terça-feira, janeiro 22, 2008


Novelas são obras de ficção. Ainda que realistas, pautam-se por situações inusitadas e absurdas – não entrarei no mérito de que a realidade é mais absurda do que a ficção; que ficção não é mentira, é apenas uma convenção; que a arte nunca representa, mas apresenta lados da realidade e todos os problemas decorrentes da complexa relação entre a arte e realidade, nem o que significa essa última.

O fato é que uma reitora perua como a Suzana Vieira, numa universidade particular como a dela, até passa no quesito credibilidade – o coordenador do campus onde eu dava aula, cuja universidade também era um nome duplo, pintava o cabelo de preto. Aquela coisa suuuper natural, sabe? Grecim 2000. E adorava arrotar conhecimentos sobre a elite do pensamento nacional (e seu relacionamento com ela) e seu passado na universidade pública, enquanto foi pra privada (com trocadilho) para encher a burra de dinheiro. Mas voltando a Suzana. Tudo bem ela ser perua e ter um cabelo louro até na cintura e unhas de gavião. Tudo bem ela ir com um mega decote em uma reunião cujo reitor e namorado dela está sendo acusado de racismo. Tudo isso é crível. Agora o que eu não entendo, realmente não entendo, é que existam tantos professores que façam oposição direta a ela e continuem professores. Por muito menos – acreditem, muito, muito menos – eu vi pessoas, colegas professores, rodarem no meio do semestre. A universidade não se incomodava nem de pagar uma mega multa. Era demissão sumária. Ou perda de turma no meio do semestre. Você chegava e descobria que sua turma não era mais sua (não, não vou contar do aluno-pitboy que quis me bater; do segurança que ficava armado na porta da sala dos professores, com a desculpa que era por causa do caixa 24 horas e não deixava os alunos incomodarem os professores; do funcionário que passava fiscalizando se os professores estavam dando aula; dos alunos globais – sim, da rede grobo –; do verdadeiro desfile de modas e tal).


Como se não bastasse, em muitos capítulos atrás, a família da personagem da Letícia Spiller estava falando sobre a universidade. A garota, que é super inteligente – e usa um óculos fundo de garrafa, porque sabe como é, né? Quem é inteligente usa óculos –, dizia que queria estudar numa universidade pública e não na Pessoa de Moraes, a universidade da Suzana Vieira, particular. Aí o pai dizia: “deus me livre de enfrentar engarrafamento!” – pois as grandes universidades públicas do Rio ficam distantes da Barra, onde a família mora e onde a Pessoa de Moraes está localizada (humm...qualquer semelhança...). Aí a Letícia Spiller dizia: “pior não é o engarrafamento. Pior é cair um pedaço do teto enquanto você está estudando”. Oquei. É verdade. Mas aí ela completa: “sem contar que universidade pública não investe em pesquisa. Tudo que se produz em pesquisa no país vem das universidades privadas”. Uou! Peralá. Aí passou dos limites. Tudo bem, a gente até acredita na hipótese de que uma universidade particular (quando eu digo particular eu excluo as PUCs) possa ser de excelência, em algumas áreas. E que na universidade pública cai reboco da parede, isso cai. Mas dizer que a pesquisa vem da privada...puxa, isso é a única coisa que a universidade pública pode se orgulhar. De investir em pesquisa. De ter verba. Não acho legal dizer exatamente o contrário em rede nacional.

E a Pessoa de Moraes está fazendo um provão para pessoas carentes. Me lembrou esse meu coordenador Grecim 2000 que, dizia “nós é que promovemos uma verdadeira política das cotas”. Daí você passa a falsa idéia de que a universidade é para todos, pois se você não passou numa pública, porque não pôde estudar em um bom colégio, com tempo suficiente e cursos extras, pode passar numa particular. E que vai ser igual o estudante que saiu da pública. Mentira. Não me venham com esses papos de que “é aluno que faz a universidade e não a universidade que faz o aluno”. Baseado nesse princípio, a pessoa não precisa nem ir pra universidade. Basta ir pra uma biblioteca e estudar por conta própria. Você vai pra uma universidade pra ter um título, acima de tudo. Um título que vai ter mais ou menos peso, dependendo da universidade. E o que eu vejo, pelo menos em jornalismo é: os grandes editores, os grandes jornalistas, os cargos de chefia, são ocupados por pessoas de universidades públicas ou da PUC. Redes de universidade privada formam mão de obra barata. Formam a massa do jornalismo. Não que haja alguma coisa errada com isso. De jeito nenhum. Mas acho uma sacanagem você vender o sonho de que a pessoa pode chegar a ser a Fátima Bernardes (que fez UFRJ), quando ela não vai passar da seção policial do Extra. E dizer que “isso sim é inclusão social” e que somos todos iguais.

Eu dei aulas em universidade pública (um semestre) e privada (dois anos). Eu cursei universidade particular e pública. E eu vos digo: é impossível ser a mesma aula nos dois locais. Porque na universidade privada há um grau de coerção tamanho que o professor não pode dar uma aula que a média não entenda. E a média é sempre baixa. Cada vez mais baixa. E tem aquele papo do professor ter que dizer algo de todos entendam. Que, até eu dar aula, eu acreditava. Mas chegamos a um ponto que isso não é mais verdade. Claro que a universidade pública tem o problema do professor que falta, do maluco que dar a aula que quer, do outro que passa o semestre falando sobre os pré-socráticos quando a ementa da disciplina é sobre novas tecnologias...professor ruim e bom há em todo lugar. Mas o fato é que quando o aluno é um cliente e, como tal, tem sempre razão, a qualidade das aulas que você dá fica prejudicada. Saúde e educação não podem ser tratados como negócio.

Atualmente – bom, pelo menos até dois anos atrás, quando eu dava aula – nenhuma universidade privada do Rio, com exceção da que eu lecionava, pagava em dia os seus professores. Porque o nível de inadimplência é altíssimo entre os alunos. Os gastos em uma universidade são enormes. Logo, sobra pro professor (eu tenho uma teoria conspiratória de que grandes redes de ensino privado lavam dinheiro em atividades ilegais, mas deixa pra lá...). Então não tem como professor ser contra o reitor e não ser sumariamente demitido. É uma piada. Não tem como aluno fazer manifestação. Basta ele ir à coordenação, com mais dois ou três, que os professores em questão são demitidos. A rotatividade é muito alta. Tem muita gente querendo entrar. Tem cada vez mais gente fazendo mestrado e doutorado. A fila anda. Nenhum professor é insubstituível. Além disso, as universidades privadas não tem porque manter muitos professores doutores. Pois, por lei, eles são obrigados a pagar mais. Só que eles só precisam ter um número mínimo de doutores. Completado esse número, eles demitem. Se não é prejuízo.

Claro, óbvio e evidente que toda regra há exceção. Claro que tem alunos de universidades públicas com empregos merda e de privada em cargos de chefia. Também vai da vivência de cada um, de outras experiências...mas eu estou generalizando um comportamento. Além disso, estou falando basicamente de cursos de Comunicação, que são os que eu conheço um pouco mais.

Mas o que eu tô dizendo? No país que a gente vive, soa um pouco discussão do sexo dos anjos falar entre universidade pública e privada e as chances de arrumar emprego. É o roto falando do esfarrapado. A maçã falando que o tomate é vermelhinho.

8 comentários:

Alexandre Avelar disse...

é bem por aí mesmo. Por falar em universidade, fale pra sua irmã olhar no email dela um link que mandei para um concurso na área dela. Bjos

Carrie, a Estranha disse...

Minha irmã está em Cabo Frio, mas ela tá olhando e-mail de vez em qdo. É o de prof. substituto pra UFRJ?

bjs

Rosilene Biacchi disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Carrie, a Estranha disse...

Oi, Rosi! Bacana seu depoimento. Posso imaginar as coisas q vc diz.

Bjs

Bella disse...

cara, eu não vejo essa novela, mas minha mãe vê e eu passei na sala bem na hora dessa tal reunião e ela falou a msm coisa: q esses profs já teriam rodado há mto tempo numa universidade particular.
enfim, concordo totalmente com o q vc falou de uma maneira geral. mas confesso q fiquei mto decepcionada com a uff dps q fiz a transferência. acontece exatamente aquilo q vc falou do cara não dar aula, dar o q quer, chega atrasado e sai cedo, etc. pelo menos no curso de direito tá assim, eu sei q em outros a coisa é melhor como a letras q a cris dá aula.
talvez eu tenha dado azar nesse primeiro semestre. estou empolgada para o próximo (nas férias, sempre esqueço das minhas lamentações e volta a empolgação!)e quem sabe pego uns profs mais bacanas.
bjks

Anônimo disse...

Carrie querida do Coracao: Tambem fiz jornalismo, mas com uma grande diferenca: nos bons e velhos tempos... Fiz particular, sim, a Casper Libero em SP. Nossos professores eram barbaros, dentre eles: Pericles Eugenio da Silva Ramos, Chefe da Casa Civil do Governo do Estado (naquela epoca, eh claro); Helio Ribeiro; Erasmo Nuzzi, Murilo Antunes Alves (tb do Governo da epoca) Claudio Carsughi e tantos outros. Foi mais do que uma faculdade, + que escola: tive ensinamentos eticos inimaginaveis. Nossas aulas de Portugues eram magnificas (tinhamos 3 professores so de portugues). Foi demais. Orgulho-me da faculdade que fiz. Nao sei como ela possa estar hoje. Eramos jovens tambem (ja fui um dia!!!) mas sabiamos que dali dependia o nosso futuro. Aqui tb trabalho na area, embora os tempos mudaram e fui obrigada adaptar-me aos "novos escritos" mas adoro o que faco; faria tudo de novo; amo escrever, pesquisar como voce, aprender, melhorar, a cada dia. O que acho mesmo eh que o mundo esta de ponta cabeca (que pena!); os conceitos mudaram (para pior - que pena!) e so algumas coisas melhoraram (como a ciencia,etc - que bom); mas o resto, virou resto mesmo. Um comentario sobre as roupas: aqui tb (infelizmente) as mulheres expoem-se muito vulgarmente: e eu costumo brincar: vao trabalhar com roupa de praia...Procuro ser profissionalmente a melhor e mesmo que me chamem de "quadrada" (ainda se fala assim ai?) saio-me muito bem....faco mais o genero Hilary/Maria Elvira (uma jornalista muito seria que tem aqui) do que (nao lembro mais o nome de ninguem ai...)Gosto de brincar feito aquele programa que tinha "saia justa" como a mediadora fazia...queria contar mais coisas, mas vc vai acabar me mandando embora do seu blog...Beijos, beijos...Hetie

Carrie, a Estranha disse...

Hetie Honey of my heart,

Ah, mas a Cásper Líbero tb é um centro de excelência. E tb, há tempos atrás, era outra história.

bjs

Alexandre Avelar disse...

É para a FEderal de Goias, para assistente, exgindo só o Mestrado.