DaquiGotham City (Camisa de Vênus)
Aos 15 anos eu nasci em Gotham City
E era um céu alaranjado em Gotham City
Caçavam bruxas nos telhados em Gotham City
No dia da Independência Nacional
Cuidado! há um morcego na porta principal
Cuidado! há um abismo na porta principal
Eu fiz um quarto bem vermelho aqui em Gotham City
Sobre os muros altos da tradição em Gotham City
No cinto de utilidades as verdades
Deus ajuda a quem cedo madruga em Gotham City.
Cuidado! há um morcego na porta principal
Cuidado! há um abismo na porta principal
No céu de Gotham City há um sinal
Sistema elétrico e nervoso contra o mal
Tem "rock and roll", tem futebol e tem carnaval
Todos estão dormindo em Gotham City
Cuidado! há um morcego na porta principal
Cuidado! há um abismo na porta principal
Os mortos vivos perambulam aqui em Gotham City
Agora eu vivo porque vivo aqui em Gotham City
Chegou a hora da verdade em Gotham City
E a saída é a porta principal
Cuidado! há um morcego na porta principal
Cuidado! há um abismo na porta principal
Hoje Deus não ajudou quem cedo madrugou aqui em Gotham City. Uma nuvem negra de fuligem foi vomitada, cagada, cuspida e escarrada pela CSN na cara dos moradores. Eu não vi, pois estava fora da cidade em um concurso, mas Formiga Mãe e Formiga Irmã contaram sobre o barulho terrível saído dos autofornos da CSN e a nuvem de fuligem preta que se abateu sobre a cidade, como asas de morcego ou mais uma maldade cometida pelo Curinga. Depois sairam matérias no RJ TV e no Jornal Hoje (não sei se vai sair no Jornal Nacional).
Entrevistas com o secretário do meio ambiente, imagens de donas de casas limpando suas casas com mangueiras, carros com uma nem tão fina camada de pó preto. A CSN é multada em 1,5 milhão, mas o que é 1,5 milhão para o Coringa, quer dizer, para Benjamin Steinbruch, presidente do grupo Vicunha, responsável pelas grandes privatizações dos anos 90 – grupo que também fez parte da privatização da Vale do Rio Doce?
Eu não tenho uma opinião definida sobre as privatizações. Ou melhor, acho que algumas empresas melhoraram e outras não. Aqui em Gotham City aumentou a pobreza, o desemprego (papai foi forçado a se aposentar do hospital da CSN e depois contratado como prestador de serviços, mas e os peões, quem pega no pesado? Simplesmente dançaram), mas ao mesmo tempo também aumentou a riqueza e o desenvolvimento da cidade em outras frentes – não sei se necessariamente devido à privatização, pode-se argumentar – mas não para a população em geral. Mas acho que os tempos de estatização se foram e não quero dar uma de companheiro Chaves e Morales. Enfim. Só estou dizendo isso porque me lembro dos anos 90 e desse papo de Iso 9000, Qualidade Total e bla bla bla. Diziam que a poluição tinha melhorado muito porque eles foram obrigados entrar em normas ambientais mundiais e colocar filtros nas chaminés. Hãn hãn. Bullshit, né?
Esses dias mesmo eu estava olhando da varanda do meu quarto e pensando exatamente em como a poluição parecia estar maior. Ou teria sido eu que, após quase 13 anos de Rio, me desacostumei? As chaminés da CSN eram minha companheiras em tardes modorrentas e solitárias da minha adolescência, onde eu sentava na varanda e pensava onde estaria dali a 15 anos (no mesmo lugar, Carrie!, parecem sorrir as línguas flamejantes coloridas que saem das chaminés). Eu moro relativamente perto da CSN – porque quase tudo aqui é perto, a não ser os bairros mais novos. Quero dizer, moro em um morro que tem uma vista da cidade toda, então durmo com barulhos longínquos de trens transportando carga pesada e tenho uma vista digna de Mordor.
É nítida a diferença. Se você olha para o lado direito, o céu é de uma cor. Pro esquerdo, é de outra. E os fogos que saem das chaminés? Abóboras, laranjas, púrpuras, azuis...e eles aproveitam os dias de chuva pra despejar detritos pestilentos na população indefesa. Quem dorme aqui em casa pela primeira vez às vezes estranha os barulhos. Pra mim é velha canção de ninar.
Quando a minha fúria por fatos como este, bem como o desastre que aconteceu no rio Paraíba do Sul ano passado (quem quiser veja também esse artigo do Minc) - que foi causado não pela CSN, mas por uma empresa em Resende, eu sei) - comprometendo o consumo de água de milhões de habitantes na região sudeste, eu só consigo pensar na minha idéia para um livro de ficção científica ou história em quadrinhos. Num futuro distante, habitantes de uma cidade oprimida por um Grande Vilão desenvolvem mutações genéticas em função da poluição de sua Grande Fábrica e única fonte de sustento para toda a população. O que nosso arqui-inimigo não contava é que o feitiço se viraria contra o feiticeiro. Alguns habitantes parecem ter se transformado em espécie de super heróis, seres mutantes, muito mais fortes e resistentes a doenças. Dentre eles, um grupo de adolescentes entediados que passam os dias se drogando e bebendo no clube da cidade. Ao descobrirem seus superpoderes, depois de uma fase inicial em que eles só fazem merda, descobrem que o verdadeiro lugar deles é ali, combatendo o mal – claro que vai ter aquele que vai se aliar ao Steinb, quero dizer, ao Grande Vilão e vai se perder... Assim como o soro antiofídico é produzido do veneno da própria cobra, o mal será combatido com o mal. Claro que haverá uma heróina cujas mutações a deixaram próxima a uma...Formiga, com antenas e uma capacidade de ouvir e enxergar além do alcance. Ah é. Ela também terá que ingerir quantidades absurdas de açúcar para manter seus superpoderes. E seus inimigos usarão isso como arma.
Ou talvez seja uma ficção científica mais filosófica, ao estilo de Neuromancer ou Do the androids dream electric sheeps?
É que, para pessoas como eu, que acreditam em pouca coisa (para dizer quase nada), que não votam, que não acreditam em mobilizações coletivas, que não querem instituir um debate público junto a população local, que não querem pensar coletivamente junto a comunidade, que não querem retribuir à sociedade tudo que foi investido em mim, poucas coisas restam a não ser a Arte (mas acho super válido que outras pessoas façam isso. Acho mesmo. Só não me chamem. Chego a ter quase uma invejinha de quem acredita). A única coisa que eu consigo pensar, para quase todas as grandes respostas da minha vida é em escrever. Mesmo que ninguém nunca leia. Mesmo que seja um lixo, é a Minha Arte. Pra mim a arte é a única coisa que pode mudar o mundo. E o amor. Ou torná-lo suportável – o que já é quase tudo.
E para que não há dúvidas, caso alguém procure no google nuvem de fuligem + Volta Redonda + Steinbruck filho da puta + poluição + CSN, é de Volta Redonda e da Companhia Siderúrgica Nacional e do senhor Benjamin Steinbruck que eu estou falando. Que, evidentemente não mora aqui.
Se bem que eu duvido que aqui seja muito diferente de São Paulo ou mesmo do Rio em termos de poluição. A diferença é que aqui a gente vê muito claramente - no caso, não vê. Sem contar que, pelo tamanho da cidade, a poluição não deveria ser muito grande.