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quarta-feira, fevereiro 27, 2008

(Equanto o seu lobo não vem...)


Odeio bancos. Odeio bancos que nem parecem bancos, odeio bancos que são a minha cara, odeio bancos que acreditam no futuro do planeta, odeio bancos que sabem quais são as minhas necessidades. Odeio bancos estatais e mais ainda bancos privados. Odeio bancos. Muito. Vocês não fazem idéia.

Odeio ir a bancos. Odeio portas giratórias. Elas sempre, sempre, sempre, travam comigo. Eu coloco todos os objetos na caixinha. Ela continua travando. Tenho vontade de dizer que é um pino de metal que eu tenho no cérebro - solto. Ou de tirar a roupa toda e passar. Ou de gritar “isso não é um assalto, isso é uma expropriação revolucionária”. Ou de dizer, "desculpe, esqueci de tirar minha Uzi".

Odeio gente que trabalha em banco. Acho os dois piores trabalhos do mundo (depois dos insalubres): ascensorista e bancário. Eu tenho pena de bancário. Em termos. Porque também sempre há a escolha – muito maior do que no caso do ascensorista. Não me venham com o papo de que eu-preciso-viver. Não. Há escolhas. Sempre. A não ser que a pessoa goste. Mas aí eu odeio mais ainda.

Eu amo ver notícia de assalto a banco. Amei aquela história do assalto ao Banco Central de Fortaleza. Não, infelizmente eu não tive nada a ver com isso. Aliás, sou muito cagona pra participar de qualquer atividade que possa dar cadeia. Amo Caçadores de Emoção e Plano Perfeito, do Spike Lee, que falam sobre assaltos a banco. E Clube da Luta, cujo final é a implosão de prédios de cartões de créditos.

Quando eu era criança eu perguntava pra minha mãe porque pobre não dava cheque, já que eles não tinham dinheiro (uma coisa meio Maria Antonieta, sabe?). Ou porque o banco central não fazia mais notas pra dar pra todo mundo. Me explicaram, hoje em dia eu entendo, mas...eu não entendo. No fundo acho que essa história de lastro é balela.

Gosto de bancos de praça. E de piano. E de colégio. E Banco Imobiliário, também.

terça-feira, fevereiro 19, 2008

Minissérie: crítica


A minissérie que estreou agora na Globo, “Queridos amigos” é sobre os anos 80. Quer dizer, é passada em 1989, mas volta o tempo todo a fatos de 1982 e dos anos 70. É a terceira minissérie centrada em uma década (as anteriores foram as ótimas Anos Dourados e Anos Rebeldes). Ainda não sei o que dizer sobre.

Originalmente escrita por Maria Adelaide Amaral foi adaptada para a TV. Aqui está o blog da minissérie com todas as informações técnicas.

Essa é sua primeira grande falha: ela continua literária demais para televisão. É como se os atores não estivessem à vontade em dizer os textos. Eles engasgam. Os tempos estão equivocados.

A trama é basicamente o seguinte: grupo de amigos afastados pelo tempo se reúne mediante o pretexto de uma festa, dada por Leo (Dan Stulbach). Leo está com uma doença terminal, mas o único que sabe é o personagem do Tarcisinho. Há o núcleo presos políticos, que foram torturados pela ditadura e viveram no exílio um tempo. Há os ressentimentos, como em toda a turma que se reencontra. Mas a segunda coisa que me incomodou foi: o saudosismo. Eu não sou contra a saudade, entendam. Mas sou contra esse sentimento de “no meu tempo tudo era melhor”. Primeiro que eu acho que o tempo de todo mundo é hoje (não só o do Paulinho da Viola). Segundo que, alowwww, não era essa maravilha toda, não. Logo que veio essa onda ploc eu vi pessoas falando absurdos do tipo “não tinha violência no Rio” e “éramos mais inocentes”. E a inflação? E os planos econômicos malucos todos os semestres? E a pressão de ainda viver um governo eleito indiretamente, com todos os resquícios da ditadura? Então, na boa: não me venham com ilusões biográficas (Bourdieu, esqueci o ano) sobre como-era-verde-o-meu-vale. Não era, não. O que era verde era você. Todo mundo era mais jovem. E as pessoas têm essa estranha mania de acharem que o seu tempo é de quando eram jovens e que tudo era melhor na juventude. Tenho centenas de memórias maravilhosas dos anos 80, afinal foi a minha infância. Mas sem delírio. Se não daqui a pouco a gente vai ver uma minissérie louvando os anos 00, de que como eram tranqüilos, o povo vivia bem e tudo era melhor – e eu me lembro nos anos 80 das pessoas dizendo que “os anos 70 é que eram os anos bons, as pessoas pensavam coletivamente...blablabla...”.


O elenco da minissérie. Provavelmente eu vou levar pedradas ao falar isso, mas vamos lá. Estamos aqui pra isso mesmo. Eu acho que não existe ator brasileiro. Todos os bons atores brasileiros são bons em serem eles mesmos. Não sei se vocês já tiveram a sensação de conversarem com pessoas que são maus atores de si mesmo. Não estou falando de atores profissionais, estou falando de pessoas que têm outras profissões, mas que parecem tão pouco à vontade com a sua própria vida, tentando ser uma coisa que elas não são, que parecem interpretando pessimamente o papel de si mesmas. Tudo soa falso. Tem gente que é canastrona ou insossa no próprio papel. Pois é. Eu acho que os bons atores brasileiros são simplesmente pessoas que sabem fazer bem o papel deles mesmos. E nessa minissérie temos alguns exemplos. Que provavelmente vocês não vão concordar. O primeiro deles: Dan Stulbach. Toda hora eu achava que ele ia pegar uma raquete se tênis e sair porrando quem estivesse pelo seu caminho (o primeiro grande personagem dele na TV foi o ex-marido da Helena Ranaldi que batia nela). Outro: Matheus Nachtargale. Até pela limitação do tipo físico dele, é sempre a mesma coisa. Muito bem feita, mas a mesma coisa. Gosto do cara que faz o Pingo (Joelson Medeiros) e já tinha feito a novela do Manoel Carlos - mas pode ser que eu o ache bom só porque ele ainda não fez muita coisa na TV.

Das mulheres: gosto muito da Débora Bloch e da Drica Moraes (mais dessa última). Acho que podem fazer grandes papéis na minissérie. Denise Fraga faz todos os quadros dela do Fantástico. E ainda por cima sua personagem é duas coisas que eu acho um saco: ex-torturada política (e que acena com essa bandeira o tempo todo) a astróloga – não por acaso duas grandes teorias que procuram explicar o mundo pela totalidade, o marxismo e a astrologia, mas deixa pra lá. Ela e o Dan Stulbach estão dois tons além do elenco (no mau sentido).

A minissérie tem dois caminhos. Um é se centrar nas tramas da amizade, do que foi feito de cada um e até que ponto vale à pena voltar a ser o que se era – ou até que ponto se quer isso. Acredito que eles sigam por aí e, ao meu ver, é bem mais interessante. A outra, empobrecedora, é ficar nesse clima de “éramos uma promessa e hoje uma realidade de fracasso”. É muito fácil ser promessa. Aos 18 todo mundo é promessa.


Out of topic (pero no mucho):


PS1: Estava revendo Alpha Dog sábado e vi que o começo do filme é idêntico ao Meu nome não é Jonhy: imagens de criancinhas inocentes em Super 8. E o nome dos personagens também são os mesmos: Jonhy Truelove e Jonhy.


PS2: E hoje Formiga Irmã revia Laranja Mecânica. Que é um filme dos anos 70, sobre um livro de 1962, passado no longínquo ano de 2007, onde jovens amantes de Beethoven se divertem espancando, estuprando e matando pessoas. Só erraram em uma coisa: os jovens de hoje em dia acham que Beethoven é título de filme sobre cachorro de Sessão da Tarde.

E, não, isso não é uma contradição ao que escrevi antes. Apenas a história não é linear, mas dialética.