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quinta-feira, novembro 13, 2008

Metáforas

Vocês, crianças dos anos 80 como eu, se lembram daquele desenho do pica-pau e a bruxa? Ok, eu já devo ter falado aqui umas 500 mil vezes sobre esse desenho – dois anos de blog, a pessoa vai ficando meio repetitiva. Mas é que ele é emblemático pra mim por uma série de motivos.

Eu nunca gostei muito do pica-pau, devo confessar. Além de extremamente irritante eu sempre morria de pena dos inimigos dele – assim como do Coiote ,do Papa-léguas, do Tom, do Jerry. Sempre tive uma queda pelos oprimidos. O pica-pau era um sádico, vamos ser sinceros. Mas, ainda assim, numa época sem videocassete e onde TV a cabo parecia coisa de ficção científica, nós, pobres crianças, esperávamos pacientemente a chegada do nosso desenho favorito em meio a uma pilha de desenhos ruins e repetidos (eu sempre digo que se na minha época de criança existissem esses canais de desenho 24 horas por dia e internet eu estaria até hoje na terceira série primária. Aliás, mudando totalmente de assunto, hoje eu li no jornal que dentre as regras que a Madonna impõe para o ex marido ver os filhos está não deixar que eles vejam televisão ou leiam revistas ou jornais. Tsc, tsc, tsc...o que ela espera com isso? Criar meninos-bolha?).

Pois bem. Voltando a esse desenho especificamente. Ele tá lá de encrenca com a bruxa. A bruxa quer pegá-lo, sabe-se lá por que. Ele tenta enganá-la. Não me lembro dos meandros da história, mas eu sei que tudo acaba numa fábrica de vassouras. Pica-Pau-Sade taca a vassoura da bruxa no meio das outras vassouras. Que, evidentemente, não são mágicas e não voam como a da bruxa. A coitada não tem como se locomover. Ta a pé. Daí é obrigada a testar todas as vassouras pra ver qual é a sua. Ela testa cada uma montando nela e dizendo “e lá vamos nós!”. Mas não é a vassoura dela. Mas ela não desiste. E tenta, mais uma vez, dessa vez com mais empolgação: “e lá vamos nós!!!!”. Em outras, apenas com o tom burocrático dos que sabem que é preciso acreditar, embora não mais o consiga fazer realmente. O desenho termina com ela tentando e tentando. E o pica-pau dando sua sádica risada.

(Eu queria ter a persistência da bruxa, mas em geral, prefiro sentar e chorar ou descer puta da fábrica e andar 20 quilômetros a pé. Não enfrento 100 vassouras ruins pra achar a minha boa, má nem fudendo! Mesmo porque se ela é mágica ela tem que me encontrar, vocês não acham?).

Pior do que esse só aquele que o Tom sonha que morreu e foi pro inferno por causa das maldades que faz com o Jerry. (Gente, como eu amava esse desenho! Pena que ele passava pouco). Daí ele chega no inferno e faz um acordo com o Capeta (que é aquele Cachorrão Mau): ele tem a chance de voltar a Terra e, caso consiga uma assinatura do Jerry, perdoando-o de todas as maldades, sua alma estaria a salvo e ele iria pro Céu. Ele tem 24h pra fazer isso. Ele desce, tenta tratar o Jerry bem, pede a ele de todas as formas, mas o ratinho é inflexível. No último minuto Jerry resolve, finalmente, assinar. Mas a caneta não pega. Nisso, as doze badaladas soam. As portas do inferno se abrem e Tom começa a ser tragado pelas labaredas do Coisa Ruim. Nisso Tom acorda. Na verdade as labaredas que ele estava sentindo eram brasas da lareira. Daí ele vai até o Jerry e o cobre de beijos – ante a surpresa e incredulidade do rato.

Agora, reflitam comigo, crianças: por que o Tom deveria ser condenado ao inferno por tentar comer o Jerry – no bom sentido, é claro? Ele é um gato! Gatos caçam ratos! O Jerry sim era um sádico. O que o Tom apanhava, meu Deus! Era panelada na cara, bigorna...isso quando não aparecia o Cachorrão Mau que defendia o Jerry.

Não vou nem entrar nos personagens perturbados tipo Gaguinho e Patolino. Adorava quando ele perdia o bico dele – e quando achava punha ao contrário, ou punha nas costas.

Mas do Donald eu preciso falar. Não, não vou entrar no já tão explorado fato do Donald não andar de calças, mas apenas de camisa e bla bla bla. Quero destacar um desenho específico. Um em que o Donald tem insônia por causa de uma torneira na cozinha que não pára de pingar. Ele faz de tudo pra torneira parar de pingar. E a torneira vazando. E as horas passando e ele ficando com os olhos vermelhos e tenso, pois afinal ele é um pato responsável! Precisava acordar cedo no dia seguinte, NÃO vestir as suas calças e ir trabalhar! Pensar no seu futuro com a Margarida. No sobrinhos Huguinho, Luizinho e Zezinho que, como a gente presume, deveriam ter pais ausentes porque eles viviam na casa do tio. E a torneira vazando...ploc, ploc, ploc...

Refletindo hoje em dia sobre o porquê desses desenhos terem ficado na minha cabeça com detalhes tão vívidos acho que é porque todos guardam uma dose de sadismo e repetição que seriam um aperitivo da vida adulta. Tomar na cabeça e não aprender. Continuar repetindo o mesmo erro. Um tentar e tentar pateticamente, enquanto um sádico aproveitador sempre vai rir de você.

Eu sou extremamente grata a esses desenhos, bem como as tirinhas do Calvin, um pouco mais tarde, e as porradas que a Xuxa dava nos baixinhos. Juntos, eles moldaram minha personalidade. Sou contra a idéia de que histórias pra crianças devem ter finais felizes e “moral da história”. Vocês sabem que a história da Chapeuzinho Vermelho na verdade é uma terrível história de sangue e morte, que o Lobo como a vovó e fica com a Chapéuzinho, né? Era assim na Idade Média. Aí veio o século XVIII e pasteurizou as coisas. Maldito Iluminismo.

segunda-feira, maio 19, 2008

Amigos de infância


(Peposa e ET)

(O baile toooodo!)



Se você está com cerca de trinta anos (um pouco mais ou um pouco menos) é bem provável que tenha tido um desses três brinquedos.

A primeira é a Srta Peposa, uma ursa, casada com o Sr Peposo. O casal tinha os peposinhos, seus filhinhos. A família Peposa era toda composta de ursos com características meio humanas, como a roupa e o sapato, além das mãos e pés. A mão da Srta Peposa se encaixava na boca – agora por que ela, uma ursa-dona-de-casa já de meia idade, metia o dedão na boca, eu não sei. Assim como não sei por que se chamava “Srta”, sendo que era casada com o Sr Peposo. Ganhei dos meus pais. Estava arrumando meu armário de forma a abrigar as coisas que eu tenho trazido do Rio, quando achei a Srta Peposa, toda empoeirada, coitada. Tossindo, acordou de um sono de 15 anos, no mínimo. Joguei-a num balde com sabão, deixei de molho, pus pendurada no varal e depois meti perfume. Ela está linda – com o vestidinho um pouco rasgado, é verdade. Formiga irmã queria que eu a deixasse nua, mas como é que ela vai ficar pelada e de sapatos? Além disso, ela é uma senhora. Não pode se dar a essas descompusturas de andar pelada pela casa. Não me lembro quando exatamente eu a ganhei. Sei que foram meus pais que me deram. E eu fazia apresentaçõeszinhas infantis cantando “Meu ursinho Pimpão”, do Balão Mágico, com ela (antes, muito antes da Simony se casar com presidiários e freqüentar programas de auditório do horário da tarde ela era uma criancinha doce e angelical com a qual toda garotinha da minha idade queria se parecer).

O segundo amigo, esse meio bege, é o ET. “ET, o extraterrestre”, do Steven Spielberg foi o primeiro filme que eu vi no cinema na minha vida (o segundo acho que foi “Os Goonies”). O filme é de 82 e, levando em conta que os filmes naquela época não chegavam tão rápido ao Brasil – e em Gotham City menos ainda – eu devo ter visto esse filme em 83. Como faço aniversário no final do ano devia ter uns 6 anos. Meus irmãos mais próximos (de idade) me levaram. Lembro-me até hoje da tela azul e dos meninos voando em suas bicicletas. Um pouco depois meu irmão me deu esse ETzinho. Também estava perdido e empoeirado em um monte de tralha. Também foi pro banho (me lembro sempre das historinhas do Calvin e do Haroldo em que este último era lavado pela mãe do Calvin e saía tonto da máquina).


A última amiga é o Meu Bebê da Estrela. Na verdade, Adriana. Ela tem exatos 25 anos – já se formou (em veterinária) e tudo. Me dá muito orgulho, essa menina. Lembro-me exatamente de como a ganhei. O Meu Bebê da Estrela foi uma verdadeira febre entre as meninas da minha idade. Eu tinha uma prima (ainda tenho) mais velha do que eu uns 6 anos e ela tinha o Meu Bebê (você podia escolher nas versões menino ou menina). Só que eu não tinha muita intimidade com a minha prima, daí ficava sem graça de pegar e brincar. Mas me lembro de, num aniversário da minha avó, pegar o Meu Bebê dela por alguns instantes e achar o brinquedo mais perfeito do mundo – ainda por cima ela punha perfume e talco e a boneca ficava com cheiro de neném de verdade.

Aí pedi para os meus pais. Fui às Lojas Americanas com a minha mãe e vimos o preço. 23.000 cruzeiros!!! Era muito, muito dinheiro. Não dava, pelo menos por enquanto.

Um belo dia – ou melhor, umas belas férias – eu estava em Pasárgada. Era a época em que as minhas tias fizeram uma reforma na casa e estávamos na casa das minhas tias-avó, Nhanhá, América e do Tio Zezé. Sempre íamos de férias pra Pasárgada enquanto meu pai ficava trabalhando em Gotham City e ia nos finais de semana. Eis que, um dia, num final de semana comum, ele chega com uma caixa que era do meu tamanho. Nem precisei saber o que era. Já adivinhei. Saí correndo, rasguei o papel em fúria e lá estava ela, como um corpo inerte em seu caixão, só que pronta para nascer. Rasguei o plástico, tomei-a nos braços – seu olhos então se abriram - e dei um beijo na testa dela. Os adultos ao redor se olharam espantados.

A partir daí eu a batizei de Adriana, minha madrinha fez roupas e sapatinhos de crochê pra ela, levei-a ao colégio e, muito recentemente, ela foi levada como cobaia pelo meu primo para as aulas do pessoal de gineco, da faculdade de medicina daqui – sem que antes eu me certificasse de que minha bebeza não sofreria danos de quaisquer espécies.

Mamãe vê os três enfileirados na estante e diz que eu regredi desde que vim pra cá. Eu digo que não. Pois para regredir é preciso que você tenha progredido. E, nesse sentido (e eu vários outros), eu nunca progredi. Sou ainda a meninha de seis anos que se emocionava com uma tela azul em um cinema poeirento do interior. Que acha que a vida deve ser - e de fato é - mais do que a burocracia do mundo adulto, com suas rotinas objetivas, quer nos fazer crer.

É uma pena que os adultos releguem os elementos lúdicos da vida à infância, impingidos pela necessidade do sobreviver, envolvendo-se nas engrenagens massacrantes de tédio. Como se incluí-los no dia a dia – seja de que forma for: na brincadeira com os filhos, com os animais, colecionando brinquedos infantis ou qualquer outro hobbie, contando histórias, dançando, se reunindo com as pessoas que amamos para rir e jogar conversa fora, criando arte – fosse coisa de gente louca, à toa ou que não amadureceu.

Deixo-os ali, me olhando, enquanto tento escrever mais um capítulo da minha tese. Deixo-os ali para me lembrarem, o tempo todo, de quem eu sou e de onde eu vim. Talvez só eles saibam, de fato.


PS: Tive mais algumas bonecas e uns poucos ursinhos de pelúcia. Não eu nunca tive uma Barbie. Sempre detestei. Muito mulézinha pro meu gosto. Muito adulta. Chata demais e ainda por cima com aquele namorado boiola e mala, o Ken (na época eu não sabia que ele era boiola, mas algo me dizia que aquele relacionamento era meio fake). O máximo que eu tive foi um kit maquiagem da Barbie. Mesmo assim porque foi presente do meu Tio Guido. Sempre gostei mais de jogos de tabuleiro e bonecas. Não gostava muito de brincadeiras de rua.

quinta-feira, maio 08, 2008

O travesso


Essa noite eu perdi o sono. E não o encontrei mais. Nas voltas que o pensamento dá nessas horas – e ele é capaz de caminhos incríveis nesses momentos – eu me lembrei de que hoje é o aniversário de uma pessoa muito especial. Um amigo. Confesso-lhes de que só me lembrei porque estive com ele no final de semana (durante anos eu anotava o seu aniversário na minha agenda até que, de uns anos pra cá, achei que havíamos perdido o contato e abandonei o hábito).

Pegando pelo fio do tempo – que às vezes está mais pra durex cuja ponta ninguém dobrou e sumiu junto ao emaranhado e você fica rodando e rodando, cega em meio ao círculo – consigo chegar até o momento em que o vi pela primeira vez (sim, eu consigo me lembrar o instante exato em que conheci a maioria dos meus amigos e amigas que me acompanham desde sempre. As impressões que tive ao vê-los. O sentimento. O que eu estava fazendo) e me espanto ao ver que o tempo pode ser medido em décadas (sim, no plural, o que é bastante para uma pessoa de 31 anos. Eu acho). Posso dizer que o conheço há mais de meia vida. Mas a nossa amizade solidificou-se na adolescência. Mesmo com quase cinco anos de idade nos separando.

A vida não se faz em linha reta e o sentimento de lineariedade é apenas uma ilusão, como diria Bourdieu. Por isso me lembro de pontos em nossa trajetória que ora esteve mais próxima, ora mais distante. Pontos de luz que pipocaram nessa madrugada. Houve um tempo em que a minha casa era um misto de biblioteca, hotel, bar e restaurante para ele.

Não, não. Mas eu me precipito e adianto os fatos.

Antes, muito antes, eu me lembro de umas férias de dezembro/janeiro, quando minha vida era uma eterna Sessão da Tarde (uma turma do barulho aprontando mil e uma confusões!!!) de uma certa casa. A casa era do irmão dele que, tendo saído de férias, resolveu, numas de irmão-mais-velho-gente-boa, deixar a casa na mão do mais novo – no caso, o meu amigo. Só que era uma casa de família. Com quartos de criança, cheio de brinquedos e cozinha. Aquário. Na mão de adolescentes ou pessoas de vinte e poucos anos.

Ao final da temporada tinham vomitado no aquário, matando os peixinhos, quebrado vidros de tempero da cozinha, levado os bonecos pra passear na boate da cidade - o boneco (Marvin? Melvin? Não me lembro o nome) transformou-se em uma entidade à parte, que bebia cachaça, fumava, dava palpites e tinha opiniões próprias sobre os mais variados assuntos). Em certos momentos o meu amigo parava de falar e só quem respondia por ele era Marvin – ou seja lá como ele se chamava. Marvin não quer ir pra Vênus (não o planeta, a boate que eu freqüentava na adolescência). Marvin quer ir pra casa. Marvin quer ver o sol nascer. Marvin vai vomitar.

Nessas mesmas férias a Globo exibia uns concertos de Natal. Um desses era o Oratório de Natal de Bach. O programa, muito apreciado por nós, jovens sedentos de cultura, passou a ser o grande hit da casa. Os meninos resolviam produzir seus próprios oratórios, só que com panelas e outros instrumentos de percussão, em horários avançados, o que muito comprazia os vizinhos.

Sempre dividi com esse meu amigo gostos literários, musicais e cinematográficos. Ah é! Como esquecer da sua fase poeta? Tenho até algumas dessas poesias guardadas, com as quais quem sabe eu ainda ganhe algum dinheiro (nem que seja ameaçando mostrá-las ao público). Lembro-me da fase The Doors (deu trabalho essa fase). Lembro-me de que era ele quem estava gravando o show do Guns N’Roses, no Rock in Rio II, onde eu apareci na Globo, nas costas do meu irmão, cantando knock, knock, knock, knocking on heavens door depois de ter quase entrado em coma alcoólico durante o show do Megadeth e Queesnryche inteiros, além de achar que eu era o Axel Rose – e contar isso animadamente pra meio Maracanã, achando que as pessoas mereciam ouvir esse segredo (como diria Primo Poeta: Ah, meus quinze anos!!). Ele e uns amigos foram os primeiros a me ver (também tive uma passagem meteórica pela Veja, ao lado do Itamar Franco em Juiz de Fora, quando ele era presidente, junto à minha amiga Carla. As duas “lesas” resolveram seguir o Itamar em plena JF. Ainda bem que adolescência é uma doença que cura com o tempo, né? Voltemos).

Ele foi aluno do meu pai – meu amigo, não o Itamar – na faculdade de medicina. Aliás, eu devo a ele o apelido de Gotham City à minha terra natal. Roubei a idéia dele. Quando ele veio estudar aqui ele dizia que o céu era rosa (devido à poluição) que nem o de Gotham City – e também abóbora e cinza e até (pasmem!) azul. Assim como o meu, o pai dele também era médico, também já faleceu e ele também é o caçula de uma família de muitos irmãos. Assim como o meu pai, ele é, acima de tudo, um humanista. Poderia perfeitamente ter se dedicado às Letras, à Filosofia, à História ou às Artes. Ele faz parte de uma extirpe de médicos cada vez mais rara. Médicos que vêem as pessoas e não os pacientes. Médicos que acreditam que é preciso estudar e se interessar por outras coisas que não só a medicina.

Mas ele também é técnico em eletrônica (ou eletricidade, ou essas coisas que se faz em curso técnico e que eu não tenho a menor idéia) e tinha uma promissora carreira nisso quando resolveu ser médico. Na verdade ele poderia ser qualquer coisa que quisesse. Talento e inteligência ele tem de sobra.

Na época da faculdade (a dele, eu ainda estava no segundo grau) a república onde ele morava ficava ao lado de um clube onde sempre aconteciam os melhores shows. O aquecimento era sempre ali.

Churrascos na minha casa de Gotham City, férias e feriados em Pasárgada, nossa vida foi sempre entrelaçada em função de acasos, idas e vindas. Qual não foi a minha surpresa ao saber que ele lia o meu blog.

Em uma tola época da minha existência, onde eu acreditava que a amizade poderia ser mensurável - e que datas e outras formalidades faziam parte disso – eu achei que nossa amizade havia terminado. E fiquei puta quando ele não me chamou pro seu casamento (uma cerimônia civil, sem festa, em um dia de semana, em uma cidade longe da minha, pra qual ele tinha chamado meia dúzia de pessoas e onde eu não poderia ir!!!). A mulher dele, se não fosse tão gente boa, teria me odiado ao se deparar com a minha sutil repreendida na ocasião em que nos conhecemos (parênteses: alguns amigos meus se casaram com verdadeiras malas. Não este. Ele nunca se casaria com uma mala. Acho pouco provável). Já gosto dela por tabela e espero ter a chance de conhecê-la melhor.

Ah, como eu sou feliz e rica em amigos e família! Vocês não fazem idéia. Eles são a minha rede de proteção. Aquilo que me sustenta e me dá coragem de tentar ser feliz do jeito que for, já que eles sempre vão me apoiar. Os que importam, pelo menos. E tudo que eu sou, ainda que pela negação, é parte de todos eles.

E nessa noite insone, enquanto escrevia esse texto (correndo o risco de ser melosa), os primeiros raios de sol chegaram pra me lembrar que as amizades podem até passar por longas madrugadas frias e insones, mas sempre há a esperança de um nascer do sol ao final. O que não impede que as trevas retornem. Mas, afinal, não é como tudo na vida? Quem de nós está a salvo das trevas?

Parabéns, Denis. O pimentinha. O peralta. Parte de quem eu me tornei foi fundida e moldada nos anos em que passamos juntos. Desejo muitos raiares de sóis para nossa amizade.


PS1: Espero que o seu computador esteja bom de novo e você leia esse texto logo.
PS2: Ele é botafoguense. Ninguém é perfeito.

quinta-feira, abril 17, 2008

Nhanhazices


Eu tinha uma tia por parte de mãe – na verdade tia-avó – chamada Nhanhá. Quer dizer, Nhanhá era o apelido. O nome era Angelina (lindo nome, não? Eu acho). Era irmã da Tia Merca, Merquinha – que se chamava América. As duas eram irmãs do Tio Zezé, do Tio Getúlio e do meu avô, João da Cruz – e de gente que eu esqueci, mas que não vêm ao caso.

Dentre as tias das minhas tias-avós havia uma tia-bisavó, irmã do meu bisavô materno, chamada Ozenda, mãe de Mário Queiroz, o popular Zuzu. Zuzu teve meningite quando criança e nunca mais se recuperou. Em uma época de poucos recursos médicos, achou-se melhor que ele ficasse em casa e não freqüentasse a escola. Ele permaneceu com a idade mental de uma criança, num mundo mágico, à parte da realidade. Nesse mundo, Zuzu era maquinista de trem, dono de um circo e imitava todos os barulhos do mundo. E jogava copos de cristal do alto do casarão. Apenas para ouvir, quem sabe, o barulho das taças se espatifando no chão. Quando Tia Ozenda morreu, Tia Nhanhá, sua prima, passou a ser a tutora de Zuzu, devido à sua “incapacidade” (eu sei, eu já devo ter contado essa história aqui, mas com a idade a gente começa a se repetir).

Tio Zezé combinou com São José que ele só morreria depois das duas irmãs. No dia em que a última morreu ele disse: São José, pode vir me buscar. No mesmo dia ele morreu. Com exceção do tio Zezé, de quem eu lembro vagamente, não conheci nenhum dos outros personagens dessa história.

(São José também consertava garrafa térmica. Um dia a garrafa térmica caiu no chão e quebrou. Uma das duas – eu nunca sei as histórias de quem são – pediu pra São José arrumar a garrafa. Passado um pouquinho ela foi lá e a garrafa estava perfeita. Relação íntima com o santo).

Às vezes tinha Nhanhá era acometida por uma insuportável vontade de esticar.

Às vezes eu também tenho muita, mas muita vontade de esticar.
E de ouvir o barulho do mais fino cristal se chocando contra o concreto.
E uma saudade incontrolável – vocês nem imaginam quanto – deles todos.

E o engraçado é que o meu bisavô materno tinha o mesmo sobrenome do meu avô paterno, de modos que a Tia Nhanhá tem exatamente o mesmo sobrenome que eu, apenas invertido. Minhas duas famílias são simetricamente opostas. Como espelhos. E às vezes eu me acho perdida dentro da casa de espelhos. Onde eu nunca sei se é a saída ou se é apenas uma imagem da saída. Ou se é de fato uma nova pessoa ou apenas uma réplica.


Tenho uma priminha que chama uma das minhas tias de Nhanhá. Sem nunca ter ouvido nenhuma dessas histórias. Mesmo o nome da minha tia nem de longe lembrar alguma sonoridade Nhanhá.


terça-feira, março 18, 2008

Trauma de infância

Eu sempre tive dificuldades em namorar. Acredito que namorar seja prática. Um aprendizado que você deve começar bem cedo e, de preferência, com alguém que não goste, que é pra praticar sem medo de errar. Desde muito cedo eu nunca consegui namorar os caras que eu gostava. Se um dia eu tiver uma filha esse será meu primeiro conselho: namore desde cedo e transe pela primeira vez de preferência com alguém que você não goste. Um cara legalzinho, mas que você não goste.

Na sexta série eu gostava de um menino chamado Itamar (Marcele, sua irmã conhece essa história). Quer dizer, só depois eu vi que eu gostava dele. Na época eu não sabia. Daí, em uma excursão pra Petrópolis ou São Paulo ou sei lá onde, Itamar me deu um beijo. No ônibus. Não, não foi o primeiro. E me pediu em namoro. E eu tive um nervoso e uma vontade de sair correndo que eu não sei explicar. Tipo: eu não ia namorar um menino que chamava Itamar, né? E, ainda por cima, não era o modelo clássico de beleza (diga-se de passagem nem eu). Pra piorar a situação: depois do ocorrido eu descobri que uma amiga minha era afim dele. E, adolescentes lesadas que éramos, vai eu, depois de dar um fora no moleque, tentar fazê-lo ficar com essa minha amiga. Claro que ele me odiou o resto do período escolar. Mas o Itamar foi o acontecimento fundador traumático na minha vida emocional. E, de certa forma, ele se repetiu em muitos outros (na verdade já tinha acontecido antes com o menino em quem eu dei meu primeiro beijo e que era lindo e quis ficar comigo nos dias seguintes e eu simplesmente não consegui, mesmo tendo gostado).

Eu achava que namorar era uma coisa muito séria. Porque eu era uma criança/adolescente muito séria. Eu não achava certo namorar alguém sem estar absolutamente apaixonada (talvez isso esclareça alguns pontos para algumas pessoas que lêem este blog). Não bastava o cara ser gente boa, meu amigo e coisa e tal. Eu tinha que ser arrebatada pelo sentimento da paixão. E, quando o sentimento vinha, eu tinha mania de duvidar dele. Logo, nunca consegui manter um relacionamento durante a adolescência e início da fase adulta. E até hoje é muito difícil.

Eu sempre gostei dos meninos feios e engraçados-inteligentes. Eu sempre tive medo de gente bonita. Até hoje. Se eu estou do lado de alguém excessivamente bonito – homem ou mulher – eu não consigo me concentrar direito e fico sempre meio sem graça. Só que eu também sempre tive vergonha dos meninos feios e engraçados-inteligentes. E era nesse sentimento de atração e repulsa que meu afeto era formado.

O tempo passou. Aí quando eu comecei a querer namorar os caras feios e engraçados-inteligentes as coisas ficaram muito difíceis. Porque eu não sabia namorar. É sério. Eu não sabia como acontecia. Eu só sabia ficar. Ou ser apaixonada durante anos por caras que iam e vinham.

Depois de muito tempo eu finalmente me rendi a essa arte do namoro. Mas só porque meu então namorado insistiu muito. Não se trata de cu doce. Trata-se do fato de que eu acho que eu já sou mulher. Menstruo. Period. Menstruo, logo sofro. Não tem o menor cabimento ainda ficar me esforçando pra namorar alguém. Cortejando, chamando pra sair. Os homens é que se esforcem. A vida já é muito dura para nós, mulheres. Homens são geneticamente adaptados para tomar tocos. Não que eu nunca tenha corrido atrás. Já corri muito, já me humilhei de todas as formas possíveis e imagináveis; já fui sutil, clara, direta, indireta....Chega.

Isso me faz crer que eu nunca mais na vida vou namorar ninguém. Sim, há os eventuais e esporádicos, quando a situação vai ficando crítica (como diria um amigo meu, o famoso P.A.: pau amigo). Mas se depender de mim pra voltar a namorar...acho que morro encalhada. Por mais que eu tenha amadurecido, melhorado, as coisas pra mim ainda são muito preto e branco. Ou é isso ou não é. Ou gosta ou não gosta. Nesse sentido, não tenho paciência pra deixar as coisas acontecerem – e quando eu deixo elas dão errado, me fazendo crer que eu deveria ter parado no primeiro momento em que eu senti que não era a coisa certa.

Me impressiona muito que certas pessoas emendem um namoro no outro. Eu tenha inveja desse tipo de gente. Eu queria ser um pouquinho assim. Eu acho uma capacidade – de sei lá o quê – que eu não consigo sequer imaginar comigo.

Eu perdi o bonde do namoro. Ele passou, eu achei que dava pra ir à pé. Quando quis pegar, tava cheio.

Ai, ai...dureza a vida.



quarta-feira, março 12, 2008

Dores que movem montanhas


Uma das melhores coisas que eu fiz na minha vida foi ter feito escola de teatro. Ainda que eu não tenha seguido na carreira de atriz, foi dos maiores aprendizados. Em uma (boa) escola de teatro levada a sério, você se conhece horrores. Tudo bem que eu acho que a maioria dos nossos problemas sejam de ordem inconsciente – e o inconsciente, essa caixa preta que temos dentro de nós, nem sempre se torna consciente; na maioria dos casos ele fica lá escondidinho, fazendo você sonhar que está transando com o seu vizinho de óculos que é ao mesmo tempo o Woody Allen e a Feiticeira (pra falar o sonho mais “publicável” que eu tenho), e o máximo que você consegue é mexer umas coisinhas aqui e ali e mudar, quiçá, alguma coisa. Mas eu descobri coisas que se referem ao domínio da razão ou da consciência fundamentais pra minha existência. O famoso “conhece-te a ti mesmo”.

Descobri, por exemplo, como as pessoas tinham uma imagem errada de mim. Ou talvez eu não soubesse quem eu realmente era. Descobri como, pela minha filosofia e postura (física e de vida), as pessoas achavam que eu era uma pessoa brava, mal humorada e agressiva. Não que eu não seja, mas às vezes eu tava bem, tranqüila, e passava uma imagem carrancuda. Ou, em diversas vezes ouvi dos meus professores que eu era uma pessoa sem energia. Me lembro de uma professora gaúcha que me dizia: “tu é mole, guria!” e também de um professor de música que chamou um grupo de alunos "com problemas" e disse de uma amiga minha (que hoje faz aquela peça "O Surto" que a energia dela era excessiva e que ela podia passar um pouco pra mim, que faltava. E todas essas classificações correspondiam a verdade, em alguma instância. Porque era assim que eu tinha aprendido a me mostrar pros outros. Ou era assim que eu tinha me acostumado a ser. Mas, como disse a Ana Manga, a gente não É. A gente se reinventa.

Descobri que eu tinha extrema facilidade para fazer personagens violentas, agressivas, más, sarcásticas, amarguradas, velhas, entediadas...mas não personagens leves, jovens, soltas, felizes...Em geral eu sempre fazia as personagens mais velhas, mesmo quando contracenava com gente mais nova que eu. Descobri que eu poderia ter humor. Tacharãn! Eu nunca pensei que eu pudesse ser engraçada. Foi na escola de teatro que eu aprendi que eu podia ser engraçada, ainda que nunca fosse um humor rasgado, pastelão, clownesco – que eu acho incrível. Seria sempre aquela coisa meio dark, irônica, sarcástica. E eu sempre me perguntava, como atriz, se valia mais à pena insistir em fazer o que eu sabia de melhor e ficar no fácil ou tentar melhorar meu lado ruim – mas não aparecer tanto, não ser chamada pra fazer nada, não ser nunca tão boa...

Aprendi a ser menos tímida e a usar meus defeitos de forma favorável. Acho que é do Antunes Filho a frase: “coroa o teu pior”. Quando ouvi essa frase, tive uma revelação. Sim, o meu melhor é o meu pior. Aprendi que às vezes, de tanto fingir, você mesma acaba acreditando. E isso pode ser bom em algumas situações. Aprendi que todos nós desempenhamos personagens – bom, isso eu também aprendi nas minhas aulas de antropologia e sociologia – e que somos muitos ao mesmo tempo (tô parecendo a Tati do Big Brother!).

Bom, mas o que eu queria mesmo falar é sobre as aulas de Corpo que eu tinha. Aulas de Corpo é como a gente chamava a aula de expressão corporal. Assim como tínhamos a aula de Voz, a aula de corpo era uma aula que visava retirar o registro cotidiano de movimento, limpar o repertório do ator, para que ele desenvolva o seu instrumento (o corpo) de forma a poder interpretar diversos papéis. Não se trata de malhação pura e simples – apesar de também passar por isso – mas de treinar o seu corpo para diversos personagens, já que, segundo o método de interpretação de Stanislawiski, você deve partir das emoções e do físico simultaneamente – por isso é um método psico-físico – pois as coisas acontecem de dentro pra fora E de fora pra dentro, SIMULTANEAMENTE. Como o instrumento do ator é o seu corpo, deveríamos afinar nosso instrumento diariamente, como pianistas repetem escalas.

Nesse caminho eu conheci uma professora muito bacana, atriz de teatro, chamada Marilena Bibas. De idade indefinida – dessas pessoas que tanto podem ter 43 anos como 65 – essa sunsei, nissei ou não sei era/é uma figura ímpar e a ela eu devo o fato de ter me formado na CAL. Ela me deu aulas em duas cadeiras: de Corpo e de Interpretação. Quando o dono da escola quis me reprovar (abafa o caso...longa história), ela foi uma das poucas professoras que me defendeu com unhas e dentes. Ela simplesmente acreditou em mim desde o momento em que ela colocou os olhos em um trabalho meu. Ela me fez ver que a emoção, a sensibilidade e todas as características fundamentais para o trabalho do ator eram, de fato, fundamentais, mas tão importantes quanto a técnica e o trabalho árduo – e bota árduo nisso. Ela era – e ainda é – foda. Estudou na Itália, é co-fundadora do Tá na Rua, grupo do Amir Haddad, e trabalhou oito anos com ele. Aqui está o link da companhia teatral dela pra quem se interessou.

A Marilena era seguidora de um tipo de teatro chamado Teatro Antropológico, baseado nos conhecimentos de Eugênio Barba e Grotowski, e que têm suas raízes no teatro japonês. Aliás, ela estudou com o próprio Barba. Esse teatro acredita, sobretudo, em um treinamento físico para o ator, capaz de deixá-lo apto para o trabalho cênico – incluindo aí voz. Um corpo desperto. Esse tipo de treinamento é 8 ou 80. Tinha colegas que detestavam e nem por isso eram piores atores. Eu me apaixonei e, após ter tido aula com essa mulher, resolvi segui-la. Ela dava aulas em um estúdio ali em Laranjeiras, na General Glicério. Lá vou eu fazer aula com ela. (Parece que agora ela dá aulas em Ipanema, como diz esse link aqui).

O curso foi das melhores coisas que eu fiz dentro da área de teatro. Ela partia de um treinamento físico exaustivo, aliado a uma base teórica (e eu sempre precisei de bases teóricas...). E ainda por cima ela era uma pessoa calma, doce, mas extremamente firme e enérgica. Ao mesmo tempo ela tinha uma coisa meio Mestre dos Magos ou Senhor Miagui. Dava uns livros do tipo “A arte cavelheiresca do arqueiro zen” ou falava umas frases meio desconexas que você ficava o resto do dia pensando. O fato é que no auge dos meus 22 anos aquilo me impressionava bastante. Mas como era na prática? Fazíamos um treinamento coletivo que incluía aquecimento, movimentos de acrobacia em um colchão, movimentos de ioga, de kung fu, basicamente. Havia também os exercícios de ressonância vocal, onde você aprendia a “jogar” a voz pra cabeça, pro peito ou pra que parte fosse. Depois montávamos uma seqüência de movimentos, ou melhor: uma partitura de movimentos – cada um montava a sua, baseada nos movimentos que a gente tinha treinado – e, bem depois, o texto era acrescido a essa seqüência. Na prática isso não era utilizado em cena, mas era de um resultado fabuloso.

E havia as “exibições” ao final da aula. Depois de um tempo de casa, eu passei, junto com outra amiga, a ser uma das "exibidoras". E coisa toda era brutal, tanto é que a gente tinha que ir de joelheira e, não raro, saía toda ralada. E dentro desta idéia tem uma coisa chamada “o princípio da exaustão” que – me perdoem se tem alguém que entende muito de teatro me lendo agora, pois faz tempo que não leio sobre essas coisas nem faço nada e posso estar cometendo algumas generalizações e superficialidades – pode ser traduzido em trabalhar o cansaço a seu favor. Porque a série era tão brutal, tão violenta, tão difícil executar em alguns casos (você plantava bananeira, dava cambalhotas, fazia aquela vela da ioga só apoiada no pescoço...loucura) que eu alguns casos você tinha a certeza que ia desmaiar. E a gente aprendia a não desmaiar e descansar dentro do cansaço; respirar (incrível como a gente esquece de respirar!) e fazer o mesmo movimento de forma leve.

Nesses dias que eu venho começando a correr eu lembro sempre desse princípio da exaustão. Todo mundo que corre conhece isso. Tem um momento na corrida em que você pensa: vou morrer, vou desmaiar. Claro que você deve ter bom senso de correr aos poucos e, em um momento desses, parar. Mas, depois de um tempo, você percebe que não vai desmaiar. Não vai morrer. Que talvez seja só o seu corpo dizendo: “ei, eu não estou acostumado a esse movimento! O que está acontecendo? Eu quero deitar e comer chocolate!”. Daí você aprende a relaxar dentro da corrida. Quem sabe diminuir ou fazer de uma forma mais leve. Lembro que, no aquecimento, quando a gente corria, a Marilena sempre dizia: "corra com se o topo da sua cabeça quisesse chegar ao teto” (corríamos em círculos, dentro do estúdio com um piso de madeira). Não é dar impulso ao corpo, é apenas ter essa percepção. Corríamos descalços, havia pessoas muito gordas, mais velhas e todas conseguiam fazer. Cada uma no seu ritmo. Foi o período da minha vida em que eu fiquei mais magra.

Dentre os muitos conhecimentos que eu levei desse treino, aprendi (além de onde ficavam meus ísquios) não só a superar limites, vencer medos e voltar a fazer coisas que nem em criança eu conseguia fazer. Acima de tudo, aprendi a reverter a dor em algo prazeroso (e não se trata de práticas sado-masoquistas). A respirar mesmo nas situações mais difíceis. Que se você aprende a trabalhar com elas a seu favor, logo se mostram suas aliadas. O que tem a ver com o outro post em que eu falava sobre defeitos que são qualidades.

Vocês devem estar se perguntando com quantas coisas boas, porque eu não continuei na carreira de atriz. Bom, porque eu também aprendi a ver o momento em que a dor se torna insuportável, não podendo mais ser usada ao meu favor. Chegou um momento em que não era possível mais respirar. Ser atriz era, para mim, dolorido demais. E não passava nunca. E deixou de ter prazer, porque as condições de trabalho são tão difíceis, tão complicadas e passam por tantas coisas que o lado do prazer parou de fazer sentido.

Fazer doutorado dói muito. É um tanto de si que você expõe em qualquer trabalho da área humana e se depara com seus limites e problemas e é difícil pra caramba, do ponto de vista pessoal. Mas tem o prazer. Ainda. Tem condições de trabalho menos inóspitas. Tem reconhecimento.

Escrever dói também – escrever em geral. Mas se encaixa na mesma idéia acima. O Ruy Castro, em um texto que abre um livro do Woody Allen, diz que o escritor é alguém com um espinho debaixo da unha, mas que não consegue parar de escrever. Acho que é por aí. Não é alardear um tipo de arte sofredora, mas é um incômodo. Na vida somos movidos por incômodos. Se não, ficamos parados. Agora, é preciso também saber a hora de parar. Antes que o espinho gangrene o dedo e você acabe perdendo-o.

Acima de tudo, o teatro me ensinou a me jogar. Em tudo. A não ter medo do ridículo. Eu, como toda pessoa tímida, tinha um medo danado do ridículo. Só que esse medo apenas revela o quão pretensiosa eu era. Quem eu achava que eu era que não podia errar nem ser ridícula?
O teatro me ensinou a tentar. Uma, duas, milhões de vezes. Dentro do seu limite - mas expandindo-o a cada vez. O teatro me ensinou que a único jeito de fazer as coisas é indo com tudo, abrindo o peito e respirando.
PS: Esse post é dedicado a Formiga Irmã. Num oferecimento da Sublimes Corporations and Organizations.