quinta-feira, maio 08, 2008

O travesso


Essa noite eu perdi o sono. E não o encontrei mais. Nas voltas que o pensamento dá nessas horas – e ele é capaz de caminhos incríveis nesses momentos – eu me lembrei de que hoje é o aniversário de uma pessoa muito especial. Um amigo. Confesso-lhes de que só me lembrei porque estive com ele no final de semana (durante anos eu anotava o seu aniversário na minha agenda até que, de uns anos pra cá, achei que havíamos perdido o contato e abandonei o hábito).

Pegando pelo fio do tempo – que às vezes está mais pra durex cuja ponta ninguém dobrou e sumiu junto ao emaranhado e você fica rodando e rodando, cega em meio ao círculo – consigo chegar até o momento em que o vi pela primeira vez (sim, eu consigo me lembrar o instante exato em que conheci a maioria dos meus amigos e amigas que me acompanham desde sempre. As impressões que tive ao vê-los. O sentimento. O que eu estava fazendo) e me espanto ao ver que o tempo pode ser medido em décadas (sim, no plural, o que é bastante para uma pessoa de 31 anos. Eu acho). Posso dizer que o conheço há mais de meia vida. Mas a nossa amizade solidificou-se na adolescência. Mesmo com quase cinco anos de idade nos separando.

A vida não se faz em linha reta e o sentimento de lineariedade é apenas uma ilusão, como diria Bourdieu. Por isso me lembro de pontos em nossa trajetória que ora esteve mais próxima, ora mais distante. Pontos de luz que pipocaram nessa madrugada. Houve um tempo em que a minha casa era um misto de biblioteca, hotel, bar e restaurante para ele.

Não, não. Mas eu me precipito e adianto os fatos.

Antes, muito antes, eu me lembro de umas férias de dezembro/janeiro, quando minha vida era uma eterna Sessão da Tarde (uma turma do barulho aprontando mil e uma confusões!!!) de uma certa casa. A casa era do irmão dele que, tendo saído de férias, resolveu, numas de irmão-mais-velho-gente-boa, deixar a casa na mão do mais novo – no caso, o meu amigo. Só que era uma casa de família. Com quartos de criança, cheio de brinquedos e cozinha. Aquário. Na mão de adolescentes ou pessoas de vinte e poucos anos.

Ao final da temporada tinham vomitado no aquário, matando os peixinhos, quebrado vidros de tempero da cozinha, levado os bonecos pra passear na boate da cidade - o boneco (Marvin? Melvin? Não me lembro o nome) transformou-se em uma entidade à parte, que bebia cachaça, fumava, dava palpites e tinha opiniões próprias sobre os mais variados assuntos). Em certos momentos o meu amigo parava de falar e só quem respondia por ele era Marvin – ou seja lá como ele se chamava. Marvin não quer ir pra Vênus (não o planeta, a boate que eu freqüentava na adolescência). Marvin quer ir pra casa. Marvin quer ver o sol nascer. Marvin vai vomitar.

Nessas mesmas férias a Globo exibia uns concertos de Natal. Um desses era o Oratório de Natal de Bach. O programa, muito apreciado por nós, jovens sedentos de cultura, passou a ser o grande hit da casa. Os meninos resolviam produzir seus próprios oratórios, só que com panelas e outros instrumentos de percussão, em horários avançados, o que muito comprazia os vizinhos.

Sempre dividi com esse meu amigo gostos literários, musicais e cinematográficos. Ah é! Como esquecer da sua fase poeta? Tenho até algumas dessas poesias guardadas, com as quais quem sabe eu ainda ganhe algum dinheiro (nem que seja ameaçando mostrá-las ao público). Lembro-me da fase The Doors (deu trabalho essa fase). Lembro-me de que era ele quem estava gravando o show do Guns N’Roses, no Rock in Rio II, onde eu apareci na Globo, nas costas do meu irmão, cantando knock, knock, knock, knocking on heavens door depois de ter quase entrado em coma alcoólico durante o show do Megadeth e Queesnryche inteiros, além de achar que eu era o Axel Rose – e contar isso animadamente pra meio Maracanã, achando que as pessoas mereciam ouvir esse segredo (como diria Primo Poeta: Ah, meus quinze anos!!). Ele e uns amigos foram os primeiros a me ver (também tive uma passagem meteórica pela Veja, ao lado do Itamar Franco em Juiz de Fora, quando ele era presidente, junto à minha amiga Carla. As duas “lesas” resolveram seguir o Itamar em plena JF. Ainda bem que adolescência é uma doença que cura com o tempo, né? Voltemos).

Ele foi aluno do meu pai – meu amigo, não o Itamar – na faculdade de medicina. Aliás, eu devo a ele o apelido de Gotham City à minha terra natal. Roubei a idéia dele. Quando ele veio estudar aqui ele dizia que o céu era rosa (devido à poluição) que nem o de Gotham City – e também abóbora e cinza e até (pasmem!) azul. Assim como o meu, o pai dele também era médico, também já faleceu e ele também é o caçula de uma família de muitos irmãos. Assim como o meu pai, ele é, acima de tudo, um humanista. Poderia perfeitamente ter se dedicado às Letras, à Filosofia, à História ou às Artes. Ele faz parte de uma extirpe de médicos cada vez mais rara. Médicos que vêem as pessoas e não os pacientes. Médicos que acreditam que é preciso estudar e se interessar por outras coisas que não só a medicina.

Mas ele também é técnico em eletrônica (ou eletricidade, ou essas coisas que se faz em curso técnico e que eu não tenho a menor idéia) e tinha uma promissora carreira nisso quando resolveu ser médico. Na verdade ele poderia ser qualquer coisa que quisesse. Talento e inteligência ele tem de sobra.

Na época da faculdade (a dele, eu ainda estava no segundo grau) a república onde ele morava ficava ao lado de um clube onde sempre aconteciam os melhores shows. O aquecimento era sempre ali.

Churrascos na minha casa de Gotham City, férias e feriados em Pasárgada, nossa vida foi sempre entrelaçada em função de acasos, idas e vindas. Qual não foi a minha surpresa ao saber que ele lia o meu blog.

Em uma tola época da minha existência, onde eu acreditava que a amizade poderia ser mensurável - e que datas e outras formalidades faziam parte disso – eu achei que nossa amizade havia terminado. E fiquei puta quando ele não me chamou pro seu casamento (uma cerimônia civil, sem festa, em um dia de semana, em uma cidade longe da minha, pra qual ele tinha chamado meia dúzia de pessoas e onde eu não poderia ir!!!). A mulher dele, se não fosse tão gente boa, teria me odiado ao se deparar com a minha sutil repreendida na ocasião em que nos conhecemos (parênteses: alguns amigos meus se casaram com verdadeiras malas. Não este. Ele nunca se casaria com uma mala. Acho pouco provável). Já gosto dela por tabela e espero ter a chance de conhecê-la melhor.

Ah, como eu sou feliz e rica em amigos e família! Vocês não fazem idéia. Eles são a minha rede de proteção. Aquilo que me sustenta e me dá coragem de tentar ser feliz do jeito que for, já que eles sempre vão me apoiar. Os que importam, pelo menos. E tudo que eu sou, ainda que pela negação, é parte de todos eles.

E nessa noite insone, enquanto escrevia esse texto (correndo o risco de ser melosa), os primeiros raios de sol chegaram pra me lembrar que as amizades podem até passar por longas madrugadas frias e insones, mas sempre há a esperança de um nascer do sol ao final. O que não impede que as trevas retornem. Mas, afinal, não é como tudo na vida? Quem de nós está a salvo das trevas?

Parabéns, Denis. O pimentinha. O peralta. Parte de quem eu me tornei foi fundida e moldada nos anos em que passamos juntos. Desejo muitos raiares de sóis para nossa amizade.


PS1: Espero que o seu computador esteja bom de novo e você leia esse texto logo.
PS2: Ele é botafoguense. Ninguém é perfeito.

9 comentários:

Júlio César Meireles de Andrade disse...

Cosnis, que belo texto.
O nosso amigo Denis merece.
Um abraço.

Júlio César Meireles de Andrade disse...

N�o sabia que o Denis j� escreveu poesias. Voce tem elas a�?
Se o Denis autorizar mande-as para mim.

Carla disse...

Esperei dias por este texto. Sabia que ia sair perfeito!!! Bons momentos de adolescência!!Saudade de tudo.

Carrie, a Estranha disse...

Cosnis,

Não sei se tenho muitas, porque algumas ele me mostrava, mas não ficaram. Nãããão, não vou te dar os originais. Posso copiar e mandar. Mas tenho que achar, lá no Rio.

Carla,

Eu tb! Muitas.

Bjs

Tati Tatuada disse...

Por esses textos é que tenho plena covicção que eu deveria ser sua amiga de infância.
(Abusada eu né?)

Carrie, a Estranha disse...

Ah Tati! Q foooofa! Considere-se minha amiga de infância! Esteja convidada a aparecer em Gotham City e em Pasárgada qdo quiser!

Beijinho

Anônimo disse...

OBRIGADO PELO PRESENTE. COM CERTEZA UM DOS MELHORES QUE JÁ GANHEI NA VIDA...
AO CHEGAR DO TRABALHO CANSADO, NO DIA DO MEU ANIVERSÁRIO, ABRI SEU BLOG E VI O QUE VOCE ESCREVEU.
A PARTIR DAI MINHA ME MENTE ME LEVOU PRO PASSADO, E FIQUEI HIPNOTIZADO PELAS LEMBRANÇAS ATÉ DE MANHÃ, PORQUE SONHEI COM ELAS.
OBRIGADO MINHA AMIGA.
BEIJO, DENIS.

Carrie, a Estranha disse...

Ahhhh! Que foofo. Q bom q vc gostou.

Um beijo grande.

trinity disse...

Carrie como vc é chique aparecer na globo, na veja...
E sim, seu amigo tem muita sorte de ter vc como amiga desde infância.