quinta-feira, agosto 07, 2008

Carrie no país das vacinas - quatro dias.

Ah, como eu amo a medicina moderna e sua capacidade de conferir a aparente ilusão de controle sobre o universo! Como diria Roberta Carvalho, não é que eu seja hipocondríaca. Eu apenas gosto de ter minha saúde atestada por laudos técnicos minuciosos que são repetidos anualmente. Sim, resolvi me render às vacinas, afinal, aqui é di grátis, e, como diz o ditado, de graça até injeção na testa.

Em primeiro lugar resolvi me informar com um médico. Achei uma clínica de pediatras e imunologistas (onde, por acaso, atende um dos médicos que carimbou minha cartela de vacinação da infância). Tentei marcar uma consulta, mas a atendente disse que não podia incluir meu nome no sistema em função da minha idade (pensei em fazer como Lacan e cochichar no ouvido dela que na verdade eu só tinha 5 anos – o que minha Peposa podia confirmar -, mas ela não ia acreditar). Graças às vantagens de se morar em uma cidade pequena (sim, porque no final das contas, Gotham City é uma província. Tudo se resume a conhecer o Batman, o Curinga e o Prefeito), uma das pediatras da clínica é mulher do ex-sócio do meu pai na clínica que ele tinha. Lá vou eu tentar falar com a mulher.

Pra variar, ela estava atrasada (vocês conhecem algum médico que chegue no horário? E ainda dão desculpa que é porque o paciente atrasa...). Mas tinha uma enfermeira dando bobeira e a atendente achou melhor que a gente falasse com ela. A enfermeira tinha trabalhado 300 anos no hospital onde meu pai trabalhou, conhecia ele e tale cousa.

Eis que um novo mundo se abriu para mim. Um mundo mágico, repleto de siglas, letrinhas, numerozinhos e, o que é mais importante, a certeza de que por trás deles eu estaria protegida de todo mal para todo o sempre, me transformando no Highlander, o guerreiro imortal.

Pra começar, a enfermeira me botou o terror dizendo que eu precisava de um up-grade urgente nas vacinas. Realmente eu teria que tomar a segunda dose da MMR (também conhecida como SCR – Sarampo, Caxumba e Rubéola, que também possui a simpática alcunha de Tríplice Viral). Fora isso a mulher ainda disse que eu precisaria tomar a Tríplice Bacteriana DTP (adulto). Mas que em postos de saúde eles só dão a “acelular”, que dá muito efeito colateral (a pessoa fica prostrada), e ali na clínica eles tinham a sem ser “acelular” (celular?), ou ao contrário, mas tinha acabado. Além disso, as da clínica são pagas e Salim não gasta dinheirinha podendo fazer de graça, então falei que ia no postinho e tomava.

Não contente a mulher continua: “Você não tomou Hepatite A e B, não? Tem que tomar, hein? Pros Estados Unidos eles pedem! Esses dias eu vacinei um casal que tava indo. Quando você vai? Iiiihhhh, não dá tempo! Menina! E Anti-tetânica? Meu Deus. Meningite também era bom, no posto eles não dão e aqui ta 150”.

Humm...

Minha hipocondria tem limites. Financeiros, particularmente. Num rompante – raro – de lucidez, disse: “Não, dona, eles só pediram a MMR e vai ser só essa que eu vou tomar”. Agradeci e rumei para o postinho (não com o desejo de que, na volta, eu tome tooooodas as vacinas e aí serei uma pessoa imunizada, forte, invencível, gostosa, caber num biquíni branco P...).

Chegando ao postinho tinha um rapaz na minha frente. Rapazote, como diria papai. Eis que o rapazote entra e eu falo com a enfermeira que queria receber a MMR porque estava indo pra uma universidade no exterior que me exigia. Daí ela se vira: “você tá com esse rapaz que entrou?”. Eu: “não!”. “Ah, porque ele também tá indo pra uma universidade nos EUA e precisa tomar vacinas”.

Heeeein? Como assim, Bial? O CNPq indicou um postinho em Gotham City pras pessoas se vacinarem? Quando o moleque saiu lá de dentro eu não resisti e puxei papo:

- É você que está indo pros Estados Unidos?

- Sou, sou eu sim – dizia o garoto, enquanto apertava o algodão no braço. Vou pra Califórnia.

- Que legal! Eu to indo pra NY!, responde Carrie, a Sociável. O que você estuda?

- Engenharia da Computação.

- Ah! Eu faço doutorado em história e ganhei uma bolsa...

- Sanduíche? – me interrompe o rapazola.

- É! Bolsa sanduíche pra História. E você, é o quê? (pela aparência ele não devia estar nem no segundo grau).

- Sou da graduação. Vou fazer uma bolsa tipo a sanduíche, mas pra terminar a graduação.

- E a Califórnia é o melhor lugar pra sua área, né?

- Ah é. Eu vou pro Vale do Silício. Vou fechar com chave de ouro!

- E você estuda onde?

- Itajubá, respondeu ele.


Nos despedimos e desejamos boa sorte um ao outro. Nem o nome dele eu fiquei sabendo.

Caralho. Vale do Silício. Vocês têm noção do que é o Vale do Silício, plebe? É simplesmente onde estudam/estudaram (ou não terminaram os cursos porque foram contratados por grandes empresas antes ou ficaram milionários ou as duas anteriores) a maioria dos grandes caras da computação. Os inventores dos grandes softwares e computadores que a gente mexe hoje em dia. O Bill Gates, o cara da Apple, da IBM...simplesmente é onde nasceu a indústria computacional e onde surgiu a internet, basicamente.

Já pensaram? Eu posso ter me vacinado com o inventor do teletransporte! Ou do próximo meio de comunicação que vai mudar o mundo!

Na saída, pra Formiga Irmã: “aí meu Deus, nem vi se era uma agulha descartável ou se ela usou a mesma do garoto!”. Ela: “ah, não tem problema. Aquele garoto é limpinho. Nunca deve ter transado na vida”.

Pior é que é. Por pouco tempo. Quando ele for um milionário não faltaram filas de mulheres pra transar com ele. Ainda mais porque nerds tendem a ser mais atenciosos, legais e gentis do que o resto dos homens. Palavra de quem tem grande experiência com nerds – mas pouca com homens. Nerds se esforçam mais porque eles têm complexo de inferioridade com as mulheres.

A funcionária do postinho: “e você deu sorte! A gente não costuma abrir essa vacina, pois tem uma validade muito curta. Só seis horas. Só abrimos por causa desse rapaz”.

É o Universo conspirando!

Enquanto conversava com o garoto ele disse algo do tipo: “é a primeira vez que eu saio...”. Pude notar a ansiedade no tom da sua voz. Esse sentimento tão parecido com o que eu sinto (apesar de já ter saído, é minha primeira vez nos Estados Unidos).

E eu achando que eu sou a pessoa mais medrosa e paranóica que existe no mundo. Que arrogância a minha, não é verdade? Milhares de outros estudantes estão passando por essa mesma situação nesse momento. Experimentar o novo. E tantas outras pessoas estão experimentando o novo em diversas outras situações.

Ah! Além disso, chegou meu visto. Agora é só relaxar. Como diz Formiga Irmã que saiu e me viu dormindo depois do almoço: “tá com a vida ganha, hein Formiga”.

Tô. Pior é que tô.

6 comentários:

Lolló disse...

Hahahaha, meu irmão faz engenharia da computação lá em itajubá =)

Maria disse...

Pô Carrie, nem te conheço e gosto tanto de vc. Vou ficar com saudades. Eu sei que é meio ridículo ficar com saudades já que nunca te vi e pq sei q vc vai continuar o blog de lá (NÉ?). Mas torço por vc garota, vai lá, mostra pros gringos que mulher brasileira não é só bunda. Vc vai longe, muito inteligente e bem humorada. Sou sua fã, pronto. Vc vai arrasar nos States!

Fernanda.

Anônimo disse...

Nice girl!!!!
Kisses...
Hetie

Carrie, a Estranha disse...

Lolló,

Quem sabe eles se conhecem?!

Maria/Fernanda,

Ah, que gracinha! Eu tb gosto muito de todos os meus leitores e vejo personalidades diferentes em todos eles. Fico muito feliz qdo alguém novo se manifesta. Muito obrigada pelos elogios e desejos de felicidade. Amém. Pra nós todos.

Sim, claaaaaro q vou blogar loucamente como sempre de lá.

Hetiiiie!

Tá chegando a hora!!!

Bjs

Tati Tatuada disse...

Carie minha amiga, isso só confirma minha máxima:
Quem tem amigos não precisa de dinheiro.
Beijos.
(tomara que você consiga ficar linda e gostosa no seu biquini branco só com a MMR)

Milema disse...

Ta vendo como vc perde oportunidades?Pq nao perguntou o nome do garoto?