terça-feira, julho 28, 2009

II

Mas não é sobre ela que eu quero falar. Eu quero dizer que, imediatamente após ser acordada por essa minha amiga eu comecei a pensar no meu pai – que é outra figura recorrente nos meus “pensamentos da hora da verdade”. Como eu já disse aqui, meu pai morreu faz oito anos dia 5 de dezembro. E quanto mais o tempo passa, mais eu fico parecida com ele. Sempre fui, mas tá piorando – ou melhorando. Tanto que meus familiares mais próximos deram pra me chamar de Herberta – meu pai se chamava Herberto.

E o que é pior: eu me pego absolutamente parecida com ele. De uma forma quase assustadora. Na maneira de parar com as mãos nos bolsos. Na risadinha curta, quando algo não é suficientemente engraçado que mereça uma gargalhada, mas nem tão desprezível a ponto de ser ignorado. Nas opiniões abruptas, dadas de sopetão, sobre assuntos que muitas vezes não conhecemos muitos. Numa certa falta de tato com as palavras, que as faz soar ríspidas demais ou ingênuas demais. Simplório, por vezes. Mas as semelhanças não param por aí. Aliás, as semelhanças se espalham por toda a minha família por parte de pai. Eu sempre tive mais afinidade com a minha família por parte de mãe, o que é curioso, dado a imensa afinidade que eu tinha com o meu pai, talvez mais do que com a minha mãe – o que não quer dizer que não goste muito da minha família por parte de pai e tenha afinidades com a minha mãe...enfim, entenderam, né? – mas, fisicamente, sou meu pai e toda a sua família portuguesa.

Sou meu pai nos pés ligeiramente chatos de pisada supinada que se espalham como pés de pato no banheiro frio da madrugada. Sou ele no senso de humor meio irônico, mas também meio apatetado, na capacidade de fazer piada sobre quase tudo. Nas máscaras que ele colocava para assustar minhas amigas, no auge da adolescência – fase onde tudo era mico e eu pensava: “ai meu Deus, será que minhas amigas vão pensar que meu pai é louco?”. Até que um dia, minha amiga Fló veio almoçar e meu pai tinha viajado e ela disse: “puxa, quem vai colocar máscaras pra gente?”. Nas suas fantasias de mulher, nas festas, onde ele ficava à cara da Tia Palmira, sua irmã. Sou ele na cultura humanista. Ainda hoje me surpreendo achando os seus livros, tão díspares que iam de Che Guevara à Yôga e textos de confluência entre o budismo e o catolicismo, passando, evidentemente pelos livros de medicina. Sou uma curiosa, como ele.

Sou ele na forma de dançar. Sou suas mãos pequenas e atarracadas e fininhas – mãos de cirurgião. Sou a massa corporal robusta e compacta de todas as minhas tias e primas, cujo cobertor de gordura não consegue esconder a solidez dos ossos e carnes. Sou ombros, costas largas, muitos peitos e gordura que se acumula da cintura pra cima – ao contrário da mulher tipicamente brasileira. Sou a falta de cintura de todas as minhas tias e a bunda pequena – para padrões brasileiros. Sou a pele clara, oleosa e avermelhada, de veias estouradas na superfície e os dentes fortes e lábios finos que se expandem em sorrisos largos que quase os engolem por completo. Sou o cabelo liso de parte da família – a outra parte possui pêlos mais espessos. Sou os problemas de saúde: pressão alta, tártaro nos dentes e acessos de cólera. Sou os altos e baixos, seus picos e depressões profundas; sua crença quase infantil nas coisas para depois um descaso absoluto tomar conta do seu ser. Sou seus planos delirantes. Sou seu entusiasmo passageiro. E os mais duradouros. Sou seu desligamento em certas horas. Sou suas paixões súbitas e fulminantes – e também seus ódios mais profundos. Sou suas contradições e ambigüidades. Sou de extremos, como ele. A vida, para nós, nunca é tédio. Nunca calmaria.

Sou seu gosto por brincadeiras infantis e teatrinhos de bonecos e histórias do Popeye e personagens que ele criava e tinham vida própria. E por Jerry Lewis, Os trapalhões, e Sessões da Tarde com Frank Sinatra e Fred Astaire – num tempo que não existia videocassete e tínhamos apenas uma TV, sem canais a cabo – e sua mania de exclamar “rapaiz! Filmaço!” e ficar lendo o nome dos atores em voz alta e imitando o locutor que dizia: “versão brasileira, Herbert Richards” - seu xará, aliás. Sou seus delírios de “quero largar tudo e ir para um mosteiro no Tibet” ou de dizer que, por mais que adorasse sua família – e ele realmente adorava –, às vezes queria ter se perdido no mundo, ser um vijante errante.

Não sou sua disciplina e coragem. Aquela que o fez deixar de ser entregador de quitanda para virar médico - depois de ver o irmão morrer com 19 anos de meningite e ser tratado com descaso num hospital público – mesmo sendo a chacota da família, que não acreditava que ele conseguiria. Aquela que o fazia se exercitar junto com um famoso programa de rádio dos anos 40, 50, muito cedo pela manhã. Aquela que o fez ir pros confins das Minas Gerais em busca de emprego. Nem aquela que o fez, após casado, perder 10 quilos em 6 meses; que o fazia acordar às seis da manhã para caminhar; que o fazia jogar basquete todos os fins de semana da minha infância – quando ele já tinha 60 anos; que o fez cortar o sal quando teve uma crise hipertensiva, a tal ponto que não precisou mais de remédios; que o fazia chegar em casa após horas de consultas e operações e ainda cuidar da horta que ele fez no terreno ao lado – que hoje é ocupada por duas casas (minha tia Deceles diz que, se um dia escrevessem um livro sobre o meu pai ele se chamaria: “Da enxada ao bisturi”). Não sou sua persistência em tentar todos os tratamentos conta o câncer. Não sou sua disciplina em domar os prazeres à mesa (ao contrário de mamãe, que nunca precisou domá-los, porque não os têm em grau tão avançado). Não sou seu autodidatismo que o fazia estudar violão sozinho, inglês sozinho e praticar iôga sozinho – não consigo praticar nem com a professora. Não sou sua fé inabalável em Deus. Nem seu otimismo inquebrantável, mesmo num leito de hospital. Não sou seu jeito de carioca da zona norte, nascido e criado em São Cristóvão – mas sou sua eterna paixão por Minas.

4 comentários:

Anônimo disse...

Lindo texto Aline... Falta de tato com as palavras? Só se for nas faladas, porque nas escritas, perfeito, vi seu pai de novo... Beijos. Juninho

Carrie, a Estranha disse...

falta de tato. palavras ditas impensadamente, muitas vezes.

Obrigada, primo.

Bjs

ila fox disse...

É engraçado como conseguimos ter um pouco dos nossos pais e mães. Fico pensando que, se um dia eu me aventurar na maternidade, o que meus filhos herdarão de mim...

p.s - Espero que não herdem a crise existencial. :-P

Sardas disse...

Caraca, guria, que texto lindo, lindo, lindo. Me emocionei demais. E fiquei pensando no meu pai, na minha mãe, no quanto sou parecida - e oposta - com eles. Lindo! Gracias por esse texto. Beijo. Pati Linden