sábado, setembro 13, 2008


Ontem eu entro pra almoçar em uma Deli, monto minha salada, sento na mesinha e começo a ouvir um ronco. Um rouco muito forte. Tipo um motor. Olho pro lado e, no balcão, está um negão de todo tamanho – de gordo – dormindo sentado, naqueles banquinhos. Como o cara conseguiu isso eu não sei. E o que é pior: o beiço dele tava caído e juntando uma baba. Uma cena tosca.

Sentei na mesa ao lado e comecei a comer. Contanto que ele não caísse em cima de mim, nem começasse a juntar moscas, beleza. Só que as pessoas começaram a olhar. E a se olharem. E a rirem. Tinha uma lourinha com um laptop no mesmo balcão que ele. Na ponta, mas no mesmo balcão. Ela se levantou e foi pro outro balcão. Ainda assim estava ouvindo o ronco do cara. Aí levantou e ficou meio com cara de “pra onde eu vou”. Ofereci pra ela sentar na minha mesa. Ela sentou. Ficou uns 5 minutos e disse “eu não vou conseguir me concentrar aqui!” e foi embora. Daqui a pouco entra outra. E olhou aquela cena bizarra. E olhou pra mim. E disse: “meu Deus, coitada de você, que está aí comendo!” (e ainda dizem que o novaiorquino não é solidário!). Pensei em responder que eu era punk, que de onde eu vinha tinha coisa muito pior que isso, que eu morava no Rio e tinha sido criada em Gotham City, que eu era feita de aço, mas ela não ia entender nada disso. Apenas sorri e ela continuou espantada. Na minha frente um indiano comia seu sanduíche e sorriu discretamente, como se estivesse entendendo - talvez por ser de um país subdesenvolvido, talvez?

Depois de muito, muito tempo o cara acordou. Continuou lá sentado. Acho que deve ter pegado no sono de novo, mas aí eu já estava longe.

Que cena bizarra.


***


Ontem saí da biblioteca onze da noite. O andar que eu fico permanece aberto até uma da manhã. Em época de prova, às 3. Os andares mais baixos são 24 horas o semestre todo. Um pouco antes das onze e ainda tinha gente. Sexta feira. À noite.

Vou para a plataforma de metrô, espero uns 40 minutos, quase, e nada dos meus trens virem. Começam uns “pingaiada” a puxar conversa... ai meu caralho. Comecei a achar que podia ter acontecido alguma mudança, porque o metrô aqui é muito confiável durante a semana, mas chega no final de semana...ele sai pra beber com os amigos, vai ao futebol e esquece da vida. Ficam todos loucos. As linhas se invertem, eles desistem de ir até o ponto final...às vezes eles botam um aviso com antecedência na plataforma, ou nos jornais ou na TV, mas há também a possibilidade do trem mudar de idéia no meio do caminho. Tipo quando eu fui pro churrasco no Brooklyn semana passada. Se não fosse eu ter combinado com meus amigos brasileiros na plataforma e eles me avisarem que teríamos que pegar um trem diferente eu estaria lá até hoje esperando o trem. Porque “ninguém me avisaram” que a linha que eu ia pegar não estava passando lá.

Bom, resolvo perguntar a mulher do guichê o que estava acontecendo. Antes pergunto para uma garota, mas que acho que estava bêbada e não dando muita notícia do que acontecia. Perguntou de onde eu era – ah, Brazil! – e disse que às vezes saía aqui no Queens. Pois bem. Pergunto à mulher do guichê e ela me diz que eu devo pegar um outro trem e fazer a baldeação na estação seguinte. Então tá. Assim que volto para a plataforma passa o trem que eu estava inicialmente esperando. Ou seja: nem a mulher do guichê sabia direito.

Quase meia noite e o metrô lotado. Na minha frente, uma menina com a pior cara do mundo, lendo um texto e grifando as partes importantes com marca texto. Em pé. Eu fico boba de ver como as pessoas fazem tudo no metrô: almoçam, jantam, lêem, se maquiam...e maquiam meeesmo. Não é só batom, não. Passa sombra, delineador, tudo. Com o trem em movimento.

Lá pelas tantas eu noto uma aglomeraçãozinha em volta de alguém. Uma pessoa caiu no chão. Na hora pensei na menina bebum, mas não era ela. Era um cara. Imediatamente as pessoas colocam ele na posição correta (no Brasil já teriam colocado ele em todas as posições, botado sal debaixo da língua, dito “é pressão! Fulana, dá o resto do biscoito aqui!”) e uma pessoa começa a gritar: “há algum paramédico?”. Hein? “Há algum médico”. Cuma? “Enfermeira?”. Cara, me senti em um episódio de Grey’s Anatomy. Aquele em que o Dr Burke e a japinha vão jantar fora e está tudo um tédio até que um cara tem um enfarte e eles precisam socorrê-lo. E a menina na minha frente dando esporro em todo mundo que tentava chegar pra frente pra olhar. “Não tem anda pra ser visto”. Meda. Não tinha nenhum médico, mas rapidamente apareceu uma funcionária do metrô que surgiu do nada e fez alguma coisa com ele (não vi) e ele levantou. Como se nada tivesse acontecido. Acho que o cara teve um sono e resolveu dar uma deitada. Que nem o negão da deli. Só pode.

Na estação seguinte ficamos parados um tempão na estação. Veio um funcionário, perguntou se o cara estava bem. Beleza. Vamos embora.

Quando chegamos finalmente ao Queens, no primeiro ponto, a maquinista (motorista, sei lá) anuncia que o trem iria expresso até o ponto final. Quer dizer, ele não pararia em nenhum ponto a não ser no final. Geral sai do trem reclamando – e eu junto. Meia noite, chuvinha fininha – o novaiorquino sofre, coitado – e a gente ali esperando pelo próximo trem. A sorte é que veio rápido.

Mas veja que coisa louca: você está num trem que passa por um caminho e ele resolve, no meio da história, mudar de caminho. E avisam pelo alto falante, naquela voz super rápida, que você mal entende. Bom, né?

Conclusão: não é uma boa ficar até muito tarde na biblioteca às sextas feiras.

***

El Greca está sumida há dois dias. Isso porque a gente tinha combinado de ir ao mosteiro amanhã. É sempre assim: ela combina uma coisa e nunca faz. Tudo bem. Já não tava afim de ir mesmo. Amanhã vou com meus amigos brasileiros almoçar em Little Índia. E também tem o Brooklyn Book Festival. No qual o Paul Auster é um dos organizadores – morra de inveja, Bárbara! Ai, ai. Muito chato, né?

5 comentários:

Bárbara disse...

fui lá no site do festival. sem graça... organizado pelo paul auster?? e daí??? muito chato seu domingo. nem tô com inveja... nem tô feliz por você... rs rs rs
aproveita muito e conta depois como foi, please!
bjs

Carrie, a Estranha disse...

Rsrsrs...se serve de consolo, ele não estava lá!

Bjs

Anônimo disse...

Acho corajoso da sua parte peitar o metro sozinha. Eu confesso que teria um pouco de medo. O metro de Londres eh muito mais organizado. Acho que ainda vai levar umas semanas para eu ter coragem de pegar o metro a noite, sozinha. Fui muito mimada pelos outros lugares onde morei.

Uma vez eu estava numa conferencia e um cara ao meu lado desmaiou do mesmo jeito. Tinha caido no sono tambem. Foi bater com a cara no chao. Nunca tinha visto essas coisas no Brasil. E eh dificil resistir a ideia do sal e do biscoito, hehehe. Isso me lembrou um episodio de Seinfeld, em que a Elaine namora um coroa e ele desmaia na casa de alguem. Claro que eles resolvem enfiar um biscoito na boca do cara, e claro que os paramedicos ficam furiosos quando percebem...

Voce tem razao. O nova-iorquino aguenta muita coisa. Outro dia fui a um mercado em Brooklyn, e metade do mercado era, na verdade, um frigorifico. a pessoa tinha que fazer as compras no maior friozao. pensa que reclamavam? Nada...

Natalia/NY

a que deseja disse...

Aqui em SP o metrô de vez em quando também resolve mudar de roteiro no meio do caminho. Em geral é porque alguma estação está muito lotada, então eles resolvem esvaziar o trem e mandá-lo direto pra lá.

Quando é o trem que você está não é nada legal, mas quando vc está na estação apinhada e aparece um trem vazio...ô maravilha...

Ah, e aqui as pessoas também se maquiam no metrô. Maquiar mesmo, com delineador e tudo.

Tem ainda as que trocam os tênis por sapatos e vice-versa. Afinal, mulher que trabalha de salto sofre e não merece fazer a ida e volta do trabalho com os pés desconfortáveis, rs.

Beijo!

Carrie, a Estranha disse...

A que deseja,

É, acho q NY tem um quê de SP (ou vice versa).

Natália,

Eu fiquei confusa em Londres. Confesso q só fiquei 3 dias, então não tive tempo de me acostumar. Mas to achando fácil aqui. Tem essas merdas de vez em qdo, mas me sinto confortável.

Bjs