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sexta-feira, dezembro 12, 2008

Que que eu vim fazer nessa New Jersey?



Há muito muito tempo atrás, primo meu de segundo grau do interior de Minas foi a Gotham City fazer uma operação de fimose. Só que ninguém o avisaram do fato. Ele só tomou consciência da situação quando já estava lá.

Depois de saber de tudo, disse: “o que que eu vim fazer nessa Barra Mansa?” (cidade vizinha a Gotham).

Pois é. Mais ou menos isso.

* * *


A família de vocês é confusa ou será que é só a minha? Respostas nos comentários, por favor. Ando impressionada com o grau de indecisão e capacidade de mudar de idéia da minha família. No mau sentido. Claro que eu sempre acho que eu não estou incluída. Claro que eles também nunca acham que são confusos. Então, fico pensando que eu também devo ser confusa e enrolada e não sei. Que puxa.

Ninguém consegue dizer “sim”, “não” - e se você diz “uou, como você é dura” - as pessoas são em cima do muro, tem medo de magoar, disso e daquilo, tão sempre querendo o melhor pra você. É o que eu sempre digo: quer o melhor pra mim? Seja egoísta. A melhor forma de você fazer o bem ao outro é cuidando de si em primeiro lugar. Que nem mensagem de segurança no avião. Bote a máscara primeiro em você, depois ajude as crianças ou pessoas com dificuldade.

Família, família, nunca perde essa mania...


* * *

Os dias andaram gelados. Agora melhorou um pouco. Contudo, chove.

* * *

Formiga Mãe voltou na casa da grega e disse que até que não é tão ruim assim. A casa estava um pouco mais limpa. E ela concordou que o ponto lá é muito melhor que aqui – não sei se comentei, mas estamos ficando em dependências mabianas, no mesmo bairro, mas um pouco mais distante. O apartamento é muito melhor, mas o entorno é mais deserto. Lá na grega é exatamente o oposto.

Fui lá pra pegar minha mala e meus 200 dólares de taxa caução que ela vai me devolver. Havia um pote de biscoitos numa latinha, com um bilhete pra mim, e mais um envelope...vazio. É, caro leitor. Você sabia, né? Mas dessa vez tenho que dizer que ela não teve culpa. Só vi depois que ela deixou uma mensagem no meu celular dizendo que não estaria em casa naquele horário. Depois ela me ligou pedindo desculpas e dizendo que o dinheiro estaria lá, na Tábua da Comunicação, a partir de amanhã.

Pobre Mab. Vai pra lá amanhã. Está aterrorizado ante o relato de mami.

* * *

Fui a uma liquidação na Macy’s. Saí correndo meia hora depois sem comprar nada. Quando a revolução comunista triunfar eu acho que a Macy’s deveria ser tomada, assim como a Bastilha fora. Um marco na queda do Império. O-D-E-I-O a Macy’s. E o que é pior: os realmente ricos não compram lá – ainda que seja bem caro. Por isso que eu faço minhas compras na The Bargain, a lojinha de 1,99 do Queens. Aquela onde os preços ainda são remarcados com a maquininha.

Contei sobre a piada que eu ouvi no Will and Grace sobre a Macy’s? Contei. Mas conto de novo. A Karen fica “pobre” (acha que ficou, porque acha que o marido morreu) e resolve fazer economia. Daí a empregada dela, que é latina (a Rosário), a leva na Macy’s. E ela volta dizendo “ah, Rosário me levou num lugar estranho, onde todo mundo falava espanhol”.

Só que já foi na Macy’s pode entender a piada.

Ah, como eu odeio a pequena-burguesia. Ainda – e exatamente por isso – que eu faça parte dela.

terça-feira, novembro 04, 2008

Segundas impressões

A Karen autorizou a publicação de seu e-mail e fotos. Ela escreve em espanhol porque tem muitos amigos espanhóis.


Queridos amigos,


Solo un mensaje para compartir con Uds. algo del ambiente que se esta viviendo aqui en Nueva York en este dia historico. Acabo de ir al centro electoral para votar. Las colas fueron muy largas y vi una gran diversidad de gente--ancianos que necesitaban ayuda a acceder la maquina de votar, jovenes llenos de energia--algunos que gritaban despues de dar su voto, madres y padres con sus hijos, gente que no hablaba ingles alli con sus hijos o amigos que traducia (aunque todo el material en la votacion es en castellano e ingles). En la escuela donde me tocaba votar dominaba un atmosfero alegre y lleno de companerismo que pocas veces he observado aqui.

En ruta a mi casa me detuve en Starbucks donde estaban regalando cafe gratis a la gente que habia votado--no se si esto fue un premio para la gente dado que su cafe es, a mi gusto, bastante amargo, pero lo podemos ver como una muestra de solidaridad con la gente que habia tomado la decision, quizas por primera vez, a participar en nuestro proceso electoral.


En frente de Starbucks hay una iglesis, un "shop front church" de los mas tipicos que hay en Harlem. Tambien habian maquinas de votar en este sitio y alli la cola extendia por toda la manzana y media manzana mas! Quizas colas para votar son comunes en sus paises pero les digo que aca es mas comun una cola para ir de compras en el "black Friday" (el dia despues del Dia de Accion de Gracias en que todas las tiendas tienen grandes rebajas). Les adjunto una foto de esta nueva fenomena nuestra (hay ejemplos mas dramaticos en otros sitio donde la espera llega a ser unos cinco horas!).


Antes de entrar en mi deparamento, un joven de unos 14 anos me preguntaba a quien habia dado mi voto. Le conteste Obama y le pregunte si pensaba que Obama iba a ganar la presidencia. Me contesto que si no ganara seria que lo hayan robado la eleccion y que habria un amontinamiento. Bueno, no se si esto es el caso o no, pero con estas anecdotas espero haberles comunicado que aqui ya se siente que ciertas cosas han cambiado. Ojala que los resultados de la eleccion hoy afirmen este sentimiento.


Un abrazo grande.

Karen


Yes, we can.

E por falar em mudanças – sim, pois o post abaixo fala sobre mudanças – o dia de hoje é sem precedentes na História contemporânea. Pensar que em um país onde há apenas quarenta anos outro negro era assassinado por defender os direitos dos negros, onde os negros tinham que se levantar pra dar o lugar para os brancos, onde a Ku Klux Klan ainda existe, um negro vai concorrer a presidência – ainda que um negro de Harvard, mas ainda assim um negro *-, nos faz pensar que a humanidade evoluiu um bocado.

Não que vá mudar muita coisa, agora, o Obama ganhar. Mas são de pequenas centelhas de esperança que a História é feita. São de pequenos grãozinhos que o mundo precisa. São com passos de formiga que a Humanidade caminha. E há momentos em que o melhor que se pode dar às pessoas é esperança.

Hoje minha professora de História do Brasil e orientadora terminou a aula dizendo ao que esperava que as pessoas votassem amanhã. Em 57 de anos de sua vida nunca tinha tido um momento de tanta ansiedade política – e como ela já me disse, “e olha que eu já tive decepções políticas, como as eleições do Nixon e do Reagan”.

Ver a possibilidade do Obama ganhar dá a sensação de que todos nós podemos. Tudo. Ainda que seja apenas uma sensação. Mas, de novo, às vezes a sensação já é metade do caminho.


* Aliás, é melhor mesmo que ele seja de Harvard, do contrário poderia se dizer que foi eleito só porque é negro.



segunda-feira, novembro 03, 2008

Trick, Treats e a ética protestante



O Halloween foi uma das mais profundas experiências pelas quais eu passei no EUA. Fundamental para entender um pouco mais sobre esse estranho e apaixonante país. Haloween aqui não é coisa só de criança. Ao contrário, os adultos se divertem e muito. Mas o mais bizarro foi ver pessoas em pleno meio dia, em Manhattam, indo trabalhar vestidas de super homens, mulher maravilha, Drácula...parece que algumas empresas até incentivam esse tipo de prática. Então pega até mal se você não vai fantasiado. Você não está “vestindo a camisa da equipe” (ah, o mundo corporativo!). Então a pessoa bota burocraticamente sua fantasia e tudo pela empresa. Aí o sujeito entra e mata 15 com uma metralhadora e a culpa é da mídia. Da Dona Nídia.

Aliás, a melhor definição quem me deu foi a Karen, minha colega de conversação: “nós precisamos de um objetivo para nos divertimos. A gente precisa ter uma meta. Hoje a meta é Halloween”.

Não é o máximo? Isso são os Estados Unidos!! A ética protestante e o espírito do capitalismo, como bem mostrou-nos Weber. Nada de divertir-se pagãnamente no carnaval, bêbados, nada de louvar os mortos como os católicos latinos melancólicos devedores da Ibéria, mas um ritual Celta – e, a princípio pagão - com uma roupagem extremamente pragmática. Claro. Louvando as raízes de diversidade religiosa que foram, aliás, a causa da construção desse país.

Outra grande descoberta foi ver que as fantasias não são só de coisas ligadas ao universo das bruxas. São fantasias de qualquer coisa. É o Carnaval deles. As lojas ficam lotadas de produtos de Halloween, as vitrines, os restaurantes são decorados com motivos de Halloween...e há filas nas lojas para se comprar doces e fantasias.

As crianças pedem doces em Manhattam nos estabelecimentos comerciais. A Karen me disse isso e eu não acreditei. Estava tomando minha sopinha calmamente num lugar que eu como perto da faculdade e vi isso acontecer. Crianças de uns 4 ou 5 anos entraram com as mães, gritaram Trick or Treats!, ganharam doces e saíram pulando de alegria. Um dos garotinhos, um latininho de uns 5 anos, pulavam na calçada com seu saco de doces. Dentro do restaurante, um grupo de franceses comia. Entre nós e cena apenas um vidro. Subitamente todos nos olhamos e simplesmente sorrimos com aquela cena insólita para uma metrópole supostamente “fria” e “impessoal” como NY.


Os “sexual offenders” (molestadores de criancinhas) são obrigados a colar um aviso nas portas para que as crianças não se aproximem. Aliás, perguntem pra Karen isso. Como um país que tem verdadeira paranóia com sexual harassment e pedofilia pode alimentar um ritual que é um prato cheio para esse tipo de coisa. Ela me disse que há uma série de lendas urbanas sobre casos de crianças que somem na noite do Halloween. Também ouvi relatos de gente que bota droga nos doces ou lâminas. O que só serve de marketing pro evento, claro. Por via das dúvidas, os muito pequenos vão com os pais. Os maiorezinhos vão em grupos – e tivemos até grupos de adolescentes.

Na cidadezinha da Raquel o Halloween é um evento. Nem vou descrever nada, pois as fotos abaixo falam por si. A maioria dessas casas super enfeitadas fica numa rua em que as pessoas vem de longe pra pedir doces. É uma festa. Tem até polícia pra tomar conta. As pessoas decoram as casas com perfeição, se fantasiam e ficam esperando as crianças na porta. Outras preferem botar músicas assustadoras e tinha até gelo seco!

Nossa produção não era tão grande. Raquel e Marido compraram alguns chocolates e doces. Não havia uma música assustadora, então colocamos o “Trilher” de Michael Jackson no repeat. Ao que Marido alertou-nos onde estávamos com a cabeça. Afinal, colocar a música de um pedófilo pra tocar em pleno ritual infantil...enfim. Mas era apenas má vontade dele para com Michael – depois da trigésima vez que a música repetiu, diga-se de passagem.

Recebemos quatro grupos de crianças – o que, dizem, era pouco. Eu achei o máximo. A cada toque de campainha colocava meus óculos de Groucho Marx (fotos abaixo) e ia, animadamente, abrir a porta junto com a Raquel, que estava com a máscara do Jason. As crianças de assustavam mais com os latidos de Tinho e Rodolfo do que com a gente, mas tudo bem.

O Halloween festejava o fim do verão e o início de outro ano e a terceira e última colheita do ano e o armanezamento de provisões para o inverno.

O Haloween também era chamado de Samhain (fim de verão), Samhein, La Samon, ou ainda, Festa do Sol. Mas o que ficou mesmo foi o nome escocês Hallowe'en. Dizem que a palavra Halloween vem da palavra hallowinas - nome dado às guardiãs femininas do saber oculto das terras do norte (Escandinávia).

Uma lenda celta dizia que os espíritos voltavam à terra no dia de Halloween buscando corpos para viverem neles. Por isso as pessoas apagavam as luzes e se vestiam de seres aterrorizantes, fazendo muito barulho, que é pra desanimar o espírito de vir pegar o corpo.

Depois a Igreja deu uma roupagem católica a esse ritual pagão, criando o dia dos mortos. Pode-se dizer que essas três datas têm origens comuns: Halloween, do dia de Todos os Santos (ontem) e do dia dos mortos (hoje). As datas falam sobre morte e ciclos da vida. Sobre fim de ciclos e começo de outros.

Acho importante lembrarmos dos nossos mortos – e, porque não dizer, de todas as nossas mortes diárias; de sentimentos e crenças e também de nós mesmos que estamos, a cada segundo que passa, mais pertos do nosso fim. Isso sempre me ajuda a pensar na vida.

Seja você pagão ou cristão, agnóstico ou bruxo, um Feliz Halloween pra todos. Que lembremos sempre que tudo na vida é cíclico. Que saibamos botar nossos disfarces para afastar o mal – e, como eu dizia no outro post, de tanto disfarçar, quem sabe a gente até comece a acreditar.


(Informções do Halloween tiradas
daqui )


Reparem como eu fico bem de bigode!!!!




quinta-feira, outubro 30, 2008

Todo dia

Então todo dia é assim: eu levanto, tomo banho (lavo cabeça dia sim, dia não, não tenho ido a academia desde que o frio chegou, eu sei, não é desculpa, mas é muita roupa pra por e tirar), ligo no NY 1 pra ver o tempo, boto metade da minha roupa, arrumo minha cama, tomo café, seco cabelo, boto o resto da roupa, vou pra faculdade (nesse processo todo são umas duas horas), dia que tem aula da minha orientadora eu assisto, dia que não tem eu venho direto pra biblioteca, compro café, chego, deixo minhas tralhas aqui, vou ao banheiro, encho garrafinha de água, volto, tomo café, respondo e-mails, respondo comentários, entro em um ou dois blogs, escrevo alguma bobagem pra botar aqui, abro minha tese, mudo duas linhas, leio três páginas de alguma coisa, me desespero, niqui já é hora do almoço e eu desço, compro minha comida (ou já desço com ela quando trago de casa), como no refeitório, compro outro café, subo, checo e-mail, checo comentário, tomo café, escovo os dentes (e as pessoas no banheiro acham um pouco estranho eu escovar os dentes e, pelo que tenho conversado com outros brasileiros, eles também têm essa mesma percepção), encho outra garrafinha de água, sento, mudo três linhas na minha tese, leio quatro páginas, às vezes encontro alguém conhecido, às vezes alguém me liga no skype e eu vou lá pra fora falar, me desespero, tenho sono, cochilo, levanto, leio mais duas páginas, corrijo mais duas linhas e tá na hora de ir pra casa.

Em casa eu faço uma massa – que é fácil e gasta pouca panela – como assistindo TV, tomo outro banho, falo com Formigas Mãe e Irmã pelo skype, desligo, escrevo no meu diário de papel – sim! Eu tenho um diário de papel – preparo as coisas pro dia seguinte, faço um chá, leio duas paginas de qualquer coisa e no dia seguinte é tudo igual. Como algumas variações, dependendo das tarefas domésticas que preciso fazer - compras, laundry, limpeza...

A diferença é que eu não passo mal de calor, ao invés de ver filme no Unibanco Artplex eu vejo no Angélika, ao invés de ir na Livraria da Travessa ou na Letras e Expressões (ou na Veredas) eu vou ao Strands ou na Barnes & Nobles, eu vou a museus (que eu quase não vou no Brasil), parques (que eu quase não vou no Brasil) e restaurantes (que eu sempre vou no Brasil).

Formiga Irmã me sacaneava no Brasil dizendo que eu ia continuar fazendo as mesmas coisas aqui: vendo meus seriadozinhos, lendo blogs, comendo bobagem e enrolando na tese.

É.

Quer dizer, é e não é.

Eu tô aqui. Eu ainda sou eu – embora eu duvide às vezes – mas sou eu aqui. Eu vim. Isso muda tudo. E não muda nada, porque ainda sou eu. Em última instância, você não consegue fugir de si mesmo. Mas é como se você pusesse aquela máscara de nariz e olhos. Todo mundo sabe que você é você, você sabe que você é você, mas você finge que está disfarçado e os outros fingem que acreditam. Que nem o Calvin quando se veste de Estupendo Man ou pensa que é o astronauta Spiff.


Talvez seja isso, a vida.


No final, Bel, é basicamente isso.

sábado, outubro 25, 2008

A crise

Atendendo a pedidos – da minha massa de leitores – hoje falarei sobre a crise. Do ponto de vista de quem está no olho da crise. De quem vivencia a crise.

Crise? Que crise? Ah, sim. A crise financeira, claro.

É...a crise...pois é. (Cof, cof). A crise é uma coisa muito séria. Hãn...

A verdade é que eu não sei falar da crise financeira estadunidense. Não mais do que vocês. Eu não conheci o país sem crise. Então meu referencial é o mesmo. Se isso aqui é a crise, uau! Manda lá pra casa! Quero duas e pra viagem! Com uma coca diet.

Cheguei dia 12 de agosto. As coisas deram uma piorada a partir de setembro, mais ou menos, não é isso? Meu amigo brasileiro que está aqui desde janeiro diz que o preço das coisas no supermercado aumentou. Com três meses de Nova York não dá pra eu dizer isso. O preço do meu La crema Danone, do Special K, do Low fat Milk 1% e do pão integral são os mesmos desde que eu cheguei. Meu café continua o mesmo. O Victoria’s Secrets também continua o mesmo – 5 e pouco (nem adianta pedir pra eu levar, pobrada, porque eu não tenho dinheiro. E como diria a avó da Raquel “encomenda sem dinheiro não sai do Rio de Janeiro”).

Além disso, eu convivo num universo muito restrito. Vou pra biblioteca todos os dias onde está todo mundo estudando. Encontro pessoas, a maioria estrangeira. Sento no refeitório pra comer e a TV está ligada na CNN. De vez em quando alguém passa e resmunga qualquer coisa. Esses dias um cara de um país que eu não sei qual é ficou falando horas comigo. O quê eu nem faço idéia. Algo sobre a Rússia e os EUA e EUA apoiarem conflitos em outros países. Jornal eu só leio as versões online do New York Times, CNN e Globo – leio não, seleciono uma ou outra notícia. Quando consigo pegar o jornal do Metrô, que é de graça, também leio. Comprar? Cês tão loucos. Dar 1,5 num jornal? Prefiro dar no meu café que me é muito mais útil. O New York Times de domingo é 4,50!! Isso é o preço de Little Woman, livro da Louisa May Alcott, no Strands. Não. De jeito nenhum.

É que nem aquela frase que se as pessoas soubessem como são feitas as leis e as salsichas...pois é. Eu incluiria as notícias. (Fui googlar e, crente que eu estou pensando em uma coisa original, descubro que alguém já pensou nisso) http://www1.folha.uol.com.br/folha/pensata/helioschwartsman/ult510u356201.shtml

Minha bolsa é a mesma e, ao menos que o mundo quebre na próxima semana, não vai mudar. Meus dólares foram comprados quando eu estava no Brasil – e comprei por 1,68. A grega safada porcalhona da Silva Sauro continua me explorando pelo mesmo preço – como eu já disse eu sou a terceira pessoa que mora aqui esse ano e o preço toda vez aumenta, mas por safadeza dela e não pela inflação.

Desemprego. Dez mil desempregados em NY - é isso? Bom, se eles vierem aqui pro Queens vão ver um monte de anúncios dizendo “help wanted” ou “precisa-se de ayuda” (ou algo do tipo). A que preço, eu não sei. Em Manhattam também não é difícil encontrar esses anúncios. Até comentei aqui que na Union Square um cara me parou perguntando se eu queria um emprego – aliás, ele gritava pra todo mundo. Subemprego, ok.

Pobreza. Claro que aqui existe pobreza. Mas é bem diferente da miséria do Brasil. O mendigo daqui não é miserável – e, volto a dizer, não tenho parâmetros pra avaliar se aumentou ou não, quase sempre vejo os mesmos mendigos, com seus cartazinhos – o que eu mais gosto é o que fala “pra que mentir? Eu preciso de uma cerveja”. Qualquer dia vou sair dando uma moedinha pra cada um em troca de uma foto. E, mais uma vez citando meu amigo brasileiro, os mendigos aqui têm cada casaco que dá vontade de roubar e sair correndo. Os mendigos somos nós. Hoje eu acho que vi um cara roubando uma bicicleta em frente a universidade. Pelo menos ele estava com uma ferramenta arrebentando a tranca e tinha uma cara meio estranha. Se ele não é o dono que perdeu a chave então ele estava roubando. Mas ontem sentou uma mulher que eu jurava que era mendiga do meu lado no Whole Food (rede de supermercados natureba que vende comida idem) e me perguntou se eu tinha um I-phone, porque ela estava querendo comprar outro e não sabia se esses estavam dando problemas, então eu não sei identificar mendigos.

Li uma notícia que um cara, em Los Angeles, desempregado há vários meses, matou a família toda (filhos, mulher e sogra) e depois de matou.

Em suma: ainda que estejam em crise, eles são muuuuuito ricos e uma crise nos EUA é bem diferente do que uma crise no Brasil. É que nem um sujeito jovem, saudável, que pega uma forte gripe.

O que eu sinto dessa crise é: talvez minha mãe e irmã não venham pra cá porque o dólar não pára quieto. Ou seja, como sempre, quem se fode são os países mais pobres.

E, sei lá. Não deixa de dar um gostinho de vingança, essa crise. É bom ver os EUA se fudendo um pouquinho. É, eu sei que numa economia globalizada bla bla bla, vamos sofrer as conseqüências...mas eu não tô falando racionalmente. Contanto que a aviação internacional não quebre até 15 de dezembro – data do meu retorno – me impedindo de voltar para o Brasil - me fazendo passar o Natal abraçada a Zorba cantando we hope you a merry Christmas - eu acho é poooouco, como diria minha amiga Fló.

Eu quero mais é dar uma de Nero. Ver Roma pegar fogo enquanto eu toco meu violino do meu barquinho.

Ou, como se diz lá na minha terra, quero mais é que o mundo acabe num barranco que é pra eu morrer encostada.

Enfim. Mas o que eu sei? Eu só sou uma formiga. Entendo de folhinhas.

quinta-feira, outubro 23, 2008

Algumas fotos

Aqui ficavam as Torres Gêmeas. Hoje é o Ground Zero.

Momento compenetração.



Essa cheesecake foi eleita a melhor de NY. Da Júnior's, Grand Central Station. Sinceramente? Já comi melhores.








Battery Park, Downtown, Manhattam.









Eu e Central Park atrás - Top of the Rock (deck de Observação do Rockffeller Center).




Eu e minhas botas de prááástico. Top of the Rock. Empire State ao fundo.
Top of the Rock. Não parece aquelas fotos de banda metida a moderninha?





Eu e meu sempre amigo café. Na fila do Moma.






Cheerleaders boazudas no Madison Square Garden, jogo do Knicks.







Vini, vidi e venci (ou algo do tipo).




Baleia. Qual das duas? perguntou o leitor engraçadinho. Lembrando que eu posso fazer piadas sobre mim. Os outros, não. Museu de História Nacional.


Eu e dino - Museu de História Natural.

Chata minha vida. Muito chata.

quarta-feira, outubro 22, 2008


O pior não é o frio – que, segundo a maioria dos americanos, ainda nem começou; inclusive você vê gente (pouca) de perna de fora ainda, sem nem uma meia fina. Mesmo assim é o maior frio que eu já peguei na minha vida. O frio é tranqüilo, ainda mais se você gosta de frio, como eu. Você bota roupa e tudo bem. O pior é a logística do frio. Você precisa pensar em toda sua roupa antes de sair. E pensar que, assim que entrar nos lugares vai estar quente pra caralho e você vai ter que tirar e, dependendo do lugar, ficar segurando o seu casaco, cachecol e seja lá o que for mais.

E eu preciso encontrar uma logística pra lavagem de roupas. Porque tenho que lavar minhas meias finas no banheiro, porque se colocar na máquina elas vão detonar. Daí preciso ir lavando aos poucos. E botando outras meias por baixo e por cima, de forma que eu não precise lavar as meias finas toda vez que eu usar. Entenderam?

Sem contar o nariz. Meu nariz não parou de escorrer desde que começou a esfriar. Não é que ele esteja entupido (só de manhã), mas ele libera uma secreção constante. Nunca gastei tanto lenço de papel. Tenho uma caixa grande, que fica em casa, e outros tantos de bolso. Como diz o meu Rimão do Meio, cujos problemas de garganta se manifestam qualquer mudança de temperatura, é o homus amigdalóide atacando. No meu caso, é o homus alergenicus.

Se fosse só escorrer só tava bom. O problema é que meu nariz sangra, pois o clima é muito seco pra gente. Então já me acostumei a ver sangue todo dia no meu lenço de papel. Normal.

Por isso eu nunca consigo chegar no horário dos meus compromissos aqui. Eu, pessoa notadamente pontual. Porque eu sempre levo o dobro do tempo pra me aprontar e sempre me perco ao redor de onde eu preciso ir. Sem contar que toda hora acho que perdi meus cartões do metrô, chaves, etc. E preciso tirar sapatos antes de entrar de casa e ao sair de casa...muita logística.

Pra vocês terem uma idéia do meu grau de desorientamento esses dias eu saí de casa de manhã sem escovar os dentes. Tomei banho, tomei café, mas, não sei porque, esqueci de escovar os dentes.

Eca. Será que é a convivência com Zorba? Será que daqui a pouco eu vou estar sem tomar banho? Porque o pior do banho não é o frio. Mas é você ter que tirar toda a roupa e colocar tudo de novo. Se bem que em casa dá pra ficar com pouca roupa por causa de aquecimento. Essa noite eu acordei até suando.

E o aquecedor do meu quarto faz um barulho bizarro. Tudo bem que é pouca coisa o tempo em que ele fica ligado. Acho que as paredes absorvem o calor e daí eles desligam. Mas acho que tá com defeito. Como eu sou um pedreiro pra dormir (dificilmente alguma coisa me incomoda), nem vou me dar ao trabalho de reclamar.


***

Povo andrelandense: nasceu a menininha da Gisele (outra Gisele, não Menina Gi). Chama-se Gabriela. Vou lá visitar. Tava previsto pro dia 31, mas nasceu essa madrugada, as 3:30. Mãe e bebê passam bem.

**

Conheci um esloveno – pessoa da Eslovênia. Tava no albergue das meninas, na copa, esperando-as arrumarem as malas pra gente sair pra comer, segunda feira, últimas horas delas em NY, quando chega aquele ser louro-branco e começa a me perguntar sobre barcos para se fazer passeios em NY. Quando perguntei de onde ele era ele disse que eu não ia saber onde é o país dele. Ora, como não! Falar isso pra uma historiadora! É verdade que quando ele disse Eslovênia (primeiro tive que entender o sotaque dele) eu achei que era um dos países da antiga URSS, mas aí ele me explicou que era uma parte da Iugoslávia que tinha virado país depois da guerra de 1992 – assim como a Croácia, a Bósnia, a Macedônia (que não se chama exatamente Macedônia, mas eu esqueci como é). Ah, passei perto! A gente ficou conversando e quando as meninas chegaram, eu chamei-o pra ir comer com a gente.

Ele não queria acreditar que nós, especialmente as meninas, éramos brasileiras. Porque uma delas é filha de japonês. A outra, menina Gi, é mais branca que eu e tem olhos e cabelos claros. Então lá fomos nós, brasileiras falsificadas, filha de japoneses e esloveno para um restaurante tailandês que tocava um tecno ensurdecedor em plena segunda feira gelada.

O moleque era uma figura – ou um cromo, como diria Helena. Super engraçado. Ele é estudante de doutorado em Biologia e estava nos EUA para participar de algumas conferências e depois iria ao Canadá. Mas em NY ele estava só a passeio por 4 dias. Diz ele que estava se sentindo que nem o Borat. Ele se chama Vit e tem 27 anos. Não é feio, não, como diria Formiga Mãe.

Comemos, depois fomos procurar um waffle e depois fui com eles até o albergue, de onde pegaria o metrô pra casa. Aí vai eu, na minha versão estadunidense mega sociável: “Vit, I’ll write my cell phone, in case you want...” no que ele me interrompeu/completando: “Marry you? Oh, I think you are going too fast, girl!”.

Humm…gringo engraçadalho do carilho. Por isso é que brasileira leva a fama de puta e não sabe porquê. Eu, tentando ser simpática...dá nisso. Por isso é que eu sou antipática a maior parte do tempo. Mas, sem querer ele apontou meu principal problema em relacionamentos. Falta de timing. Too fast or too slow. Yes, Vit. That’s me.

Fiquei azul de vergonha, mas tive que rir também. Eu, que nunca faria isso em condições normais de temperatura e pressão – dar meu telefone pra um cara que nem pediu e que eu acabei de conhecer – resolvo fazer justo com um esloveno. Isso, Carrie! Você só perde pro Woody Allen na falta de jeito! Ou pro amigo de um amigo meu que chega nas mulheres perguntando “você gosta de molho pesto?”. E esse Vit é o tipo de pessoa que simplesmente não freia o que lhe vem a cabeça. Sai falando. Meio que nem o Borat, mesmo.

No final falei que ele podia me ligar nesses dias em que ficasse por aqui, caso precisasse de alguma coisa e eu prometia não casar com ele. No que ele fez um muxoxo do tipo “oh...que pena”.

Rá rá. Mas que foi engraçado, foi. Vê-lo levantando as sobrancelhas quando eu disse que ia dar meu telefone. Realmente o gap cultural entre a Eslovênia e o Brasil é um tanto quanto grande e deve ter soado muito bizarro pra ele. Apesar disso, ele já tinha visto Cidade de Deus e Central do Brasil – em festivais de cinema independentes e porque o namorado de uma amiga dele era brasileiro. Segundo ele, o cara terminou com a menina porque achou-a muito independente. Sim, comportamento tipicamente latino.

Quando fomos contar a história de “O ano em que meus pais saíram de férias” ele perguntou porque todo filme brasileiro tem que ter um garotinho abandonado. A meditar.


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A biblioteca ta impossível hoje. Mega lotada. São as mid-terms. As provas de meio de semestre. Aqui nego leva a sério prova. Não quero nem ver quando for a prova final. Tô tendo que revezar buraco de tomada com uma menina. Revezar buraco é depression. Buraco é coisa muito pessoal.


**

Tô tensa para com minha tese. Eu fico tensa por qualquer motivo. Bons ou ruins. Empaco por qualquer coisa. Empaco porque acho que não vai dar tempo, empaco porque acho que tá muito ruim e porque não sei como continuar e empaco porque acho que tá muito bom e tenho medo de não conseguir fazer o que acho que poderia fazer. Empaco quando encontro coisas muito boas ou quando não encontro nada. Empaco.

Quer dizer: fico nervosa em pensar que pode dar muito errado ou que pode dar muito certo. Ainda mais porque andei recebendo uns e-mails de pessoas no Brasil, contatos profissionais que me fizeram crer que eu estou indo na direção certa. Sabe quando as pessoas acreditam mais em você do que você mesma? Putz. Que medo. E, se eu conseguir fazer o que eu quero...nossa. Minha tese será bombástica. Porque eu estou falando de uma coisa que pouca gente falou. E essas pessoas contam comigo pra falar isso. É muita responsabilidade. E eu não quero falar nem A nem Z, que seria o mais óbvio. Ou pior: pode acontecer de eu conseguir fazer o que quero e mesmo assim minha tese não ser bombástica...porque tem muitas outras questões – e pessoas – envolvidas. Aí eu vou ficar muito puta. Quer dizer, não tem como eu não me frustrar de alguma forma. Porque as minhas expectativas são sempre muito altas. Pink e Cérebro.

Timing. Tudo na minha vida se resume a uma questão de timing. Ou falta de.

Difícil ser eu.

Não é pra entender esse pedaço.

sexta-feira, setembro 26, 2008

Comprei uma calça preta na GAP. 40 dólares, na promoção. Excelente. Vestiu otimamente. Como nunca sei esse lance de numeração peguei uma 8 e outra 10. A 10 ficou larga. A oito ficou boa, quase larga também, mas tranqüila – não ia levar a seis, né? Chegando em casa vou conferir e vejo que 8 corresponde a 38 no Brasil. Impossível, caras pálidas. Por mais que eu tenha emagrecido eu não visto 38 desde a terceira série primária. Alguém sabe me dizer a que o 8 equivale? Ah, fala que é 42, fala! O que está ótimo, afinal pra quem vestia 46 com strech...

Ou o manequim da GAP é muuuito grande? Será que eu fui numa GAP de gordo? Ah é: calça de paninho, normal, sem strech.

O mais legal é que as calças aqui tem comprimentos. Ela pode ser “ank” (que foi a que eu comprei) que é mais curta, quer dizer, na verdade ela é como se fosse uma calça com bainha, já; a regular, que é um tamanho normal e a grande (esqueci o nome...tall?) pra quem é alto. Então, tecnicamente aqui nos EUA eu sou baixinha.

Hahahaha...eu visto 38, sou baixinha e sociável!!!! Hahahahah...virei outra pessoa!

Carrie White: derrubando mitos sobre os EUA. Mito número 1: os EUA engordam porque aqui as pessoas comem mal. As pessoas comem mal porque gordo é safado em qualquer lugar do mundo e aproveita pra vir aos EUA pra comer porcaria e dar desculpa que engordou por causa da comida.



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Duas butina jeitada (tradução: duas botas muito legais) por 44. Você comprava uma e a outra saía pela metade do preço. Ambas eram por volta de 30 Uma, a tal de práaastico. Bom, ela não é igual a que a gente usava na infância e é bem mais confortável. É preta, de bolinhas cinzas e brancas – e o leitor ali do canto que deu uma gargalhada acaba de levar uma butinada na idéia! Calaboca, leitor prego! Totalmente stylish! Vou arrasar na Ecripse Naiti Crube em Andrelândia – só periga o povo achar que eu acabei de tirar tarefa na roça e vim no caminhão de leite das seis. A outra é marronzinha, com uma pelinha. E tinha mais muitas outras. Algumas bregas, outras bem legais. O foda é aguentar a música mexicana no último volume. É a segunda vez que eu vou lá e elas tão ouvindo isso.
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Meias: seis pares por quatro dólares. Meia branca, de algodão, grossa, boa.

Meinha de menininha, coloridinha, alta: 1.99 cada na GAP (com direito a vendedora paulista dizendo que quando ela vai ao Brasil as pessoas dizem “meu, que meia “da hora”).

Steinway Street: paraíso Outlet.



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Não aguento mais encontrar brasileiros pelo Astoria. Que são todos uma mistura de Governador Valadares e Presidente Prudente.



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Comprei ingressos pra um jogo de basquete do New York Knicks, no Madison Square Garden – mas descubro que é um jogo de exibição, já que a temporada só começa final de outubro. Mas tinha que ser esse dia, porque é quando as meninas vão estar aqui, minhas amigas (Gi e Lika).

Mas fiquei seca foi nas lutas de boxe! Uau! Já pensou que barato deve ser assistir a uma luta de boxe no Madison Square Garden? Sentar lá na frente, sentir o sangue do cara espirrando em você, o suor caindo no seu braço, pegar o dente dele? Também descobri que tem show da Madonna lá! Quem precisa pegar o show dela no Brasil, quando se tem show aqui, na maior tranqüilidade, sem os ingressos acabarem na mesma hora?
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Hoje conheci um amigo que faz doutorado na mesma faculdade que eu no Brasil, no mesmo programa de pós-graduação, mas eu só conhecia por orkut. Ele e a mulher estão em Baltimore.

Graças a Deus que esse é o primeiro semestre que a minha orientadora daqui veio dar aula na NYU. Antes ela também dava aula em Baltimore.

Ainda bem que eu não estou em Baltimore. Baltimore deve ser chaaaaaato.


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Formiga Mãe e Formiga Mãe, cadê vocês? Me deserdaram depois que eu disse que vou morar aqui? Não consigo falar com vocês pelo skype!
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E o serviço de meteorologia da Família Adams informa: hoje fez 59 graus Farheneit (15 Celsius), ventou e choveu a madrugada toda e o dia todo. E eu adorei cada minuto. E pensar que estamos só no início do outono me deixa muito, muito feliz.
A minha amiguinha de exchange conversation disse que o cara que ela conheceu pra também conversar não é muito legal. Ele fala inglês muito bem, mas o problema é que ele só quer falar inglês e fica nervoso quando vai falar português (fica dizendo "uau, this is so weird"). Resultado: ela só vai conversar comigo em português. Eu sou a única. Eu não disse que eu já sabia que eu seria a melhor pessoa com quem ela ia trocar conversação? Who is the boss? WHO IS THE BOSS? Meeeee! (eu digo que eu tô salientando certos lados da minha personalidade que não são muito legais...). Ela também disse que ele detesta o Brasil e é muito chato conversar com ele, porque ele não é interessado na cultura brasileira, na literatura como eu sou.
Então eu sou baixinha, visto 38 e gosto do Brasil. Quem sabe eu também não seja ruiva e tenha um casal de gêmeos e não sei?

quinta-feira, setembro 25, 2008

Sonhos de uma tarde de outono

A medida em que as primeiras folhas vão caindo lentamente, em proporção inversa à temperatura - que despenca rapidamente dia a dia - um sentimento vai crescendo dentro de mim. Talvez um sentimento que eu já soubesse que tinha e que todas as pessoas de certa forma pressentissem isso e me dissessem antes de eu vir pra cá. Um sentimento de que eu não vou mais voltar pro Brasil.

Calma, Formiga Mãe. Calma. É claro que eu volto dia 15 de dezembro. Eu tenho uma tese a defender. Eu tenho um visto que expira nesse dia me dando apenas mais 30 dias de prazo e eu nunca, jamais, em tempo algum ficaria ilegal aqui – sou arrogante demais pra ficar num lugar que não me querem. Eu tenho compromissos a honrar com a minha agência de fome(nto). Que diabos. Eu sou uma pessoa que honra compromissos. Mas eu vou voltar pra cá. Pode até não ser no ano que vem, mas eu volto. Por quanto tempo fico aqui não sei. Não sei se ficaria o resto da vida, mas quem sabe o que vai fazer pro resto da vida? Quem sabe o que é o resto da vida? Dois anos ou quarenta?

O fato é que eu sempre soube que eu me sentia desajustada dentro de minha própria pele. Estrangeira no meu próprio país. E não é que subitamente o mundo faça sentido pra mim, mas pela primeira vez as coisas se encaixam. Minimamente. Um mínimo de plausibilidade foi tudo o que eu sempre quis.

Ao mesmo tempo eu vejo que eu vim exatamente quando tinha que vir. Nem um dia a mais nem outro a menos. Todo tempo em que eu esperei e tive medo e não vim e pensava que nunca seria capaz foi exatamente o tempo certo que eu precisava.

Se você me perguntar, amando leitor, do que eu mais gosto em Nova York, eu te diria: estar em Nova York. Mesmo que em casa – e, God knows o quanto a minha casa não é exatamente um local que inspire a permanência – eu acordo e penso: eu estou em Nova York. Eu tenho mais 24 horas de NY. Eu gosto de ver TV em NY. Pensar que chegou o fim de semana e eu vou na laundry e vou fazer compras e vou ao Central Park se quiser, ou aos museus ou ao cinema ou simplesmente andar por aí, sozinha. Se quiser posso encontrar pessoas, mas o que eu mais gosto é de ficar sozinha.

Eu ando pelas ruas e penso que estou na mesma cidade que Woody Allen e Paul Auster – ok, no Rio eu também estou na mesma cidade do Rubem Fonseca. Eu ando pelo lado sujo de NY – o Lower East Side, que hoje em dia de sujo não tem mais nada...assim como a maioria das regiões de NY é caro pra caramba – e entendo a música dos Ramones e o wild side do Lou Reed. Ao contrário da grega que tem vontade de ouvir música brasileira a medida em que vai ficando frio eu tenho vontade de ouvir rock. Me sento da Union Square para comer meu almoço comprado na Whole Food – o supermercado politicamente correto, onde tudo é orgânico/reciclável – e vejo a mistura de homeless, traficantes, doidões, malucos em geral, pingaiadas e estudantes com seus laptops. Ninguém se mistura com ninguém, ao mesmo tempo em que estão todos no mesmo lugar. Ado, ado, ado. Cada um no seu quadrado. O presidente da empresa pega o mesmo metrô que o seu empregado – ok, quando eles chegam em casa há uma “pequena” diferença na moradia.

Vejo os homeless com suas plaquinhas. E os músicos de rua. E o hippies, com carinha de quem foram criados no Sustagem, mas simplesmente se cansaram de tanta opulência. O sonho americano que não deu certo para várias pessoas. Por vários motivos.

Eu penso que há quase 200 anos o Edgar Allan Poe também percorria as ruas dessa cidade e via os mesmos fantasmas que eu vejo. E o Walt Whitmam. E, é claro, ele só podia ter escrito Leaves of Grass em uma cidade como Nova York. Afinal, aqui há leaves. Leaves que caem e foram grass.

E penso nesse país onde as pessoas são isso ou aquilo, isso e aquilo, mas nuca issoaquilo. Num país – ou numa cidade, melhor dizendo – que aceita as diferenças desde que elas permaneçam como diferenças. Que aceita a mistura desde que a mistura fique separada. Onde as pessoas ou são pretas ou brancas. Ou índias ou asiáticas. O que é bom e ruim. Mas que é muito o que eu sou. Sim, talvez NY desperte o meu melhor e o meu pior lado. Desperta certas características minhas não muito saudáveis, como um extremo senso competitivo, uma vontade de dizer “ah é? Então vamos ver quem é que vence” e uma misantropia ainda maior. Desperta meu lado sociável ao mesmo tempo em que me dá uma vontade cada vez maior de ficar sozinha. Uma cidade que tá o tempo todo cuspindo as pessoas pra fora dela. Ao mesmo tempo em que é a cidade mais acolhedora do mundo.

Eu não sei. Sinceramente eu não sei. Eu sou uma pessoa um tanto quanto volúvel. Posso mudar de idéia a qualquer minuto. Mas hoje, se vocês me perguntarem o que eu quero da minha vida, seria: oito meses aqui e 4 no Brasil, pode ser? O recesso de Natal e Reveillon no Brasil, daí eu volto antes do Carnaval, fico aqui e volto nos meses de verão: junho, julho e agosto (particularmente os de inverno no Brasil). Onde eu vou arrumar um emprego que me dê tudo isso de férias? Na universidade, caro leitor! Ou você acha que professores são professores pelo prazer de ensinar? Um boooom salário (como o daqui) conta bastante, também. Além de férias garantidas e possibilidade de passar o dia escrevendo e lendo.

Realmente a única coisa que me balança quando eu penso em morar aqui é minha família e amigos. A única. Se eu pudesse ter todos os meus amigos e família aqui eu não faria a menor questão de viver no Brasil. Não tem absolutamente nada de lá que eu esteja sentindo falta. Nada. A não ser meus amigos. Cordialidade brasileira? Eu realmente preciso responder?

Eu acho muito engraçado quem viaja pra Paris, por exemplo, e volta dizendo “Paris é a minha cara!”. A gente sempre pensa: é cara de todo mundo! Pois é claro que um lugar onde as pessoas vivem bem sempre vai ser a cara de todo mundo. Mas eu digo com certeza: por mais que eu tenha adorado Paris, não é a minha cara. Londres que eu jurava que era...também não é. Itália muito menos. Espanha...talvez...Barcelona, talvez (Madrid, não). Mas NY definitivamente é a minha cara. Tem a exata mistura de cultura pop e erudita. De civilização e podreira.

Pode ser porque eu estou por pouco tempo e há pouco tempo...não sei. O fato é que eu nunca me senti tão bem num lugar. Em Buenos Aires, talvez. Sim, Buenos Aires é outro lugar “a minha cara”.

Enfim. Vamos vendo. Vamos tocando o barco e vendo onde isso tudo vai dar. Não me cobrem coerência daqui a dois posts.

quarta-feira, setembro 24, 2008

Hoje eu vi o Kiefer Sutherland.

(...)

Hoje eu vi o Kiefer Sutherland.


(...)


Hoje eu vi o Kiefer Sutherland.

Vocês tem a mais vaga noção, cara leitora, de que ele é maaaaaaravilhoso ao vivo? (comprovando minha teoria de que os homens ao vivo são mais bonitos do que as mulheres, que, por sua vez, são sempre mais fotogênicas).

Lindo, fresco, louro, de terno azul marinho, com uma pele de seda, cabelos platinados, paradinho em frente a uma galeria de arte no Village, sob o sol das cinco da tarde, conversando calmamente com uma mulher gorda de cabelo vermelho. Assim, como se ele fosse uma pessoa normal.

Uau.

É verdade que se não fosse meu amigo brasileiro – que ainda fez o favor de dizer: ih, olha o cara de 48 horas! – me chamar a atenção eu ia passar batida.

Quase que eu cheguei pra ele e disse: "você tem 24 horas pra fazer Zorba tomar banho. Noooooow!"



* * *


Essa é pro meu Cósnis! Estou andando calmamente quando de repente estou na Bowery. Ôpa! Essa não é a rua do lendário clube de rock CBGB? Saco meu caderninho de endereços e sim! Qual o número? 315! É onde eu estou! Do lado da Bleecker! É aqui! Quer dizer, deveria ser aqui, já que o clube não existe mais. Ok. Vejo que hoje em dia é um café chamado Think, tiro foto com o celular, mesmo sem saber se vou conseguir passar pra cá pelo Bluetooth. (Esse computador nunca mais foi o mesmo depois dos russos). Eis que pesquisando agora na internet eu descubro que...o CBGB ainda existe! Pela franja de Joey Ramone! Como assim? E nesse mesmo endereço, esquina com essa mesma rua?!!!! Bom, pelo que entendi hoje em dia é uma galeria do rock e loja, além de também ser um estúdio - e não mais um clube. Que, é claro, vou ter que voltar lá pra ver. Agora... como eu consegui NÃO ver isso eu não sei. Na certa deve ser mais uma coisa estranha de NY, do tipo eu fui pro lado West e era East...mas COMO PODE? As esquinas tavam certas! É o mesmo número! Inclusive, lendo o site deles eu descubro passagens do tipo: "aí eles foram tomar um chá - [sim, um chá, amigo] - e comer uns knishes no Yonah Schimmel's. Ôpa! Peraí! Yonah Schimmel's é o lugar que o Woody Allen vai e que eu fui, e fui de novo hoje, inclusive comi um knishe (uma paradinha de batata).
Tipo, eu já passei milhões de vezes do lado do lugar, mas não sei onde é e hoje, que eu achei que tinha achado - e de fato achei - descubro que a parada ainda existe, mas não tá lá! Quer dizer é lá, mas não é!
Bom, quem puder elucidar esse mistério me diga. Só sei que amanhã vou baixar lá e revirar de cabo a rabo aquele Lower East Side.
Ah é! E o Joey Ramone é nome de rua, também. Que eu não vi, claro. Também lá perto.
Atualizado: Ôôô merda. Agora eu vi que o clube fechou mesmo em 2006. E no site eles dizem que vão reabrir num futuro próximo. E essa notícia aqui fala Hall Of Fame do Rock, tipo um museu do rock pra onde iria a cabine telefônica do CBGB.
Que lixo é a a stabilishação (desculpem o neologismo) do underground. Tsc, tsc, tsc. Isso contra o espíiiiiiiiirito do punk!

sexta-feira, setembro 19, 2008

Essa temporada em NY está me fazendo repensar seriamente minha moradia no Rio. A gente vive mal demais no Rio. O custo de vida é alto pra cacete, como aqui, mas você não tem a qualidade de vida daqui. Aliás, acho que é igual em quase todas as grandes idades brasileiras, mas só posso falar da que eu mais conheço. Faz toda a diferença você poder andar na rua sem estar ligada o tempo todo. Poder sair e pensar que pode voltar a qualquer horário e ir em qualquer lugar - tá, ir ao Bronx as duas da manhã não é uma boa idéia, mas é diferente. Poder andar com as coisas e não ser assaltada.
E outra grande diferença cultural. Exemplo: marquei a conversação de inglês com o Jimmy, meu amiguinho. Marquei pra 9:30 da manhã. O interesse era meu, porque ele disse que podíamos falar em inglês o tempo todo, já que ele mora com um brasileiro. Ele tava sendo super gente boa de me encontrar. Ele trabalha e faz mestrado. Pensei comigo: claro que ele não vai estar lá na hora. Cheguei dez minutos atrasada - juro, só 10 - porque em geral sou uma pessoa pontual e, no Brasil, 10 minutos atrasada para um encontro entre amigos é ser suuuper pontual. Ele já estava lá. Morri de vergonha, pedi desculpas e ele disse: "não, tudo bem! Sei que você é carioca então já sabia que você ia chegar 10 minutos atrasada" (lembrando que ele já morou no Rio).
Morri de raiva e vergonha. 1) Não sou carioca, sou fluminense, papa-goiaba ou gothamcitiana, se preferirem e me orgulho de minhas raízes interioranas (tá, não orgulho, não, mas também não escondo); 2) Me identifico pouquíssimo com a cultural carioca; 3) Quando isso é sinônimo de bagunça, detesto.
Esse mesmo menino disse que adorou o Rio, que tem tudo a ver com ele porque as pessoas passam o dia na praia, não são estressadas e não vivem pra trabalhar.
(Pausa)
Eu sei, amigos cariocas. Eu sei que a gente trabalha muito no Rio. Mas a cultura é da vagabundagem. Desde o malandro da Lapa dos anos 30. É bonito e bacana você ser vagabundo. Você viver na praia. Até quando se trabalha muito, isso não é visto como uma coisa boa, como o paulista. Exemplo: quando eu perco um fim de semana de sol enfurnada dentro de casa, no Rio, estudando, as pessoas acham que eu sou um alien. Aliás, meus amigos se dividem em dois grandes grupos: os que acham que eu não faço porra nenhuma da vida e os que acham que eu sou uma nerd/maluca/velha que passa o dia lendo. (Os dois estão certos e errados em alguma medida).
E, pontualidade...bom, isso vocês todos têm que concordar que nenhum carioca é pontual. Cara, isso me irrita muuuuito. Vocês não tem noção. A pessoa fica de te ligar as 5 da tarde e te liga as 7:45, dizendo que ficou enrolada. Fica de te encontrar e não vai, sequer dá satisfação, depois liga no dia seguinte e sequer se dá ao trabalho de dar uma desculpa elaborada. "Ah, mas eu tava ocupada!". Eu eu não, né amigo?! Eu não faço porra nenhuma da vida! Em qualquer encontro entre amigos no Rio se você não chega com pelo menos 15 minutos de atraso fica até feio. Parece que você tá ansioso pra ver a pessoa. Mesmo em reuniões de trabalho um atraso de quinze minutos é mais do que aceitável. Em aula, nem se fala. Aula que não começa com 30 minutos de atraso em federal e pelo menos 15 em particular não é aula. E festa? Se a pessoa marca pra 9, 9:30, isso quer dizer que você pode chegar a partir das 10, 10:30.
Alguns dos meus amigos aqui são um casal brasileiro de São Paulo (ele) e ela do Sul e ambos moram no Sul hoje em dia. Conversando sobre as diferenças que a gente vê entre a cultura daqui e a do Brasil - inúmeras - sempre quando chegamos no quesito horário, responsabilidade eles dizem "ah, não. Isso é porque você mora no Rio. Em SP e no Sul tb é assim".
Esse mesmo amigo estava procurando um livro chamado "O trabalhador carioca". Daí ele chegou numa livraria em SP e perguntou. O vendedor olhou pra ele, com a cara mais séria do mundo e disse: "é um livro de ficção científica, né? Só pode".
E isso é visto como qualidade. Os cariocas são descontraídos. São leves. São festeiros. O paulista é mala. Estressado. Trabalha muito. Cara...foda-se. Caguei. Não sou assim, não quero ser assim e vou parar de tentar ser. Morei 12 anos numa porra de uma cidade que não tem absolutamente nada a ver comigo, tenho alguns amigos lá, alguns cariocas, mas...tem uma hora que chega, né? Você fica se perguntando se vai passar a vida num lugar que não tem nada a ver com você, tentando se adaptar, gostando das coisas que não são exatamente a marca regristrada da cidade - museus, teatros, cinemas, livrarias, cafés, Centro do Rio...- e detestando as que todo mundo gosta - praia, samba e futebol. E pensando que há alguma coisa de errada com você, por querer trabalhar, por querer chegar no horário das coisas...se você é mala. É, talvez você seja mala. Assuma. Eu sou uma mala. Não quero ficar que nem uma tia minha, carioca, que morou grande parte da vida no interior de SP sempre reclamando e querendo voltar pro Rio - agora ela finalmente vai voltar.
Quando eu mudei pro Rio eu odiava a cidade. Depois de um tempo eu me acostumei, passei a gostar, em função de certas coisas que eu fazia (como o teatro). Cheguei a gostar até muito, baseado no tanto que eu detestava. Cheguei a achar que passaria a minha vida ali. Mas agora eu vejo que não. Outro mundo é possível. E Nova York é o anti-Rio. É mais parecida com Andrelândia do que com o Rio (ambas têm segurança, ambas têm bons programas de graça, ambas são muito frias e muito quentes, ambas não têm praia, ambas têm pessoas gentis e não mal educadas como no Rio...). Por isso esse sentimento anti-Rio tem crescido dentro de mim.
Esse meu amigo paulista diz que NY se parece muito com SP. Não sei se me adpataria em SP. Mega-engarrafamentos...mas quem sabe, se eu tivesse um bom emprego e morasse perto? Quem sabe...
Sei lá. Chega uma hora que chega, né? Não falam que todo mundo que vem pra NY sai de dentro do armário? Pois é. Saí do armário. Sou uma pessoa urbana, cinzenta, ranzinza, rabugenta e anti-Rio. Me estressei em Salvador! Vocês conhecem alguém que se estressa em Salvador? Eu! Tudo muuuuito lerdo. Muito demorado. Sim, os estrereótipos são verdadeiros, a princípio. Eu disse a princípio.
E as pessoas ainda dizem: "ah, mas a beleza do Rio o redime de qualquer problema". Redime só se for pra você, cara pálida. Pra mim não redime porra nenhuma. "Ah, mas não tem cidade mais bonita que o Rio". Bom, eu conheço pouca coisa, mas conheço algumas capitais e cidades da Europa e da América Latina e discordo veementemente.
Engraçado é que antes de eu vir pra cá eu já estava voltando pra Gotham - que também é uma cidade que eu não sei se quero morar pra sempre. E as pessoas me olhavam espanatadas, como se fosse uma derrota, um retrocesso, como se eu tivesse pondo tudo a perder - como se não fossem só duas horas entre as duas cidades e como se não fosse uma decisão que pudesse ser desfeita a qualquer momento (também porque eu estava "voltando pra casa dos pais" e, enfim...minha família é mala e as pessoas se metem nas vidas umas das outras o tempo todo e quando você é a caçula, mais ainda). Aí quando saiu essa bolsa as mesmas pessoas disseram "ufa, que alívio! Essa viagem vai te abrir os horizontes!". Com certeza me abriu. Me abriu pra pensar: Rio, se Deus quiser, nunca mais.
Mas meu destino depende dos concursos pra faculdades públicas. Onde tiver, eu tô indo. E aposto que agora só porque eu não quero vai ter um no Rio.
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Como diria algum escritor que não me recordo agora: "nada mais provinciano do que querer morar na Capital". Tenho longas considerações sobre esse embate Capital x Interior. Mas deixa pra depois. Porque no final das contas isso não faz a menor diferença. Mas você só sabe disso depois de morar nas duas.
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Essa outra garota com quem eu troco conversações tem um percurso profissional/acadêmico super curioso. Ela fez graduação em Literatura Hispânica e o objetivo dela é trabalhar com ONGs, terceiro setor na América Latina. Então, ela procurou um mestrado em Administração Pública e Literatura/Cultura Latina. Não achou - talvez porque não exista, né? - e resolveu fazer um mestrado só em administração. Aí eu perguntei pra ela de onde vem esse interesse pela cultural hispano-latina. E ela disse que fez uma viagem com 13 anos pra Espanha e isso abriu a cabeça dela. Que ela começou a achar a cultura dela extremamente chata e as festas na casa dos amigos sempre mais legais, a família mais legal, a cultura mais legal.
Em compensação ela chegou falando português bem melhor. Eu disse pra ela: "você andou estudando?" e ela: "sim". Ela é super ocupada, tem dois empregos + mestrado, tem a possibilidade de ir pro Brasil daqui um ano e mesmo assim encontra tempo de estudar um pouco todo dia. Eu estudo inglês desde os 13 anos de idade, sempre sem muito afinco, parando e voltando, e, mesmo antes de vir pra cá não estudei muito porque jurava que não ia conseguir a bolsa.
Engraçado demais esse olhar estrangeiro sobre a "nossa" cultura - latinos em geral. É, se for pensar sob o ponto de vista da minha família e amigos eu não trocaria a minha cultura por nada desse mundo. Mas eu gostaria de falar três línguas, como ela. Aí as pessoas vem com esse papo de "um meio termo entre as duas". Não dá, amiguinho. Não existe meio termo. Meio termo seria descaracterizar qualquer uma das duas culturas. O que ambas tem de bom são também seus defeitos. Aliás, cada vez mais acho que o que as pessoas têm de melhor são os seus defeitos.
Mas que eu fico chocada com o profissionalismo e o quanto eles são focados, isso eu fico. É algo que no Brasil seria visto como piada.
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É, tá foda. Tô repensando profundamente meus rumos aqui. Porque também não sei se eu viveria aqui pelo resto da vida. Complicado demais. NY é o máximo, mas assim como o resto dos EUA, é muito legal se você se insere no seu nicho. Se você é afro americano, aja como afro americano, lute pelos seus direitos, contra o racismo e tal. Se você é gay, se assuma, saia do armário e lute pelos seus direitos. As diferenças são super toleradas desde de que você esteja, de fato, em um grupo (ou vários). A mistura não é tolerada. "Gosto de hispânicos, mas meu filho não estudaria num colégio de hispânicos". "Não sou racista, mas os indianos fedem". Aqui há grupos de Gays, Lésbicas, Bissexuais e Transgêneros; Gays, Lésbicas, Bissexuais e Transgêneros Judeus; Gays, Lésbicas, Bissexuais e Transgêneros Afro Descendentes; Gays, Lésbicas, Bissexuais e Transgêneros Católicos e por aí vai.
Esses dias eu vi uns pré-adolescentes no metrô, todos eles latinos. Os meninos provocando as meninas e vice-versa (naquela idade em que você fica provocando, porque não sabe dizer que gosta. Bom, alguns permanecem nessa idade pra sempre). E eles se xingavam dizendo: "Você é da Bolívia?". E a menina fazia uma cara de "claro que não". Confesso que na hora do Brasil não entendi muito bem, porque o menino disse: "ah, nem vou perguntar se vc é do Brasil..." mas eu não ouvi o resto. Bom, fica pra pensar. Aqui ser latino é um xingamento. A não ser que você se assuma enquanto latino e fique no seu nicho. Nada de tentar entrar no círculo WASP.
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Vocês querem saber qual é o meu sonho, tipo o meu graaaaande sonho, mesmo? Posso falar só pra vocês? Vocês não contam pra ninguém? Fica só entre nós? Então cheguem aqui pertinho: meu sonho é ser uma graaaaaaaaande escritora, tipo o Rubem Fonseca, morar no meio do mato - em Santana do Garambéu, quem sabe - numa puta casa, com tuuuudo, com muitos cachorros e gatos, com muitos quartos pra receber pessoas, ter uma super rede wireless, uma super antena parabólica, e passar metade do ano entre Europa e EUA, dando conferências em universidades, cursinhos rápidos, e o resto do ano no Brasil, enfurnada na minha casa, sem ter que conviver com muita gente a não ser meus amigos, alguma família, sem precisar dar aula, sem aguentar alunos chatos, mal educados e burros de universidade particulares, nem folgados e arrogantes das federais, nem esse climinha de cadimia (não de ginástica). Não eu não quero melhorar meu país. Eu não quero contribuir. Eu não quero ser empreendedora - aliás, odeio essa palavra.


Eu quero ter uma banda de rock que nem o Stephen King: só por curtição. Minha banda seríamos eu,
Cósnis, Kadu, Cássio e mais quem quisesse.Tocaríamos Ramones, Nirvana, Pixies, Red Hot, Cachorro Grande, Mutantes... Eu ia cantar. E a gente ia se apresentar no Campestre Clube de Andrelância e na San Remo e em São Vicente e em Arantina e Bom Jardim, tb. Tomando cachaça. E eu faria performances teatrais.E leríamos poesias do Cósnis. E as pessoas viriam me ver, que nem elas vão ver o Woody Allen tocar clarineta. E as revistas me citariam como uma pessoa "estranha" e "excêntrica" avessa a badalações do meio literário, misantropa e esquisitona. E me achariam maluquinha. E eu seria muito cool. Sem precisar ir a grandes cidades. Com minha obra sendo adaptada para a TV e o cinema - ah é: poderia escrever alguns roteiros pro cinema e peças de teatro para minha amiga Ju Torres - ganhando muito dinheiro (igualzinho ao Rubem). Eu só iria as grandes cidades para as minhas estréias.


Eu criaria meu "paraíso artificial". Sem ópio. Com cachaça, amigos, literatura, rock and roll, antepassados (vivos e mortos) convivendo pacificamente entre bebês, muitas crianças pra eu conversar - ah é, eu também teria filhos nesse meu sonho - muitos livros. Mais ou menos a idéia do Paul Auster em "Desvarios no Brooklyn", quando ele compara Edgar Allan Poe e Henry David Thoureau e fala em juntar todas as pessoas que ele ama em uma só casa e viver isolados, já que o Bush acabou de ganhar as eleições.



Enfim, mas é só um sonho. Só um delírio. Mas já que é pra delirar, que seja completo o delírio.

terça-feira, setembro 16, 2008

Cidade maluca

Deve ter caído uns 15 graus de antes de ontem pra hoje.
***
Quase perdi meu celular - quer dizer, perdi - mas a menina da academia guardou pra mim. Isso que dá fazer as coisas quando o corpo não aguenta mais. Se fosse no Rio a menina da academia teria um canal com o flanelinha, que seria "avião" e receptador de mercadoria roubada, meu celular já teria passado pelo Complexo do Alemão, comandado três invasões, feito dois sequestros-extorsão por telefone, entrado em algum presídio de segurança máxima, teria sido julgado por um tribunal do tráfico e estaria desovado a essa hora, coitado, numa vala, num lixão qualquer, com o visor arrebentado, apesar dele ter implorado "na cara não, que é pra não estragar o velório!".
Pior: o celular é da Raquel! Que me emprestou 3 celulares pra eu ver qual tava funcionando! Óooobvio que eu daria outro pra ela. Pior: é um smart phone, com altas frescurinhas. Pior ainda já é mais antigo, então não deve ter no mercado, daí eu teria que dar um melhor. Pior de tudo: ela ia dizer "ah, deixa isso pra lá, eu ia dar pras mulheres espancadas, mesmo!" (aqui tem um serviço onde você pode doar seu celular sem serventia para um serviço de proteção a mulheres que sofrem abuso dentro de casa. O cel não serve pra vc, mas ele ainda faz 911. O que pra elas adianta muito). Além disso, a Raquel tem um mega blaster I-phone e um Blacberry, então ela não ia fazer questão. Mas eu ia. Eu ia morrer de vergonha!!! Imagina, a pessoa - que já fez aaaaltos favores pra vc - te empresta 3 celulares e vc perde um! Não é nem roubada, perde! Nossa, Cérebro já tava me comendo viva, enquanto Pink dava de ombros enquanto comia jujubas verdes. Já tava arquitetando que eu depositaria o dinheiro na conta dela no Brasil, mesmo ela não concordando - mas aí já estaria lá, ela não ia devolver - quando finalmente achei. Ufa.
Mas fiz uma promessa pra Toninho que, se eu achasse, não comeria chocolate o resto da minha estada aqui. Pois é. Dieta eu não cumpro, não, mas promessa tem que cumprir, se não o santo castiga - e vamos combinar que Toninho já anda me castigando: não me dá o Santoro, nem nenhum genérico, nem mesmo um modelo similar, ainda que avariado, de modos, que...vamos trabalhar, né, Toninho...você fez a sua parte e eu faço a minha.
É, eu sei. Eu sou maluca. Eu sei.Ninguém precisa me dizer isso. Mas é assim que eu sobrevivo. Com minhas maluquicezinhas e meus pensamentos mágicos. Tem dado certo até hoje. Ou quase.

segunda-feira, setembro 15, 2008

Depressão, depressão...

Vocês não tem loooooção do calor que fez hoje nessa cidade. Alô, inverno! Cadê você? Eu vim aqui só pra te ver! Eu fiquei que nem essas senhoras de Copacabana: com uma sombrinha aberta. Não dá! Litros de protetor solar. Quando vai fazer frio nessa cidade? Quando? Até dá um tréguazinha, mas nada que dure mais de 2 dias.
A feira de livros foi super legal. Não comprei nada, mas tinham ótimas ofertas. Assisti a uma mesa sobre crime e literatura, com um cara do México e outro de Istambul. Até anotei os nomes pra comprar os livros deles: Paco I. Taibo II (que porra de nome é esse?) e Mustafa Ziyalan. Isso porque esse último entrou na última hora. No lugar dele ia um boliviano.
E assisti também a mesa do Agualusa com um cara que eu não conhecia, mas gostei muuutcho (em vários sentiudos, if you know what I mean): José Luis Peixoto. O cara tem 34 anos, tá no quarto livro e já foi traduzido pra sei lá quantos países. Ele é de uma cidadezinha de mil habitantes em Portugal. Ai, ai...depressão, depressão...A mesa se chamava "The new wave of Portuguese literature: from Luanda to Lisbon". Vários brasileiros na platéia, inclusive aquela atriz/cantora Talma de Freitas. Parece que o Agualusa escreveu umas músicas pra ela.
Eu nunca fui a FLIP, mas me parece um evento mega blaster maior que a FLIP. E um evento "de bairro". Depressão total.
Dos 40 escritores confirmados eu só conhecia 2: o Agualusa e o Pico Iyer (que eu perdi a mesa, pois era de manhã e eu não sabia). Depressão, depressão...minha ignorância é maior do que eu supunha. E pior: eu estudo literatura! Bom, também tinham muitos escritores iniciantes e "alternativos".
Ah! Também não consegui entrar na conferência da mulher que escreve "The L word", numa mesa sobre adaptações para TV.
E mais: tudo de graça!
Depressão...
Mas não vi o Paul Auster, tá Bárbara?!! Acho que o nome dele fica só dando apoio, lá. Ele não participou de nenhuma mesa.
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Depois atravressei a ponte do Brooklyn a pé. E lembrei dos milhares de filmes e seriados etc que tem a ponte como cenário. Lembrei do final de Sex and the city, o filme, quando a Miranda vai até a metade da ponte do Brooklyn e o Steve vai até a outra metade. Me senti mais um pouquinho em NY.
Depois fui assistir "Vicky Cristina Barcelona". Sem comentários. Excelente!! Dá vontade de ir a Barcelona. Quer dizer, eu já fui, mas só fiquei um dia e uma noite. Mas só essa ida me deu a impressão de que a cidade é muito foda. Muito mais foda que Madrid. E o filme faz você querer ir correndo pra lá. E tem o Javier Bardem, né? Ai, ai...e a Penélope Cruz. E se isso não é bastante pra você, tem a Scarlet Johansen e mais uma moça linda que eu não conhecia e ótima atriz. De querer dar um tiro no ouvido de tão bom - ahahahaha...não sei porque me veio essa figura hiperbólica agora, mas veio. Eu entro em depressão quando vejo coisas/pessoas/lugares muito legais. Eu sou sempre impreganada pelo sentimento oposto. Penso em alegria quando vejo coisas tristes...enfim. Penso sempre no oposto e em como a vida é breve e aquele sentimento que eu estou sentindo logo irá embora.
E tem todas aquelas construções do Gaudi, lindas de morrer.
Vocês sabiam que o ex da Alanis Morissete trocou-a pela Scarlet Johansen? Caaaara!. Eu não sei o que é pior: você ser trocada por uma mulher muito mais bonita que você ou uma muito mais feia. Tá, é melhor pela mais feia, mas pela mais feia não te dá uma sensação de "puta que o pariu! Será que eu também sou feia assim e não sei?" ou então: "nossa, isso deve ser realmente amor! Pra aturar esse jaburu!". Em compensação uma mais bonita te dá um certo alívio, né? Tipo, "ah, cara! É a Scarlet Johansen! Quem tem chances com a Scarlet Johansen na parada?".
É eu sei, não faz muito sentido, mas na minha cabeça faz.
Eu já amava o Javier Bardem há muito tempo. Muito antes dele ficar "famosão" como eles está. Desde "Carne Trêmula", do Almodóvar. Aliás, esse filme do Woody Allen é quase um Almodóvar. Aliás, o meu "dream team" é só de latinos: Javier Bardem, Gael Garcia Bernal, Benício del Toro (sim eu amooooo o Benício del Toro, acho ele liiiindo de morrer! Quanto mais destruído ele está, mais eu gosto) e Rodriiiiigo - claro!
A única coisa que eu não tô gostando é dessa vibe que o Woody Allen anda de "ninguém foge a sua natureza". Desde Match Point que ele tá nessa. Antes de vir pra cá vi um filme dele no Brasil que também era mais ou menos sobre isso - com aquele menino do Transpotting, sobre dois irmãos que matam um cara pro tio...ô, esclerose precoce! Será que é idade que tá fazendo ele pensar nisso? Enfim. Mas é Woody Allen. E dos bons. E só vai chegar no Brasil daqui uns 5 anos.
Mas eu ainda prefiro os fimes em que ele aparece e são rodados em NY. Mas qualquer Woody Allen é melhor do que nada. Bom, e esse filme é dos grandes, não é só porque é Woody Allen.
E tá saindo o novo do Spike Lee. Parece ser muito bom. Se chama algo como "O milagre de Santa Ana".
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Essa semana tem evento sobre Machado de Assis e amanhã minha orientadora fala. Quarta tem outras coisas, quinta tem aquele cineasta brasileiro que eu detesto e várias pessoas desse blog adoram (passando os filminhos dele nada a ver, e mais uns sobre Machado - nem sabia que ele tinha filme sobre Machado) e sexta tem um boca livre num tal Centro Cultural Brasil.
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É isso. Vou dormir.

sábado, setembro 13, 2008


Ontem eu entro pra almoçar em uma Deli, monto minha salada, sento na mesinha e começo a ouvir um ronco. Um rouco muito forte. Tipo um motor. Olho pro lado e, no balcão, está um negão de todo tamanho – de gordo – dormindo sentado, naqueles banquinhos. Como o cara conseguiu isso eu não sei. E o que é pior: o beiço dele tava caído e juntando uma baba. Uma cena tosca.

Sentei na mesa ao lado e comecei a comer. Contanto que ele não caísse em cima de mim, nem começasse a juntar moscas, beleza. Só que as pessoas começaram a olhar. E a se olharem. E a rirem. Tinha uma lourinha com um laptop no mesmo balcão que ele. Na ponta, mas no mesmo balcão. Ela se levantou e foi pro outro balcão. Ainda assim estava ouvindo o ronco do cara. Aí levantou e ficou meio com cara de “pra onde eu vou”. Ofereci pra ela sentar na minha mesa. Ela sentou. Ficou uns 5 minutos e disse “eu não vou conseguir me concentrar aqui!” e foi embora. Daqui a pouco entra outra. E olhou aquela cena bizarra. E olhou pra mim. E disse: “meu Deus, coitada de você, que está aí comendo!” (e ainda dizem que o novaiorquino não é solidário!). Pensei em responder que eu era punk, que de onde eu vinha tinha coisa muito pior que isso, que eu morava no Rio e tinha sido criada em Gotham City, que eu era feita de aço, mas ela não ia entender nada disso. Apenas sorri e ela continuou espantada. Na minha frente um indiano comia seu sanduíche e sorriu discretamente, como se estivesse entendendo - talvez por ser de um país subdesenvolvido, talvez?

Depois de muito, muito tempo o cara acordou. Continuou lá sentado. Acho que deve ter pegado no sono de novo, mas aí eu já estava longe.

Que cena bizarra.


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Ontem saí da biblioteca onze da noite. O andar que eu fico permanece aberto até uma da manhã. Em época de prova, às 3. Os andares mais baixos são 24 horas o semestre todo. Um pouco antes das onze e ainda tinha gente. Sexta feira. À noite.

Vou para a plataforma de metrô, espero uns 40 minutos, quase, e nada dos meus trens virem. Começam uns “pingaiada” a puxar conversa... ai meu caralho. Comecei a achar que podia ter acontecido alguma mudança, porque o metrô aqui é muito confiável durante a semana, mas chega no final de semana...ele sai pra beber com os amigos, vai ao futebol e esquece da vida. Ficam todos loucos. As linhas se invertem, eles desistem de ir até o ponto final...às vezes eles botam um aviso com antecedência na plataforma, ou nos jornais ou na TV, mas há também a possibilidade do trem mudar de idéia no meio do caminho. Tipo quando eu fui pro churrasco no Brooklyn semana passada. Se não fosse eu ter combinado com meus amigos brasileiros na plataforma e eles me avisarem que teríamos que pegar um trem diferente eu estaria lá até hoje esperando o trem. Porque “ninguém me avisaram” que a linha que eu ia pegar não estava passando lá.

Bom, resolvo perguntar a mulher do guichê o que estava acontecendo. Antes pergunto para uma garota, mas que acho que estava bêbada e não dando muita notícia do que acontecia. Perguntou de onde eu era – ah, Brazil! – e disse que às vezes saía aqui no Queens. Pois bem. Pergunto à mulher do guichê e ela me diz que eu devo pegar um outro trem e fazer a baldeação na estação seguinte. Então tá. Assim que volto para a plataforma passa o trem que eu estava inicialmente esperando. Ou seja: nem a mulher do guichê sabia direito.

Quase meia noite e o metrô lotado. Na minha frente, uma menina com a pior cara do mundo, lendo um texto e grifando as partes importantes com marca texto. Em pé. Eu fico boba de ver como as pessoas fazem tudo no metrô: almoçam, jantam, lêem, se maquiam...e maquiam meeesmo. Não é só batom, não. Passa sombra, delineador, tudo. Com o trem em movimento.

Lá pelas tantas eu noto uma aglomeraçãozinha em volta de alguém. Uma pessoa caiu no chão. Na hora pensei na menina bebum, mas não era ela. Era um cara. Imediatamente as pessoas colocam ele na posição correta (no Brasil já teriam colocado ele em todas as posições, botado sal debaixo da língua, dito “é pressão! Fulana, dá o resto do biscoito aqui!”) e uma pessoa começa a gritar: “há algum paramédico?”. Hein? “Há algum médico”. Cuma? “Enfermeira?”. Cara, me senti em um episódio de Grey’s Anatomy. Aquele em que o Dr Burke e a japinha vão jantar fora e está tudo um tédio até que um cara tem um enfarte e eles precisam socorrê-lo. E a menina na minha frente dando esporro em todo mundo que tentava chegar pra frente pra olhar. “Não tem anda pra ser visto”. Meda. Não tinha nenhum médico, mas rapidamente apareceu uma funcionária do metrô que surgiu do nada e fez alguma coisa com ele (não vi) e ele levantou. Como se nada tivesse acontecido. Acho que o cara teve um sono e resolveu dar uma deitada. Que nem o negão da deli. Só pode.

Na estação seguinte ficamos parados um tempão na estação. Veio um funcionário, perguntou se o cara estava bem. Beleza. Vamos embora.

Quando chegamos finalmente ao Queens, no primeiro ponto, a maquinista (motorista, sei lá) anuncia que o trem iria expresso até o ponto final. Quer dizer, ele não pararia em nenhum ponto a não ser no final. Geral sai do trem reclamando – e eu junto. Meia noite, chuvinha fininha – o novaiorquino sofre, coitado – e a gente ali esperando pelo próximo trem. A sorte é que veio rápido.

Mas veja que coisa louca: você está num trem que passa por um caminho e ele resolve, no meio da história, mudar de caminho. E avisam pelo alto falante, naquela voz super rápida, que você mal entende. Bom, né?

Conclusão: não é uma boa ficar até muito tarde na biblioteca às sextas feiras.

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El Greca está sumida há dois dias. Isso porque a gente tinha combinado de ir ao mosteiro amanhã. É sempre assim: ela combina uma coisa e nunca faz. Tudo bem. Já não tava afim de ir mesmo. Amanhã vou com meus amigos brasileiros almoçar em Little Índia. E também tem o Brooklyn Book Festival. No qual o Paul Auster é um dos organizadores – morra de inveja, Bárbara! Ai, ai. Muito chato, né?