domingo, setembro 30, 2007

Ainda sobre Tropa de Elite ou It's (not) only cinema but I like it!


Eu não ia falar mais sobre isso, porque eu estou com cada vez menos paciência para assuntos sérios neste blog. Essa não é a proposta. A proposta aqui é realizar exercícios literários relativizando barreiras entre o ficcional e o real - além de cooptar pessoas para o meu projeto de dominação do mundo e pegar geral. Eu já sou séria demais na vida real pra fazer deste espaço um local de crítica de qualquer coisa – ainda mais da cultura de massa, da qual sou apologeta confessa e enaltecedora das propriedades intelectuais de Rock, um lutador e afins (e isso não foi uma ironia). Mas às vezes eu não resisto e tenho vontade de dar meus pitacos sobre assuntos quentes. Sim, esse é um daqueles looongos posts, leitor taquigráfico.

Antes de mais nada queria dizer que achei muito legal o que a Andrea escreveu sobre o fato da blogosfera ter levantado a bola sobre o filme bem antes da mídia tradicional. É nóis de Eco!
. Sim, é muito bom não ter editor, Andréa! Esse é o melhor emprego de jornalista que eu poderia arrumar. Pena não ter salário.

É impressionante que o debate sobre o filme tenha se resumido a polarizações “contra” ou “a favor”. Criticuzinhos e criticuzões falaram sobre isso nas últimas semanas em blogs, revistas e jornais. Você pode ser contra ou a favor do BOPE, mas contra ou a favor do filme?!! Longe de querer apontar uma suposta autonomia da esfera artística em relação à sociedade, é importante lembrar que o filme é escrito sob o ponto de vista do BOPE, então seria de se espantar se não reproduzisse este. Seria o mesmo que esperar que uma filmagem de Mein Kampf, livro de Adolf Hitler, não fosse anti-semita. A arte não pode ter a responsabilidade de consertar a realidade. Por que esse filme foi feito nesse momento, por que a sociedade aplaude e por que ele gerou tanta celeuma são questões muito mais interessantes, a meu ver. Enquanto as reações forem gritar “caveira!” ou “fascista!” ficaremos no mesmo lugar. Não é essa a questão. E qual é a questão? São várias. Não tenho a pretensão de apontar todas e nem dizer que são as únicas. Apresento uma visão parcial de alguém que não é especialista no tema.

Eu sou contra o que o BOPE faz, sou contra o caveirão, não sou a favor da pena de morte e não acho que a tortura se justifica num “estado de exceção” - além de ter minhas dúvidas sobre o fato do BOPE ser tão incorruptível assim (não vou entrar numa discussão de “e se matassem, estuprassem, esquartejassem sua filha...” e argumentos desse tipo. Sou contra e ponto e esse post não é o lugar para enumerar as razões. Já falei sobre isso algumas vezes aqui). Claro que o BOPE deve entrar em casa de trabalhador e sentar a porrada. Claro que devem errar tiro e matar inocente – o filme coloca que o BOPE nunca erra um tiro. E de maneira nenhuma isso é justificável porque “estamos em guerra” e na guerra se morrem inocentes também – o Osama também disse isso ao atacar o World Trade Center. Mas esse filme me fez, pela primeira vez, entender, compreender o BOPE e a polícia. Continuo não aprovando. Não concordo, mas passei a entender. Pela primeira vez pensei no policial honesto. Podem não ser todos incorruptíveis, mas comecei a pensar nos que são, de fato, incorruptíveis e o dilema que enfrentam. Me fez pensar nos que fazem Direito na PUC, como o Matias (é Matias, mesmo?), tem que fechar os olhos quando os amigos fumam maconha e esconder que é PM. O leitor deve estar se perguntando: “o que adianta entender, mas não concordar?”. Pode ser ainda muito pouco, mas quando nos colocamos no lugar do outro é sinal de que conseguimos desenvolver a compaixão – e compaixão não é peninha; é talvez o primeiro passo para se mudar uma situação.

Uma das frases do filme ficou ecoando na minha cabeça: “quando morre policial ninguém faz passeata”. Esse foi o primeiro filme a falar do ponto de vista da PM. Policial também é gente. Também é povo. A gente – zona sul, zelite – esquece disso.

E esse filme irritou a Zona Sul. Irritou o Arnaldo Bloch, pois fala que o consumidor de drogas é também – não só o único – financiador dessa guerra. Dizer que o consumidor é completamente isento é de uma ingenuidade tão grande quanto acreditar que ele é o único responsável. Existiria traficante se não existisse quem comprasse? Outra coisa que irritou os “intelectuais de esquerda” e jornalistas é mostrar a venda de drogas na universidade. Pelamordedeus! Qualquer um que fez faculdade no Brasil sabe que se vende e consome droga à vontade em qualquer campus universitário, seja de universidade pública ou privada. Negar isso é negar o óbvio ululante.

Acusaram o filme de ter apaziguado a figura do capitão Nascimento – pois no livro há cenas muito mais chocantes onde ele oprime a população, como por exemplo quando obriga uma fila de meninas do morro a fazer sexo oral nele. É sempre muito complicada a adaptação de obras literárias para o cinema. Certos ângulos são privilegiados e, não raro, esses ângulos promovem a heroicização dos personagens, quando se trata de uma produção massiva como um filme desse tipo que é claramente bandido X mocinho. Impossível não torcer pelo Capitão Nascimento – ainda mais sendo feito pelo espetáculo do Wagner Moura, o gostosão do momento (e bota gostosão nisso). Impossível não vibrar quando o Matias pega o Baiano e “dá na cara” mesmo, que é pra estragar o velório. Mas, daí achar legal as fotos de bandidos totalmente desfigurados que alguns amigos me mandaram - entendendo erroneamente uma mensagem que eu passei com as máximas do capitão Nascimento (pra quem não leu, clique aqui) - vai uma longa diferença (quem quiser ver as fotos me escreva que eu mando. Só aconselho pra estômagos realmente fortes). Uma coisa é o filme, outra a realidade. Mas se você fala isso é tachada de colocar a cultura numa esfera autônoma, onde se pode tudo. Não é isso.

E o que é então? É pensar as contradições, pensar dialeticamente o que um filme deste representa. Pensar que este filme não legitima nem apregoa posições fascistas da sociedade e sim É a sociedade. Gostar do filme não é necessariamente – embora possa também ser – apoiar o BOPE. Você não é fascista por ter torcido pelo Capitão Nascimento. Pois a arte pressupõe um grau mínimo de abstração que te transporta pro universo artístico. Você lê ou vê Carrie, a Estranha e torce pra que ela bote fogo na cidade toda mesmo, afinal ela foi sacaneada pelos colegas da escola e eles merecem. Mas isso não quer dizer que você vá por fogo na sua cidade por qualquer um que te sacaneie. Você vê Assassinos por natureza
e torce por Mickey e Malory, mas isso não quer dizer que vá sair por aí matando – a não ser que de fato você seja perturbado. Você imita o de Niro na frente do espelho dizendo are you talking to me? Are you reaaaally talking to me?, mas não vai sair porrando todo mundo feito o Travis. Você torce por Vincent Vega e nem por isso será um matador. É isso o que fazem os grandes atores: deixar as pessoas apaixonadas por personagens que você sairia correndo na vida real. Te fazem ter pena do Olavo ter morrido no último capítulo – não por acaso feito pelo mesmo Wagner “tesão!!! U-hu!” Moura. Porque você vê humanidade neles. Você pode não concordar, mas compreende. Compreende que, talvez, sob as mesmas condições de temperatura e pressão – muita pressão – você agisse da mesma forma. Ou não. Compreende apenas que eles são humanos e nada do que é humano pode ser tão estranho assim.

Acreditar que o filme incentiva posições como as de matar bandido indiscriminadamente é acreditar que a superestrutura ideológica – pra cair numa abordagem marxista, já que muitas críticas do filme se dizem de esquerda e acusam o filme de ser de direita - reproduz a base material da sociedade ipsis literis – o que contradiz o que o próprio Marx disse sobre a famigerada metáfora: pra gente não se esquecer da dialética, de que no meio do caminho há a dialética. Se a cultura É a sociedade, ela teria o poder de influenciar as ações? Mas ao mesmo tempo se há um grau mínimo de abstração, no qual somos transportados momentaneamente para outra realidade, estaríamos, de alguma forma reproduzindo essa sociedade nos filmes? E isso seria tão ruim assim ou deveria servir para pensarmos sobre nós? Tostines vende mais porque é fresquinho ou é fresquinho por que vende mais? Jacaré no secu anda?

Enfim, elucubrações. Hipóteses. Discordem. Palpitem. Pensem. Eu vou ali ver minhas seriezinhas de TV. Meus enlatados que emburrecem e nos quais eu fui exposta desde a mais tenra idade – se vocês forem expostos a esses horríveis produtos da cultura de massa vão ficar burros assim que nem eu, pois a Nídia, a Dona Nída, manipula. Mas acima de tudo, vejam o filme. Seja comprado no camelô ou no cinema – não importa. Veja.

Escrevi pra caralho hein, plebe? Sabem o que isso significa. Vinte comentários. Ou então pede pra sair. Eu não sou moleque. Minha farda é preta.

12 comentários:

Anônimo disse...

Ótimo texto, Capitã Formiga!!!
Beijos,
Bibi

Carrie, a Estranha disse...

Formiga Irmã, vc é o novo xerife.

Andréa disse...

Carrie, seu texto é excelente e deixa muito pouco a ser complementado. Eu acho que fizeram um barulho danado com a pirataria do filme - como se fosse o primeiro filme a ser pirateado antes de ser exibido. O lado bom é que trouxe à tona a discussão da pirataria. Que não é somente crime, mas resultado da exclusão, que faz um cidadão optar por R$ 1,50 por um DVD pirata no lugar de R$ 20 (média) por um ingresso no cinema.
Meu único medo é que isso tire o brilho do que deve ser realmente discutido. Concordo e muito de isso não virar meramente "contra" ou "a favor". Mas, essencialmente, de a discussão ser em torno da Polícia em sua essência e nas aplicações da lei, que fazem uma pessoa ser presa ao roubar um sabonete e inocente por roubar milhões de reais dos cofres públicos.

Fico irritada com essa mania de a sociedade discutir apenas as conseqüência das coisas.

É isso. Desabafei.
Beijos
Andréa

Carrie, a Estranha disse...

Onde q é 1,50? Eu paguei déreau! Sacanagem. Descriminação contra a Zelite.

Vc é a Andréa q eu cito?

Bjs

Bárbara disse...

carrie, acho q o grande mérito do filme é realmente nos fazer entender o lado da polícia. pensar no policial honesto e nos seus dilemas. alguns acham q este entendimento está diretamente ligado a concordar com a postura. mas estes são os q não entendem a diferença entre compaixão e peninha, como vc disse. seu texto não deixa mesmo muito a comentar pq toca nos pontos principais para sair do pretinho básico do "contra ou a favor". só não dá para deixar de comentar uma coisa: o q é o WAGNER MOURA pelamordedeus!? gostoso, dando show de atuação e ainda escrevendo bem... rs rs rs

Andrea disse...

Carrie, é duro ler o que vc escreveu pois tenho muitos amigos queriso e bem intencionados ( tal e qual as patricinhas escralecidas de Tropa de Elite) que ficaram dodóis com o filme que, para mi tem sim o mérito de mostrar como é ser também policial e oprimido. Enquanto a gente viver num mundo em que quem nos proteje precisa ter vergonha de se mostrar fica bem claro quem está no comando.

(Ai, será que meu comentário foi fascista?...rs)

Também andei falando do filme aqui:
http://pra-que-blog.blogspot.com/2007/08/pega-um-pega-geral-tambm-vai-pegar-voc.html

Depois passa lá. Bjs

Carrie, a Estranha disse...

Andrea,

Já tinha lido, mas na época ainda não tinha visto o filme. Aliás, a sua "crítica" foi uma das q me motivou a vê-lo.

bjs

Andréa disse...

Ih, vou assinar como Andréa Natal... o primeiro comentário foi meu, mas eu nem tenho blog... o mérito é da outra Andréa.

Ah, em Sampa você descola até por 1,50... impressionante...

Andréa disse...

Carrie, eu de novo:)

Não sei se você já viu, mas a Fal voltou com o blog!

Beijos
Andréa Natal

Carrie, a Estranha disse...

Sim, Andréa! Eu vi! Obrigada pela lembrança.

Anônimo disse...

Olha em 1° lugar eu achei a novela muito boa mas boa mesmo, mas em 2° lugar odiei a abertura, cinceramente é orrivel.

Espero que mudem essa abertura.

Des de já agradeço

raquel disse...

Eu confesso que ainda não vi tropa de elite. Sou meio esquisita mesmo, não tenho carteirinha de estudante falsa porque acho que o cara do cinema vai olhar na minha cara e perguntar se eu não tenho vergonha, não compro dvd pirata, essas coisas. E não tenho mais dinheiro pra ir no cinema, então, enfim, me conformo. Fui criada assim: não tem dinheiro? Então não compra, ué. Simples assim...
Bom, eu adorei seu post. Sempre achei muita cara de pau da galera ir na passeata pela paz e depois comprar maconha fingindo que não sabe o que tá patrocinando.
Mesmo sem ter visto o filme, li sobre ele e sei que ele joga isso na cara da galera. E gostei.
Bom, achei seu blog no blog da mônica, sou prima dela e amiga da fernanda também.
muito bom seu blog, vou ler mais.
bjo