quinta-feira, novembro 09, 2006

Aventuras no ginecologista


Ir ao ginecologista é um dos maiores programas de índio obrigatórios na vida de uma mulher – e olha que mulher tem muitos programas de índio obrigatórios. Hoje tive que enfrentá-lo. Não tenho problemas com o exame em si, nem com o meu médico, que é muito fofo (confesso que já tive cada gineco mala...). Ele é calmo e objetivo, duas características muito importantes pra um ginecologista. Aliás, depois que eu o descobri nunca mais consulto com mulher. Tive uma ginecologista mulher e homeopata (tá parecendo aquelas descrições do Casseta e Planeta, “Pedro Miau, repórter e gato”) que era um pé no saco – no caso, no útero. Ela sentava num sofazinho e ficava horas perguntando da minha vida sexual/sentimental – que pra ela, por uma estranha analogia, tinham que andar juntas. E pior de tudo é o ar pseudo-liberal que essas figuras têm. Acho que meu trauma de homeopatia vem daí. Homeopatia é ótimo, é muito bom se você não tem nada. Aí funciona que é uma maravilha. Mas experimenta ter uma doença realmente séria. Deus salve a alopatia! Enfim, descobri que ginecologistas homens não querem saber da sua vida íntima e são realmente mais liberais do que mulheres. Respondem as suas dúvidas sem nenhum comentário do tipo “nossa, você fez isso???!!!”. Não que eu seja o máximo do “u-hu! Orgia todo fim de semana”, mas...Enfim. Sacaram, né? É sempre bom saber que você pode perguntar qualquer coisa e a pessoa não vai esboçar nenhum tipo de reação de desaprovação. E têm certas coisas que só dá pra fazer com homem.


O único defeito do meu ginecologista é todo o processo que me leva até ele. Primeiro deles: ter que marcar com dois meses de antecedência. Segundo: tirar uma tarde toda pra ir lá, porque ele vai atrasar, pois tem sempre uma mulher parindo em algum lugar da cidade. (Sem contar os famosos “encaixe” que passam na sua frente – e você fica tentando imaginar o que a fez ganhar o rótulo de “encaixada” de repente: um corrimento horroroso, se é amiga do médico...) E, terceiro: as pilhas de grávidas que têm sempre a preferência. Como se não bastasse toda pressão da sociedade judaico cristã macho ocidental pra você ter filhos, você tem que enfrentar grávidas passando na sua frente em todos os lugares. Mas tuuudo bem! Aproveita que eu tô calma! Afinal é só uma vez por ano que eu tenho que passar por isso, então respirei fundo e fui munida de toda a minha boa vontade e fazendo pensamento positivo “Não vai atrasar. Vai ser rápido. Não vai atrasar”. Claro que foi uma das vezes que mais atrasou.


Chegando lá, a sala de espera tava tão lotada que, mesmo com os dois sofás, eu e mais uma garota tivemos que sentar no chão. Pra piorar a história, ele atende junto com um pediatra, então o consultório é uma festa de barrigas e crianças nem um pouco tensas em saber que estão prestes a entrar pra tomar uma injeção.


Que me desculpem as mulheres grávidas, mas papo de grávida é muito, muito chato. Ou então vai ver fico irritada porque gostaria de estar grávida e não vejo possibilidade disso acontecer nos próximos anos, ou porque vejo gente muito mais nova que eu no segundo filho, ou ainda por causa dos trinta anos batendo na minha porta. Vai ver é um recalque meu, sei lá. E não me venham dizer que eu sou nova e tenho muito tempo, porque não interessa.


Tinha uma mulher descomunalmente gorda e grávida conversando com outra normal e grávida – e meia dúzia em volta dando pitaco, pois todo mundo tem sempre um conselho pra dar pra gente grávida. Papo vai, papo vem, a gorda-mor começa a falar sobre as cantadas que ela, já grávida, recebeu. Eu, solteira e com a metade do tamanho dela, quase me meti pra dizer: “minha senhora, pra mim é um milagre que senhora tenha arrumado alguém pra lhe engravidar, pois pra mim isso era obra ou do Espírito Santo ou de inseminação artificial”. Mas beleza. Guardei meu sarcasmo só pra mim. A garota do meu lado tinha quase o mesmo bom humor que eu e ficamos as duas únicas anti-sociais a olhar pra frente enquanto o resto do consultório falava sobre vantagens e desvantagens de creche, desenvolvimento de bebês cujas mães fumam e outros temas emocionantes como esses.


De repente vem vindo um garotinho lááá em baixo já berrando. Ô-ou! Problemas à vista. Ai, meu Santo Herodes... Dai-me paciência! Entra o molequinho, com a avó. Tava ali pra tomar vacina e pelo jeito não tava gostando nada, nada da idéia. Já devia ter tido experiências pregressas altamente traumatizantes a ponto de ligar o local ao desconforto e urrar feito um porco sangrando. Quando foi chegando a hora do garoto entrar o volume do grito foi aumentando exponencialmente de forma absurda, a ponto de eu pensar: “como um corpo tão pequeno pode caber tanto ar?” e “onde é que eu ligo as trompas?”. Os urros do garoto foram ouvidos mesmo a metros e metros de distância, com duas portas fechadas. Beleza. Fé em Deus. É nóis na fita. Ou quase.


Nisso já eram umas 4:15, sendo que minha consulta tinha sido marcada pras 3:30. A minha companheira de mau humor estava marcada pras 3:00. E a porra do consultório enchendo, enchendo. Bebês simpáticos, outros nem tanto, uns bonitinhos, outros nem tanto e fé em Deus que minha hora vai chegar.


Entra uma senhora e pergunta sobre alguém. Passa direto e entra num dos consultórios. Um pouco depois fico sabendo que ela era mãe do tal menininho urrador que tava indo tomar vacina. Só que a mulher parecia ter, no mínimo, uns 55 anos e o garoto tinha 2. Fiquei pensando: ou o moleque é adotado ou ela tem 48, engravidou por um milagre da genética moderna e além disso é acabada – ela tinha aquela voz rouca de gente que fuma enlouquecidamente e um cheiro de cigarro insuportável, além de um rosto quase igual ao do Keith Richards.


Aí sai o molequinho já com carinha de feliz, com um pirulito na mão e só de fraldinha. Fiquei pensando que eu também queria ficar só de fraldinha e com um pirulito na mão toda vez que eu passasse por algo traumatizante. A mãe e a avó conversam com ele enquanto colocam a calça e o tênis. Explicam que ele tomou a vacina pra não ficar doente – porra, por isso que o moleque tava gritando! Que tal explicar antes? Niqui o garoto solta a seguinte pérola: “preferia ficar doente”. Depois que eu soube que o garoto tomou duas injeções contra gripe fui obrigada a concordar com ele. Tô crente que é pólio, catapora ou doenças malignas, mas gripe?! Deixa a criança quieta! O molequinho ainda continuou com altos argumentos lógicos, desmontando totalmente o discurso da mãe e da avó. Hilário.


Duas senhoras conversam sobre geriatras. Começam a dizer que gente jovem tem que ir ao geriatra, que isso começa desde cedo e minha mente hipocondríaca já começa a pensar: “oba! Mais médico!!”. De repente uma delas faz a fatídica pergunta pra outra: “quantos anos você acha que eu tenho?”. Odeio gente que faz isso. Minha mãe, que é super ultra mega conservada, não faz isso, pra que fazer?! Tenho sempre vontade de responder: “110”. Mas a outra manda um “65” e graças a Deus a outra responde “74”. Ufa! Alívio geral. A que respondeu tenta copiar a outra e diz ter 51, mas “ninguém diz”. Realmente eu diria que ela tem uns 70, no mínimo. A outra realmente estava bem. Não tão bem a ponto de perguntar “quantos anos você acha que eu tenho”, mas tava bem. As duas ficam num papo sobre exercícios que me faz me sentir culpada de não ter conseguido caminhar e estar com problemas com meu plano de corrida. Aliás, me sinto culpada com tudo ao meu redor. Por querer ter filhos, mesmo achando que o afogamento é válido em certos casos...enfim. O ser humano é contraditório.


Finalmente às cinco da tarde sou atendida, exausta, quase agredindo crianças e idosos. Meu médico, como sempre, é super rápido. Como hipocondríaca que sou, começo a dizer que estou preocupada, pois vou fazer 30 anos e tenho alguns casos de câncer de mama na família e tenho visto aumentar a doença entre mulheres jovens, que eu recebi um e-mail e... “Bobagem!” ele diz. Me acalma, diz que ainda não preciso me preocupar tanto e que esses casos de gente com câncer aos 21 anos são exceções. Falou também que auto-exame e mamografia não adiantam pra mulher nova, pois a mama é muito dura e tem mais nódulos naturalmente – ainda mais eu, que tenho displasia benigna - e que o mais indicado no meu caso era a ultra-sonografia. De resto está tudo bem. Depois de pentelhá-lo ao extremo ele diz que seria bom fazer um controle mais amiúde, tipo seis em seis meses.


Não sei quanto a vocês, mas eu sempre fico em dúvida sobre o que conversar quando o médico está lá embaixo, com a mão na massa. Será que finjo uma cara bem casual, assovio, falo do tempo, fico quieta ou pergunto sobre a sua mulher? Nisso toca o celular dele, mas ele não pode atender por razões óbvias. Finalizados os trabalhos, vou trocar de roupa e ele atende. Era uma grávida histérica, preocupada com alguma coisa. Só ouvi ele dizendo: “não, isso é normal, fica tranqüila”. Cara, esse homem deve ser um santo em casa, porque lidar com mulheres sempre à beira de um ataque de nervos deve dar um know-how tremendo ao rapaz. Ou não. Pode ser também aquele famoso caso de “santo de casa não faz milagre”.


Quinze minutos depois já estava na rua. Ao sair do consultório, um jovem casal, os dois bonitos, animados, com cara de primeira consulta de grávidos. Inveja, eu?! Imagina! Sou um espírito nobre e evoluído e esse meu sarcasmo é só exercício estilístico.


Mas pensando bem, poderia ser bem pior. Minha ginecologista poderia ser a Regina Duarte e eu ter que parar no Leblon.

10 comentários:

anna v. disse...

Que coincidência, eu fui à minha consulta anual na terça-feira. Eu tb só me consulto com homens. Todas as mulheres que tentei foram um desastre. Gosto desse de agora porque ele é o oposto da imagem dos outros ginecologistas que tive, que eram todos muito formais, do tipo "com licença isso, com licença aquilo". Esse agora é uma esculhambação, o consultório é uma zona, ele nem se veste de branco. E nem atrasa. (por que será? haha)

Milema Medeiros disse...

Eu tbem detesto ginecologista mulher. Todas as mulheres gineco q passei, foram uma catástrofe.Mulher nao serve pra cuidar de mulher( q me perdoem as lésbicas).O meu ginecologista além de ser super simpático, bom de papo, é um gato.
Outra coisa q temos em comum é o fato de eu tbem nao ter a menor paciência com papo de grávida. Parece q a mulher só vive em função daquela barriga q está crescendo. Q nao tem outra coisa pra se preocupar e no que pensar na vida.
bjinhos

Anônimo disse...

Por um minuto congelei. Aminha ginecologista é homeopata, mas não tem sofazinho e é super liberal quanto aos meus hábitos. Mas eu mudei de ginecolgista por causa dos atrasos e agora sempre marco o 1o horário de todos... Vem funcionando.

Parabéns pelo blog!

VanOr disse...

Carrie, este post está gineco-épico!!! Maravota! UAHUAHAUHAUA!!!

Não é vc que é invejosa, as grávidas é que têm com o cérebro reduzido (e têm o papo mais chato do mundo por isso).

Também sou contra ginecologista mulher manipulando minhas coisas. Prefiro homem, e nem tem que ser gato, mas tem essa coisa da pegada, entende? Não sei explicar sem me complicar ainda mais, então morreu aqui.

Quanto à mãe fumante do filho vacinado contra gripe, pelo histórico informado, está mais do que provado que a criança é adotada. A mãe passou a vida tentando engravidar e não conseguiu, então não vai perder logo esse filho pruma gripe qualquer. E tome geriatria aos 12 anos de vida!

No meu gineco, nunca tem fila. Talvez pelo valor dantesco das consultas, que permite marcação de hora em hora sem quebrar as finanças do doutô. E outra: na hora da mão na massa, ele sempre diz "respire fundo" e emenda num assunto banal qualquer, tipo: "e os cachorrinhos?, tá clinicando onde agora?". Coisas que eu posso simplesmente responder com duas sílabas, ha-hã ou hum-hum. Outra coisa que ajuda muito nessas horas é o monitor de vídeo, que mostra detalhes anatômicos do meu exame. Vez por outra, enquanto ele me examina e pergunta dos cachorrinhos, ele diz coisas altamente relaxantes, como "olha lá que lindo o seu colo do útero!".

Carajo, escrevi demais. Foi mal, mas este post está support group total. Não deu pra resistir.

Joana disse...

adorei o post. mas minha ginecologista eh mulher e eh otima! nao tem nada de ficar falando bobagem e eh super objetiva. e tem papos otimos. e nao atrasa demaaaais. mas a minha ultima era bem do tipo que vc falou, um saco!! e concordo com a historia da homeopatia, mas minha implicancia maior eh porque o unico medico homeopata que tiva tinha o cece mais insuportavel que eu ja senti! tomei pavor!

Carrie, a Estranha disse...

Mi,

Não falei no post, mas meu gineco tb é um gato!

Van,

Não pago consulta por nada desse mundo! Pra isso eu pago plano. Em compensação não tenho televisãozinha!

Joana,

Pois é! Natureba, mas nem o cecê dele deu conta de curar! Hahaha

Bjs

Jussara disse...

Carrie,
Acho estranho uma pessoa esclarecida e estudada como vc, julgar a Homeopatia apenas por uma médica que vc consultou e da qual não gostou. Seria igual eu ir a um cardiologista e sair falando mal de todos os cardiologistas, apenas pq não gostei daquele em específico e nem do seu modo de clinicar. Seria o mesmo que julgar todos os vegetarianos pelo Hitler.

E vc se engana ao falar que a Homeopatia é ótima se a pessoa não tem nada; pelo visto vc está falando de uma coisa que não conhece e de que não leu a respeito; se vc não tiver nada, e tomar um medicamento homeopático,seu organismo irá produzir uma doença. O que acontece é que existem bons e maus homeopatas, assim como existem bons e maus dentistas, professores, ginecologistas, pedreiros, jardineiros, etc; não dá pra julgar todos os profissionais por causa de apenas um. Pode acontecer tb d'a pessoa ser um ótimo profissional e vc simplesmente não ir com a cara dela.

E que eu saiba e conheça, Homeopatas não são pessoas "naturebas";e não é pq um em específico tinha cecê que todos os outros vão ter.

Mas enfim, o blog é seu, vc fala e escreve o que quiser e o que achar que é certo.

Carrie, a Estranha disse...

Puxa, Jussara!

Sinto se te magoei de alguma forma. Minha experiência não se resumiu a essa homeopata. Tentei outros, mas realmente só resolvi certos problemas qdo parti pra alopatia. Pode ser que todos os médicos q eu fui eram ruins, mas aí fica difícil imaginar q todos eram ruins e os tratamentos eram bons.

Qto ao natureba, foi uma simples piadinha. Mais uma vez peço desculpas se, de algum forma, feri seus sentimentos. Tenho um jeito naturalmente sarcástico de falar as coisas e às vezes sei q exagero e pego pesado, ou certas pessoas não entendem.

Eu realmente tentei a homeopatia. E não funcionou. Pro meu tipo de problema não funcionou. Mas uma vez peço desculpas se eu te ofendi de alguma forma - não sei se vc é médica homeopata - mas é assim que eu penso.

Espero q continue vindo aqui. Acho natural - e saudável - q eu expresse opiniões q nem sempre todos concordem.

Um beijo

Roberta disse...

Adorei esse post. Minha gineco é maravilhosa, mas às vezes faz umas caras de reprovação - me identifiquei total com vc. Ela é doida e divertida, mas às vezes vacila, sabe?

Sem falar que também tem um consultório mega-lotado de grávidas, encaixes e...crianças. Ela divide o consultório com o marido que é pediatra!

Ah, e sobre os encaixes. Cara, já fiz altas chantagens com a secretária dela e nunca consegui ser "encaixada". Realmente um mistério os critérios desse tal de encaixe.

Agora, quem me dera ir lá só uma vez por ano.... primeiro que ela diz que uma vez por ano é pra quem é pobre. Quem tem plano de saúde tem mais que ir duas vezes. Segundo que tenho tantas ziqueziras, mioma, displasia, anovulação... que tenho sempre que monitorar com mil ultras.

E por último... inveja de grávidas? Tá doida?

Beijo

Carrie, a Estranha disse...

Ah...mas eu quero ter bebezinhos. Algum dia. E às vezes eu acho q esse "algum dia" já devia ter chegado.

Bjs