sexta-feira, maio 04, 2007

Dia de grandes emoções


I – Primeiras emoções


Estou eu, lépida e faceira andando pela livraria do Unibanco Artplex (cinema), niki eu olho e...tcharãn! Wagner Moura do meu lado. Não! Não é possível! O que ele está fazendo aqui? De mochilinha, oclinhos, bermudinha, olhando os livrinhos como se fosse uma pessoinha comunzinha, de carninha e ossinho?? Sozinho!! E ninguém grita? Ninguém pula no pescoço dele e diz liiiiindo, eu te amooooo? Você é o melhor personagem da novela, você tem que tomar a empresa do Antenor e matar o mala do Daniel!? Ah é. Esqueci que eu tô no Rio. Como diz a Adriana Calcanhoto cariocas não param em sinais vermelhos. E nem fazem festa pra artista da Grobo. Afinal, eles estão em toda parte.

Mas, eu, como sou do interiorrrrr – e vocês sabem, né? Você até pode tirar a garota do interior, mas nunca vai tirar o interior da garota –, fiquei dando mais um tempinho na livraria, só pra ver aquela gostosura toda em movimento. Fiquei que nem uma mocoronga do Congonhal (sorry, inner joke!), rodeando um bolinho de livro só pra vê-lo melhor. Sabe aquele dia em que você sai com uma camiseta hering preta velha e uma saia jeans batiiiida e mal olha no espelho? Não? Sorte sua. Aí comecei a pensar: merda, não passei nem um batonzinho. Nem de brinco eu estou. Aí parei e me reorientei: relooou, Carrie! O cara se esfrega na boazuda da Pitanga toda noite! Nem se você estivesse cravejada de brilhantes ele ia te olhar. Além de tudo ele é casado. E acabou de ter filho. Te orienta, Carrie! Acorda pra cuspir, garota!

Ai, ai. Fui pagar meus dois livrinhos que eu tinha comprado e deu 25 reais. Eu dou uma nota de 20 e fico olhando pro vendedor. Ele olhando pra mim. São 25 reais. Eu olhando pra ele. Ele olhando pra mim. Um livro foi 13 e outro 12. Ops! Desculpa, moço. Eu já sou lerda normalmente pra conta, ainda por cima sob o Efeito Wagner Moura Tudo De Bão.... Ai, ai. Deus conserve. De preferência lá em casa.

Mas se mamãe tivesse lá ela falava com ele. Tem horas em que mamãe faz falta. Eu morreria de vergonha, mas ficaria do lado dela.


II – Fortíssimas emoções


Fui ver “Batismo de Sangue”, que conta a história do Frei Tito, Frei Beto e demais freis dominicanos que lutaram contra a ditadura brasileira ajudando os guerrilheiros.

Puta que o pariôô. Se você não resiste à violência e sangue, não vá ver. Eu, que sou praticamente um misto de caminhoneiro, boxeador e pedreiro, quase levantei e fui embora nas cenas mais punks. Mas como isso seria dá uma de mulézinha fiquei até o fim.

Mas o filme é o máximo. A cena da missa no presídio, quando eles ganham um copo de Kissuco e biscoito maisena pra consagrar é de soluçar. Da mesma forma quando os presos políticos deixam o presídio e os que ficam cantam o hino da liberdade...foda.

Se eu fosse torturada eu seria a primeira a delatar todo mundo. Aliás, eu delatava antes de me torturarem. Aliás, eu nunca me envolveria em causa nenhuma que pusesse a minha vida em risco. Porque a minha vida é maior do que tudo. Nenhuma causa é maior do que viver. Ainda mais por uma birosca de país que nem esse. Fala sério.


III – O Darth é pop


E por falar no assunto, vi o trailler do filme que aparece o meu querido, idolatrado, salve salve orientador. É o documentário “Hércules 56” que conta a história dos presos políticos que foram trocados pelo embaixador suíço (ou americano, pois foram dois os embaixadores seqüestrados. Ele foi trocado por um e o irmão pelo outro. Imagina a mãe deles?). Dentre esses presos, além do meu orientador estão o José Dirceu, Vladimir Palmeira e Franklin Martins – o que nos leva a especular se não seria melhor deixar matar o embaixador...enfim. Abafa. Nesse documentário eles conversam com os caras hoje em dia. Tô eu lá, novamente lépida e faceira no café do Unibanco Artplex, e dou de cara com a imagem do meu orientador no trailler que passa ali do lado de fora. Pensei: ó, Orientador! Onipotente, onipresente e onisciente? Até no cinema me persegues? Ou será um delírio dos meus combalidos neurônios?

Tadinho, ele não me persegue, não, e só me ajuda. Cada dia eu fico mais espantada com a história de vida, com o brilhantismo e a humildade do cara. E o bom humor. Contei pra ele que a galera chama ele de Darth Vader e ele morreu de rir. Fizeram uma página falsa dele no orkut dizendo “sou um intelectual de esquerda, mas adoro roupas de grifes” e ele conta isso rindo. Um dia ele tá na Rússia, no outro dando entrevista pra Globo News; um dia está nos EUA, no outro falando na CBN; num dia dando fora na Revista Veja no outro de galã de documentário; um dia discutindo com o Diogo Mainardi no Manhatam Conection, no outro discutindo com os meninos do DA. O cara é foda. Como eu sempre digo pra ele: eu quero ser que nem você quando eu crescer. Foda, foda...

Pensa bem: o cara fez escola de guerrilha em Cuba, foi preso, trocado por embaixador...acho que ou pira e se mata - que nem o frei Tito - ou adquire outro olhar sobre isso tudo, né? Mas os idiotas do patrulhamento ideológico querem que ele continue a mesma coisa de 40 anos atrás? Falou, então.


IV – Nietzsche era um pândego e ninguém entendeu


Ah é. Sobre os livros que eu comprei. O primeiro Que loucura!, do Woody–Deus-Allen. A faceta escritor de Woody Allen é pouco conhecida, mas ele tem ótimos livros: Cuca Fundida, esse e Sem plumas. O primeiro eu tenho.

O humor do Woody Allen é o meu ideal de vida. O cara consegue conjugar ironia fina com pastelão; filosofia e banalidades. É tipo um Monty Python. Muito foda. E toda vez que o leio desconfio que minha família deve ser judia e ninguém sabe. Ou então sou adotada. Aliás, judeus e mineiros: tudo a ver.

O outro livro foi Ecce Homo. De como a gente se torna o que a gente é de Nietzsche. Resolvi começar minha leitura de Nietzsche – viu, Cláudio? - pelo fim. É tipo uma autobiografia onde ele explica a obra toda dele – é o último livro do cara. Dizem que ele já tava meio lelé da cuca (ele morreu doido de pedra). Os títulos dos capítulos são óóótemos: “Por que sou tão sábio”; “Por que sou tão inteligente” e “Por que eu escrevo livros tão bons”. Genial. Pândego.

Acho que também vou começar a escrever minha autobiografia e vou usar os mesmos títulos. Porque, vocês sabem, né? Eu, assim como a Alessandra Negrini, além de não me encaixar nos padrões, só leio três autores: Nietzsche, Borges e Proust (sim, ela disse isso na mesma entrevista da Marie Claire).

Deus salve os pocket books, os bons orientadores e o Wagner Moura.

15 comentários:

Cláudio disse...

Bem-vinda ao perturbador universo de Nietzsche, Carrie! Você vai gostar. O cara era um gênio e um debochado, como você já percebeu... E, acredite, acabo de ler essa mesma edição de Ecce Homo, da LP&M Pockets. Pra manter o espírito de Nietzsche, eu tiro a parte de Deus - Deus está morto -, mas salvem-se os pocket books!!!!

Solange disse...

Falando em mães e celebridades, uma vez estava em Nova Iorque (com certeza tão os mais snobs com celebridades que os cariocas) com a minha numa loja de decoração. Eis que vejo Julie Andrews. Pra que fui contar pra ela... Um dia ainda faço um post sobre :D

Ione disse...

Adoro esse cinema, vivia lá quando morava no Rio, mas nunca vi ninguém assim, digamos, "famoso de verdade"... Pode ser pq eu sou muito distraída, tb... Esse filme deve ser mesmo ótimo! :)

Sergy disse...

Nietzsche debochado? Não concordo. Ele defendia um estilo de vida quase estóico, sem alcóol nem ópio nem qualquer alterador de percepção sensorial. Mas era um gênio sim, e ao contrário da idéia generalizada, um gênio anti-nihilista. O Ecce Homo corresponde à parte final da sua vida, quando a doença começava a corromper-lhe a visão e a razão. Ha 3 partes da vida/obra de Nietzsche:
a inicial quando era pro-wagner (a origem da tragédia), a segunda que era mais pro-Socrates (Gaia Ciência, Assim falou Zaratrusta) e a final, quando a sua filosofia já era mais delirante e autónoma (Ecce Homo, o Anti-Cristo, Para além do bem e do mal)

Cris disse...

bom, eu li pouquíssimo nietzsche pra poder dar pitaco, mas ainda prefiro bom e velho witt. o que li de nietszche me deu a idéia - tosca, óbvio! - de que ele joga a água da bacia fora junto com a criança [tô péssima de metáforas!!!] agora, sem dúvida é um grande pensador. "sobre verdade e mentira no sentido extra-moral" é um dos grandes textos que já li na vida. ah, e eu a.m.o o franklin martins, tá. e o wagner gostoso também, mas por outras razões...hehe. bj

menina eva disse...

Deus salve Wagner Moura, e o seu orientador cuca-fresca e até o Nietzsche. :D

Cláudio disse...

Bom, não vou polemizar, não, mas há bastante deboche nos textos do cara, sim.

Tudo bem, vou polemizar só um pouquinho: pró-wagner no início, perfeito; delirante e autônomo no final, certíssimo. Agora, pró-Sócrates?!?!? Desculpe mas isso é COMPLETAMENTE EQUIVOCADO. Desde seu primeiro livro, "O Nascimento da Tragédia", Nietzsche já criticava o socratismo, acusava sócrates de assassino da tragédia grega e do dionisíaco... Uma bandeira que Nietzsche sempre levantou, desde o início e até o final, foi a crítica à razão ocidental, da qual Sócrates é o grande pai... E "Assim falou Zaratustra" é uma obra filosófica em forma de ditirambo grego, poética, o texto de Nietzsche considerado mais coerente com sua crítica à razão...

Anônimo disse...

Fiquei que nem uma mocoronga do Congonhal...Será q vc não quis dizer congonheira...rs
Ótimo texto!
Bjs, BB

Googla disse...

Só checando...vc ficou assim por causa deste Wagner Moura?
http://www.casacinepoa.com.br/saneamen/imagens/fernan03.jpg

Nietzsche não era debochado? Como não? Eu rolei de rir lendo o anticristo (juro que tem notas minhas em certas páginas escrito "hahaha"). O velho rabugento pra mim não passava de um personagem.

Sergy disse...

Mea culpa. Cláudio,tens razão, sim!:).

Sergy disse...

O facto de ser contrário à moral judaico-cristã e pretender uma subversão cultural do ocidente não implica deboche.

Carrie, a Estranha disse...

Homens se degladiando intelectualmente no meu blog? Q máximo! Quero mais! Tudo bem q podia ser por mim e não pelo Nietzsche, mas mesmo assim estou adorando. Como não entendo picas de porra nenhuma vou pegar a pipoca e ficar assistindo.

Qto ao deboche, só não entendi pq ele não pode defender um estilo de vida estóico, sem alcool e ser debochado. Pra ser debochado tem q ser doidão?


Baru, quis dizer mocoronga do Congonhal, sim. Eu quis frisar o congonhal, logo não poderia usar congonheira do congonhal, então optei pelo mocoronga.

bjs
Bjs

Anônimo disse...

Estou me lembrando do dia que fui ao cinema com uma das minhas filhas e no final do filme eu me levantei e aplaudi.Umas poucas pessoas me acompanharam nos aplausos.Chegando em casa comentando o episodio alguem perguntou: Voce ficou com vergonha da sua mãe aplaudindo o filme? Ela respondeu: Que nada eu sai de perto fingi que nem a conhecia ... M

Cláudio disse...

Ah, Carrie, eu quase me esqueço: qual o nome do livro que une Rubem Fonseca, Borges e Nietzsche?

Carrie, a Estranha disse...

Cláudio,

Não é exatamente isso. Acho q me precipitei. Ela faz um comparação com a escrita hipertextual do Rubem e do Borges, repletas de referências, q permitem uma leitura não só linear, mas tb outra multifacetada, q é típica da escrita contemporânea.

Agora, a parte do Nietzsche eu ainda não consegui entender, não! Rsrsrs...mas teria algo a ver com a desqualificação do real...q, depois da filosofia de Nietzsche e o fato de q não existem fatos, apenas interpretações, sendo impossível a observação objetiva do real... então o romance policial se debruça sobre ele mesmo, já q não é possível encontrar o assassino...

Ah, é algo mais elaborado q isso, mas eu realmente ainda não peguei de fato. Estou no primeiro capítulo e não sei se entendi ou se concordo.

Vai o título: "Os crimes do texto. Rubem Fonseca e a ficção contemporânea". De Vera Lúcia Follain de Figueredo. BH: Editora da UFMG, 2003. Comprei na Travessa de Ipanema. É uma coleção chamada Humanitas, com vários títulos da área de humanas.

Peço desculpas se porventura alguém q leu o livro acha q não é nada disso (do jeito q o mundo é um ovo de codorna, vai q a própria autora está lendo isso...). Como eu falei, ainda não li tudo e ainda não entendi e posso estar viajando.

bjs