terça-feira, julho 28, 2009

III

Desde que ele se foi, em 2001, sinto como se ele estivesse cada vez mais próximo de mim. Não se trata de algo espiritual. Mas eu apenas penso nele nos grandes momentos da minha vida. O que papai diria? E ele continua falando muito. Ele vibrou com o meu ingresso no mestrado em 2002 e esteve na defesa em 2004. Torceu muito pelo meu doutorado e teve orgulho quando viu a filha ser aprovada em segundo lugar, em 2005. (Ri muito com o meu blog, mas acha que às vezes eu me exponho demais). Se revoltou com as histórias de quando eu dava aulas na Esculacho. Foi à Europa comigo e assim pôde rever a Capela Sistina, o Vaticano, Londres, Paris e muitas outras cidades (papai era um apaixonado por viagens que só conseguiu fazer sua primeira grande viagem internacional em 1995, para Europa. Depois disso, foi à Rússia – que também é Europa, eu sei -, Jerusalém, Egito, EUA e Canadá. Ainda bem que deu tempo). Deu pulinhos de alegria quando soube da bolsa sanduíche e esteve ao meu lado o tempo todo: no primeiro dia, quando eu me perdi, e depois, quando o pânico me invadiu por completo e ele me disse: não viemos até aqui pra voltar, olhe de onde eu vim, o quanto eu consegui, você pode muito mais! Além do que, eu estou aqui! E eu acreditei nele, pois papai nunca mentiu. Em cada passeio do ainda verde Central Park e quando as folhas começaram a cair papai caminhou ao meu lado, dizendo “que beleza, minha garotona!” (sou também sua "nhonhoca", aquela que “comeu meu frango assado e só deixou minha farofa” e sua "meninota"). Ele gostou muito da Raquel e da sua cidadezinha e de Tinho e Rodolfo – afinal, papai adorava cachorros (mais uma afinidade). Estava comigo em cada ida ao Metropolitam e ao Moma, onde discutimos muito sobre arte (ele não gostou muito do Gugenheim, a não ser do prédio em si), ao Museu de História Natural, onde seus olhinhos de criança escanearam tudo e ficou bobo com a Frick Collection. Em cada bolinho de Chinatown. Percorreu comigo as livrarias e sebos. Sentava no banco da Washington Square, comendo pêssegos enormes e suculentos, pois ele gostava muito de pêssegos e os de lá não são como os daqui.

Quando meu pai morreu eu acho que eu não sofri o bastante. Não sei. É estranho. É uma percepção que eu tenho. Às vezes eu acho que eu me conformei rápido demais, que eu deveria ter lutado mais – como se eu tivesse esse poder. Quando eu soube que ele estava com câncer – de próstata, mais uma ironia de papai, já que ele era urologista – eu soube no ato que ele morreria. Mesmo todos dizendo o contrário, que câncer em pessoas mais velhas evoluem muito lentamente, que meu pai estava tendo acesso a tratamentos modernos etc etc. Eu soube. E de certa forma, comecei a me despedir. Ou talvez não tenha ficado tão triste porque sabia que ele continuaria por aqui. Talvez até mais do que antes, já que agora não teríamos mais a matéria nos impedindo. E de certa forma eu sempre soube que um dia a mais com meus pais seria lucro. Afinal, eu quase não nasci. Cheguei atrasada, depois de quase 10 anos da minha última irmã. Minha mãe tinha 40 anos e meu pai 50. Eles eram, na minha infância, velhos. Eu tinha até uma certa vergonha quando perguntavam se meu pai era meu avô. Só muito tempo depois eu fui entender como ele era jovem e como, se não fosse o câncer, ainda estaria brincando por aqui aos 84 anos, pois sempre fora um atleta. Então eu sempre tive uma mórbida fantasia que meus pais morreriam de repente. Um belo dia eu chegaria da escola e eles estariam mortos e eu seria criada pelos meus irmãos mais velhos. Eu “peguei o boi”, como dizemos em Minas, de tê-lo por perto durante 25 anos.

Meu pai tinha pavor de algumas coisas: de CTI (resultado de uma internação durante uma crise hipertensiva), de aposentar e de ficar esclerosado. Por sorte ele trabalhou até dois meses antes de morrer, aos 76 anos (assim como meu avô materno, não sobreviveu, nas palavras deste, aos dois machadinhos - 77 – do qual acreditava, vovô, que não escaparia). Não ficou inconsciente na hora da morte nem foi pro CTI. Uma estranha lucidez parecia trespassar seus olhos ainda um pouco assustados. Talvez quando a gente chegue perto do “país desconhecido, onde viajante nenhum jamais retornou”(Hamlet) seja essa a sensação. Como estar na beira de um abismo, onde o medo é quase igual à vontade de saber o que acontece depois que a gente pula. Alguns dirão que ele já começava a delirar quando perguntou quem era o rapaz meio alourado que estava na sala junto aos médicos – não, não havia nenhum rapaz meio alourado junto aos médicos. Seu irmão, Nelson, o da meningite, era meio louro. Mas provavelmente já era o oxigênio faltando ao cérebro, dirão os céticos (ou os cheios de certezas). Eu não digo nem que sim nem que não. Assim como a estranha coincidência dos dois padres, muito amigos de papai, que apareceram lá, no mesmo dia, anterior a morte dele. Um deles um bispo muito simpático, gente muito simples, um cara que foi preso na época da ditadura e mesmo assim deu abrigo e lutou contra o regime, que até hoje celebra missa na paróquia onde meu pai era membro atuante e outro padre, muito amigo da nossa família também. Os dois chegaram lá quase ao mesmo tempo, sem combinar. Deram a extrema-unção. A morte encontrou papai com as contas feitas e a vela acesa, como está na bíblia.

3 comentários:

ila fox disse...

A única coisa que me consola na morte é imaginar que voltarei a ver todas as pessoas que já se foram.

Se isso não acontecer não vai ter paraíso que faça a morte ter graça.

Carrie, a Estranha disse...

Ah é. Aliás, eu pressuponho q se algo existir é com as pessoas q a gente conheceu em vida. As mais importantes.

Dalila disse...

Carrie, que lindo!! lindo... levar ele com vc! às vezes tento trazer meu irmão, como vc faz, só como lembrança, para mostrar alguma coisa ou falar alguma coisa, mas é tão doído... que droga, né?? a droga é a pessoa ir embora e vc não conseguir lembrar dela sem sofrer. Por isso achei esse seu post tão lindo.
e sabe, concordo com isso também: se houver alguma coisa depois daqui, espero que seja para encontrar tdo mundo que já foi, senão para quê??