mal colocada, um arquear de sobrancelhas para denotar a arrogância. E não adianta fingir de modesto e humilde. Ou você já entendeu ou não. Arrogante fingindo de humilde é patético ao quadrado.

Eu sou arrogante, eu acho. Já fui pior. Porque arrogância na adolescência é engraçadinho. Depois que você cresce vai ficando triste. Digno de pena.

E é engraçado como quanto mais jovens, mais arrogantes são as pessoas. Cagam regras a três por quatro. Tem respostas e soluções pra tudo. Tem filosofias de vida. Sinceramente? Caguei pra elas. Nada mais irritante para um jovem arrogante do que dizer: você ainda é novo, a vida vai te ensinar que não é assim. E nada mais certo do que isso.

Claro que o fenômeno também acomete pessoas de mais idade. Aí, em respeito, é melhor ficar quieto. Aliás, nos dois casos é melhor ficar quieto. Aliás de novo, sempre é melhor ficar quieto, em qualquer ocasião. Pena que nem sempre a gente consegue.

A gente confunde muito, tudo. Confunde auto-confiança com arrogância. Uma coisa é você ter uma certeza momentânea sobre algum assunto específico – o que eu creio ser possível. Outra é você falar isso pros outros. Outra, bem diferente, é a forma com que você fala. Você já parou pra pensar que pode ter gente que sabe muito mais do que você e que está quieto, rindo de você?

Uma coisa é uma coisa. Outra coisa é outra coisa. Ema, ema, ema. Cada um com os seus pobrema.

sexta-feira, julho 20, 2007

Longa jornada inferno adentro (ou: Eu quero ver Bubu!)


“Ó, maravilha!/ Que adoráveis criaturas aqui estão!/ Como é belo o gênero humano!/ Ó Admirável Mundo Novo/ Que possui gente assim!”

(William Shakespeare, A Tempestade, Ato V)



“Um estado totalitário verdadeiramente eficiente será aquele em que o todo-poderoso comitê executivo dos chefes políticos e o seu exército de diretores terá o controle de uma população de escravos que será inútil constranger, pois todos eles terão amor à sua servidão.”


(Aldous Huxley, Admirável Mundo Novo)




Sinal número 1: Eu deveria ter acreditado que aquela terça feira não seria muito tranqüila quando eu fui atropelada por uma bicicleta ao fazer minha caminhada matinal no Aterro do Flamengo, no Rio, perto de onde eu moro. Mas eu não acredito em Sinais, nem em n’O Segredo – talvez devesse começar a crer, pois nesse país qualquer racionalidade perdeu sua razão de ser. Mas voltando ao meu atropelamento: um psicopata de um adolescente de 15 ou 16 anos simplesmente enfiou a bicicleta em mim. Eu, quietinha, andando na minha mão e o maluco mete o guidão no meu braço, causando uma dor absurda no meu cotovelo e adjacências. O mongol se vira pra mim: “machucou?” – as pessoas têm uma necessidade de perguntar o óbvio, acho que só pra terem o que falar – “machuquei!”, respondi, o que não adiantou nada porque o cara não fez nada. Ele ainda se estabacou no chão. Bem feito. Prestenção da próxima.

Fiquei um pouco roxa e dolorida no braço, mas cheguei em casa e pus gelo. Pensei: “nossa, só que me faltava eu ser atropelada e não poder viajar”.



***


Sinal número 2: chegando ao aeroporto do Galeão - agora Tom Jobim - descubro que o Santos Dumont, o outro aeroporto do Rio que faz a maioria dos vôos nacionais, pegou fogo. Todos os vôos estavam sendo transferidos pro Galeão, o que podia ser aferido pela gigante fila no balcão da Gol. Beleza, eu ia de BRA.


***


Sinal número 3: Chego ao balcão da BRA e ele está vazio e fechado. Descubro que o embarque seria pelo balcão da Ocean Air. Como assim, Ocean Air? (para os não iniciados: essa é a empresa que faz o vôo das pessoas que ficam perdidas na ilha no seriado Lost). Tentei argumentar isso com as pessoas que iam comigo, mas elas apenas riram; são historiadoras, não assistem televisão, muito menos seriados.

Eu deveria ter parado por aí, afinal três é um número cabalístico. Mas eu não acredito em Cabala.


***


Fizemos o check in com um aeromoça de sorriso trincado que disse: “o vôo de vocês era o 1012, mas agora ele se chama 1002, mas é o mesmo vôo [??]. Peço que vocês entrem para a sala de embarque às 20:14 e prestem atenção ao alto-falante. Não confiem na televisão com os horários. Também não confiem em quaisquer outras informações”. Meu Deus, eu estava diante de um Beta! Achei que ela ia completar com um: “inclusive não confiem em mim” enquanto a cabeça dela explodiria, deixando à mostra todos os fios.


***


Sinal número 4: Fomos fazer um lanche antes do vôo. Tô vendo o Prantão da Grobo passando, mas tô pensando: “deve ser a história do Santos Dumont”. Também ouvi alguém dizer algo sobre explosão na mesa ao lado, mas também ignorei. Ou quis ignorar. Então alguém manda uma mensagem de celular pra uma das meninas que estava comigo contando sobe o acidente da TAM. Apavorei. Liguei pra casa e peguei as informações completas com Formiga Mãe e Formiga Irmã. Tudo bem, um raio não cai duas vezes no mesmo lugar, certo? Hahaha...mas estamos no Brasil sil sil onde dois acidentes de proporções gigantescas acontecem em menos de um ano, matando ao todo quase 400 pessoas e tudo bem. A gente continua. A gente acostuma com tudo nessa vida. A se contentar com pouco, com explicações esfarrapadas e justificativas injustificáveis.

Meu vôo estava marcado para as 20:35 e eu finalmente consegui embarcar às 23:20. Agora ia. Ia?


***


No avião as comissárias estavam bem agitadas. Duas amigas que iam comigo – éramos quatro no total - não conseguiam fechar seus cintos de segurança que eram diferentes dos restantes. Chamamos a aeromoça que disse: “nossa, que estranho!” - ao que o cara do meu lado respondeu: "puxa, só espero que o motor não esteja aí!". A aeromoça achando estranho te deixa super tranqüilo. Ela chama outra mocinha que vêm com outros cintos. Ao chegar ela percebe que elas estavam com as pontas trocadas. Arruma tudo e faz um comentário do tipo: “ah e vocês ainda me fizeram mexer nesses cintos lá em cima, hein?”, um tanto quanto jocoso.

Outro cara fez uma observação de que, por estarmos nas poltronas localizadas na saída de emergência, não poderíamos estar com casacos e bolsas no colo e sim guardados no compartimento de cima. Disse que ia reclamar quando chegasse em terra. Mal sabia ele que, diante de todo o transtorno que passaríamos, isso seria o de menos.

Aviões são ambientes que propiciam comportamentos estranhos das pessoas. O mínimo que se pode esperar de uma tripulação é que ela seja calma e gentil. Ainda mais diante dos problemas aéreos que viemos enfrentando. O mínimo. Mas no Brasil já perdemos a noção de mínimo há muito tempo. E cobrar isso do elo mais fraco da cadeia seria injustiça. Só estou mostrando a situação de despreparo e descontrole do povo da aviação. Nego já ligou o foda-se há muito tempo. Não quero dizer que eles não tenham razão. Não estou julgando, apenas constatando.

Quando estávamos quase chegando à Porto Alegre, uma da manhã, uma das pessoas que estava comigo ouviu o comandante dizer alguma-coisa-voltar-para-São Paulo. Hein? Como assim? Claro que não! Mas outros passageiros também ouviram. Passa uma aeromoça e resolvemos perguntar. Ela responde: “não sei eu também não ouvi, vou pedir pra ele repetir”. Ô, ou. Cindacta, we have a problem.

Uma outra comissária repete o aviso do comandante: “nós não obtivemos autorização de pousar em Porto Alegre, o aeroporto está fechado e estamos retornando para o aeroporto de Guarulhos, em São Paulo. Lá vamos saber o que acontecerá com vocês e conosco”.


Apertem os cintos. O piloto sumiu.



***


As pessoas ficaram totalmente agitadas e perguntando por que diabos não dava pra pousar num lugar mais perto de Porto Alegre, tipo Curitiba. “Não obtivemos autorização” era tudo que o comissário dizia. “A torre mandou voltar pra SP. Não podemos correr o risco de chegar em Curitiba, o aeroporto estar fechado e não ter mais combustível”. “E se não tiver mais combustível?” – pergunta um passageiro incauto. “Aí a o avião cai”, responde calmamente o comissário.

Novamente eu digo: eu acho que o papel da tripulação é, entre tantos outros, acalmar os passageiros. Ainda que o avião esteja caindo.

Raciocinem comigo: um mega acidente tinha acabado de acontecer exatamente na rota onde estávamos, POA e SP. De repente você recebe uma informação dessas de que você vai ter que voltar. O que você pensa? Tudo. Você se lembra que existem pontos cegos na aviação brasileira. Que aviões se chocam no ar ou não conseguem frear em solo. Que aeroportos fecham no meio da noite. Que você tem um presidente Lulalelé (com diz a Fal), que ameaça com “prazo e hora” pra crise acabar como se palavras de efeito solucionassem as coisas por si só. Enfim, você se lembra de que está no Brasil sil sil. Onde tudo pode acontecer e ninguém vai ser punido. Quem garantia que chegando à Guarulhos eles não iam dizer que também estava fechado e nós íamos ficar vagando de um lado pro outro até o combustível acabar? “E se a gente não puder pousar em Guarulhos?”, perguntei. O comissário: “lá sempre pode”. O porquê eu não entendi.

Tudo bem, mau tempo acontece. Agora, o que me espanta é que no resto do mundo existam condições tão adversas e até muito piores do que as daqui e os acidentes são menos freqüentes. E, até hoje, o mau tempo não dava tantos problemas. Porque de um ano pra cá isso começa a ser usado como desculpa eu não sei. Quer dizer eu sei e todos nós sabemos. Mas vamos fingindo que não sabemos e deixando pra lá.

Chegando em Guarulhos um vapor quente começa a elevar sensivelmente a temperatura do avião. Pronto. Era agora. O piloto diz que não havia lugar pra estacionar e esperaríamos na pista, mas que as pessoas podiam ligar seus celulares para dar notícia para os familiares. Eu já tava quase abrindo a saída de emergência – que era do meu lado – ou solicitando aqueles escorregadores, ou me jogando na pista de qualquer jeito; qualquer hipótese era melhor do que ficar cozinhando (literalmente) dentro daquele avião. Resolvo ir ao banheiro. Lá fico escutando as aeromoças conversando: quer chegar no horário? Vai de ônibus! Aviação é assim. Não tá vendo jornal, não? Devia era deixar sair todo mundo no meio da pista! Povo afobado!”. Ela estava reclamando de um passageiro que ficou nervoso e queria descer. Saí e aproveitei pra pedir um pouco d’água. Ela começa a puxar assunto comigo. Eu disse que entendia o ponto de vista delas, mas que elas também tinham que entender que os passageiros estavam nervosos. Aí ela começa a dizer que elas estavam uma pilha, que muitos amigos tinham morrido naquele acidente da TAM e que Congonhas era um absurdo, devia ter sido fechada há muito tempo...em resumo: as aeromoças aproveitaram pra desabafar comigo – e eu vi que elas estavam realmente precisando. Por fim ela disse: “sabe o que precisava acontecer? Parar todo mundo da aviação. Piloto, comissário, controlador...”. Aí eu fui obrigada a concordar veementemente. A outra aeromoça, com os olhos meio úmidos, só repetia: “mas o povo é mole...”.

Conseguimos uma vaga, descemos, fomos levados de ônibus – EM PÉ - para um hotel no centro de SP, Holliday Inn (muito bom, por sinal, queria ter ficado só mais umas quatro horas lá). Deitamos às quatro da madrugada e às seis nos chamaram. Pra ir pro aeroporto. Pra sair sabe lá Deus que horas. Para chegar sabe lá Deus que horas. Pra torcer pra chegar. Minha apresentação no congresso era às duas da tarde. Acho que até conseguiria trocar com alguém, mas...não tinha mais condições. Cheguei no meu limite. Joguei a toalha. Me rendo.

Consegui ir pro terminal rodoviário do Tietê depois de tentar ligar pra lá por cerca de meia hora e só dar ocupado - tudo em SP é gigante, existem três ou quatro rodoviárias, tudo tem milhares de ramais, nada é simples, nada é perto, nada é vazio. Eita cidade estranha, sô! Por sorte eu estava a 15 minutos desse terminal e tinha um transporte gratuito do hotel pra lá. E de lá saíam ônibus pra maioria dos locais. Enfim, livre.


***


Depois, em casa, desfazendo minha mala eu olhei o artigo que eu NÃO apresentei, a roupa que eu tinha comprado e NÃO usei...e agradeci. Porque as pessoas do vôo JJ-3054 da TAM nunca mais vão usar roupa nenhuma. A moça que estava indo à SP experimentar o vestido de noiva não vai mais casar. O rapaz que estava com o estômago ruim e pediu pra mãe fazer uma sopa e saiu mais cedo do serviço nunca mais vai tomar sopa, nem nunca mais vai ficar com o estômago ruim na vida dele. A moça que ficou uma hora a mais na TAM express pra terminar o serviço atrasado nunca mais vai atrasar nada. As criancinhas que falaram com a mãe pelo telefone e disseram que queriam ver Harry Potter quando chegassem em casa nunca mais irão ao cinema. Alanis, garotinha de 2 anos que viajava com seus pais e seu cachorrinho de pelúcia chamado Bubu nunca mais vai abraçar Bubu. Nunca mais. Com o corvo agourento de Poe dentro da minha cabeça eu só consigo ouvir esse tique taque: nevermore. Gruuuuu! E eu sei que eles não serão os últimos.

E aí eu penso na situação de desamparo a que a gente chegou. Ah, mas o povo agora come arroz e feijão. Sim, agora o povo apenas posterga sua morte; ao invés de fome, morre de bala perdida; na fila do hospital; dizimado nas cadeias (onde só existe pobre e preto); confundido com marginal; vítima da violência... Mas eu sei que há os que dirão que eu não sei o que é passar fome e que isso é uma típica reclamação pequeno-burguesa. E que a gente melhorou muito comparado a...ditadura? Governo Sarney? Fala sério. E que quem anda de avião é classe média, como disse uma de nossas otoridade. 1) Aviões baratearam bastante, não sei se é só classe média que viaja e 2) Classe média pode morrer, né? Classe média não é povo?

Eu sei que em momentos de crise é comum a gente perder a noção e sair acusando qualquer pessoa, querendo achar culpados para as fatalidades que às vezes não se explicam. Mas não é esse o nosso caso. Nesse caso há culpados. Há responsáveis. Ainda que seja falha da TAM (todos os especialistas entrevistados pelo Globo dizem que essa falha por si só não teria causado o acidente. Ah, mas eles foram entrevistados pela Globo, né? Que faz parte da Grande Conspiração para derrubar o Único Presidente na História Desse País a Fazer Alguma Coisa de Verdade e que ameaça as elites*), quem é que regula as normas de aviação? Não são os órgãos federais? Se a falha for na pista de Congonhas, porque liberaram a pista antes dos tais grooving ou ranhuras terem sido feitos? Como disseram vários especialistas, um acidente dessas proporções não tem um único culpado. É um conjunto de fatores. Mas que, quase todos são de responsabilidade do governo.

Há quem diga que existem países em condições piores que o nosso. Claro que existem. Guiné-Bissau, Gana, Serra Leoa e mais meia dúzia de países africanos estão bem piores, além de um ou outro hermano sul-americano. Tem lugar me que as pessoas negociam água potável. Mas a questão é: eu achava que a gente era bem melhor que esse povo. Até quando vamos nos contentar com migalhas? Com melhoras que podem não ser as que esperávamos, mas ainda assim são melhoras?

Houve um tempo em que se podia dizer que a saída para o Brasil era o aeroporto. Hoje nem isso. Houve um tempo em que se dizia “o último a sair apague a luz”. Já estamos no escuro. Nada, ninguém ou coisa alguma pode nos salvar. Como disse a aeromoça do meu vôo: "vai morrer muita gente ainda até que se faça alguma coisa". Ela ainda é uma otimista. Eu não trabalho com a hipótese de solução. Eu não acho que alguma coisa vá ser feita. Ou possa ser feita.

Só nos resta darmos as mãos. Isso ainda alivia. Saber que só podemos chorar nossos mortos. Ainda que eles retornem em sacolinhas plásticas.

Vendo as reações de dor dos parentes dos passageiros eu me lembro de uma frase de Nelson Rodrigues: o verdadeiro grito soa falso. É quase animalesco, quase como se fosse uma encenação grotesca de um ator canastrão. Mas não é, não. É a dor em estado tão bruto que não a reconhecemos quando a vemos. É um grito que deforma.


* Ironia, caso não tenha dado pra notar.

sexta-feira, julho 06, 2007

De onde nascem os campeões?


PS: Para a leitora Flávia, que eu nem sei quem é, que comentou no post anterior. Eu juro que não tinha lido seu comentário quando escrevi isso! Quisera eu ter um milésimo da sua generosidade. São comentários como o seu que fazem o dia valer a pena. O desafio é fazê-lo valer a pena mesmo quando os comentários não chegam - ou chegam tortos.


A capa do Globo de hoje estampa uma foto enorme de Thiago Pereira, o nadador. Depois grande reportagem sobre ele no caderno sobre o Pan. E daí? De onde é Thiago Pereira? DE ONDE? DE ONDE? Da pior e da melhor cidade do mundo: a minha, a sua a nossa Ghoooooootam Cityyyyy! (Volta Redonda). Ainda vão descobrir que a água e o ar de Voltaço formam um novo tipo de ser humano, espécies de seres geneticamente modificados, mutantes, quase X-Mens, super e sub-humanos. Somos os Judeus do Vale do Paraíba, que saímos errando pelo mundo (literalmente) após a Grande Diáspora – que se dá na época do vestibular. Onde três pessoas se reunirem em qualquer parte do mundo, uma será de Volta Redonda. Somos quase gafanhotos. Gremelins. De vez em quando precisamos voltar e respirar o doce aroma da CSN, que nos faz recobrar os poderes de super heróis.

Formiga Irmã deu aula pro Thiago, de Português, nas quinta e sexta séries. Trabalhou com a mãe dele – que é professora de educação física e secretária de esportes de VR. Um dos meus irmãos namorou a tia dele. Thiago treinava no mesmo clube que eu freqüentava. Apesar disso, eu não o conheço pessoalmente. Dez anos nos separam. Mas sempre ouvi as histórias dele e a subida rumo ao pódio. E me sinto um pouquinho lá, toda vez que o vejo ganhando uma medalha, toda vez que a Rose, mãe dele, grita “Vai, Thiago!” desesperadamente. A gente que é do interior tem isso. Uma necessidade constante de mostrar pro mundo que nós somos bons, nós existimos.

Desde pequeno Thiago ia nas festinhas de criança e não tomava refrigerante. Não era bom para atletas. Sem que ninguém mandasse. Como se ele sempre soubesse que ia ser um campeão quando crescesse. Imagino que também não deva ter sido muito fácil não beber numa cidade pequena durante a adolescência. Toda energia dele sempre foi para os esportes. Eu sempre fui uma péssima atleta. Certa vez fiz cesta pro time adversário, tamanha a minha concentração na hora dos jogos. Talvez se me esforçasse mais, seria melhor. Mas nunca quis me esforçar muito nos esportes.

Aí fiquei pensando numa coisa que volta e meia escuto as pessoas falarem: no tal talento ou dom. Eu não acredito em talento ou dom. Não num talento bruto que nasce com cada um de nós. Não da forma que as pessoas falam, como se o talento fosse fundamental para tudo. Se é que existe algo parecido com isso é uma parte muito pequena. Acredito em algumas aptidões que podem ou não serem desenvolvidas de acordo com a vocação de cada um. A vocação é muito mais importante do que o talento. Tipo: eu tenho facilidade ou aptidão para a música (aposto que Formiga Irmã vai me sacanear por este comentário, mas tudo bem), mas não tenho vocação. Não quero, não sou muito ligada. Gosto, mas me contento em ser ouvinte. Já para o teatro, eu tinha vocação, mas muita dificuldade. Comecei a fazer muito tarde e sempre fui muito tímida. Insisti e me desenvolvi, mas percebi que a vocação não era tão grande quanto eu imaginava – às vezes acontece isso, você pode ter uma vocação latente mas ela não passa disso. A vocação te faz tomar porrada e voltar pro ringue, quantas vezes forem. Quanto mais te batem, mais você cresce. Cansei de tomar porrada no teatro. Não via mais sentido. Já pra outras coisas eu apanho sorrindo. Porque ainda é muito pouco, perto do bem que me traz. Pra desenho: tenho zero de aptidão e zero de vocação. Enfim. Tô dando todos esses exemplos porque detesto isso de “nossa, Fulano tem um talento natural para...”. O talento ou dom é 5% da coisa toda. Como diria Drummond, poesia é 90% transpiração e 5% de inspiração. Às vezes as pessoas falam coisas como “você escreve com tanta facilidade!”. Ppppffff! Em primeiro lugar, escrever pra mim é igual respirar: faço desde criancinha, preciso, quem vê de fora acha que é fácil, mas só eu sei o quanto dói. Tem horas em que o ar falta. Mas o que eu posso fazer, deixar de respirar? Em segundo lugar, alguma técnica é natural depois de anos de prática. É igual qualquer outra coisa na vida. Eu escrevo cotidianamente desde uns 9 anos de idade. Logo, pode parecer que é fácil. Só aparência.

E pro esporte mais ainda. Quem diria que um garoto de 11 anos ia ficar sem beber refrigerante porque isso seria importante pra carreira dele? Nem a mãe dele mandava ele fazer isso. É algo dele. Talvez já uma vocação muito forte. Ao lado dele tinham muitos outros garotos tão bons quanto ele, que treinavam no mesmo lugar. O que fez dele um campeão olímpico? Um conjunto de fatores. O que faz de certos artistas geniais? Um conjunto de coisas. Mas antes de tudo tem que haver o desejo, a vocação – que vem do latim: chamado. Mas se você ainda não ouviu o seu chamado, não se desespere. Apure seus ouvidos. Aprenda a ouvir. E siga adiante. É a única forma de ser feliz. Não se engane com dinheiro, carros, mulheres, drogas. Não existe felicidade maior do que atender a sua vocação. Não perca tempo fazendo outras coisas. É sério.

Ah, ficou piegas pra caralho esse final, aliás o post todo; Jorjão tá aqui se esbaldando de rir, mas é no que eu acredito. Mesmo. Por isso eu sou feliz. Sim, eu sou feliz!!! Embora às vezes não pareça, pois eu sou reclamonazinha. Ainda que o mundo caia eu consigo escutar minha vocação. Isso é felicidade. Não ter problemas não é felicidade. Felicidade é ter algo só seu. Que ninguém te tira. Que te preenche mesmo na mais total e absoluta solidão. Mesmo com todos os problemas do mundo. De onde nascem os campeões? De nós mesmos. Quando despertamos. Sempre há tempo.

segunda-feira, maio 28, 2007

A RCTV e o silêncio das esquerdas


Participo de algumas listas de discussão “de esquerda” que me mandam diversos manifestos contra ou a favor de um monte de coisas. Quase sempre recebo os mesmos textos duas, três vezes. Em geral, são abaixo-assinados ou petições de apoio à democracia, contra autoritarismos, a favor de movimentos sociais diversos. Na maioria das vezes eu concordo e até assino. Outras não são nem um pouco democráticas – pelo menos no meu entender -, como o link que eu recebi para ver “as verdadeiras notícias de Cuba”. (Nada, ninguém ou coisa nenhuma vai me convencer que é bom você viver sob uma ditadura – ainda que o argumento que venha em seguida seja sempre: “mas não vivemos em uma ditadura? A ditadura do Capital?”. Sim, vivemos. Mas eu prefiro essa à do Fidel. Acho perfeita aquela frase do Churchill: "Ninguém pretende que a democracia seja perfeita ou sem defeito. Tem-se dito que a democracia é a pior forma de governo, salvo todas as demais formas que têm sido experimentadas de tempos em tempos". Há quem veja nisso uma perspectiva liberal. Eu não).

Mas o que eu queria dizer com isso é que me espanta que em nenhuma dessas listas tenha aparecido nenhuma manifestação contra o fechamento da RCTV, rede privada venezuelana. Hugo Chávez, por considerar que a TV agiu na tentativa de derrubar seu governo – governo esse, ditatorial – fechou a rede. No seu lugar, mais uma rede estatal louvando Chávez e a sua “revolução bolivariana”.

Achei isso uma das coisas mais repulsivas de todos os tempos. E estranhei que não tenha havido nenhuma convocação nessas listas para nenhuma manifestação em frente ao consulado da Venezuela; nada, nada. Silêncio.

Lembrei-me de um trecho de “Os justos”, peça de teatro do Camus que eu li recentemente. Os personagens são socialistas revolucionários que se preparam para matar o grão-duque. Na hora H um deles titubeia, porque há crianças na carruagem:


Stepan: Não tenho paciência para essas patetices. Só quando nos decidirmos a esquecer as crianças, só nesse dia seremos os donos do mundo e a revolução triunfará.

Dora: Nesse dia, a revolução será odiada pela humanidade inteira.

Stepan: Que importância tem, se a amarmos o bastante para a impor à humanidade inteira e a salvar de si mesma e da escravatura?

Dora: E se a humanidade inteira rejeitar a revolução? E se o povo, por quem lutas, recusar que os seus filhos sejam mortos? Deveremos matar, mesmo assim?

Stepan: Sim, se for preciso, e até que o povo compreenda. Eu também amo o povo”.



Ou seja, a esquerda ama mais o povo e o entende mais do que a direita e em nome disso pode fazer qualquer coisa. Até fechar uma rede particular de televisão (mas com certeza a esquerda deve ter alguma teoria conspiratória sobre o fato, que não é bem isso e blá blá blá). Até matar. Até a revolução. Mesmo que o povo não queira. É a velha idéia de que o povo é uma criança, não sabe o que faz e precisa ser conduzido. É a vanguarda revolucionária que deve dirigir a massa. Alguma diferença do discurso da direita? Em "fazer o bolo crescer para depois dividi-lo"?

Sinto dizer que no Senado a única pessoa que se manifestou contra o fechamento da RCTV foi o...Sarney (!!!).

Esse mundo...vocês sabem. Não me pertence. Nem o da esquerda, nem o da direita.