terça-feira, julho 28, 2009

Pensamentos da hora da verdade


O meio da madrugada, aquela hora onde todos dormem, entre três e quatro da manhã é a hora da verdade. Digo hora da verdade, porque, com freqüência sou acometida por sentimentos tão intensos nesta hora da manhã que me tiram da cama. E os sentimentos vêm em blocos de palavras, que se emendam umas nas outras, formam parágrafos inteiros, ideias completas e quando eu vejo eu já estou pontuando as orações. Sou refém das minhas ideias. Todos somos. Mas no meu caso, elas literalmente não me deixam dormir. Um dos meus maiores medos antes de ir para Nova York, era acordar essa hora da noite e pensar: fudeu, quero minha casa!

Pois bem, essa noite acordei lembrando de uma amiga minha do doutorado que está na Rússia. Ela estuda Dodô, o Fiódor e ela deve ter ido final do ano passado – se não me engano - para Paris e depois seguiu para a gélida e enigmática Mãe Rússia, percorrer São Petersburgo, Moscou e a mais que gelada Sibéria. Percebi que não falo com ela há mais de seis meses, e que também ela não respondeu meus últimos e-mails de Nova York. Ou seja: ou ela está puta comigo ou foi seqüestrada pela máfia russa e está como escrava branca de algum puteiro de Moscou. Como eu não falei com ela antes? Ah, ela é uma pessoa, assim como eu, meio estranha, que some de vez em quando e não é dada à convivência com a sociedade, então existe também essa terceira possibilidade.

Essa minha amiga é realmente uma figura. Ela é uma das pessoas mais perturbadas e inteligentes que eu conheço. Ela estuda russo, cara! Quando eu ficava desesperada com a minha tese, era ela meu consolo. Porque além de tudo, ela precisava aprender russo. Alfabeto cirílico. Mais declinações que o alemão e o latim juntos. E ela estudou tanto que o professor dela já não tinha muita coisa pra ensinar – ela teve uma paixonite pelo professor (que era russo) e dizia que eles iriam se casar e ter filhinhos russos chamados Irina, Sasha e Vladimir que correriam alegremente pela tundra. Ela é um personagem de Dostoievski: paranóico, atormentado, repleto de pequenezes e vilanias. Ela é rica, muito rica, mas eu só fui descobrir isso muito tempo depois – mesmo porque ela é super pão dura e completamente simples, como quase todo rico de verdade.

7 comentários:

Juliana disse...

Lindo. Lindo. Lindo
É uma das coisas mais lindas que já tive a oportunidade de ler...
Parabéns pela sensibilidade...

Carrie, a Estranha disse...

Obrigada, Juliana.

Bracho disse...

NEm me pergunte como eu cheguei...de blog em blog algo me trouxe e como primeira leitura tinah que ter Dosto no meio...adorei sua forma de escrever...talvez porque de algum modo, eu tb me pareça com um personagem dele...excentrica e um pouco enjoada de gente...kkkkkkk

ila fox disse...

Meu pensamentos da hora da verdade surgem na hora que botei a cabeça no travesseiro. Aí é um tal de acordar para anotar tal idéia que muitas vezes chega a acabar o sono. Nhé.

Será que tem alguma explicação científica para este fenômeno?

Docinho de abacaxi disse...

Acredito em coincidências. Li este texto na manhã do dia em que foi escrito. "Aniversário de morte" do meu pai. E eu tb tinha 25.
Coincidências apenas. Mas são legais. Tomei seu texto pra mim. :)

Carrie, a Estranha disse...

Docinho,

Como? Não entendi. Hj é aniversário de morte do seu papai?

Ila Fox,

Entre o limiar do estar acordado e do sono? Tb tenho isso.

Bracho,

Bigada!

Bj gde

Kukla disse...

Hum, eu também falo russo, mas não me apaixonei pelo professor. O aluno se apaixonou por mim.
Já conseguiu falar com sua amiga?