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domingo, março 30, 2008

Into my wild

Eu quero viver de um jeito novo, só isso. Se não dá para mudar o mundo, é preciso que eu tente ao menos mudar a mim mesmo. Só que não quero fazer isso sozinho. Já me sinto suficientemente sozinho, não sei se por culpa minha ou não" (Paul Auster, em "Desvarios no Brooklyn).


Ando em um momento meio Paulo Coelho. Achando que o Universo está conspirando – ainda não tenho certeza pelo quê ele está conspirando. Talvez a melhor palavra seja convergência. Quando passo um tempo pensando em uma questão, parece que todas as coisas à minha volta me gritam a resposta. Na verdade não se tratam de respostas, mas do fato de sempre enxergarmos aquilo que nos toca mais.

Hoje fui ver o novo filme do Sean Pean (amo, amo, amo...em todos os sentidos. Nos mais luxuriantes, inclusive. Adoro o nariz torto e a capacidade dele se fazer horroroso em certos ângulos. Como se não bastasse, o cara pegou a Madonna. Period. Ele não precisava fazer mais nada da vida porque ele foi o grande amor da Madonna. Pára. Mas ele faz. E deu pra fazer além de papéis muito, muito fodas, filmes muito, muito fodas). Voltando à razão, o filme é “Na natureza selvagem” (Into the wild). Dirigido e roteirizado por ele, baseado na história real de Christopher McCandless, recém graduado, com perspectivas de cursar direito em Harvard,que simplesmente resolve doar suas economias (U$ 24.000,00) pra caridade e sair com uma mochila nas costas rumo ao Alasca, em 1992. A história dele foi transformada em livro pelo jornalista Jon Krakauer. A velha narrativa do herói que parte em uma viagem que se revela uma experiência espiritual radical. Até aí nada demais. Diversas outras histórias falam disso. Se você quiser saber mais da história (e não se importa em saber o final do filme) clique aqui. O filme é ingênuo e romântico. Mas de um jeito bom.

(Parênteses: acabo de descobrir que o ator principal, Emile Hirsch – isso lá é nome de homem? – é o mesmo de "Alpha Dog". O protagonista. Quase não o reconheci).

Começando o post novamente: ando inquieta com a capacidade de respondermos de forma convencional (leia-se: de acordo com o que a sociedade pensa e espera) e de forma não-convencional à nossa própria vida. E o quanto o convencional pode se mostrar não convencional e vice versa. Complicou? Explico. Falo das singularidades que construímos para lidarmos com nossas vidas e de como elas obedecem a padrões – até mesmo quando estão supostamente fora dos padrões. “Não cabe ao homem colocar-se em oposição à sociedade, mas manter-se em atitude compatível com as leis do seu ser”.

Não-corresponder-às-regras-da-sociedade (e quando eu digo isso acho que dá pra entender do que eu falo), se tornou também corresponder. O fato é que num mundo onde não há mais modelos o modelo virou o anti-modelo. O que dá na mesma. O caminho continua bifurcado em direção à construção de uma singularidade – e não múltiplo, como de fato ele é. Existem tantas quanto indivíduos nessa Terra. “Não gostaria que alguém adotasse meu modo de vida por motivo nenhum; pode ocorrer que antes que o aprenda, eu já tenha descoberto outro pra mim, e além disso desejo que haja no mundo tanto quanto possível pessoas diferentes. Gostaria, sim, que cada um se empenhasse em descobrir e seguir seu próprio caminho, em vez do trilhado por seu pai, sua mãe ou seu vizinho”.


II


Tem uma propaganda absolutamente cretina passando. Da Fiat. A moça entra e diz algo como: “ai, depois de um dia de trabalho exaustivo, entrar no carro e sentir esse cheirinho de novo compensa qualquer coisa!”. Se a única recompensa de uma vida desgraçadamente exaustiva é um cheirinho de um carro novo...sinceramente, eu prefiro não ter carro. Ou não ter nariz. “E oh, que trabalheira dá a casa. Polir o diabo das maçanetas e esfregar as banheiras num dia de sol desses! Melhor não ter casa para cuidar”.

E pensar que 99% das pessoas do mundo vão viver esperando a hora de bater o ponto, o final de semana, as férias, e achando que isso é normal...me inquieta. Não é possível que tanta gente goste da mesma coisa. Ou eu sou a única pessoa lúcida do Universo ou, assim como Simão Bacamarte, talvez deva me trancafiar num hospício – pois quando você acha que só você está certo, o errado é você (“se o homem não acerta o passo com os seus companheiros é porque talvez ouça um tambor diferente”).

Aliás, propagandas de carro são um prato cheio na construção de singularidades-padrão. Compre aqui a sua singularidade, motorista! Num financiamento em seis anos! Num país onde a identidade em geral (e masculina em particular) se afirma pela posse de um veículo automotor, você é instigado a ser diferente o tempo todo – desde que compre a marca X.

Tinha uma em que a menina dizia que faz parte de um grupo de pessoas que não segue moda. Por isso o carro dela era Y. Tem uma outra cretina sobre desodorizante de carro. Diz que todo mundo usa aqueles do tipo folhinha pendurada no retrovisor, mas você pra ser diferente, deve usar o Gleid carro não sei o quê. “O gosto, infantil e bárbaro de certos homens e mulheres, pela última moda leva muitos à constante roda vida e a queimarem pestanas no caleidoscópio de formas e cores para descobrir qual é a crista da onda na geração atual. Os fabricantes, por sua vez, já sabem que esse gosto é puro capricho”.

E o mais bizarro é que isso funciona. As pessoas acham graça e nem percebem que elas fazem parte. E que a resposta pode ser andar de bicicleta, mas também pode não ser, porque se isso passa a ser um padrão, exclui a capacidade de ser singular. A resposta é a sua resposta. Mas a resposta dói. Dá trabalho. Leva tempo. E quem tem tempo?


III


O Filme do Sean Pean me lembrou muito “Juno”, outro excelente filme em cartaz. Nada ver as histórias – vai ver sou eu, enxergando semelhanças, porque minhas perguntas é que se parecem. “Juno” fala sobre uma adolescente que engravida de um cara que ela nem tá namorando. Mas Juno é estranhamente anti-convencional na sua convencionalidade – assim como “Na natureza selvagem”. Quando você acha que o filme vai dar uma reviravolta surpreendente ele pega o caminho mais óbvio – que logo se revela nem um pouco óbvio.

O que eu estou querendo dizer é que respostas convencionais ou não-convencionais não existem a priori no mundo. Não são conceitos absolutos. Existem em contextos.

E vendo esse filme do Sean Pean eu pensei em quantos de nós já saímos em busca do sonho da viagem de mochila nas costas como o padrão do jovem-rebelde-que­-se-auto-conhece. Mesmo que ele vá de avião e fique em um hotel cinco estrelas com tudo pago pelo pai. É o modelo on-the-road pasteurizado. Jack Kerouac em 90 minutos – ou em 15 dias, uma capital por dia, todo fotografado e com pilhas de turistas japoneses ao seu lado. Viva. Acumule experiências. Faça a fila andar.

O filme é o oposto disso tudo. O moleque é um aspirante a escritor e leitor voraz e as referências à Thoureau são constantes, além de Tolstoi e Jack London...O cara simplesmente resolve viver. Ele não faz nada, pois ele vive. Zen-budismo, sem uma referência sequer. Ele não precisa de dinheiro – e, sério, na boa, isso não é hipocrisia, a gente não precisa de dinheiro mesmo. "Um homem é rico em proporção ao número de coisas que pode prescindir”.



IV

Poderia ficar aqui ad eternum dando exemplos. Do cara que se acha doidão e contra o sistema porque cheira aos 35 anos de idade – com o dinheiro do pai – do hippie da Cantão (loja), do Punk de boutique, da pessoa que se acha alternativa porque vai à Lapa (sábado à noite, junto com a torcida do Flamengo)...há singularidades para todos os gostos. Até o show do Ozzy Osbourne pode ser pago em 3 vezes no cartão. O cara come morcego no palco, mas você parcela no cartão. Alguma coisa está fora da ordem. Ou dentro demais.

Casal de atores cabeeeeuça, inteligentes e mudernos, faz propaganda de banco particular. Bancos são instituições mancomunadas com o demo, como todo mundo sabe. Mas tudo bem, porque eles podem. Ai, se fosse a coitada da Grazzi ou qualquer ex-BBB! Aí era ferro em cima. Mas grandes atores podem fazer propaganda de bancos. Porque eles patrocinam as peças, então tudo bem. É uma causa nobre.

E Pitty-Poser canta na final do BBB: “seja você, mesmo que seja bizarro” – e caiba na tela do BBB. Canta contra o sistema. Faz biquinho, entra de preto e de coturno – que ela deve ter comprado a uns 700 reais. Faz carinha de não assisto-a-esse-programa-chato-mas-estou-aqui-apenas-cumprindo-meu-papel. É preferível a Cláudia Milk (copyright by Battle). Entre a Sandy e a Pitty eu sou mil vezes a Sandy. Ainda que ela represente um conjunto de valores com os quais eu não compactuo. Mas eu tenho a impressão de que ela é ela (e pode ser apenas uma impressão, ou pode ser que o assistente de imagem dela seja mais eficiente que o da Pitty).


V


Todo mundo tem seu preço. O problema é que tem gente que se vende barato demais a troco de coisas muito caras.


VI



Tenham um bom domingo, crianças.

(Todas as partes em negrito e entre aspas referem-se ao livro “Walden ou A vida nos bosques” de Henry David Thoureau. Que, estranhamente, foram se encaixando no texto, e não o contrário. I Ching, Bel).

quarta-feira, março 12, 2008

Dores que movem montanhas


Uma das melhores coisas que eu fiz na minha vida foi ter feito escola de teatro. Ainda que eu não tenha seguido na carreira de atriz, foi dos maiores aprendizados. Em uma (boa) escola de teatro levada a sério, você se conhece horrores. Tudo bem que eu acho que a maioria dos nossos problemas sejam de ordem inconsciente – e o inconsciente, essa caixa preta que temos dentro de nós, nem sempre se torna consciente; na maioria dos casos ele fica lá escondidinho, fazendo você sonhar que está transando com o seu vizinho de óculos que é ao mesmo tempo o Woody Allen e a Feiticeira (pra falar o sonho mais “publicável” que eu tenho), e o máximo que você consegue é mexer umas coisinhas aqui e ali e mudar, quiçá, alguma coisa. Mas eu descobri coisas que se referem ao domínio da razão ou da consciência fundamentais pra minha existência. O famoso “conhece-te a ti mesmo”.

Descobri, por exemplo, como as pessoas tinham uma imagem errada de mim. Ou talvez eu não soubesse quem eu realmente era. Descobri como, pela minha filosofia e postura (física e de vida), as pessoas achavam que eu era uma pessoa brava, mal humorada e agressiva. Não que eu não seja, mas às vezes eu tava bem, tranqüila, e passava uma imagem carrancuda. Ou, em diversas vezes ouvi dos meus professores que eu era uma pessoa sem energia. Me lembro de uma professora gaúcha que me dizia: “tu é mole, guria!” e também de um professor de música que chamou um grupo de alunos "com problemas" e disse de uma amiga minha (que hoje faz aquela peça "O Surto" que a energia dela era excessiva e que ela podia passar um pouco pra mim, que faltava. E todas essas classificações correspondiam a verdade, em alguma instância. Porque era assim que eu tinha aprendido a me mostrar pros outros. Ou era assim que eu tinha me acostumado a ser. Mas, como disse a Ana Manga, a gente não É. A gente se reinventa.

Descobri que eu tinha extrema facilidade para fazer personagens violentas, agressivas, más, sarcásticas, amarguradas, velhas, entediadas...mas não personagens leves, jovens, soltas, felizes...Em geral eu sempre fazia as personagens mais velhas, mesmo quando contracenava com gente mais nova que eu. Descobri que eu poderia ter humor. Tacharãn! Eu nunca pensei que eu pudesse ser engraçada. Foi na escola de teatro que eu aprendi que eu podia ser engraçada, ainda que nunca fosse um humor rasgado, pastelão, clownesco – que eu acho incrível. Seria sempre aquela coisa meio dark, irônica, sarcástica. E eu sempre me perguntava, como atriz, se valia mais à pena insistir em fazer o que eu sabia de melhor e ficar no fácil ou tentar melhorar meu lado ruim – mas não aparecer tanto, não ser chamada pra fazer nada, não ser nunca tão boa...

Aprendi a ser menos tímida e a usar meus defeitos de forma favorável. Acho que é do Antunes Filho a frase: “coroa o teu pior”. Quando ouvi essa frase, tive uma revelação. Sim, o meu melhor é o meu pior. Aprendi que às vezes, de tanto fingir, você mesma acaba acreditando. E isso pode ser bom em algumas situações. Aprendi que todos nós desempenhamos personagens – bom, isso eu também aprendi nas minhas aulas de antropologia e sociologia – e que somos muitos ao mesmo tempo (tô parecendo a Tati do Big Brother!).

Bom, mas o que eu queria mesmo falar é sobre as aulas de Corpo que eu tinha. Aulas de Corpo é como a gente chamava a aula de expressão corporal. Assim como tínhamos a aula de Voz, a aula de corpo era uma aula que visava retirar o registro cotidiano de movimento, limpar o repertório do ator, para que ele desenvolva o seu instrumento (o corpo) de forma a poder interpretar diversos papéis. Não se trata de malhação pura e simples – apesar de também passar por isso – mas de treinar o seu corpo para diversos personagens, já que, segundo o método de interpretação de Stanislawiski, você deve partir das emoções e do físico simultaneamente – por isso é um método psico-físico – pois as coisas acontecem de dentro pra fora E de fora pra dentro, SIMULTANEAMENTE. Como o instrumento do ator é o seu corpo, deveríamos afinar nosso instrumento diariamente, como pianistas repetem escalas.

Nesse caminho eu conheci uma professora muito bacana, atriz de teatro, chamada Marilena Bibas. De idade indefinida – dessas pessoas que tanto podem ter 43 anos como 65 – essa sunsei, nissei ou não sei era/é uma figura ímpar e a ela eu devo o fato de ter me formado na CAL. Ela me deu aulas em duas cadeiras: de Corpo e de Interpretação. Quando o dono da escola quis me reprovar (abafa o caso...longa história), ela foi uma das poucas professoras que me defendeu com unhas e dentes. Ela simplesmente acreditou em mim desde o momento em que ela colocou os olhos em um trabalho meu. Ela me fez ver que a emoção, a sensibilidade e todas as características fundamentais para o trabalho do ator eram, de fato, fundamentais, mas tão importantes quanto a técnica e o trabalho árduo – e bota árduo nisso. Ela era – e ainda é – foda. Estudou na Itália, é co-fundadora do Tá na Rua, grupo do Amir Haddad, e trabalhou oito anos com ele. Aqui está o link da companhia teatral dela pra quem se interessou.

A Marilena era seguidora de um tipo de teatro chamado Teatro Antropológico, baseado nos conhecimentos de Eugênio Barba e Grotowski, e que têm suas raízes no teatro japonês. Aliás, ela estudou com o próprio Barba. Esse teatro acredita, sobretudo, em um treinamento físico para o ator, capaz de deixá-lo apto para o trabalho cênico – incluindo aí voz. Um corpo desperto. Esse tipo de treinamento é 8 ou 80. Tinha colegas que detestavam e nem por isso eram piores atores. Eu me apaixonei e, após ter tido aula com essa mulher, resolvi segui-la. Ela dava aulas em um estúdio ali em Laranjeiras, na General Glicério. Lá vou eu fazer aula com ela. (Parece que agora ela dá aulas em Ipanema, como diz esse link aqui).

O curso foi das melhores coisas que eu fiz dentro da área de teatro. Ela partia de um treinamento físico exaustivo, aliado a uma base teórica (e eu sempre precisei de bases teóricas...). E ainda por cima ela era uma pessoa calma, doce, mas extremamente firme e enérgica. Ao mesmo tempo ela tinha uma coisa meio Mestre dos Magos ou Senhor Miagui. Dava uns livros do tipo “A arte cavelheiresca do arqueiro zen” ou falava umas frases meio desconexas que você ficava o resto do dia pensando. O fato é que no auge dos meus 22 anos aquilo me impressionava bastante. Mas como era na prática? Fazíamos um treinamento coletivo que incluía aquecimento, movimentos de acrobacia em um colchão, movimentos de ioga, de kung fu, basicamente. Havia também os exercícios de ressonância vocal, onde você aprendia a “jogar” a voz pra cabeça, pro peito ou pra que parte fosse. Depois montávamos uma seqüência de movimentos, ou melhor: uma partitura de movimentos – cada um montava a sua, baseada nos movimentos que a gente tinha treinado – e, bem depois, o texto era acrescido a essa seqüência. Na prática isso não era utilizado em cena, mas era de um resultado fabuloso.

E havia as “exibições” ao final da aula. Depois de um tempo de casa, eu passei, junto com outra amiga, a ser uma das "exibidoras". E coisa toda era brutal, tanto é que a gente tinha que ir de joelheira e, não raro, saía toda ralada. E dentro desta idéia tem uma coisa chamada “o princípio da exaustão” que – me perdoem se tem alguém que entende muito de teatro me lendo agora, pois faz tempo que não leio sobre essas coisas nem faço nada e posso estar cometendo algumas generalizações e superficialidades – pode ser traduzido em trabalhar o cansaço a seu favor. Porque a série era tão brutal, tão violenta, tão difícil executar em alguns casos (você plantava bananeira, dava cambalhotas, fazia aquela vela da ioga só apoiada no pescoço...loucura) que eu alguns casos você tinha a certeza que ia desmaiar. E a gente aprendia a não desmaiar e descansar dentro do cansaço; respirar (incrível como a gente esquece de respirar!) e fazer o mesmo movimento de forma leve.

Nesses dias que eu venho começando a correr eu lembro sempre desse princípio da exaustão. Todo mundo que corre conhece isso. Tem um momento na corrida em que você pensa: vou morrer, vou desmaiar. Claro que você deve ter bom senso de correr aos poucos e, em um momento desses, parar. Mas, depois de um tempo, você percebe que não vai desmaiar. Não vai morrer. Que talvez seja só o seu corpo dizendo: “ei, eu não estou acostumado a esse movimento! O que está acontecendo? Eu quero deitar e comer chocolate!”. Daí você aprende a relaxar dentro da corrida. Quem sabe diminuir ou fazer de uma forma mais leve. Lembro que, no aquecimento, quando a gente corria, a Marilena sempre dizia: "corra com se o topo da sua cabeça quisesse chegar ao teto” (corríamos em círculos, dentro do estúdio com um piso de madeira). Não é dar impulso ao corpo, é apenas ter essa percepção. Corríamos descalços, havia pessoas muito gordas, mais velhas e todas conseguiam fazer. Cada uma no seu ritmo. Foi o período da minha vida em que eu fiquei mais magra.

Dentre os muitos conhecimentos que eu levei desse treino, aprendi (além de onde ficavam meus ísquios) não só a superar limites, vencer medos e voltar a fazer coisas que nem em criança eu conseguia fazer. Acima de tudo, aprendi a reverter a dor em algo prazeroso (e não se trata de práticas sado-masoquistas). A respirar mesmo nas situações mais difíceis. Que se você aprende a trabalhar com elas a seu favor, logo se mostram suas aliadas. O que tem a ver com o outro post em que eu falava sobre defeitos que são qualidades.

Vocês devem estar se perguntando com quantas coisas boas, porque eu não continuei na carreira de atriz. Bom, porque eu também aprendi a ver o momento em que a dor se torna insuportável, não podendo mais ser usada ao meu favor. Chegou um momento em que não era possível mais respirar. Ser atriz era, para mim, dolorido demais. E não passava nunca. E deixou de ter prazer, porque as condições de trabalho são tão difíceis, tão complicadas e passam por tantas coisas que o lado do prazer parou de fazer sentido.

Fazer doutorado dói muito. É um tanto de si que você expõe em qualquer trabalho da área humana e se depara com seus limites e problemas e é difícil pra caramba, do ponto de vista pessoal. Mas tem o prazer. Ainda. Tem condições de trabalho menos inóspitas. Tem reconhecimento.

Escrever dói também – escrever em geral. Mas se encaixa na mesma idéia acima. O Ruy Castro, em um texto que abre um livro do Woody Allen, diz que o escritor é alguém com um espinho debaixo da unha, mas que não consegue parar de escrever. Acho que é por aí. Não é alardear um tipo de arte sofredora, mas é um incômodo. Na vida somos movidos por incômodos. Se não, ficamos parados. Agora, é preciso também saber a hora de parar. Antes que o espinho gangrene o dedo e você acabe perdendo-o.

Acima de tudo, o teatro me ensinou a me jogar. Em tudo. A não ter medo do ridículo. Eu, como toda pessoa tímida, tinha um medo danado do ridículo. Só que esse medo apenas revela o quão pretensiosa eu era. Quem eu achava que eu era que não podia errar nem ser ridícula?
O teatro me ensinou a tentar. Uma, duas, milhões de vezes. Dentro do seu limite - mas expandindo-o a cada vez. O teatro me ensinou que a único jeito de fazer as coisas é indo com tudo, abrindo o peito e respirando.
PS: Esse post é dedicado a Formiga Irmã. Num oferecimento da Sublimes Corporations and Organizations.

domingo, fevereiro 17, 2008

The job that ate my brain


“Ain't enough hours in the day
There's go to be a better way

I can't take this crazy pace
I've become a mental case
Yeah, this is the job that ate my brain”

(Ramones)





Eu não faço a menor idéia pra onde eu estou indo. E, sei lá. Talvez isso não seja necessariamente uma boa.

Eu tenho a sensação de que alguém roubou a minha vida e está com ela por aí. Quem achar, favor deixar na portaria.

Alguma dona de casa com marido, filhos, cachorro, vazinho de flor na janela, lençol estendido no quintal e papagaio talvez queira ir pro ridijanero continuar os estudos, morar sozinha...sei lá. Faço permutas. É só contatar o gerente da seção e podemos fazer negócio. Vendo itens em separado, também.

A Madonna uma vez, já no auge da fama (tipo próximo ao lançamento de Na cama com Madonna, depois da turnê Blond Ambition) disse: “tudo que eu queria agora era estar em casa lavando as cuecas do meu marido” (o que, estranhamente me lembrou aquela música do Guilherme Arantes: eu queria muito estar/ no escuro do meu quarto/ à meia noite/ à meia luz/ Sonhando/daria tudo por/meu mundo e nada mais). Ninguém no mundo entendeu essa frase dela, só eu. Não é machismo, não é jogada de marketing, não é nada disso. Eu vou explicar pro resto do mundo. É apenas o sentimento de que ela queria realmente ser uma pessoa normal, mas não dá. Ela queria querer, o que é bem diferente de apenas querer. Algumas pessoas passam a vida tentando ser normais, tentando ter apreço pela normalidade, e nunca vão conseguir – e, bom...depois de algum tempo ela até conseguiu “lavar as cuecas”, de alguma forma. Ah, eu e minhas questões acerca da suposta "normalidade" - eu sei que "de perto ninguém é normal" e coisas do tipo, mas...há níveis. Há graus.

Tédio. Tédio. Tédio.

Zzzzzzz.

Esses dias eu escrevi "exelente". Minha irmã viu e teve que me corrigir. Mas eu fiquei olhando alguns minutos pensando o que havia de errado na palavra. Eu também nunca sei escrever "administrar". Psicóligos de prantão podem arriscar explicações óbvias.

Meu cérebro virou um mingau, essa é a verdade. Tenho vontade de ficar sentada no sofá vendo Friends e Bob Esponja, tomando Toddy morno com biscoito molhado no leite.

As pessoas dizem que para você ter cachorros (sim, de novo eles. Que, no caso, não passam de uma metáfora) e filhos, você deve abdicar de uma série de coisas, se prender, não ter liberdade de sair, de viajar, de passar noitadas fora de casa...

A dúvida é: cadê as noitadas, as viagens, os filhos, os cachorros, a série de coisas? Roubaram! Eu não tenho nada! Nem uma coisa, nem outra! Nem os prós e nem os contras.

Eu não sei pra onde estou indo. Só sei que a passagem tá muito cara e o motorista dirige muito mal. E tá sem paisagem, o caminho. Eu acho que eu tô enjoando e vou vomitar dentro de alguns minutos.

O pior (ou melhor) é que eu sei pra onde eu deveria ir. Mas não tá dando. No momento, não.

Minha vida não é igual a de ninguém. Sim, há uma presunção muito grande nessa frase. Nenhuma vida é igual a de ninguém. Mas eu sempre tive a sensação, desde muito criança, que a minha era menos igual, mesmo sabendo que a de todo mundo é diferente.

Eu vou ser Doutora com 32 anos. Phd – philosofical doctor. Pra quem, há dez anos atrás, queria fazer tudo, menos seguir a carreira acadêmica – pra quem, sequer, queria ter feito faculdade e trancou duas vezes – acho que é uma grande surpresa.

Pra quem não fez Letras só porque não queria, em hipótese alguma, ser professora, também é um fato, no mínimo, curioso.

Pra quem sempre odiou o Rio também é um tanto quanto notável atingir a marca de 13 anos morando lá. Passei a gostar, depois de uns 5 anos. Do meu jeito, mas gosto. Pelos motivos que não são os mais óbvios.

Não, eu também não quero ser atriz (pra quem não sabe: eu tenho um registro de “Artista – atriz”. Mas não espalha. Pior do que esse só o de jornalista, mas eu sequer me dei ao trabalho de tirar o registro profissional, que é pra não correr o risco de ninguém me dar um trabalho nessa área).

A única coisa que eu gosto de fazer desde pequena é brincar. E contar historinhas. E toda a minha vida profissional tem sido uma busca por essas duas coisas. Só que nem sempre eu consigo articulá-las em um projeto de vida coerente e lucrativo.

Bom, mas pode ser tudo apenas TPQ = tensão pré-qualificação.

domingo, janeiro 27, 2008

Réquiem sobre o nada


“Posso explicar uma porção de coisas, mas não posso explicar a mim mesma” – respondeu Alice à Lagarta
(Alice no país das maravilhas, Lewis Carroll).




Domingo de lassidão, passado da rede (e da Rede) pro quarto, do quarto pra TV e de pequenos trabalhos concluídos. Pequenas vitórias internas. Domingo de pontos finais. Preguiça. Particularmente aquela. Do mundo. Preguiça de explicar pra quem nem sequer entendeu a pergunta. Preguiça de explicar que as respostas e soluções não me atraem. Só as perguntas. Que estão sempre mudando. Eu simplesmente não trabalho nesse diapasão. Minha escala é outra. Eu não faço nada, o que já é muito. Não, eu não acredito no diálogo. Eu não quero debater idéias. Eu não discuto a relação. Eu acredito nos silêncios, no não-dito, no intervalo entre o que se disse e o que se sentiu, no espaço de tempo em que a lágrima ficou suspensa até cair como um soldado se rende na frente de batalha. Eu não me interesso por desembainhar a espada, mas pelo momento em que ela é jogada no chão e os dois adversários desistem. Eu acho que “os bravos são escravos/ sãos e salvos de sofrer”. Lutar pra mim não é isso. Vencer não é isso. Deixem que pensem o que quiserem. Afinal, eu sempre digo que sou péssima, que é pra ninguém ficar triste quando eu as decepcionar. E no fundo eu sou mesmo. Porque todo mundo, de fato, é. Não. Me desculpem. Me nego. Não vou ser assim só pra ser legal. Não vou ser legal só pra agradar. Não vou dizer o que esperam. Eu acredito demais na existência do mal e do aleatório (não que eles sejam sinônimos) para esperar respostas e explicações e pedir coerência das pessoas (mentira, eu ainda busco coerência nas pessoas; ainda não cheguei a esse grau de desprendimento, mas tenho esperança). Alguns de nós, seres humanos, estão ocupados demais em sobreviver. Não o sobreviver das contas a pagar, prestação do carro, rugas, botox, trabalhos a cumprir e filhos a criar. O sobreviver de respirar sem doer. O sobreviver de dar o próximo passo – e há gentes que nunca entenderão isso, nunca, nunca, nunca... De fazer as coisas valerem a pena do seu jeito, ainda que não seja o jeito certo, ou o jeito que todos esperavam que fosse, nem o jeito que você poderia ter feito, mas foi o jeito que deu naquele momento. Eu só vou até onde eu consigo. E eu não espero que as pessoas entendam (mentira, eu tento não esperar, embora ainda não consiga). Há também pessoas que simplesmente não querem entender. Porque entender significaria abrir mão de serem o que elas são. E eu, meus caros, como vocês sabem, não tenho nenhum pudor de abrir mão, pois eu nada sou (verdade). Já desisti de ser aquele bloquinho de cimento. Não sou um perfil de orkut. As pessoas não são bloquinhos. No mais, me recuso a atirar pérola aos porcos (infelizmente meu grau de tolerância só chegou até mim). Domingo de silêncios. Sequer ouvi o som da minha própria voz. Não saí de casa, não vi ninguém. Domingo de ler jornal de ontem, pois o mundo acontece muito rápido e eu estou atrasada, como o coelho da Alice. Estou atrasada em relação a minha própria vida – ou foram os relógios que pararam? Quem está contando o tempo? Só que ao invés de correr como ele, às vezes eu dou uma de lagarta. Domingo de friozinho atípico para o mês de janeiro no Rio. Domingo de poucos movimentos. Domingo de comidinhas feitas em casa.

O dândi, caríssimos, sou eu. Às vezes a firula toda é só rebeldia. Às vezes a rebeldia é só firula. Às vezes é “só” escapismo (como se fosse pouco). Às vezes a gente opta pela pílula azul e nem ela faz efeito. Às vezes é só isso mesmo. Às vezes parece uma coisa e é outra. Às vezes parece uma coisa e é mesmo. É, acima de tudo, espanto. Não se enganem com o ar blasé. O blasé é só a capa.

quarta-feira, janeiro 23, 2008

As regras do jogo


O que mais me fascina no Bigui Bróder – bom, difícil dizer o que mais me fascina além das pérolas proferidas pelos participantes, dos corpinhos sarados dos meninos e das meninas e de me inteirar das moda do país – é o caráter de imprevisibilidade do programa.


Nas primeiras edições, cujo vencedores foram pessoas simples (Bambam e Cowboy), disseram que o povo vota em gente simples. Aí veio o Dhomini, um maluco que tinha uma seita própria – um pouco fora do padrão. Aí veio a moda de entrarem pessoas que eram sorteadas por telefone e que começaram a ganhar porque eram fora do padrão bebebístico de modelo-aspirante-a-atriz. Mara e Cida ganharam. Pronto. Estava estabelecido um padrão de vencedores. Aí o próprio programa acabou com essa regra.


O ganhador seguinte foi um homossexual, feio e professor universitário – até de origem simples, mas outro padrão. A sociedade brasileira, machista, preconceituosa, tinha dado o prêmio para um gay. Isso é histórico. Inédito. Daí veio o Alemão. Homem, bonito, hetero, classe média e, pior, ele sequer tinha feito a inscrição como todo mundo; o cara foi escolhido.


Carisma? Pode ser. O Marcelo, Psiquiatra e Gay, tenta um jogo arriscado. Assumiu a homossexualidade, é carismático, mas é também mala. Metido a sabichão, dono da verdade e, ao contrário do Jean, não assumiu a boiolice pra casa. Tá chamando um por um e contando. Mas, porra, se ele conta pros que tem mais intimidade, como explicar que ele tenha contado pro Rafinha e votado nele? (eu acho que o Bial não vai com a cara dele).


O bosta do Felipe, o cota negra do programa, não sai porque é tão insignificante que ninguém o nota. Assim como Biancão. Não dá nem pra ter raiva. Isso é a pior coisa. Ela se apresentou como o perfil "diferente" e "alternativo" da casa, provando que quem vê cara não vê coração. E o dela é mais careta do que o da maior das patricinhas.


A estratégia da casa agora é indicar os mais fortes – Gyselle e Rafinha. Engraçado é que eles conseguem perceber quem são os fortes, mas não se aliam a eles, né? E com o Rafinha ficando aposto que vão tentar botar os dois no paredão. Só que vão se fuder, porque essa semana serão três os indicados. E os dois vão ficar. E vai se repetir a saga Grazi-Jean-Pink ou Alemão-Fani-Iris. Ou não. Porque não há regras.


O que me impressiona também sempre é as pessoas ainda acreditarem que “estão sendo elas mesmas” e que “falam na cara” (odeio gente que fala na cara. Isso é desculpa de mal educado. Mentiras sinceras me interessam). Como se fôssemos todos indivisíveis, completos, fechados, unos e coerentes. Como se pudéssemos nos conhecer por completo – é o que eu dizia hoje, Bellinha: psicanálise não é auto-conhecimento. No máximo conhecimentos parciais e provisórios sobre partes da sua existência. Somos papéis sociais que desempenhamos em determinadas situações, o que dirá em um programa em que se sabe que tudo é filmado. Mas aí já é pedir muito pra eles, né? O senso comum acredita na verdade sobre as pessoas. Em esclarecer os fatos, em se conhecer, se entender. E dizer que “estou sendo eu mesmo” também é uma ótima estratégia. Em tese. Porque na teoria a Jegueline fez isso e se fudeu, a Thalita fez e tá se fudendo. Porque não há regras.


E o que foi a justificativa do Rafael Galego? “Eu sabia que estava fazendo um jogo que não agradava as pessoas, que não agradava aos editores do programa”. Aí o Bial mandou muito bem mandado: “pô, mas você achou isso um bom jogo?”. Porque, na boa, pra que ir pra um programa desses e não fazer o que o público quer, querer “ficar na dele”, pra que ir? E mais: não foi por isso que ele saiu. Ele saiu apenas porque o Rafinha é muito forte. O cara é entregador de verdura, gente. O outro estudante de medicina. Perguntado sobre se ficaria triste em sair Galego diz: “vou continuar minha vida normal”. Perguntado sobre se trocaria a medicina pela carreira artística ele respondeu “nunca, já escolhi a minha arte”. Como disse o Bial. Se perdeu a linha do desejo. Tem que ir no prêmio como quem vai num prato de comida. Mas também poderia ter funcionado. Porque, vocês sabem, não há regras.


E foi fofo ver o Rafinha falando – no pedacinho que passa no Multishow – que vai casar com a “mina” dele, agradecendo as pessoas que foram...dizendo que nunca tinha passado por nada parecido. Isso eu acredito que seja realmente um lampejo de conhecimento sobre si. Porque muita gente ali nunca passou mesmo por nada parecido. Nunca teve a família toda reunida em torno de um objetivo. Nunca foi um atleta, um aluno exemplar. Nunca foi bom em nada.


Eu tô achando esse BBB o que as pessoas estão mais descontroladas. Cada formação de paredão, cada eliminação, é um parto. Choram, se abraçam. Como se não soubessem que teriam que passar por isso e como se a vida aqui fora não continuasse. Como se estivessem passando férias na casa de praia. Talvez cada vez mais as pessoas saibam o quão efêmera é a fama do BBB. O programa tornou-se metanarrativo. O conhecimento prévio ajuda a se movimentar na casa. Apesar do Alemão nunca ter assistido a um BBB.


Chora-se por tudo. Por quem sai, por quem fica. Como todo choro, chora-se mais por si do que pelos outros. Porque o BBB é uma metáfora da vida – dãã, sei que é um clichezão, mas vamos lá. Pra mim a graça do BBB não é ver, segundo Guy Debord, a espetacularização da vida cotidiana (quando eu dava aula de monografia 9 entre 10 alunos queriam fazer monografia sobre o BBB e sempre dizendo isso); a midiatização vida real; a mistura das esferas pública e privada, o retrato do Brasil... Voltando ao papo de ficção que eu falava no post de ontem sobre a novela, e que no fundo é o que eu trabalho na minha tese, (sorry, chega um ponto em que você enxerga sua tese em tudo a sua volta), a arte, a cultura de massa (ou indústria cultural, como preferem os frankfurtianos da primeira geração) ou a superestrutura não são um reflexo da realidade, de forma direta ou indireta, uma conseqüência espelhada da infra-estrutura, como dizem os marxismos tacanhos. O BBB é, também, a realidade. É um microcosmo no qual se coloca uma lente de aumento. Torta, idealizada, unilateral, com mocinhos e vilões (que na verdade não passam de edição: no programa, dos editores; da vida, quando a gente culpa o outro ou quando não consegue mostrar outros lados de si mesmo), com gente injustiçada, gente boa saindo cedo demais e gente ficando até o fim sem merecer. O BBB é um jogo sem regras. Sem previsão. Algumas pessoas decodificam melhor os signos e conseguem fazer uma leitura. Como a vida. Acreditar, ter fé e querer pode funcionar. Mas também não pode. Há a sorte. O acaso. O aleatório. Porque vocês sabem. Elas, as regras, não existem.


domingo, janeiro 20, 2008

Como bolhas de sabão


Eu tenho dois sonhos que se repetem há alguns anos, com algumas variações. Um é com o meu pai que morreu há seis anos. Ele está vivo. Não é que ele tenha ressuscitado, mas ele “deixou de estar morto” – não sei se conseguem perceber a diferença. Também não é o caso dele não ter morrido. Ele estava morto esse tempo todo e agora deixou de estar. E eu me pergunto: “mas e esses seis anos? Foi um erro?” e simplesmente não é explicado o que aconteceu. É como se ele estivesse deitadinho no caixãozinho dele e de repente tivesse resolvido se levantar, espanado a terra e continuado a vida. E ninguém acha isso estranho. Até eu me espanto num primeiro momento, mas logo em seguida penso: “ufa, acho que dessa vez é pra valer”- sim, porque no sonho eu tenho memória de outros sonhos desse tipo. No sonho eu sei que eu costumo sonhar com isso. E essa noite eu o abraçava e sentia o cheiro e a textura da sua pele. De tal forma que eu pensava: “dessa vez não tem como ser sonho! É verdade!”.


O outro sonho que se repete é um onde eu descubro compartimentos e cômodos inteiros na minha casa que eu não usava e sequer sabia da existência. Como se houvesse uma casa oculta dentro da minha casa (o apartamento onde eu moro aqui no Rio). No dessa noite havia uma casa inteira que eu descobria no andar de baixo e pensava: “puxa, como eu não vi isso antes?”. Às vezes são casas pra cima, casas pro lado...


Os dois sonhos são bons. Bastante parecidos. Talvez iguais. São sobre coisas estranhas que acontecem, que eu deveria saber, mas por alguma razão inexplicável eu não sei. E de repente eu tomo consciência. E o que deveria ser um susto enorme mostra-se simplesmente como um acontecimento estranho, porém agradável no final das contas. Que estranho, meu pai está vivo. Que ótimo! Que estranho, eu tenho outra casa debaixo da minha. Deixa eu montar meu escritório ali. Conhecimentos que afloram do subsolo – no caso da casa nem sempre do subsolo, mas o dessa noite foi (talvez por eu ter visto o “Cidades ocultas”, do History Channel, sobre a fundação de Budapeste).


E aí eu saí andando hoje, bem lentamente, na direção contrária que eu costumo caminhar e vi um dia tão lindo que imediatamente eu me lembrei do meu pai e das suas caminhadas pelo Aterro, da sua determinação pra fazer tudo na vida. E eu não fico triste de lembrar dele. Assim como eu fiquei muito menos triste do que eu pensava quando ele morreu. Porque na verdade ele ficou ainda mais próximo de mim. Eu não consigo olhar pras coisas e não enxergar os seus contrários. E lágrimas começaram a escorrer, misturando-se com o suor, enquanto as endorfinas insistiam em se libertar e o Marcelo Camelo falava no meu ouvido sobre um vento que entortou a flor e alguém que defendeu com golpes de pincel. Eu via o Cristo de braços abertos e a baía de Guanabara e me lembrava que eu e todas aquelas pessoas sorrindo, se exercitando, conversando estão ali provisoriamente. E ninguém sabe até quando. A qualquer momento tudo pode acabar inesperadamente. Eu vejo uma criança e enxergo a decrepitude do velho. Eu tenho momentos absolutamente lindos e mágicos e eles me doem porque eu sei que tudo é impermanência. Me lembrei de uma meditação zen-budista sobre a putrefação dos corpos, onde você mentaliza apenas isso para que você aprenda a viver o momento, que é a base do zen-budismo. Eu enxergo o Carpe Diem acoplado ao seu correlato-irmão, o Memento Mori. Lembre-se de que vai morrer. É triste e lindo. É alegre e triste (me poupem de comentários do tipo “nossa, mas que mórbida. A vida é bela!”. É exatamente sobre isso que eu estou falando. A vida é bela. E isso é...inexplicável. Indizível.


Eu sou aquela personagem do Beleza Americana, a personagem mais feliz e lúcida daquele filme, o garoto que é traficante e foi internado num hospício. Ele faz vídeos. Daí ele resolve mostrar a imagem mais linda que ele já filmou pra menina que ele está afim. E mostra um saco plástico “dançando” ao vento. E ele diz que em momentos como esse ele percebe que a vida é tão cheia de beleza, que ele tem medo que o coração dele não suporte, pois parece que vai explodir. Quando eu vi esse filme, caí em prantos nessa cena. E voltei ao cinema no dia seguinte. E a cada vez que eu assisto a esse filme é como se fosse a primeira vez. Porque a Beleza dói. E aquele cena, tão simples e singela de um saco rodando num dia de ventania, conseguiu traduzir tudo que eu sinto.


Talvez isso seja o raciocínio de nós, pessoas neuróticas. Talvez nós sejamos mais lúcidos que o resto. Enfim. Não se escolhe.


Tudo que existe, só existe enquanto em contradição, impregnado de seu oposto. Mortos que deixam de estar mortos. Casas duplas, escondidas.

sexta-feira, janeiro 18, 2008

Full of empty



Estudando a conta gotas. Marcando no relógio quanto falta para terminar a hora de estudo (eu marco meus estudos por hora; a cada hora, tenho direito a 10 min de descanso). Tenho medo que depois dessa tese eu só consiga fazer palavras cruzadas. Sopão, ainda por cima.



***



Por que eu fui inventar de fazer doutorado, por quê?



***


Ah é, lembrei: que emprego eu ganharia o que eu ganho pra estudar a hora que eu quero?



***


Li O transponível Super Empty,de Luciana Pessanha e José Carlos Lollo, livro que o querido Álvaro me deu de presente. É uma HQ para adultos (ou algo parecido com um adulto) sobre um super herói que tem um grande vazio no peito, o que o impede de ser um super herói. Mas aí ele descobre que o super poder dele é exatamente esse grande vazio. E que isso possibilita que ele ajude as pessoas com outros vazios. Ou com questões insolúveis. Não dando respostas. Não preenchendo nada. O vazio é aquilo que as constitui. Não adianta tentar preencher o vazio, porque o vazio é vazio. O vazio nos faz enxergar através daquilo que não tem resposta. E daí vem não a solução, mas a possibilidade de conviver com a pergunta.

Somos que nem chocolate aerado. Somos grandes sufflairs. O buraco faz parte. Ele é a folga que dá sustentação, sabor à vida. Mas a gente tá sempre insistindo em preencher. As rugas, o estômago, o coração, a celulite, as falhas, os sentidos...

Ninguém nega que algumas coisas possam tornar a vida bem mais divertida. Namoros, dietas, trabalhos, plástica, filhos, política, viagens, amor, causas, religiões...tudo isso é muito bom. O problema é quando você começa a acreditar que essas coisas vão preencher o vazio. Não vão. Nada preenche o vazio. Comida, droga, bebida, sexo, dinheiro e principalmente outra pessoa podem, no máximo, ajudar (e, ainda assim, algumas alternativas podem se apresentar mortais).

Tava conversando isso com uma amiga minha que disse que sempre que a vida dela tá mais ou menos ela fica “inventando moda”. Mas o que é a vida se não um eterno inventar de modas? A escolha a ser feita talvez seja qual a moda menos pior que eu quero inventar pra minha vida, que seja capaz de lhe conferir um sentido mínimo, ainda que fugidio - aliás, como tudo na vida, até o vazio.

Aproveite seus buracos. Com trocadilho. Mas saiba cuidar deles. Afinal, são os seus buracos. Ninguém tem um buraco igual ao seu.


Quando a gente é criança é mais ou menos normal a gente se sentir diferente. Não é? Pelo menos era assim comigo. Eu me achava muito, muito diferente dos outros. Pra muito melhor e pra muito pior ao mesmo tempo. Talvez fosse apenas o choque de me perceber viva, mas o fato é que eu achava o mundo muito estranho e eu mais ainda. Ou talvez eu me visse tão absurdamente comum e ordinária que essa era uma alternativa à mediocridade. Era um misto de me sentir a exceção e o mediano ao mesmo tempo. Eu acreditava piamente que eu não regulava bem da cachola. Talvez não regulasse mesmo. Mas que criança regula?


Quando eu entrei na adolescência percebi que outras pessoas também sentiam isso. E que ser assim não necessariamente era ruim – ainda que eu procurasse uma forma estereotipada de extravasar esse sentimento, como todos os adolescentes procuram, mimeticamente, fazer. Mas no fundo eu sabia que eu estava me enganando. Eu não era como aquelas pessoas. Restava saber se aquilo era bom ou ruim. Ou talvez fosse aquele sentimento de querer fugir da média.


Quando eu cresci - sendo isso por volta dos 18 anos de idade - eu me vi de repente de volta ao estágio infantil. De novo eu me sentia estranha e diferente do resto das pessoas, mas dessa vez era quase sempre apenas ruim. Quase sempre eu me sentia muito pior. Eu achava muito estranho eu não querer ser nada, fazer nada. Eu não entendia porque eu não podia ser como as outras pessoas da minha idade. Eu achava que o mundo se divertia, menos eu. Não é que a grama do vizinho era mais verde. O vizinho tinha grama.


Depois desse período, considerado uma espécie de limbo ou anos sombrios (ainda que extremamente frutíferos) eu fui lentamente emergindo das brumas e conferindo um certo grau de normalidade a minha existência, com todas as suas burocráticas rotinas. E aí eu me dei conta de que eu não era diferente porra nenhuma. Que todo mundo era assim. Que algumas pessoas sentiam mais e outras menos; algumas falavam mais e outras menos, mas era assim que as coisas aconteciam. E que a vida é, essencialmente, estranha. Que o estranho pode ser bom. E que a gente não precisa "ser" o tempo todo. Somos um amontoado de coisas com um grande vazio no meio. Que as ditas pessoas normais devem aproveitar mais um monte de coisas. E menos outras tantas. No final, não importa. E se importa, não há escapatória. Porque algumas pessoas nascem assim. Outras assado. E outras, ainda, queimadas.


Eu tenho medo das coisas mais simples e triviais e nem me importo com outras que para as outras pessoas são problemas enormes. Eu sequer compreendo o que é problema pra maioria das pessoas. Meus medos e minhas alegrias são de outra ordem. Eu tenho medo do que eu consigo. Por que o que eu não consigo, o que eu não tenho, esses eu já conheço.


Eu tenho medo de não realizar todos os meus sonhos. Mas, mais ainda, eu tenho muito medo de realizar. E eu, achando que eu sou genial, descubro que isso é uma frase de Oscar Wilde: “Há duas tragédias na vida: uma a de não satisfazermos os nossos desejos, a outra a de os satisfazermos”. Descobri porque fui tentar lembrar de uma frase da Clarice Lispector, do Perto do Coração Selvagem onde ela diz: “e depois? O que acontece depois que se é feliz?”.
Boa pergunta.

quinta-feira, novembro 29, 2007

Um dia na vida de Melvin Udall


Ser classe merrrdia é: não ter dinheiro pra nada e gastar tudo o que (não) tem em bobagenzinhas. Sim, já que você não tem dinheiro, só vai comprar um negocinho baratinho, né? Ih! Outro negocinho! Olha, outro! Uia, mais um! Pronto. Foi o preço de um negoção.

Alguém precisa me impedir de entrar na Casa & Vídeo. Eu simplesmente entro em surto na Casa & Vídeo. Aquilo ali é um universo paralelo. Sou abduzida para outras dimensões por forças de prástico. Criaturas de acrílico. E, já dizia a Barbie: life in plastic is fantastic!Já escrevi aqui, aqui sobre as belezas da Casa & Vídeo e o poder de conferir a uma pseudo dona de casa como eu a segurança de encontrar tudo para o seu lar. Eu tava vendo a hora em que o segurança ia me retirar de lá (também tenho problemas com papelarias e farmácias).

Desde que comecei a reciclar o lixo, descobri que preciso de mais lixeiras. Quando eu fui comer bolo na casa da Cris, em Nikiti City, fiquei boba com a lixeira dela, que abre tómaticamente, é só vc chegar perto, uma belezura, cês tem que ver! Aí diz ela que ia me dar uma de aniversário, mas ficou com vergonha. Gente, bobagem! Eu amo lixeiras! Tive que me segurar hoje pra não comprar umas três. Lixeira nunca é demais.

Aliás – parênteses – algumas amigas disseram que iam me dar uma caixa de lápis de cor de aniversário, só porque eu revelei meu desejo secreto de ser professora de jardim de infância. Elas disseram que eu não tenho paciência com criança. Injustiça! Eu só utilizo o método Xuxa Meneguel de educação: deu, levou. Criança é um adulto como outro qualquer. Mas elas acham que eu causaria mal às pobres criancinhas e, para aplacarem minha fúria para com produtos infantis, ficaram de me dar uma caixa de lápis de cor. Aí eu disse que eu não tinha onde usar. Elas falaram que me dariam aquelas revistinhas de colorir. Vocês ganharam alguma coisa? Nem eu. Esses dias tive que disputar no tapa a revista com uma menininha de 3 anos que me olhava de rabo de olho, tipo vai-brincar-com-as-suas-coisas, mala! Ah! Eu quero de 36 cores e da Faber Castel, porque utiliza árvores (eu já ia falar “árvores recicláveis!”)...sei lá o quê. Alguma coisa que é bom por meio ambiente (por que non te calas, Carrie!). Nada de pão duragem de 12 cores hein, plebe? Vou colorir todos os meus livrinhos do Rubem Fonseca.

Voltando ao assunto: comprei copos a 1,99 (que mamãe certamente baterá e dirá: humm...meio grosseiro este vidro; Fraülein Bertha, minha governanta, também reclamou mas eu expliquei-lhe que os cristais da Baviera estão restritos às recepções oficiais pois não tenho como ficar repondo constantemente. Resignada, ela saiu a praguejando seus habituais saumensch e outras coisas que eu finjo não escutar); joguinho americano de menininha; caneca de carneirinho; vários porta-não-sei-o-quê; um escorredor verde (fiquei pensando qual seria a cor da minha lixeira, pra comprar combinando, mas resolvi que serei ousada nas combinações – sim, só se vive uma vez!Que se dane as convenções!) e mais uns trequinhos.

Agora estou precisando de xícaras. Minha amiga Dani (que não gosta mais de mim, não gosta, não me ama, não me ama) me deu várias ano passado (esse ano ela nem ligou no dia do meu aniversário. Respondeu um e-mail meu, muito mais ou menos e acha que eu posso considerar isso felicitações condizentes com a nossa amizade leal e duradoura. Humpf). Mas são xícaras para se tomar um chá ou café, individuais. Eu quero agora um conjunto com pires e pratinho. Porque a minha mãe vem aqui e insiste em botar pires de outros jogos com as xícaras da Dani. E meu TOC com xícara desencontrada aumenta. Me dá neuvoso usar coisa desconjuntada (não pise nas listas pretas se não o mundo explode, Carrie! Explode! Dizem as vozes na minha cabeça). Então fica aí a dica pro meu amigo-oculto da família (que eu sei que tem vários me lendo): um jogo de xícaras de chá (grande) e pires. Branco ou estampas alegrinhas. Amiguinhas. O que são estampas amiguinhas? Margaridinhas, abelhinhas, peixinhos...estampas que dizem: olááááá!!!!

Tem um abajour na Papel Objeto (papelaria) do Flamengo que é um cubo todo em pop arte, tipo quandrinhos, que eu também tô querendo. Sessenta reau. Ou jogos de lençóis. Mas aí não pode ser da Casa & Vídeo, porque dá bolinha e solta o elástico em seis meses – e eu tenho gastura com elástico que solta – então só conversamos de 180 fios pra cima, viiiiu?

Também quero bules para o chá das cinco, já que William, meu mordomo, se nega a lustrar a prataria diariamente e tem medo de quebrar as porcelanas Ming. (Ah, a criadagem anda tão insolente!). Então pode ser bule de louça.

Eu vou me acabar esse fim de semana na Primavera do Livros que acontece no Museu da República. U-hu. Loucura total. Descontos de 20% a 40 %. Não quero nem saber se o pato é macho eu quero é o ovo! Vou gastar o que não tenho. Loucura, loucura, loucura. Como se não houvesse amanhã. Orgias literárias. Eu sempre penso: podia ser pior. Eu podia estar no vermelho por causa de tóchico, mas tô aqui, tia, humildemente, na educação, no respeito, na dignidade, tentando terminar meu doutorado e me endividando por conta de potinhos de plástico, lápis de cor e livros.


*

Minha professora de inglês é muito fofa! Ela vai me usar como cobaia. É que ela faz tipo uma pós e ela precisa de um case study, daí ela me escolheu. Eu só tenho que preencher um questionário pra ela sobre as minhas necessidades (necessidades na língua inglesa, claro) e ela quer recolher umas redações minhas. Ela me escolheu porque eu sou foda bá garái (foi mal aê); sacanagem, ela me escolheu porque diz ela que eu sou a aluna que atendeu a uma série de requisitos: levo a sério as aulas, quase nunca cancelo, tenho um goal to achieve. Então tá bão. Aí hoje ela trouxe um pedação de bolo prestígio pra comemorar meu aniversário (não tive aula semana passada). A gente ficou comendo, tomando café e falando mal do Brasil (eu), em inglês e ela me explicando uns detalhes da survey. E não cobrou a aula, claro.

Ela também me escolheu porque eu moro perto dela – e a altura combina. (Entenderam? Namoro na TV, do Sílvio Santos, “mora perto, altura combina”...hãn? hãn? Pegaram? Piadinha...).

*


Ah, Brasil, este mulato inzoneiro...

Ela vai de férias pra Nova Zelândia em janeiro. Ela estava contando que talvez volte de vez pra lá em julho, pois não tá dando pra ficar aqui, por mais que ela goste. Vocês acreditam que ela trabalha aqui, em um curso bem conceituado de inglês, e o Brasil-il-il “não deixa” ela regularizar a situação? Ela tem que trabalhar com visto de turista e renová-lo de 3 em 3 meses, pagando uma taxa absurda. Não dão o visto de trabalhador pra ela – claro que se ela viesse trazendo cocaína da Nova Zelândia a estada dela aqui estaria totalmente assegurada, né? Quer dizer: uma pessoa ultra qualificada (ela já era professora de inglês lá na Nova Zelândia, pra estrangeiros), tentando trabalhar honestamente no Brasil e o país a força a ficar de forma ilegal. Não é inacreditável? Eu falei com ela: “menina, volta correndo! Aliás, eu nem sei o que vocês, gringos, têm na cabeça pra virem morar aqui. Passear, vá lá. Mas morar?”. Speaks serious! Ah, é o “jeitinho” são as pessoas, o povo...ppppffff. Bullshit. Só um caso de paixão cega justifica.

O Brasil é uma piada. De português. De péssimo gosto.

(A minha irmã disse que tem medo de que eu vá morar fora do Brasil e volte que nem a Odete Roitman. Hahahaha...não, acho que não é pra tanto. Uma coisa é você ir morar fora por um tempo. Outra, bem diferente, é morar pra sempre. Outra, completamente diferente é ter nascido num país muito mais rico, com oportunidade e bla bla bla, querer morar fora e escolher o Brasil! Vai pra Argentina, pelo menos. Pra Portugal. Sei lá. Qualquer coisa é melhor que Brasil. Quer dizer, qualquer coisa, não. Tem Serra Leoa, Tanzânia, Zâmbia, Haiti, Guiné Bissau, Bolívia, Venezuela, Myanmar, Nigéria, Senegal, Benin, Burkina Fasso, Etiópia, Gana, Guiana, Madagáscar, Mali, Mauritânia, Moçambique, Nigéria, Ruanda, Uganda, Zâmbia, Honduras, e Nicarágua...olha que beleza! Nós estamos melhores do que esses países, uia. Deixa eu calar a minha boca, antes que me acusem de colonizada, imperialista...deixa o Tcháááábez me ouvir...). É que nem aquele meu ex-ficante me disse certa vez: tá reclamando do quê? Tu não tá com essa bola toda, não...se contente de não estar passando fome e birgando com o vizinho por conta de farinha e com todos os membros da sua cidade infectados pelo vírus da AIDS. Recrama, não fia! Pode piorar.

Essa semana ela presenciou o seu primeiro tiroteio, olha que meigo. No Rio Comprido. Ela tava de ônibus e se jogou no chão. Vocês acreditam que eu nunca vi um tiroteio? Já passei por locais que tinham acabado de ser alvos, já fui assaltada a mão armada e com arma branca, mas essa modalidade de crime não consta em meu currículo - e eu digo que eu dispenso. Já ouvi tiros longínquos, mas nunca estive em um ambiente de tiros. Já vi gente correndo de tiroteio, também. Acho que já conta, né?

Acho que não conheço ninguém que não tenha sido assaltado. E nem por isso eu quero “chamar a Tropa de Elite” porque roubaram o meu rolex. Acreditem, já roubaram "meu rolex". Eu acho “muito” chamar um esquadrão da morte como o BOPE só por conta de um relógio (eu tava há tempos pra falar isso). Aliás, nada justifica chamar o BOPE. Mas infelizmente esse país está se resumindo a isso. Se você defende os Direitos Humanos dizem que você está passando a mão na cabeça de bandido (eu não defendo Direitos Humanos porque eu sou boazinha e legal, eu só defendo porque, do jeito que a coisa anda, um dia sou eu que vou presa e me jogam numa cela masculina. Hein? Cela especial? Curso superior? Meu amigo, até você explicar que berimbau não é gaita, que focinho de porco não é tomada o estrago já foi feito. Atira primeiro e depois pergunta, lembra? Foram nós que legitimamos isso (ih, fudeu...entrou na fase panfletária...dizem as Vozes). Depois, quando atingir seu filho, aí é tarde demais, não adianta chorar, pois “estamos em guerra”). Se você fala mal do país é acomodada. Eu só queria morar em um país onde eu pudesse ir e vir. Eu sei que o mundo tem cada vez mais menos locais assim. Mas ainda tem.
Tem gente que fala que se estuda história para "não cometer os mesmos erros do passado", pois segundo o Barbudo, a História se repete, primeira vez como tragédia e a segunda como farsa. Daí você tem que estudar pra não deixar a tragédia se repetir. mas aí você ver a tragédia se repetir over and over and over ad eternum... Você se pergunta: pra que estudar história? Pra que estudar? De certa forma, ainda que intuitivamente, eu sempre soube o que eu sei. E quem não sabe, não quer saber e não vai mudar de idéia. Então: pra quê?
Eu tenho me policiado fortemente pra não escrever mais posts sérios. Não vale à pena, eu não sou nenhuma autoridade em porra nenhuma, de modos que eu tô cada vez mais abrindo mão. Tem blog de tudo, não tem? Pois é. Esse aqui não será sério. Esse blog é que nem o Seinfield. Sobre nada. O vazio. Mas às vezes eu não aguento e escorrego. Mas ainda vai chegar o dia em que eu só escreverei sobre seriados e lápis de cor e dilemas existenciais como a diferenciação entre banheiro feminio e masculino. Terei alcançado, enfim, o nirvana.

Desculpem as mudanças de assunto bruscas. É que uma coisa leva a outra e a outra e a outra...(ninguém me pára? Rei da Espanha?).

sábado, novembro 03, 2007

Rapidinhas do feriado


Hoje - ontem, sexta - fui para Água Escondida, a terra do Araribóia, almoçar com amigas blogueiras (Cris e Bella - vocês se lembram da Fofolete, uma bonequinha pequenininha que existia nos anos 80? Toda menina tinha. Você colecionava, eram várias cores! Pois é a Bella! Uma fofoletisinha! Fofa de "cute", não de gorda, que fique claro!) e novos amigos blogueiros que eu não lia, mas vou passar a ler.

Conheci Andréa. Pândega. Combinamos de ir ao anivérsário do OMEE da única, inigualável e blogstar Roberta Carvalho. Aliás, todos muito divertidos.


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Assisti “O passado” do Babenco. Com o Gael.

(Suspiro)

Parafraseando Nini: “eu só acreditaria em um Deus que me desse o Gael”.


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Só não concordo que o filme seja sobre uma história de amor. Deus me livre e guarde de um amor daqueles. Vade retrum, disconjuro. É igual “Travessuras de uma menina má”. Aquilo pra mim e um câncer são a mesma coisa.


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Na volta do cinema, vim construindo um longo post sobre o amor (o pior de ter um blog é que a sua vida se transforma em posts. Você vê as frases sendo construídas e encadeadas à medida que as coisas vão acontecendo, e você muda até vírgulas de lugar. Muito estranho. Quando eu sento pra escrever o post já ta pronto). Mas aí cansei.

Sabe quando a ficha cai? Pois é. Com esse filme a ficha caiu. E qual foi a ficha? Essa idéia de amor romântico é chata e anacrônica. Antes eu dizia isso com um tom de rancor, amargura e pessimismo: “o amor acabou”, subtexto: “alguém me desminta pelamordedeus”. Mas hoje eu tive uma revelação vendo esse filme. Sério. Hoje pela primeira vez eu me senti feliz com a possibilidade do amor romântico ser um conceito datado. Helooou? A pessoa aqui é historiadora. Ela não deveria levar tanto tempo assim pra ter descoberto que o amor é histórico.

Quando digo amor me refiro sempre ao amor romântico, nascido na Idade Média e reatualizado pelos alemães do século XIX. É impressionante que tenhamos nos livrado de várias pragas do século XIX, como o positivismo, o evolucionismo, a idéia de progresso, a morte por tuberculose e bla bla bla e não tenhamos nos livrado do vírus do romantismo. Nada contra o amor, mas há que se relativizar mais o papel do amor nas nossas vidas. Há que se repensar esse conceito de fidelidade (e quem me conhece deve estar levantando as sobrancelhas agora). E de casamento. Não dá mais pra sustentar. Não no atual momento. É o mesmo que continuar acreditando em Adão e Eva e que a Terra é quadrada.

Enfim, não sei qual a solução. Nem faço idéia. “Relacionamento aberto” não é solução porque pressupõe que o modelo é fechado. Então não sei o que é. Só sei o que não é. E não é o que está aí.

E, pela primeira vez, eu pude ficar realmente feliz em pensar que o amor acaba. Que bom que o amor acaba. Isso não é uma coisa ruim. Pela primeira vez eu pensei que os tais “amores líquidos” que o Bauman fala não são ruins. Porque antes as pessoas ficavam juntas por outros motivos.

Quando Nietzsche ataca a moral cristã, derruba os falsos ídolos, colocando a idéia da transvaloração de todos os valores, eu penso que ele esqueceu do amor. Não que o amor vá parar de existir. Mas essa idéia de amor. Já matamos Deus, mas de novo ainda colocamos outros deuses no lugar. O amor é um deus legitimado por toda uma cultura.


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Eu sei o que vocês estão pensando. Eu sei. Que eu falo isso porque eu não amo ninguém e quando eu voltar a amar eu esqueço tudo isso.

Claro que eu vou voltar a amar muitas e muitas vezes. Mas a idéia do amor romântico não me seduz mais tanto quando antigamente. Chega. Deu, né?


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Aliás, talvez matar o amor romântico seja a única forma de eu recuperar a minha capacidade de amar.


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Como diria meu amigo JJ: “só vale a pena enquanto der frio na espinha. Quando acaba, não vale a pena continuar”. Nem sei se eu iria tão longe (não preciso ter frio na espinha), mas é por aí.

Sim, é com você JJ e o nosso papo do fim de semana passado. Você mesmo.

JJ sempre abre um sorriso de orelha a orelha quando sabe que algum casal de separou. Isso comprova a teoria dele.


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Vai passar um programa sobre o Gonzaguinha. Quando eu era bem criança eu era muito fã do Gonzaguinha e do Fagner. Não satisfeita, eu era apaixonada pelo Gonzaguinha. Achava ele lindo. Acho que depois do Batman foi minha segunda fantasia sexual infantil.

Viram? Eu melhorei muito. Eu era bem mais estranha.


*


Tô com óooodea do meu cabelo. Muita ódea. Vou meter a tesoura. Aliás, todo dia eu corto um pouco eu mesma. Antes que uma grande merda ocorra, vou cortar com um cabeleireiro novo que peguei o telefone. Vou cortar uns quatro dedos.

Eu sei que essas informações capilares são super importante para vocês.

E já desbotou conpletamente! Acho que vou ter que apelar pra tinta, já que o tonalizante não dá no couro com esse vermelhão por baixo. Mas acho que vou esperar a qualificação.

sexta-feira, novembro 02, 2007

"Nós que aqui estamos por vós esperamos"


Feliz dia dos mortos! Afinal, nada melhor para aproveitar a vida do que se lembrar de que um dia tudo acaba.

Do pó viestes, ao pó voltarás. No meio disso, tente fazer algo que preste. Pra você, é claro. Que é só quem importa.

E hoje seria aniversário da minha avó materna. Que, se viva estivesse teria 107 anos.

Memento mori. Carpe diem.


quinta-feira, novembro 01, 2007

Nietzsche de cu é rola


Inaugurando fases temáticas do blog, o primeiro contemplado é o meu amigo Nietzche. Famoso Bigode. Nini da Saxônia.

Cara…tipo assim…tuuuudo a ver eu e Nietzsche! Suuuuuuper me identifiquei, a nível de selumano enquanto pessoa-gente!! Bobagem que ele morreu louco, desequilibrado, doido e lelé da cuca, né?! Quem liga pra isso? Assim como ele eu também, desde a mais tenra infância, acho que a humanidade não está preparada pra mim e o meu pensamento. Liga não, bobo! Esses humanos são assim, messs.

Estou aprofundando ainda mais meus já intensos, densos e subterrâneos estudos sobre o maluco.

Hoje eu comprei seis livros, dentre os quais “Humano, demasiado humano – Um livro para espíritos livres” (sim! Eu sou um espírito livre!) e “Além do bem e do mal”. Tudo do bigode.

Quer dizer. Eu não sou um espírito livre. Ainda. Mas é minha meta pra 2008. Ser livre nem que seja a força.

Também comprei “As ilusões perdidas”, do Balzac – porque o Bourdieu, n’As Regras da Arte, cerne teórico-metodológico do meu capítulo 2, analisa este romance. E também dois do Dalton Trevisan – sempre comparado ao Rubem Fonseca. E “Boca do Inferno” da Ana Miranda porque...por que mesmo? Ah é! Porque é uma importante obra pra se pensar a relação história/literatura.

(Sim, eu consegui acabar o capítulo 1 e mandar para o orientador. Agora é só aguardar a catracada. E reescrevê-lo. Rumo ao capítulo 2!).


*


Na minha frente um casal conversava. Lá pelas tantas o sujeito manda: “porque você é extremamente inteligente, Fulana”. A Fulana faz um suposto ar de modéstia (Bem dizia Nini que “a humildade é o postulado dos vagabundos” – quer dizer, Goethe dizia isso e ele assinava embaixo - e também parafraseava Lucas, Cap. 18, versículo 14: “Quem rebaixa a si mesmo quer ser elevado”) ao que ele retruca: “não, porque de mulher bonita o mundo tá cheio, mas o que adianta? Eu gosto de mulher de conteúdo! Por isso eu gosto de você”. Olhei pro “conteúdo” da mulher: peitão, bundão, magra, olho verde...aí fica fácil, né amigo? E o amigo: careca, magrelo, baixinho, velho e esquisito. (Ai, vou ali bater a cabeça no primeiro volume do Capital e já volto).

E eu, com meus seis livrinhos na mão, pensava: pra que Carrie? Por que você se esforça tanto? Por que estuda tanto? Por que não investe esses cem reais em sessões de drenagem linfática? Por que não compra um vestido, uma saia? É sério. Afinal, só homem muito canalha manda essa de “conteúdo”. Conteúdo de cu é rola. Mesmo porque o tal conteúdo que eles falam consiste em não babar, não comer com as mãos e não fazer perguntas cretinas demais em público. Pronto. Eles já ficam satisfeitos. Duvide-o-dó que se a tal mulher de “conteúdo” pesasse 120 quilos ela continuaria sendo de “conteúdo”. Não, nem isso. Se pesasse 90 quilos. Oitenta. Eu queria ver pra onde ia o tal “conteúdo” dela.


*


Na boa – e eu não estou sendo irônica – eu acho que a verdadeira futilidade é uma coisa muito profunda. Exercer a arte da superficialidade com maestria é para poucos. Eu, infelizmente, sofro do preconceito de achar que pessoas bonitas não podem ser inteligentes. Ou que, pra ser levado a sério a pessoa tem que ser feia. Ou uma coisa ou outra. O que é uma bobagem. O mundo está cheio de exemplos contrários. E eu estouro o cartão na livraria, mas sou incapaz de estourar em uma loja. Bobagem imensa. Um dia eu chego lá. No reino das Adrianes Galisteus – eu adoro a Galisteu; de novo: isso não é uma ironia.


*


Tive uma péssima noite de sono. Fui ao banheiro e dei de cara com uma barata viva que, ao tentar matá-la, entrou na minha gaveta de escovas de cabelo. Fechei a gaveta e voltei pra cama. Não conseguia dormir pensando na barata esmagada, na barata penteando seus cabelos com as minhas escovas, em se havia uma passagem da gaveta para outros compartimentos do armário...daqui a pouco, outro xixi (sim eu faço muito xixi de madrugada). A barata de novo! Cacetilda! De novo tentei matá-la, de novo ela fugiu (reflexos lentos devido ao sono) e entrou, dessa vez no armário. Voltei pra cama. Mais pensamentos sobre baratas, será que ela passa debaixo da minha porta?, e se ela entrar e vir dormir comigo na minha cama, puxando a coberta e dizendo Caaaaariiiiie no meu ouvidinho?, Kafka, Inimigos do Rei...pronto! Pesadelos com a barata e com meu ex-namorado – nessa ordem. Acordei suando. Bombardeei o banheiro com Baygon. Acabei com o vidrinho. Tive uma dor de cabeça filha da puta e tive que tomar duas aspirinas. Merda.



*


Quase bati numa velhinha de bengala na fila do Banco do Brasil. Longa história, mas eu juro que eu estava com a razão. A mulher praticamente me acusou de pegar o dinheiro dela – isso porque ela ficou vinte e cinco minutos – vinte e cinco - no mesmo caixa, atendendo ao celular, completamente dispersa (Até a mocinha “Posso ajudar?” veio falar pra ela sair da fila) e depois vem falar que “alguém pegou o dinheiro dela”, sendo que o alguém era eu? Ah, maluco...mandei logo: “se a senhora prestasse atenção e não ficasse falando no celular ia saber onde está o seu dinheiro!”. Fala sério. Aí ela puxou essas histórias de filho doente...ai, meu saco...sempre tem um filho doente pra deixar a gente culpada. Mas todo mundo da fila concordou comigo.

Será que eu vou pro céu?


*


E aí gostaram do novo layout? Não, não responda agora! Vá ali do lado e responda a nossa enquete.

quarta-feira, outubro 31, 2007

Eu sou o meu próprio BOPE


A maior fonte dos meus problemas advém do fato de eu só conseguir ser direta. Reta. Sem elipses.

Esses dias, em um momento de delírio e desespero acadêmico – e eu tenho muitos como dá para perceber – entrei no site do Instituto Rio Branco para ver como é a prova para ser diplomata. Tudo bem, é difícil, mas não é nada que eu não consiga. Direito, História, Português... Inglês + espanhol ou francês. Não digo que é fácil, demandaria tempo e dinheiro, mas eu acho que conseguiria. Estou na faixa etária em que as pessoas tentam. Tenho mestrado, o que me pouparia um curso de dois anos. Salário inicial: sete mil e pouco. Tenho mais da metade dos pré-requisitos. Em quinze anos se chega a embaixatriz, o cargo mais alto.

Daí eu parei e me dei conta de que me falta uma qualidade básica: ter diplomacia. Do jeito que eu sou é bem capaz de eu chegar na Coréia do Norte e dizer: “Qualé King Jong? Senta o dedo nessa porra, rapá! Tira essa farda que tu é muleque!”.

Comentando com minha amiga Senhorita P., cujo irmão vai tentar a prova do Rio Branco, ela me disse: “eu acho que você não daria uma boa diplomata”. E eu perguntei por que, mesmo já sabendo a resposta. E ela respondeu eufemisticamente: “você é muito direta”.

Durante algum tempo eu pensei que isso fosse uma qualidade. Porque ser direta pode parecer que você é sincera. E ser sincera pode parecer dizer tudo o que se pensa para todo mundo. E isso pode parecer ser bom, se você é ingênuo ou burro ou jovem demais. Dois erros. Primeiro, o tudo nunca é dizível. Segundo, a única sinceridade que realmente importa é a sua para com você mesmo (ainda que também guarde uma impossibilidade total). E essa às vezes pressupõe certos silenciamentos.

Eu só dou certo em coisas onde eu posso ser reta. Eu só sei traçar uma reta e ir. Que nem o Forrest Gump. Run, Carrie, Run. Em tudo que exige curvas, malemolência, jogo de cintura, eu me arrebento contra o primeiro muro. Porque eu não sei fazer curvas. Eu venho sempre em alta velocidade e freio na curva. Mas aí já é tarde demais. Daí sempre bato. Eu sempre acho que vai dar e não dá. Eu nunca sei o momento certo de ir. Eu não controlo a embreagem da vida. Eu perco o tempo de ir e as pessoas ficam buzinando atrás de mim. Ou então vou e descubro que não dava tempo. Foi assim que eu bati de carro e parei de dirigir. Mas ainda sonho constantemente que estou dirigindo.

Outras atividades nas quais nunca fui boa: jogos. Sejam eles esportes ou jogos de tabuleiro. Eu não sei driblar. Ou baralho. Eu não sei blefar. Eu mostro todas as cartas de uma vez. Eu não escondo o jogo. Na vida.

E, o jogo onde eu sou mais inepta: o amor (ui, que brega). Aliás, nem iria tão longe: namoros, por exemplo – que nada tem a ver com o amor, necessariamente. Eu simplesmente perdi o manual de instruções, se é que algum dia o tive. Deve estar no mesmo lugar do Manual para a Vida Prática e as sombrinhas e canetas Bic que nunca estão onde a gente deixou.

segunda-feira, outubro 29, 2007


É estranho o que o tempo faz com os relacionamentos e com os sentimentos. Às vezes você tem que conviver com certas pessoas que normalmente não conviveria, por força das circunstâncias – trabalho, escola, família ou mesmo amigos em comum. Quando as circunstâncias se vão e você reencontra essas pessoas aquele antigo sentimento – ódio, amor, raiva, indiferença – é rapidamente acionado, mas você descobre que ele não está lá. Não do jeito que você o deixou. No seu lugar, uma outra coisa. Confusa. Você descobre que os sentimentos podem se recombinar em inusitadas associações. Aí o que era 1 quando somado a outro 1 torna-se 3. Ou menos quatro. Os sentimentos não sabem contar.

Aquela pessoa de quem você deveria gostar, afinal foi sua amiga por tanto tempo, era sua prima predileta, o colega mais engraçado da sala, ou mesmo o chefe que você aprendeu a odiar, o professor cujo medo não se equiparava a nenhum outro; tudo isso aparece de outra forma. Seja porque você mudou, porque a pessoa mudou, porque ambos mudaram. Seja exatamente pelo oposto: ela não mudou e aquilo ficou fora de contexto. Venceu.

E aí a sensação é a mais estranha possível. Porque você aciona aquele sentimento, mas ele não está lá. E você não sabe o que sentir. Às vezes começa a ter pena dele não estar lá. E a pena pode se transformar rapidamente em raiva, porque pra certas pessoas é muito difícil sentir pena. É uma dor insuportável. Sentir pena é se sentir impotente. Porque ninguém faz nada para o outro se o outro não quiser. Então é mais fácil ter raiva. Mas não é apenas raiva. Você tenta não se importar, mas não consegue. Você tenta se importar, mas não consegue.

Você aciona o ódio ao seu antigo professor, mas descobre que ele não passa de um velhinho franzino. E que talvez sempre tenha sido assim. Você quer sentir inveja daquela amiga que era a mais linda da sala, mas agora ela está uma baleia, com três filhos e só faz reclamar do marido insuportável e perdeu o brilho que a fazia ser a mais bonita. Você quer gostar do amigo do amigo que era engraçado, mas percebe que as piadas só tinham graça na época do colégio. E aí você não sabe muito bem como lidar com a pessoa, o que falar, sobre o que conversar. Se apóia no sentimento antigo? Confia no atual e ignora o passado? Quando se aproxima, sente-se mal, mas quando se afasta idem.

domingo, agosto 26, 2007

(...)


A vida tem um jeito estranho de te mostrar que você estava errado. De te tirar das suas certezas, de dar uma rasteira e te deixar com cara de tacho. De uns tempos pra cá eu tenho me visto exatamente em uma série de situações que antes eu condenaria veementemente.

Eu nunca acreditei nesse papo de “a gente não escolhe de quem gosta”. E continuo não acreditando. Acredito que a gente gosta de pessoas sempre dentro de um certo padrão de gosto. Um mínimo de diferenças e afinidades. Acho pouco provável de eu me apaixonar, por exemplo, por um mendigo, por um terrorista árabe ou por um operador de telemarketing. Certas barreiras são intransponíveis, sim. Mas de repente o errado parece certo.

Eu não sei quais as chances de um relacionamento dar certo ou errado. Eu nem sei mais o que é dar certo ou errado. Aliás, acho que ninguém sabe. Talvez durante muito tempo eu tenha ficado com medo de que um dia o meu certo encontrasse o errado, daí eu fugia do errado, no intuito de preservar o meu certo – confuso, não? Mas nada adiantou e deu tudo errado do mesmo jeito – ou terá dado certo durante um tempo? Logo quem me garante que indo ao encontro do errado ele não possa se tornar um certo? Um momentaneamente certo, pelo menos?

Mas é esse o meu problema. Trabalhar nessa perspectiva binária de certo ou errado, preto ou branco, sim ou não. Esqueço os talvezes, os cinzas, os quem sabe. Esqueço que uma coisa pode não ser isso e nem aquilo, mas um pouco disso, daquilo e mais daquilo outro, que resulta em algo que não é nenhuma dessas coisas. Eu não dialetizo meus problemas. Eu quero respostas quase aristotélicas num mundo pós-moderno. E esqueço que a vida vai se fazendo no dia a dia, no caminhar, nos nãos que viram talvezes que podem virar sim; no olhar que vira um sorriso, mas pode não passar disso. Que nada é garantia de nada. E é esse compasso da espera, do suspenso, da dúvida e às vezes até do recuo que me exaspera. Mas não há outro caminho além dele. Não há. E toda vez que eu tento eu quebro a cara. A melhor coisa pode ser ficar em cima do muro, às vezes. Em certas horas é tudo que se pode fazer. Esperar. Paciência. Não a paciência dos que se acomodam e não vão atrás, mas a paciência dos que sabem que não há como apressar o ponto do cozimento.

Eu tenho medo dos buracos, das intercessões, das arestas, das frestas por onde entra o sol (ou a chuva). Do silêncio que faz quando a gente vai pra um lugar afastado de tudo. Aquele silêncio que é tão grande que você consegue ouvir seus próprios pensamentos e seu coração batendo. Do escuro que faz faltar o ar. E você procura aquele facho de luz, mas não acha. Mas é exatamente nesses locais onde a vida realmente acontece. Eu tenho medo das imperfeições, mas elas são a única coisa que realmente interessam em uma pessoa. É onde enxergamos as particularidades.

Esses dias eu ouvi uma palestra sobre 1968 (e todos os acontecimentos ao redor desse ano) onde o cara relatava que alguém perguntou pra ele por que em 1968 havia essa crença tão grande de que tudo ia mudar. E ele respondeu: pelo mesmo motivo que acredita-se hoje em dia, com tanta certeza, que nada vai mudar. Ou seja: há tanta falta de lógica num otimismo exacerbado quanto num pessimismo desmesurado. E quando você fica em um desses extremos você fatalmente quebra a cara. E eu cansei de não-acreditar. Dá muito trabalho.

Enfim. Complicada a vida.

terça-feira, julho 31, 2007

Memento mori ou Carpe Diem*

Sê prudente, começa a apurar teu vinho, e nesse curto espaço
Abrevia as remotas expectativas. Mesmo enquanto falamos, o tempo,
Malvado, nos escapa: aproveita o dia de hoje, e não te fies no amanhã.

Horácio, Odes, Livro 1, ode 11, versos 6-8


Some day, when I'm awfully low, When the world is cold, I will feel a glow just thinking of you... And the way you look tonight.

(Frank Sinatra – The way you look tonight)




Daqui a cem anos – sendo otimista – eu, você, a Madonna, o Osama, a sua vizinha boazuda do 304, todos nós seremos comida de minhoca.


Tudo que é...


Um dia não será...



Mas ao mesmo tempo voltará...





Então, pense bem.


Vale à pena? Você tem certeza?


Boa semana!


(* Expressões do latim: “lembrança de morte” e “colha o dia”, respectivamente).


quinta-feira, julho 05, 2007

Da série: "Fode-te a ti mesmo"


E na tentativa de se livrar de um pólo você resolve ir a outro. Achando que está fazendo alguma coisa diferente. Mas – ei, peraí, eu conheço esse pólo! Ele é quase igual ao outro. Apenas simetricamente invertido. Como um espelho. Aí você descobre que está preso a um pêndulo. Ainda que os pólos sejam opostos, você está preso à mesma trajetória. Balançando pra frente e pra trás. Ou de um lado pro outro. Como esses loucos que você vê num mesmo movimento por horas a fio. Na esperança de que alguém – quem sabe o Grande Mestre Titereiro do Universo, Aquele que Mexe as Cordas. Aquele – finalmente corte o fio. A liberdade é o fio cortado e a queda livre. O problema é a gente tentar se agarrar aos arbustos pelo caminho. E não aceitar a queda.

(Baxô o Caboclo Metafórico. Ê, ê, misifio! Suncê num gostô? Voltaremos com a nossa programação normal assim que o Grande Loooooooping ladeira abaixo - ou ladeira a cima, ou ladeira ao lado, escolham - terminar. Isto é, se o solavanco da subida permitir. Enfim. Whatever.

quarta-feira, julho 04, 2007

Ooops, I did it again...



Há vários tipos de ressacas. Algumas das piores são aquelas que não são causadas por bebida, mas por coisas que você fala ou faz. A ressaca é basicamente uma reação do seu corpo que está tentando se recuperar de um elemento agressor. Só que às vezes o agressor é você mesmo. Cara, não há pior inimigo do que a gente mesmo (momento Daniel San!).

A ressaca contém certo elemento de arrependimento. E, como em toda a ressaca, a gente nunca aprende. Diz frases repletas de “nunca mais”, mas acaba fazendo. Porque quando a ressaca acaba, você esquece. E acha que não vai ser burro o suficiente de cair de novo naquela. Mas cai.

Você sabe que certos comportamentos não são legais. Você não se gosta em certas formas, de certos jeitos. Mas vai lá e faz. Age da mesma forma, imaginando que por ser o contexto outro, as pessoas outras, a situação outra, não está repetindo um padrão. Tolinho. E começa a sentir um enjôo, um desconforto, uma dor de cabeça, às vezes até mesmo uma febre inexplicável. É ela. A ressaca. Você fez de novo e nem se deu conta. Só quando começaram os sintomas é que as coisas fazem sentido.

E pra essa, meus caros, não há epocler, engov nem neosaldina que resolva.


(PS: Sim, eu estou numa seqüência de metáforas dignas do presidente Lula).

Burn, baby, burn!


Pessoas, assim como os cigarros, consomem-se em brasas, dores, alegrias, ódios; o fato é que viver é um eterno queimar-se. Combustão sem fim. Algumas são como puros havanas: demoram e devem ser degustadas em longas baforadas. Outras são rápidas como cigarros. Outras ainda entorpecem – e há, às vezes, as bad trips, very bad trips. Há as curtas; há os longos. De diferentes cores, texturas e aromas. Há pessoas e pessoas. Há cigarros e cigarros. E charutos. E cigarrilhas.

Há os que tentam economizar. Apagam o cigarro na metade ou fumam mais não tragam (eu desconfio de gente que não traga). Não sentem o gosto, a onda, o prazer, mas também não sofrem os males. Mas qual o objetivo de se passar uma vida com um cigarro na boca sem nunca acendê-lo?

A melhor forma de encerrar um assunto é vivê-lo até o final – mas o contrário não funciona: não é possível economizar certos sentimentos. Eles correm o risco de perder o gosto e o frescor, e se tornarem apenas um pedaço de papel mastigado e ensopado de cuspe no canto da boca.

Daí, depois de tragar e tragar, depois de se queimar - depois de implodir como um velho prédio condenado que rui primeiro pela base até caírem os andares um por um, só restando aos que estão ao redor olhar - um belo dia, do nada, você acorda e descobre que o terreno está limpo. Sem sequer você ter feito força pra isso – exceto, é claro, deixar queimar-se, deixar que as bombas implodam tudo pelos ares. Talvez apenas alguns escombros. Onde antes havia um cigarro, só cinzas. E cinza a gente sopra e ela some no ar. E parece que nunca existiu.

Felizmente ou infelizmente você esquece de tudo. E acende o próximo. E faz tudo de novo exatamente igual. Acha que não vai jogar todas as fichas, que vai economizar um pouco, que vai tragar menos, mas não dá. Quando viu, gastou tudo. Porque não há outro jeito (ou há?). E fica com um leve gosto amargo na boca. Então até mesmo esse gosto some.

Eu? Espero conseguir continuar queimando tudo até a última ponta. Ter forças para sempre acender mais um. Mas que cada um seja como se fosse novo e como se fosse último. Até que, por fim, eu me misture às próprias cinzas. Terei ardido. Assim como um cigarro, terei cumprido minha função. Do pó ao pó.

sábado, junho 02, 2007

"Somos feito da mesma matéria de que são feitos os sonhos"*


Vacinei contra a rubéolaaaa. La la la la la la...

Tô me sentindo “a imunizada”.

Ganhei inclusive um cartãozinho de vacinação. Fiquei encantada com as várias vacinas que eu posso tomar. Acho que vou começar pela de hepatite B, que são duas doses e não é punk como a anti-tetânica.


***


Faz dez graus em Gotham City. Semana que vem vou a Pasárgada, que deve estar fazendo uns cinco, seis graus.

E em julho vou à Porto Alegre! Iupi!

E quem sabe em janeiro eu vá à Antártida, se eu ganhar a promoção do Históry Channel! Iupi, iupi!!


***


A CSN entrou em greve. Claro que a greve na CSN não é mais como era nos anos 80, onde a cidade parava – tendo a primeira delas ocorrido em 1984. Hoje em dia - principalmente depois da privatização - embora a CS ainda seja o coração da cidade, há vida em Gotham para além da metalurgia. Mas ainda assim é a maior indústria siderúrgica do Brasil e da América Latina e uma das maiores do mundo. E está parada. Como várias outras coisas neste país, que vai mal das pernas. A não ser para o nosso presidente, claro.

Me lembro dessas greves quando eu era criança: um certo nervosismo na escola, pois vários pais de colegas meus eram funcionários da CSN, “peões”, mesmo – meu pai também trabalhava, mas era médico do hospital da CSN – e uma certa confusão na cabeça de nós, crianças, sem sabermos ao certo se aquilo era bom ou ruim. Os professores diziam que era bom, pois eles estavam lutando pelos seus direitos. Meus colegas, vivendo em um ambiente tenso dentro de casa, não tinham a mesma certeza.

Durante a greve de 1988 os operários ocuparam a usina. A cidade foi Área de Segurança Nacional, um resquício da ditadura militar, até 1989. No dia 09 de novembro de 88 o Exército invadiu a CSN, ferindo 46 trabalhadores e matando três: Carlos Augusto Barroso, de 19 anos; Walmir Freitas Monteiro, 27 anos; e William Fernandes Leite, 22 anos. Dia 22 a população, antendendo ao pedido dos sindicalistas, deu um “abraço” simbólico em volta da usina, em apoio aos operários.

O presidente do sindicato dos trabalhadores na época desta greve, Juarez Antunes, foi eleito prefeito da cidade. Morreu dois meses depois da sua posse num acidente de carro e há quem diga – e muita gente séria – que sua morte não foi acidental. Seu enterro também foi um momento de grande comoção para a cidade. Isso pode soar meio “teoria da conspiração”, mas quando lembramos que em primeiro de maio de 1989 um memorial feito pelo Niemeyer em homenagem aos trabalhadores mortos na greve de 88 foi inaugurado e, na mesma madrugada, destruído por uma explosão, a coisa fica meio estranha.

Sempre me interessou muito mais a dimensão humana e individual dentro desses movimentos. As pessoas que são tragadas pelo torvelinho das mudanças. A vida no varejo que muda e é mudada pela marcha da História. As histórias dentro da História. Aí me veio à cabeça o excelente documentário brasileiro “Nós que aqui estamos, por vós esperamos” de Marcelo Masagão. A frase é de um cemitério e o documentário conta a história do século XX através não só de figuras ilustres, mas principalmente através de pessoas anônimas (algumas fictícias). “Tu és pó e ao pó voltarás”. Claro que isso não é motivo para não lutar, mas fica a dúvida: será que existe causa maior do que a vida? Mas e quando a vida deixa de ser vida?

* Shakespeare. Se não me engano em "Hamlet".