sexta-feira, dezembro 21, 2007

Sinais de vida


Uma casa sempre se modifica com a chegada de uma criança. Mesmo que momentaneamente. Pequenos cantinhos denunciam a presença desses pequenos seres; umas vezes angelicais, em tantas outras, diabretes.

Brinquedos são esquecidos em cantos remotos da casa. Brinquedos trazidos no intuito de acalmar os ânimos, fazer companhia durante a papinha ou tomar banho. Objetos transformados em brinquedos às pressas. Caixas, caixinhas, sacos plásticos, papéis. O brinquedo melhor é sempre aquele que não é. Portas fechadas, escadas cuidadas, objetos se dividem entre pode e não-pode, entre os que quebram ou não quebram, engolíveis ou não engolíveis. Brinquedo ou arma. Brinquedos que rebatizam objetos.

Gritinhos são escutados. Risinhos. Musiquinhas de brinquedos são repetidas à exaustão, a ponto de colar na sua memória como chiclete. Desenhos vistos e revistos. Brincadeiras que se repetem. Ordens e ameaças que se repetem. Educar é repetir.

O cheiro de criança se espalha pela casa. Em copos. Banheiros. Lápis de cor se espalham pelo chão – ainda que a maior diversão seja apenas manipulá-los, descobrindo o mágico mundo das cores, pois a coordenação ainda não deixa que eles sejam empunhados adequadamente.

Estamos na fase dos encaixes. Do leva e traz. Organiza e bagunça. Diz Formiga Irmã que é toc(inho) infantil. Tudo tem que ser ordenado para depois bagunçado.

E as formas. E texturas. Todas as formas e texturas são milimetricamente exploradas por mãozinhas ágeis. Todos os sentidos apontam que por perto há uma criança.

Dia desses li lá no Mme Mean um texto da Criada de Madame sobre o filho dela que tem 13 anos e a puberdade se anunciando – e com ela, promessas de um espaço vazio; do filho que partirá em breve – de uma condição de criança, pelo menos. E a ponta de melancolia que há nisso. Na outra ponta, Cam Seslaf, que acaba de ter seu bebê, a Catarina (e eu vejo todos os nomes que eu penso pros meus filhos sendo colocados...) falava a um dia da maternidade e da última tarde que ficaria sozinha, pelo menos por muito tempo. E a ponta de melancolia que há nisso.

As duas têm quase a minha idade – por volta de 30 anos. Dois momentos opostos e a mesma sensação. Simetricamente oposta. Penso que a decisão de ter ou não ter filhos também é bastante similar. Ambos têm sempre uma ponta de melancolia. No final, não se muda nada. E se muda tudo.

Então, para que se ter filhos? Pra nada. Para se ter.

4 comentários:

Lenissa disse...

Pessoa sublime! Venho postar meus votos de feliz natal e ano-novo sublime pra você. Eu desejo que possamos contar com seu blog em 2008, cada vez mais simpático e irônico - maravilhosa combinação.
Grande beijo
Lenissa

Cris disse...

feliz natal, carrie. e tomara que a gente passe o ano novo juntas [embora eu ache que já perdi a parada pra uma certa menininha, hohoho!] bjs

Andrea disse...

meu natal tb teve bbna manjedoura: sublime sobrinho

Karina disse...

Estou querendo vivenciar essa transformação de um ap casal p/ ap casal/criança. Mas mesmo antes de colocar a idéia em prática, às vezes sinto essa "certa melancolia".
Bjks