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terça-feira, março 18, 2008

Trauma de infância

Eu sempre tive dificuldades em namorar. Acredito que namorar seja prática. Um aprendizado que você deve começar bem cedo e, de preferência, com alguém que não goste, que é pra praticar sem medo de errar. Desde muito cedo eu nunca consegui namorar os caras que eu gostava. Se um dia eu tiver uma filha esse será meu primeiro conselho: namore desde cedo e transe pela primeira vez de preferência com alguém que você não goste. Um cara legalzinho, mas que você não goste.

Na sexta série eu gostava de um menino chamado Itamar (Marcele, sua irmã conhece essa história). Quer dizer, só depois eu vi que eu gostava dele. Na época eu não sabia. Daí, em uma excursão pra Petrópolis ou São Paulo ou sei lá onde, Itamar me deu um beijo. No ônibus. Não, não foi o primeiro. E me pediu em namoro. E eu tive um nervoso e uma vontade de sair correndo que eu não sei explicar. Tipo: eu não ia namorar um menino que chamava Itamar, né? E, ainda por cima, não era o modelo clássico de beleza (diga-se de passagem nem eu). Pra piorar a situação: depois do ocorrido eu descobri que uma amiga minha era afim dele. E, adolescentes lesadas que éramos, vai eu, depois de dar um fora no moleque, tentar fazê-lo ficar com essa minha amiga. Claro que ele me odiou o resto do período escolar. Mas o Itamar foi o acontecimento fundador traumático na minha vida emocional. E, de certa forma, ele se repetiu em muitos outros (na verdade já tinha acontecido antes com o menino em quem eu dei meu primeiro beijo e que era lindo e quis ficar comigo nos dias seguintes e eu simplesmente não consegui, mesmo tendo gostado).

Eu achava que namorar era uma coisa muito séria. Porque eu era uma criança/adolescente muito séria. Eu não achava certo namorar alguém sem estar absolutamente apaixonada (talvez isso esclareça alguns pontos para algumas pessoas que lêem este blog). Não bastava o cara ser gente boa, meu amigo e coisa e tal. Eu tinha que ser arrebatada pelo sentimento da paixão. E, quando o sentimento vinha, eu tinha mania de duvidar dele. Logo, nunca consegui manter um relacionamento durante a adolescência e início da fase adulta. E até hoje é muito difícil.

Eu sempre gostei dos meninos feios e engraçados-inteligentes. Eu sempre tive medo de gente bonita. Até hoje. Se eu estou do lado de alguém excessivamente bonito – homem ou mulher – eu não consigo me concentrar direito e fico sempre meio sem graça. Só que eu também sempre tive vergonha dos meninos feios e engraçados-inteligentes. E era nesse sentimento de atração e repulsa que meu afeto era formado.

O tempo passou. Aí quando eu comecei a querer namorar os caras feios e engraçados-inteligentes as coisas ficaram muito difíceis. Porque eu não sabia namorar. É sério. Eu não sabia como acontecia. Eu só sabia ficar. Ou ser apaixonada durante anos por caras que iam e vinham.

Depois de muito tempo eu finalmente me rendi a essa arte do namoro. Mas só porque meu então namorado insistiu muito. Não se trata de cu doce. Trata-se do fato de que eu acho que eu já sou mulher. Menstruo. Period. Menstruo, logo sofro. Não tem o menor cabimento ainda ficar me esforçando pra namorar alguém. Cortejando, chamando pra sair. Os homens é que se esforcem. A vida já é muito dura para nós, mulheres. Homens são geneticamente adaptados para tomar tocos. Não que eu nunca tenha corrido atrás. Já corri muito, já me humilhei de todas as formas possíveis e imagináveis; já fui sutil, clara, direta, indireta....Chega.

Isso me faz crer que eu nunca mais na vida vou namorar ninguém. Sim, há os eventuais e esporádicos, quando a situação vai ficando crítica (como diria um amigo meu, o famoso P.A.: pau amigo). Mas se depender de mim pra voltar a namorar...acho que morro encalhada. Por mais que eu tenha amadurecido, melhorado, as coisas pra mim ainda são muito preto e branco. Ou é isso ou não é. Ou gosta ou não gosta. Nesse sentido, não tenho paciência pra deixar as coisas acontecerem – e quando eu deixo elas dão errado, me fazendo crer que eu deveria ter parado no primeiro momento em que eu senti que não era a coisa certa.

Me impressiona muito que certas pessoas emendem um namoro no outro. Eu tenha inveja desse tipo de gente. Eu queria ser um pouquinho assim. Eu acho uma capacidade – de sei lá o quê – que eu não consigo sequer imaginar comigo.

Eu perdi o bonde do namoro. Ele passou, eu achei que dava pra ir à pé. Quando quis pegar, tava cheio.

Ai, ai...dureza a vida.