Eu quero viver de um jeito novo, só isso. Se não dá para mudar o mundo, é preciso que eu tente ao menos mudar a mim mesmo. Só que não quero fazer isso sozinho. Já me sinto suficientemente sozinho, não sei se por culpa minha ou não" (Paul Auster, em "Desvarios no Brooklyn).
Ando em um momento meio Paulo Coelho. Achando que o Universo está conspirando – ainda não tenho certeza pelo quê ele está conspirando. Talvez a melhor palavra seja convergência. Quando passo um tempo pensando em uma questão, parece que todas as coisas à minha volta me gritam a resposta. Na verdade não se tratam de respostas, mas do fato de sempre enxergarmos aquilo que nos toca mais.
Hoje fui ver o novo filme do Sean Pean (amo, amo, amo...em todos os sentidos. Nos mais luxuriantes, inclusive. Adoro o nariz torto e a capacidade dele se fazer horroroso em certos ângulos. Como se não bastasse, o cara pegou a Madonna. Period. Ele não precisava fazer mais nada da vida porque ele foi o grande amor da Madonna. Pára. Mas ele faz. E deu pra fazer além de papéis muito, muito fodas, filmes muito, muito fodas). Voltando à razão, o filme é “Na natureza selvagem” (Into the wild). Dirigido e roteirizado por ele, baseado na história real de Christopher McCandless, recém graduado, com perspectivas de cursar direito em Harvard,que simplesmente resolve doar suas economias (U$ 24.000,00) pra caridade e sair com uma mochila nas costas rumo ao Alasca, em 1992. A história dele foi transformada em livro pelo jornalista Jon Krakauer. A velha narrativa do herói que parte em uma viagem que se revela uma experiência espiritual radical. Até aí nada demais. Diversas outras histórias falam disso. Se você quiser saber mais da história (e não se importa em saber o final do filme) clique aqui. O filme é ingênuo e romântico. Mas de um jeito bom.
(Parênteses: acabo de descobrir que o ator principal, Emile Hirsch – isso lá é nome de homem? – é o mesmo de "Alpha Dog". O protagonista. Quase não o reconheci).
Começando o post novamente: ando inquieta com a capacidade de respondermos de forma convencional (leia-se: de acordo com o que a sociedade pensa e espera) e de forma não-convencional à nossa própria vida. E o quanto o convencional pode se mostrar não convencional e vice versa. Complicou? Explico. Falo das singularidades que construímos para lidarmos com nossas vidas e de como elas obedecem a padrões – até mesmo quando estão supostamente fora dos padrões. “Não cabe ao homem colocar-se em oposição à sociedade, mas manter-se em atitude compatível com as leis do seu ser”.
Não-corresponder-às-regras-da-sociedade (e quando eu digo isso acho que dá pra entender do que eu falo), se tornou também corresponder. O fato é que num mundo onde não há mais modelos o modelo virou o anti-modelo. O que dá na mesma. O caminho continua bifurcado em direção à construção de uma singularidade – e não múltiplo, como de fato ele é. Existem tantas quanto indivíduos nessa Terra. “Não gostaria que alguém adotasse meu modo de vida por motivo nenhum; pode ocorrer que antes que o aprenda, eu já tenha descoberto outro pra mim, e além disso desejo que haja no mundo tanto quanto possível pessoas diferentes. Gostaria, sim, que cada um se empenhasse em descobrir e seguir seu próprio caminho, em vez do trilhado por seu pai, sua mãe ou seu vizinho”.
II
Tem uma propaganda absolutamente cretina passando. Da Fiat. A moça entra e diz algo como: “ai, depois de um dia de trabalho exaustivo, entrar no carro e sentir esse cheirinho de novo compensa qualquer coisa!”. Se a única recompensa de uma vida desgraçadamente exaustiva é um cheirinho de um carro novo...sinceramente, eu prefiro não ter carro. Ou não ter nariz. “E oh, que trabalheira dá a casa. Polir o diabo das maçanetas e esfregar as banheiras num dia de sol desses! Melhor não ter casa para cuidar”.
E pensar que 99% das pessoas do mundo vão viver esperando a hora de bater o ponto, o final de semana, as férias, e achando que isso é normal...me inquieta. Não é possível que tanta gente goste da mesma coisa. Ou eu sou a única pessoa lúcida do Universo ou, assim como Simão Bacamarte, talvez deva me trancafiar num hospício – pois quando você acha que só você está certo, o errado é você (“se o homem não acerta o passo com os seus companheiros é porque talvez ouça um tambor diferente”).
Aliás, propagandas de carro são um prato cheio na construção de singularidades-padrão. Compre aqui a sua singularidade, motorista! Num financiamento em seis anos! Num país onde a identidade em geral (e masculina em particular) se afirma pela posse de um veículo automotor, você é instigado a ser diferente o tempo todo – desde que compre a marca X.
Tinha uma em que a menina dizia que faz parte de um grupo de pessoas que não segue moda. Por isso o carro dela era Y. Tem uma outra cretina sobre desodorizante de carro. Diz que todo mundo usa aqueles do tipo folhinha pendurada no retrovisor, mas você pra ser diferente, deve usar o Gleid carro não sei o quê. “O gosto, infantil e bárbaro de certos homens e mulheres, pela última moda leva muitos à constante roda vida e a queimarem pestanas no caleidoscópio de formas e cores para descobrir qual é a crista da onda na geração atual. Os fabricantes, por sua vez, já sabem que esse gosto é puro capricho”.
E o mais bizarro é que isso funciona. As pessoas acham graça e nem percebem que elas fazem parte. E que a resposta pode ser andar de bicicleta, mas também pode não ser, porque se isso passa a ser um padrão, exclui a capacidade de ser singular. A resposta é a sua resposta. Mas a resposta dói. Dá trabalho. Leva tempo. E quem tem tempo?
III
O Filme do Sean Pean me lembrou muito “Juno”, outro excelente filme em cartaz. Nada ver as histórias – vai ver sou eu, enxergando semelhanças, porque minhas perguntas é que se parecem. “Juno” fala sobre uma adolescente que engravida de um cara que ela nem tá namorando. Mas Juno é estranhamente anti-convencional na sua convencionalidade – assim como “Na natureza selvagem”. Quando você acha que o filme vai dar uma reviravolta surpreendente ele pega o caminho mais óbvio – que logo se revela nem um pouco óbvio.
O que eu estou querendo dizer é que respostas convencionais ou não-convencionais não existem a priori no mundo. Não são conceitos absolutos. Existem em contextos.
E vendo esse filme do Sean Pean eu pensei em quantos de nós já saímos em busca do sonho da viagem de mochila nas costas como o padrão do jovem-rebelde-que-se-auto-conhece. Mesmo que ele vá de avião e fique em um hotel cinco estrelas com tudo pago pelo pai. É o modelo on-the-road pasteurizado. Jack Kerouac em 90 minutos – ou em 15 dias, uma capital por dia, todo fotografado e com pilhas de turistas japoneses ao seu lado. Viva. Acumule experiências. Faça a fila andar.
O filme é o oposto disso tudo. O moleque é um aspirante a escritor e leitor voraz e as referências à Thoureau são constantes, além de Tolstoi e Jack London...O cara simplesmente resolve viver. Ele não faz nada, pois ele vive. Zen-budismo, sem uma referência sequer. Ele não precisa de dinheiro – e, sério, na boa, isso não é hipocrisia, a gente não precisa de dinheiro mesmo. "Um homem é rico em proporção ao número de coisas que pode prescindir”.
IV
Poderia ficar aqui ad eternum dando exemplos. Do cara que se acha doidão e contra o sistema porque cheira aos 35 anos de idade – com o dinheiro do pai – do hippie da Cantão (loja), do Punk de boutique, da pessoa que se acha alternativa porque vai à Lapa (sábado à noite, junto com a torcida do Flamengo)...há singularidades para todos os gostos. Até o show do Ozzy Osbourne pode ser pago em 3 vezes no cartão. O cara come morcego no palco, mas você parcela no cartão. Alguma coisa está fora da ordem. Ou dentro demais.
Casal de atores cabeeeeuça, inteligentes e mudernos, faz propaganda de banco particular. Bancos são instituições mancomunadas com o demo, como todo mundo sabe. Mas tudo bem, porque eles podem. Ai, se fosse a coitada da Grazzi ou qualquer ex-BBB! Aí era ferro em cima. Mas grandes atores podem fazer propaganda de bancos. Porque eles patrocinam as peças, então tudo bem. É uma causa nobre.
E Pitty-Poser canta na final do BBB: “seja você, mesmo que seja bizarro” – e caiba na tela do BBB. Canta contra o sistema. Faz biquinho, entra de preto e de coturno – que ela deve ter comprado a uns 700 reais. Faz carinha de não assisto-a-esse-programa-chato-mas-estou-aqui-apenas-cumprindo-meu-papel. É preferível a Cláudia Milk (copyright by Battle). Entre a Sandy e a Pitty eu sou mil vezes a Sandy. Ainda que ela represente um conjunto de valores com os quais eu não compactuo. Mas eu tenho a impressão de que ela é ela (e pode ser apenas uma impressão, ou pode ser que o assistente de imagem dela seja mais eficiente que o da Pitty).
V
Todo mundo tem seu preço. O problema é que tem gente que se vende barato demais a troco de coisas muito caras.
VI
Tenham um bom domingo, crianças.
(Todas as partes em negrito e entre aspas referem-se ao livro “Walden ou A vida nos bosques” de Henry David Thoureau. Que, estranhamente, foram se encaixando no texto, e não o contrário. I Ching, Bel).


