terça-feira, julho 31, 2007

Eufemismos do mercado


Eu acho muita picaretagem cursos que colocam “investimento” ao invés de “preço”. Aí é mais barato? Da mesma forma esses dias vi escrito “facilitadora” ao invés de professora ou palestrante ou sei lá que porra a pessoa era. Tipo, parece vaselina, sabe? Facilitadora?! Facilitadora me lembra parteira.

Esse tipo de gente é o mesmo que fala coisas como “aluno-empreendedor” ou “nosso cliente” (ao invés de nosso aluno, nosso paciente) ou gestão de pessoas – e eu, na minha cabeça doente, fico sempre criando correlatos como “digestão de pessoas”, enquanto imagino uma jibóia terrível e enorme digerindo um ser humano inteiro no seu estômago; eu sou o Calvin depois de grande. E é o mesmo que usa palavras inglesas inseridas no cotidiano – a sério – do tipo timing, coffee-break (qual o problema com “intervalo” ou “pausa pra o café?”), feedback, over e outras tantas de fácil tradução no português.

Essas pessoas em geral são aquelas “dinâmicas”. Odeio gente dinâmica - vocês não podem imaginar quanto. Não, ainda que vocês consigam imaginar estarão errando. É mais ainda. Eu posso usar todo meu dinamismo para bater nessas pessoas.

São as mesmas que vestem a camisa da empresa. Eu visto a de força (Já imagino um ótimo slogan pra uma clínica de doentes mentais: todos os funcionários de camisa de força e em cada uma escrito: “vestindo a camisa de empresa”. Publicitários?).

E essas mesmas pessoas acreditam em vivências para melhorar a relação empregado-empregado, empregado-chefe ou empregado-qualqueroutrapalavraqueelepossausarohífen ou acreditam no diálogo – desde que você fale no ouvido que eles escutam, claro.

E fazem reuniões cretinas - aos sábados, de preferência - e obrigam funcionários a se deslocarem do seu sacrossanto lar para ouvir não o que ele pode fazer pela empresa, mas o que a empresa pode fazer por ele. E ele apenas balança a cabeça, sorrindo, pensando que o que a empresa poderia fazer por ele é deixá-lo dormir um pouco mais no dia de sábado. E ri das piadinhas cretinas do chefe, mesmo aquelas ofensivas aos alunos/funcionários mais pobres – mesmo sabendo que esse chefe cretino veio de um lugar muito mais pobre, mas que ele prefere esquecer, citando as palavras em inglês no cursinho equisprésss da Curtura Ingresa que ele fez depois e adulto.

E o mais incrível é que essas pessoas passam realmente a acreditar naquilo que dizem. Sim, porque ninguém agüenta ser tão cretino se realmente não acreditar naquilo que faz. Ou vocês imaginam essas pessoas chegando em suas casa e tendo crises de consciência? Nãããão. Claro que não. A pessoa introjeta a cretinice.

Otimizar. Racionalizar o tempo. Investir. Empreendedorismo. Administrar. Equalizar. Enxugar. Cortar gastos. Tudo virou questão de administração, marketing e vendas. Foda-se se é educação, saúde ou papel higiênico. Você virou um cliente.

Por isso eu ainda admiro os que vão na contra-mão. Ainda. Porque, por mais que as pessoas digam que não há como fugir, há sim. Ou pelo menos há como criar brechas. Mas você, funcionário, que se dá desculpas dizendo que “se não fosse eu, outro faria meu serviço”, “não há como mudar” ou “o jogo é esse” e ainda - o pior de todos – “só faço o meu trabalho”, saiba que há sempre os que se recusam. Mesmo com família, etc, etc, há os que se recusam. Há. Se você está aí é porque você escolheu. Pelo menos admita isso. Ninguém é inocente.

Eu já trabalhei num lugar desses. Me demitiram. Claro. Eu não me encaixava no perfil da empresa – obrigada! Provavelmente se não me demitissem eu ainda estaria lá...não sei. Não posso dizer. O fato é que vocês já saíram de um lugar – ou de uma relação – que, quando você estava lá era ótimo, mas só quando você saiu é que percebeu o quanto era ruim? Pois é. Mais ou menos isso.

Mas desde então eu disse não algumas vezes. E espero continuar dizendo.


13 comentários:

Anônimo disse...

Você deve AMAR aquele programa "O Aprendiz".

Cláudio disse...

É isso aí, Carrie. Ninguém é inocente. A auto-justificativa, a tal introjeção a que você se refere, deve ser evitada. Pode parecer bobagem, mas ter consciência faz toda a diferença. O que não deixa de ser uma forma de se desculpar também, hehehe. Enfim, se a gente prossegue nesse tipo de círculo (viu? Não usei "loop"), a coisa pode continuar até o infinito...

Há algum tempo comentei com um ex-colega, que encontrei por acaso: as pessoas têm que sobreviver, certo? E ele disse: não, não têm não. Eu mesmo já pensei em suicídio! Talvez tenha pensado mesmo. Talvez não. O fato é que ele tem uma família abastada que tenho certeza que o apóia financeiramente. Assim é fácil não "precisar sobreviver"...

Sei que não é o seu caso, e admiro sua opção. Há coragem (muita) nisso. Mas se você está por sua própria conta - e ainda há outros que precisam ou poderão precisar de seu suporte, a coisa muda um pouco de figura (auto-justificativa de novo!). Enfim... Espero que o que digitei aqui tenha sido intelegível, hehehe.

P.S.: Ótima a piada com as camisas de força. :)

ione disse...

Haha, foi por isso que eu desisti do curso de administração e fui fazer jornalismo, que tb não é lá a minha praia... Vc esqueceu das dinâmicas de grupo, aquelas brincadeirinhas de não deixar as bolas-de-gás caírem no chão, pra reforçar o sentimento de grupo, bem ao modo de "a união faz a força".

Andrea disse...

Às vezes a relação ensino-aprendizagem se assemelha mesmo muito a um parto. Só pra constar.

Carrie, a Estranha disse...

Anônimo,

Cara, eu gosto MESMO. Sério. É tão bizarro, tão fora da minha realidade q eu gosto de ver. Com uma curiosidade quase antropológica.

Cláudio,

Mas eu me pergunto o que é melhor (ou pior): o cara que já introjetou ou o q faz tudo com "consciência" e vive atormentado? O que introjetou pelo menos acredita no que faz. E não é muito mais hipócrita e cretino vc ter a tal da consciência e não fazer nada? Se dar desculpas do tipo "a gente tem q sobreviver"?

Concordo plenamente com o seu colega. Mas tb sei q eu falo de uma situação privilegiada. Não digo privilegiada do ponto de vista financeiro - sou classe mérdia, a coitada e aviltada classe mérdia que precisa ouvir do Lula q quem o vaiou são banqueiros e outros q mais lucraram com o seu governo, contrariando a própria idéia de q ele é bom pra classe pobre(e como se banqueiro estivesse indo à abertura de Pan!) - mas do ponto de vista de uma família q sempre acreditou q o q importa é ser feliz e q a vida passa rápido, muito rápido, nesse sentido, sempre me deu suporte (entendendo amplamente) todas as vezes em q eu liguei o foda-se e fui fazer outra coisa da vida.

E outra coisa: não ter ninguém q dependa de vc muitas vezes é uma escolha. Tudo bem, acho q tem certas ocasiões na vida em q vc realmente não escolhe - ter uma mãe ou pai ou outro parente qualquer doente e q depende de vc. Agora, mais uma vez eu digo: por que as pessoas se casam e muitas vezes com pessoas q não trabalham? Por que elas tem filho? Por opção! Ninguém é inocente. Teve filho porque quis! Há diversas opções anticoncepcionais e abortivas - e pra quem é contra todas elas, Há abstinência. Então eu penso duas vezes entre ter esse tipo de coisa q não me deixe ligar o foda-se e e ir embora. É claro q essa escolha tb vai me cobrar um preço, talvez, no futuro. Mas por enquanto eu to pagando!

E discordo q só quem possa fazer isso é rico. Tem muito pobre q faz isso. Ou vc nunca ouviu as famosas histórias de gente q "foi comprar um cigarro e nunca mais voltou"? Eu conheço histórias de garçons, faxineiras, balconistas q, um belo dia, resolveram q não era isso o q queriam pras suas vidas e foram fazer outra coisa.

Há tb os que surtam no meio do caminho. Outra bobagem é achar q depressão e doenças mentais são privilégio de rico. O pobre tb tem e muito! Só q o pobre toma choque elétrico, vai internado, vira alcoólatra, mendigo, "sofre dos nervos", entra pra Universal...

Não sei de nada. A única coisa q eu sei é a vida passa. E rápido. E eu procuro não fazer planos. Claro q um ou outro a gente acaba fazendo. Mas procuro lembrar, como os budistas, q tudo é impermanência. Tudo pode acabar num segundo. Qdo vc estiver lendo isso eu posso não estar mais aqui - ou talvez vc não esteja mais aqui a tempo de ler. É isso o q me faz acordar todos os dias e levantar da cama - porque, acredite, houve um tempo em q até isso era muito, muito difícil.

Nossa, empolgation total! E ainda temos outras pessoas para responder!

Bjs, Claúdio.

Ione,

Run, Forrest, run! JORNALISMO, NÃO! Hoje em dia o jornalismo é apenas uma empresa como outra qualquer. Fuja enquanto há tempo.

Andrea,

Eu sei exatamente o q vc está dizendo.

Bjs a todos

Carrie, a Estranha disse...

Cláudio,

PS: Não estou chamando vc de cretino e hipócrita. Só pra deixar claro. Nem acho q vc esteja nesse caso.

bjs

Leilane Gomes disse...

A gente é o que É! Sem mais...

nervocalm balas disse...

A cultura corporativa é uma praga. É tudo, tudo errado, e me espanta ver as pessoas cada vez mais adotando esse tipo de discurso até na vida pessoal. Se eu começasse a falar desse assunto, também gastaria mil parágrafos. Cretinice é um excelente resumo.

Ah, genial a idéia dos funcionários de pinel 'vestindo a camisa da empresa'. Vai pra coleção.

nhoque, o vulgo disse...

Vestir a camisa empresa é fácil. Difícil é lavar.

Ione disse...

Haha, até nos comentários a gente se diverte! :D Pode deixar, Carrie, que jornalismo tb já deixei... Tava na UFF,começou (mais uma) greve, vim para Viena, recomecei aqui mas mudei para o curso de tradução.
Beijos!

Andrea disse...

Gente, esse post foi o mais legal. Amei o chat que rolou nos comentários!

Eu quero ir pro bar agora com a Carrie e com o Claudio!

Carrie, a Estranha disse...

Hahahaha, Andrea, muito pândega, vc! Quem sabe marcaremos o grande encontro Sublimense?

Andrea disse...

Acho super válido!