domingo, março 01, 2009

Os mais belos inícios de livros - partes II, III, IV e V

Começo do Joel:

“Era o melhor dos tempos, era o pior dos tempos, era a idade da sabedoria, era a idade da tolice, era a estação Iluminada, era a estação da Escuridão, era a primavera da esperança, era o inverno da desilusão, tinhamos tudo diante de nós, nada tinhamos diante de nós, iamos todos direto para o Céu, iamos todos direto na outra direção”.

Uma estória de duas cidades - Charles Dickens

Começos do Luís Miscow:

1) "Era inevitável: o cheiro das amêndoas amargas recordava-lhe sempre o destino dos amores contrariados. O doutor Juvenal Urbino sentiu-o assim que entrou na casa, ainda mergulhada em penumbra, onde fora de urgênciapara tratar um caso que, para ele, já tinha deixado de ser urgente há muitos anos. O refugiado antilhano, Jeremiah de Saint-Amour, inválido de guerra,fotógrafo de crianças e o seu mais tolerante adversário de xadrez, tinha-se posto a salvo das inquietações da memória com um defumador de cianeto de ouro" (O amor nos tempos do cólera, Gabriel Garcia Márquez).

2) "Você vai começar a ler o novo romance de Italo Calvino, 'Se um viajante numa noite de inverno'. Relaxe. Concentre-se. Afaste todos os outros pensamentos. Deixe que o mundo a sua volta se dissolva no indefinido. É melhor fechar a porta; do outro lado há sempre um televisor ligado. Diga logo aos outros: 'Não, não quero ver televisão!'. Se não ouvirem, levante a voz: 'Estou lendo! Não quero ser perturbado!'. Com todo aquele barulho, talvez ainda não o tenham ouvido; fale mais alto, grite: 'Estou começando a ler o novo romance de Italo Calvino!'. Se preferir, não diga nada; tomara que o deixem em paz” (Se um viajante numa noite de inverno. Ítalo Calvino)

Começo da Amana (é, Cósnis, pórrumá oto, que ela já pegou o Guimarães):

"– Nonada. Tiros que o senhor ouviu foram de briga de homem não, Deus esteja. Alvejei mira em árvores no quintal, no baixo do córrego. Por meu acerto. Todo dia isso faço, gosto; desde mal em minha ocidade. Daí, vieram me chamar. Causa dum bezerro: um bezerro branco, erroso, os olhos de nem ser – se viu –; e com máscara de cachorro. Me disseram; eu não quis avistar. Mesmo que, por defeito como nasceu, arrebitado de beiços, esse figurava rindo feito pessoa. Cara de gente, cara de cão: determinaram – era o demo. Povo prascóvio. Mataram. Dono dele nem sei quem for. Vieram emprestar minhas armas, cedi. Não tenho abusões. O senhor ri certas risadas... Olhe: quando é tiro de verdade, primeiro a cachorrada pega a latir, instantaneamente – depois, então, se vai ver se deu mortos. O senhor tolere, isto é o sertão. Uns querem que não seja: que situado sertão é por os campos-gerais a fora a dentro, eles dizem,fim de rumo, terras altas, demais do Urucuia. Toleima. Para os deCorinto e do Curvelo, então, o aqui não é dito sertão? Ah, que tem maior! Lugar sertão se divulga: é onde os pastos carecem de fechos; onde um pode torar dez, quinze léguas, sem topar comcasa de morador; e onde criminoso vive seu cristo-jesus, arredadodo arrocho de autoridade. O Urucuia vem dos montões oestes. Mas, hoje, que na beira dele, tudo dá – fazendões de fazendas, almargem de vargens de bom render, as vazantes; culturas quevão de mata em mata, madeiras de grossura, até ainda virgensdessas lá há. O gerais corre em volta. Esses gerais são semtamanho. Enfim, cada um o que quer aprova, o senhor sabe: pãoou pães, é questão de opiniães... O sertão está em toda a parte." (Guimaraes Rosa, Grande Sertão: Veredas).

3 comentários:

Ana Claudia Pantoja disse...

Então, cara Carrie, eu sempre passo por aqui e leio, mas sou uma sem-vergonha-não-comentadora, o que é uma lástima para qualquer blogueiro de respeito. Mas, saiba, aprecio muito seus escritos. E já que você pediu a colaboração dos frequentadores sobre inícios de livros, eis a minha sugestão:

“Nasci num quartinho pequeno, mas tão pequeno que os gritos da mulher que me pariu ricochetearam pelas paredes e acabaram engolidos por mim. Por isso, creio eu, cresci muda. Minha mãe era uma cigana filha do Vento, sem mais morada que o ar que cerca tudo, e mal acabou sua tarefa de trazer-me para este mudo, lavou-se com esmero e partiu para o nada do mesmo modo que veio.

Deixou-me, é claro, – ainda que enrolada numa manta – o que na visão dela era o bastante para manter-me viva e aquecida até que o Destino houvesse de encontrar para mim outra mãe com paradeiro mais certo. Muito tempo mais tarde, descobri que ela era regida pela Roda da Fortuna, Arcano Maior, instável e eterna – e perdoei-a sem mais, porque sabia que partira por instinto e que um ida haveríamos de nos reencontrar, as duas”.


(Letícia Wierzchowski – O Morro da Chuva e da Bruma)

Um forte abraço

Stella disse...

Acho bonitas as aberturas intrigantes, que começam atiçando o leitor a querer saber o resto da história... :)

"Lolita, luz da minha vida, fogo da minha virilidade. Meu pecado, minha alma. Lo-li-ta: a ponta da língua faz uma viagem de três passos pelo céu a Boca abaixo e, no terceiro, bate nos dentes. Lo. Li. Ta.
Pela manhã, um metro e trinta e dois a espichar dos soquetes; era Lo, apenas Lo. De calças práticas, era Lola. Na escola, era Dolly. Era Dolores na linha pontilhada onde assinava o nome. Mas nos meus braços era sempre Lolita.
Teve uma precursora? Teve, sim, teve. Na verdade, talvez até não houvesse Lolita nenhuma se, certo Verão, eu não tivesse amado uma rapariga-menina inicial. Num principado junto ao mar. Oh, quando? Quase tantos anos antes de Lolita nascer quantos eu contava nesse Verão. É sempre de esperar num assassino uma prosa de estilo caprichoso.
Senhoras e senhores do júri, a prova número um é o que os serafins, os simples, mal informados e nobremente alados serafins, cobiçaram. Reparai neste emaranhado de espinhos."

(NABOKOV, Vladimir. Lolita)

Bárbara disse...

esse post me fez descobrir q perdi minha edição do "cem anos de solidão" na mudança. merda... mas esse seria meu mais belo início de livro. só não tenho como copiar aqui pra vc. bjs