quarta-feira, março 12, 2008

Dores que movem montanhas


Uma das melhores coisas que eu fiz na minha vida foi ter feito escola de teatro. Ainda que eu não tenha seguido na carreira de atriz, foi dos maiores aprendizados. Em uma (boa) escola de teatro levada a sério, você se conhece horrores. Tudo bem que eu acho que a maioria dos nossos problemas sejam de ordem inconsciente – e o inconsciente, essa caixa preta que temos dentro de nós, nem sempre se torna consciente; na maioria dos casos ele fica lá escondidinho, fazendo você sonhar que está transando com o seu vizinho de óculos que é ao mesmo tempo o Woody Allen e a Feiticeira (pra falar o sonho mais “publicável” que eu tenho), e o máximo que você consegue é mexer umas coisinhas aqui e ali e mudar, quiçá, alguma coisa. Mas eu descobri coisas que se referem ao domínio da razão ou da consciência fundamentais pra minha existência. O famoso “conhece-te a ti mesmo”.

Descobri, por exemplo, como as pessoas tinham uma imagem errada de mim. Ou talvez eu não soubesse quem eu realmente era. Descobri como, pela minha filosofia e postura (física e de vida), as pessoas achavam que eu era uma pessoa brava, mal humorada e agressiva. Não que eu não seja, mas às vezes eu tava bem, tranqüila, e passava uma imagem carrancuda. Ou, em diversas vezes ouvi dos meus professores que eu era uma pessoa sem energia. Me lembro de uma professora gaúcha que me dizia: “tu é mole, guria!” e também de um professor de música que chamou um grupo de alunos "com problemas" e disse de uma amiga minha (que hoje faz aquela peça "O Surto" que a energia dela era excessiva e que ela podia passar um pouco pra mim, que faltava. E todas essas classificações correspondiam a verdade, em alguma instância. Porque era assim que eu tinha aprendido a me mostrar pros outros. Ou era assim que eu tinha me acostumado a ser. Mas, como disse a Ana Manga, a gente não É. A gente se reinventa.

Descobri que eu tinha extrema facilidade para fazer personagens violentas, agressivas, más, sarcásticas, amarguradas, velhas, entediadas...mas não personagens leves, jovens, soltas, felizes...Em geral eu sempre fazia as personagens mais velhas, mesmo quando contracenava com gente mais nova que eu. Descobri que eu poderia ter humor. Tacharãn! Eu nunca pensei que eu pudesse ser engraçada. Foi na escola de teatro que eu aprendi que eu podia ser engraçada, ainda que nunca fosse um humor rasgado, pastelão, clownesco – que eu acho incrível. Seria sempre aquela coisa meio dark, irônica, sarcástica. E eu sempre me perguntava, como atriz, se valia mais à pena insistir em fazer o que eu sabia de melhor e ficar no fácil ou tentar melhorar meu lado ruim – mas não aparecer tanto, não ser chamada pra fazer nada, não ser nunca tão boa...

Aprendi a ser menos tímida e a usar meus defeitos de forma favorável. Acho que é do Antunes Filho a frase: “coroa o teu pior”. Quando ouvi essa frase, tive uma revelação. Sim, o meu melhor é o meu pior. Aprendi que às vezes, de tanto fingir, você mesma acaba acreditando. E isso pode ser bom em algumas situações. Aprendi que todos nós desempenhamos personagens – bom, isso eu também aprendi nas minhas aulas de antropologia e sociologia – e que somos muitos ao mesmo tempo (tô parecendo a Tati do Big Brother!).

Bom, mas o que eu queria mesmo falar é sobre as aulas de Corpo que eu tinha. Aulas de Corpo é como a gente chamava a aula de expressão corporal. Assim como tínhamos a aula de Voz, a aula de corpo era uma aula que visava retirar o registro cotidiano de movimento, limpar o repertório do ator, para que ele desenvolva o seu instrumento (o corpo) de forma a poder interpretar diversos papéis. Não se trata de malhação pura e simples – apesar de também passar por isso – mas de treinar o seu corpo para diversos personagens, já que, segundo o método de interpretação de Stanislawiski, você deve partir das emoções e do físico simultaneamente – por isso é um método psico-físico – pois as coisas acontecem de dentro pra fora E de fora pra dentro, SIMULTANEAMENTE. Como o instrumento do ator é o seu corpo, deveríamos afinar nosso instrumento diariamente, como pianistas repetem escalas.

Nesse caminho eu conheci uma professora muito bacana, atriz de teatro, chamada Marilena Bibas. De idade indefinida – dessas pessoas que tanto podem ter 43 anos como 65 – essa sunsei, nissei ou não sei era/é uma figura ímpar e a ela eu devo o fato de ter me formado na CAL. Ela me deu aulas em duas cadeiras: de Corpo e de Interpretação. Quando o dono da escola quis me reprovar (abafa o caso...longa história), ela foi uma das poucas professoras que me defendeu com unhas e dentes. Ela simplesmente acreditou em mim desde o momento em que ela colocou os olhos em um trabalho meu. Ela me fez ver que a emoção, a sensibilidade e todas as características fundamentais para o trabalho do ator eram, de fato, fundamentais, mas tão importantes quanto a técnica e o trabalho árduo – e bota árduo nisso. Ela era – e ainda é – foda. Estudou na Itália, é co-fundadora do Tá na Rua, grupo do Amir Haddad, e trabalhou oito anos com ele. Aqui está o link da companhia teatral dela pra quem se interessou.

A Marilena era seguidora de um tipo de teatro chamado Teatro Antropológico, baseado nos conhecimentos de Eugênio Barba e Grotowski, e que têm suas raízes no teatro japonês. Aliás, ela estudou com o próprio Barba. Esse teatro acredita, sobretudo, em um treinamento físico para o ator, capaz de deixá-lo apto para o trabalho cênico – incluindo aí voz. Um corpo desperto. Esse tipo de treinamento é 8 ou 80. Tinha colegas que detestavam e nem por isso eram piores atores. Eu me apaixonei e, após ter tido aula com essa mulher, resolvi segui-la. Ela dava aulas em um estúdio ali em Laranjeiras, na General Glicério. Lá vou eu fazer aula com ela. (Parece que agora ela dá aulas em Ipanema, como diz esse link aqui).

O curso foi das melhores coisas que eu fiz dentro da área de teatro. Ela partia de um treinamento físico exaustivo, aliado a uma base teórica (e eu sempre precisei de bases teóricas...). E ainda por cima ela era uma pessoa calma, doce, mas extremamente firme e enérgica. Ao mesmo tempo ela tinha uma coisa meio Mestre dos Magos ou Senhor Miagui. Dava uns livros do tipo “A arte cavelheiresca do arqueiro zen” ou falava umas frases meio desconexas que você ficava o resto do dia pensando. O fato é que no auge dos meus 22 anos aquilo me impressionava bastante. Mas como era na prática? Fazíamos um treinamento coletivo que incluía aquecimento, movimentos de acrobacia em um colchão, movimentos de ioga, de kung fu, basicamente. Havia também os exercícios de ressonância vocal, onde você aprendia a “jogar” a voz pra cabeça, pro peito ou pra que parte fosse. Depois montávamos uma seqüência de movimentos, ou melhor: uma partitura de movimentos – cada um montava a sua, baseada nos movimentos que a gente tinha treinado – e, bem depois, o texto era acrescido a essa seqüência. Na prática isso não era utilizado em cena, mas era de um resultado fabuloso.

E havia as “exibições” ao final da aula. Depois de um tempo de casa, eu passei, junto com outra amiga, a ser uma das "exibidoras". E coisa toda era brutal, tanto é que a gente tinha que ir de joelheira e, não raro, saía toda ralada. E dentro desta idéia tem uma coisa chamada “o princípio da exaustão” que – me perdoem se tem alguém que entende muito de teatro me lendo agora, pois faz tempo que não leio sobre essas coisas nem faço nada e posso estar cometendo algumas generalizações e superficialidades – pode ser traduzido em trabalhar o cansaço a seu favor. Porque a série era tão brutal, tão violenta, tão difícil executar em alguns casos (você plantava bananeira, dava cambalhotas, fazia aquela vela da ioga só apoiada no pescoço...loucura) que eu alguns casos você tinha a certeza que ia desmaiar. E a gente aprendia a não desmaiar e descansar dentro do cansaço; respirar (incrível como a gente esquece de respirar!) e fazer o mesmo movimento de forma leve.

Nesses dias que eu venho começando a correr eu lembro sempre desse princípio da exaustão. Todo mundo que corre conhece isso. Tem um momento na corrida em que você pensa: vou morrer, vou desmaiar. Claro que você deve ter bom senso de correr aos poucos e, em um momento desses, parar. Mas, depois de um tempo, você percebe que não vai desmaiar. Não vai morrer. Que talvez seja só o seu corpo dizendo: “ei, eu não estou acostumado a esse movimento! O que está acontecendo? Eu quero deitar e comer chocolate!”. Daí você aprende a relaxar dentro da corrida. Quem sabe diminuir ou fazer de uma forma mais leve. Lembro que, no aquecimento, quando a gente corria, a Marilena sempre dizia: "corra com se o topo da sua cabeça quisesse chegar ao teto” (corríamos em círculos, dentro do estúdio com um piso de madeira). Não é dar impulso ao corpo, é apenas ter essa percepção. Corríamos descalços, havia pessoas muito gordas, mais velhas e todas conseguiam fazer. Cada uma no seu ritmo. Foi o período da minha vida em que eu fiquei mais magra.

Dentre os muitos conhecimentos que eu levei desse treino, aprendi (além de onde ficavam meus ísquios) não só a superar limites, vencer medos e voltar a fazer coisas que nem em criança eu conseguia fazer. Acima de tudo, aprendi a reverter a dor em algo prazeroso (e não se trata de práticas sado-masoquistas). A respirar mesmo nas situações mais difíceis. Que se você aprende a trabalhar com elas a seu favor, logo se mostram suas aliadas. O que tem a ver com o outro post em que eu falava sobre defeitos que são qualidades.

Vocês devem estar se perguntando com quantas coisas boas, porque eu não continuei na carreira de atriz. Bom, porque eu também aprendi a ver o momento em que a dor se torna insuportável, não podendo mais ser usada ao meu favor. Chegou um momento em que não era possível mais respirar. Ser atriz era, para mim, dolorido demais. E não passava nunca. E deixou de ter prazer, porque as condições de trabalho são tão difíceis, tão complicadas e passam por tantas coisas que o lado do prazer parou de fazer sentido.

Fazer doutorado dói muito. É um tanto de si que você expõe em qualquer trabalho da área humana e se depara com seus limites e problemas e é difícil pra caramba, do ponto de vista pessoal. Mas tem o prazer. Ainda. Tem condições de trabalho menos inóspitas. Tem reconhecimento.

Escrever dói também – escrever em geral. Mas se encaixa na mesma idéia acima. O Ruy Castro, em um texto que abre um livro do Woody Allen, diz que o escritor é alguém com um espinho debaixo da unha, mas que não consegue parar de escrever. Acho que é por aí. Não é alardear um tipo de arte sofredora, mas é um incômodo. Na vida somos movidos por incômodos. Se não, ficamos parados. Agora, é preciso também saber a hora de parar. Antes que o espinho gangrene o dedo e você acabe perdendo-o.

Acima de tudo, o teatro me ensinou a me jogar. Em tudo. A não ter medo do ridículo. Eu, como toda pessoa tímida, tinha um medo danado do ridículo. Só que esse medo apenas revela o quão pretensiosa eu era. Quem eu achava que eu era que não podia errar nem ser ridícula?
O teatro me ensinou a tentar. Uma, duas, milhões de vezes. Dentro do seu limite - mas expandindo-o a cada vez. O teatro me ensinou que a único jeito de fazer as coisas é indo com tudo, abrindo o peito e respirando.
PS: Esse post é dedicado a Formiga Irmã. Num oferecimento da Sublimes Corporations and Organizations.

9 comentários:

Menina de óculos disse...

Carrie,

Enquanto eu lia o seu texto, eu lembrava de um trecho de Guimarães Rosa, em Grande Sertão Veredas, em que ele diz que o "mais importante e bonito do mundo, é isto: que as pessoas não estão sempre iguais, ainda não foram terminadas – mas que elas vão sempre mudando. Afinam ou desafinam". Acho que é exatamente isso que vc e todos nós vivemos diariamente, uma busca desesperada pela afinação.
Gosto do que vc escreve.
:)
bjss

Canimo disse...

Surprise! Não sabia de nada disso! Que bom, mais pontos pra você! Pude me identificar com um monte de coisas aí. A questão do nosso "pior", a questão do que parecemos ser e não somos de verdade e a questão de fazer uma coisa que não não nos faça sofrer tanto.

Viviane disse...

Minha Aline,
Te amo!
Bjs, Bibi

Camille disse...

Eu acho que TODO mundo tinha que fazer curso de teatro, mas PRINCIPALMENTE os tímidos. Acho muitíssimo importante mesmo. Principalmente por essa coisa q vc falou, do medo do ridículo, que tanto nos trava, e empata a vida.

Agora, quanto a essa dica da corrida, olha, eu ontem apliquei. Corri "como se o topo da cabeça quisesse chegar ao teto". Olha, Carrie, não sei, mas a princípio, eu realmente acho q essa dica é uma BAITA dica! A minha pisada se concentrou no meio do pé e não no calcanhar. Eu corri mais fácil. Minha perna doeu mto menos no final. Pode ter sido coincidencia, mas acho q não. Só sei é q agora vou aplicar isso na corrida sempre.

E esse teu post tá maravilhoso, como sempre. Cheio de coisas pra aprender. Pra ler e reler umas dez mil vezes.

Um beijo!

Carrie, a Estranha disse...

Menina de Óculos!

Que lindo! Puxa, lembrar do Guimarães me lendo é uma honra!

Canimo,

Querida! (ainda vou descobrir o q diabos esse nick significa!)

Que bom q vc gostou.

Minha Fuuuuumiga Imããããã mais linda do Muuuuuuuundo! Eu tb te amo.

Camille,

Não é bom, menina? Eu sempre tento pensar isso. Mas a minha na concentra no meio do pé, não. Realmente eu acho que dá menos aquele impacto no calcanhar. É pensar em sustentar o corpo e não se soltar em cima das articulações. Aliás, eu penso em todas as minhas articulações enquanto corro. Penso que elas estão bem, que os músculos estão sustentando e que nada vai doer. "O segredo" aplicado aos exercícios físicos!! hAHAHAHA

Sério.Acho que faz toda a diferença vc fazer um exercício físico com concentração e consciência corporal.

Bjs a todas

ela2 disse...

Prêmio no Ela pra ti.
Bjos

Vivi de Andrômeda, cada vez mais nebulosa disse...

Nossa, adorei o seu blog! Desde que vi seu nick (eu realmente gostei do filme!!).
E me identifiquei muito. Estou fazendo mestrado (ou fingindo que estou) e quase enlouquecendo...
Espero conseguir lembrar desse seu post quando estiver nadando (ou morrendo sem fôlego, visto que meu apelido na turma é "âncora".).

E li a história dos cachorrinhos! Meu Deus, passei por isso mês passado, mas foi um cãozinho só... também não pude ficar com ela, mas graças aos céus ela está em uma casinha boa agora ^_^.

Finalizando, beijos e um bom fim de semana... que você possa me provar que existe vida após o doutorado...

Cris disse...

amiga, adorei o papo e o café ontem. aqui vai o link para o conto daquela autora americana de que te falei, a kate chopin:

http://www.kingkong.demon.co.uk/gsr/silkstox.htm

espero que vc goste.

bjs

Carrie, a Estranha disse...

Ela 2,

Muito obrigada! Já fui lá agradecer.

Vivi,

Muito obrigada pelos elogios. Tb gostei da idéia do blog akdmico.

Qto a ter vida depois do doutorado...se eu sobreviver, te aviso.

Cris,

Te mandei e-mail.

bjs