domingo, dezembro 03, 2006

Conversa com os mortos


Sempre me lembro de meu pai nesta época do ano; isto é: mais do que o normal, pois dia 5 faz 5 anos que ele morreu.

Tento ler um livro dele. Uma edição velha e carcomida pelo tempo de “Grande Sertão: Veredas”. Tenho o mesmo velho hábito de meu pai: riscar as frases prediletas, mesmo nos romances.

Pego algumas frases riscadas por ele e é como se, de repente, estivéssemos a conversar novamente: “Riobaldo, a colheita é comum, mas o capinar é sozinho” – diz pai. Contra-argumento com “Mire veja: o mais importante e bonito do mundo, é isto: que as pessoas não estão sempre iguais, ainda não foram terminadas – mas que elas vão sempre mudando”. Papai pondera que: “Tendo Deus, é menos grave se descuidar um pouquinho, pois, no fim dá certo”. E eu que: “viver é muito perigoso”. Seguimos nesse diálogo silencioso através das páginas de Guimarães Rosas e vou aprendendo mais sobre o meu pai, que era tão grande que não deixa nunca de me ensinar.

Sobre o insólito do nosso diálogo, pai me responde que “o real não está na saída nem na chegada: ele se dispõe para a gente é no meio da travessia”. E vamos seguindo nessa longa travessia, que para mim, no momento, se transforma em real. Eu e pai, de mãos dadas; ele me mostrando aqui e acolá; eu fazendo perguntas sobre Riobaldo e Diadorim, como fazia quando a minha mão inteira cabia dentro da mão grande dele e andávamos por aí vendo as coisas do mundo de gente grande.
A gente nunca cresce.

8 comentários:

Gisele disse...

que lindo......fiquei emocionada...bjs.

ella disse...

Querida, Grande Sertão é um hino, talvez o melhor livro. É emocionante e a ligação mais perfeita da afetiva: "Diadorim é minha neblina".
bjs
Amo.Amo.

Cris disse...

muito lindo, mesmo, emocionou. grande sertão é um livro que eu preciso muito ler. e é urgente. bjs

Cris disse...

ei, valeu pelo link! bj

Anônimo disse...

Minha linda
Que beleza voce falar deste homem espetacular que me deu estes filhos não menos espetaculares
Não podia ser diferente
Desculpem a corujice e a empolgação
Mother

Carrie, a Estranha disse...

Ôôô...esse é o meu bebê! Q atende pelo nome de mamãe!

Bjs

Anônimo disse...

É cosnis, a garganta ficou apertada lendo esse texto.
Dois grandes homens, dois grandes médicos, dois grandes encontadores.
O velho João e o velho Herberto,
encantados. Travessia...
Um abraço

Carrie, a Estranha disse...

Ô, cosnis! Prazer tê-lo aqui. Foram algumas de nossas conversas q me levaram a este João.

Bjs