segunda-feira, outubro 29, 2007


É estranho o que o tempo faz com os relacionamentos e com os sentimentos. Às vezes você tem que conviver com certas pessoas que normalmente não conviveria, por força das circunstâncias – trabalho, escola, família ou mesmo amigos em comum. Quando as circunstâncias se vão e você reencontra essas pessoas aquele antigo sentimento – ódio, amor, raiva, indiferença – é rapidamente acionado, mas você descobre que ele não está lá. Não do jeito que você o deixou. No seu lugar, uma outra coisa. Confusa. Você descobre que os sentimentos podem se recombinar em inusitadas associações. Aí o que era 1 quando somado a outro 1 torna-se 3. Ou menos quatro. Os sentimentos não sabem contar.

Aquela pessoa de quem você deveria gostar, afinal foi sua amiga por tanto tempo, era sua prima predileta, o colega mais engraçado da sala, ou mesmo o chefe que você aprendeu a odiar, o professor cujo medo não se equiparava a nenhum outro; tudo isso aparece de outra forma. Seja porque você mudou, porque a pessoa mudou, porque ambos mudaram. Seja exatamente pelo oposto: ela não mudou e aquilo ficou fora de contexto. Venceu.

E aí a sensação é a mais estranha possível. Porque você aciona aquele sentimento, mas ele não está lá. E você não sabe o que sentir. Às vezes começa a ter pena dele não estar lá. E a pena pode se transformar rapidamente em raiva, porque pra certas pessoas é muito difícil sentir pena. É uma dor insuportável. Sentir pena é se sentir impotente. Porque ninguém faz nada para o outro se o outro não quiser. Então é mais fácil ter raiva. Mas não é apenas raiva. Você tenta não se importar, mas não consegue. Você tenta se importar, mas não consegue.

Você aciona o ódio ao seu antigo professor, mas descobre que ele não passa de um velhinho franzino. E que talvez sempre tenha sido assim. Você quer sentir inveja daquela amiga que era a mais linda da sala, mas agora ela está uma baleia, com três filhos e só faz reclamar do marido insuportável e perdeu o brilho que a fazia ser a mais bonita. Você quer gostar do amigo do amigo que era engraçado, mas percebe que as piadas só tinham graça na época do colégio. E aí você não sabe muito bem como lidar com a pessoa, o que falar, sobre o que conversar. Se apóia no sentimento antigo? Confia no atual e ignora o passado? Quando se aproxima, sente-se mal, mas quando se afasta idem.

11 comentários:

Pri disse...

vivi exatamente isso hj. queria o sentimento, mas ele nao estava mais lá, nao em mim, mas nele. me senti mal por ele nao ter mais nos olhos o sabor da amizade. mas ng esta aqui p satisfazer as nossas necessidades e preciso aceitar q ele nao mais eh aquele de antes. eu tb nao sou!

Alessandra disse...

Olá

Eu vivi isso há dois meses em relação a uma amizade.

É estranho, pois ao rever essa amizade parece que nada se encaixava e eu não sabia se a mudança havia ocorrido em mim, em nós ou se tudo era uma magia do momento que se quebrou com o tempo.

Carrie, você podia escrever mais sobre esses sentimentos, pois escreve muito bem.

Abraços

Alessandra

Bella disse...

nossa, impresssionante, já passei por várias situações desse tipo. mas às vezes, o inverso tb ocorre. vc acha q não há mais sentimento,mas reencontra a pessoa e percebe q td está como antes qdo vc pensava q aquilo já tinha se desfeito... o ser humano é msm bizarro.
adoro esses posts!!

KARINA F disse...

nossa, é verdade...é uma falta de sentimentos estranha como se de repente vc finalmente tivesse conseguido superar tudo...eu tive uma amiga que eu amava, adorava por mais de 10 anos, a dona-da-verdade...ela me deixava meio sem saber qual era o meu papel naquela amizade..e finalmente superei.e aí ela tem umas atitudes loucas. acho que o que escrevo no meu blog ´recado pra ela e responde no blog dela. Para a minha família pra falar de mim...Insana!E nem raiva eu consigo ter.Nem raiva e nem dó!Mas me sinto livre.Beijos, amei esse post.

Carrie, a Estranha disse...

Pri,

É, às vezes a gente sofre por ter expectativas. Seria tão mais fácil deixar rolar.

Alessandra,

Q bom q vc gostou.

Me lembrei de uma crônica da Clarice Lispector onde ela fala sobre um Rol de Sentimentos e q, na lista dela, entrariam sentimentos pros quais ainda não tinham sido inventados nomes. É muito bonito. E muito verdadeiro tb.

Bella,

Sem dúvida. Às vezes vc fica com raiva por ainda achar o sentimento lá. Daí fica jogando ele pra debaixo do tapete e empurrando a cabeça pra dentro.

Karina F,

Não sei se trata-se de superar ou não. Porque nesse caso tb é triste superar. Sinal q a amizade acabou, não é?

Bjs a todas

André Rafael disse...

Sábias palavras, Srta. Carrie.
Às vezes é difícil lidar com essa revolta dos sentimentos, como reencontrar um velho-grande-amigo e descobrir que ele não está mais lá - nem o amigo, nem o sentimento.
Beijo,

André Rafael disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
André Rafael disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Melissa disse...

Oi Carrie, adoro seus posts sobre sentimentos!
É uma coisa estranha mesmo, tem coisas q a gente sente tão forte num momento e parece q nunca vai passar. E qdo passa é estranho mesmo a gente se dar conta que passou. :-) (coisa doida..rs)
Tudo muda, nós, as pessoas, os lugares, a vida num todo. Só que nós não sentimos essas mudanças, nós é que não sabemos deixar rolar.

Bjo

Carrie, a Estranha disse...

Melissa,

Que bom q gostou.

Bjs

Lenissa disse...

putz...agora sim tô de boca aberta ... pq passei o dia pensando sobre isso, e precisei escrever um post pra liberar o "HD" aqui. E agora vem esse complemento todo - assim como aquele marshmallow maior que o sorvete...e me encheu de pensamentos novamente. Manter sentimentos do passado ou ignorá-los? pergunta preto-no-branco pra conclusão dos meus pensamentos de hoje. Ainda não sei a resposta. Se sobesse, essa não seria a questão do dia.