quarta-feira, outubro 24, 2007

Chora em mim


Eu não sei que estranhas associações me fazem gostar tanto de chuva. Aliás, eu sei. Mas é que ainda me surpreendo gostando de chuva como se fosse a primeira vez.

Lembro-me de chuvas longínquas, numa infância pré-histórica, aonde as chuvas quase sempre vinham acompanhadas da falta de luz. E eu amava quando acabava a luz. Eu torcia para que acabasse a luz. Ainda que sentisse um pouco de medo - eu sempre gostei das coisas que me dão um pouco de medo. Sem televisão, sem qualquer outra diversão a não ser ficar quieto com os próprios pensamentos e com o dos outros. Conversar com o pai e a mãe e os irmãos, todos juntos, desobrigados de seus reais compromissos. Tréguas no estudo, no trabalho, na vida. Apenas um momento de estar. Imaginava-me em outro século, em outro tempo, em outro país. A falta de luz dava a real dimensão da modernidade, como se a natureza dissesse vocês podem até ter progredido, mas olha como ainda não são nada perto de mim. Quando a luz voltava e todos comemoravam, fingia também gostar, mas no fundo ficava desapontada em ter que abandonar este lugar. Ou melhor: este não-lugar.

Além disso, eu nunca fui uma criança muito solar. Sempre gostei das brincadeiras dentro de casa e, principalmente, aquelas que um dia de chuva propicia: cabaninhas, comer brigadeiro na panela vendo sessão da tarde, jogos de tabuleiro, pipoca, chocolate quente, contar e ouvir histórias. Sem pressa.

Até hoje a chuva me acalma. É como se, enfim, algo lá fora se igualasse a algo aqui dentro. De mim. Enfim o mundo faz sentido. Por algumas horas que seja. A chuva silencia minhas vozes internas – ou as refresca pelo menos. A chuva parece alguém que baixou a guarda, a defesa, que, enfim, deixou correr.

A defesa civil pede: não saia de casa hoje. Desabamentos de terra. Aqui dentro as coisas já desabaram há muito tempo. Que bom – não os desabamentos, mas não sair de casa. A defesa civil me autoriza a ser o que eu sempre sou. Um ser caseiro. Sem precisar dar desculpas. Inventar pretextos. Não. A defesa civil mandou. Eu obedeço. Precisam esperar a chuva passar para fazer o trabalho de contenção de encostas. Aqui dentro as encostas não podem ser contidas. Eu deixo tudo desabar e depois vou brincar em cima da montanha de terra. Fico pulando e acenando pros helicópteros: aqui, aqui!

E o cheiro de terra molhada depois que tudo passa. As enormes poças de água. Barquinhos de papel. Como se o mundo acordasse de uma longa noite e se sacudisse todinho como um cachorro. O mundo saiu do banho e tá com aquela cara de limpinho. De novo. Pronto pra começar mais uma vez.

12 comentários:

Anônimo disse...

Lindo, lindo!!!!
Eu gosto da chuva por ela ser o prenúncio do frio que eu amo!
O dia de sol nos obriga a uma alegria irritante e artificial. Ainda mais no Rio que o carioca se sente vitorioso num dia de sol.rs
Amo a discrição que o frio provoca às pessoas e um certo ar sem graça.
Bjs,
bb

Cris disse...

Que gostoso ler isso hoje :)

Milema medeiros disse...

Tb amo chuva, dias frios e cinza. A gente nao tem obrigação de estar feliz, colorida, de sair de casa. Pode simplesmente ficar em casa, ver um filme, comer bobeiras...E até acho q as pessoas ficam mais bonitas em dias assim!

Ila Fox disse...

AMO chuva.
AMO frio.
AMO vento forte
AMO trovão.

Por mim eu viveria dentro do olho do furacão.

Gosto principalmente quando o céu escurece anunciando a chuva, aquele vento... não gosto do Sol que abre logo depois, me desanima.

Acho que sou uma menina sombria.... ohohohohoh.

Maria Zélia disse...

Ai, que saudade da infância nos dias de chuva, nos dias em que faltava luz.
Parece que vc entrou dentro de mim para escrever isso. Sentia, e sinto, tudo igualzinho a você. As conversas, sem os ruídos da rua, à luz de velas, me levavam para séculos passados e eu amava muito ter essa sensação.
Sem contar as cabaninhas...
Hoje, infelizmente, estou trabalhando e não teve jeito de ficar quietinha em casa com o João Fanquico. Queria ver a reação dele num dia de chuva (acho que ele não está gostando muito, prefere ficar andando na rua).
Obrigada por me fazer voltar um pouquinho no tempo.
Beijos

Carrie, a Estranha disse...

Meninas (acho q só mulher lê esse blog!),

Que bom q trouxe boas lembranças a vcs.

Bibi,

Pois é. A mala da Fernanda Young falou uma coisa q pretou ontem no programa dela: q ela adora SP, mora há 15 anos, pq lá ela pode ser mal humorada. Ela pode não ir a praia, tomar chopp...rsrsrs

Cris,

E que gostoso vc ter achado gostoso!

Milemona, Milemíssima, Milmáxima...

POis é, eu sei q nós comprtilhamos esse gosto.

Ila,

Mais meda ainda de vc. Muita meda, garota sombria ;)

Zelinha,

Oi, q bom te ver por aqui, comentando!

Sim, crianças muito pequenas devem ficar ainda um pouco assustadas. Depois ele acostuma.

Um enorme beijo para todas

Andrea disse...

Gente, não acreditem nela, não tem nada de bonito nisso. Fiquei três horas ilhadas numa C&A vendo ratos e baratas sairem dos bueiros em imagens apocalípticas nunca de antes pensadas por mim como possíveis.

Já tomei dois banhos com álcool.

Carrie, a Estranha disse...

Rsrsrs...É, Andrea, por isso eu não saí de casa. Mas é foda pra quem precisa...

Bjs

Ila Fox disse...

Me lembrei que quando era bem criancinha, quando a acabava a luz em casa, eu e meu irmão desandávamos a cantar "Parabéns á você", por que na nossa cabecinha petiz, quando apaga a luz era hora de cantar Parabéns! hehe.

No fundo era só festa mesmo! Como se aqueles minutos que acaba a luz o mundo também parasse, nos dando aquela tranquilidade que só as férias podem trazer!

E pensando bem.. até mesmo quando adultos a gente gosta de quando acaba a energia né? ou vai me dizer que não existe desculpa melhor para ficar de papo pro ar no trabalho quando tudo fica na escuridão total? ... pena que inventaram os no-breaks... malditos no-breaks!!! hehehe

... disse...

Adoro dias de chuva!
Minha grande lembrança de infância é ver a chuva chegando pelas montanhas. A gente via tudo branquinho até que, de repente, sentia os primeiros pingos no rosto. A correria pra tirar a roupa do varal. Confesso q hj falta de energia me apavora, mas tem sido bacana aprender a lidar com isso (talvez pq seja raro) rs, a conviver com meu silêncio. Um bom livro normalmente resolve ou qdo estou com outras pessoas uma boa conversa ou um jogo de tabuleiro.
Bj

Bella disse...

eu tb gosto de chuva, mas só qdo não tenho q ir trabalhar pq sair nesse caos ontem foi uó.
bjks

André Rafael disse...

Gosto de chuva, também, porque sinto como se fosse um banho n'alma, mas ter que trabalhar sem carro (ou pior, de moto) na chuva é defo...
Só não gosto quando acaba, não, porque ao invés da sensação de que está tudo limpo pra recomeçar sinto como uma ressaca da natureza... sei lá.
Beijo.