terça-feira, março 03, 2009

Começos VI e VII


A
Stella lembrou um começo que eu estava pra colocar aqui, pois é dos meus prediletos, também (é portuguesa essa tradução, Stella?)


"Lolita, luz da minha vida, fogo da minha virilidade. Meu pecado, minha alma. Lo-li-ta: a ponta da língua faz uma viagem de três passos pelo céu a Boca abaixo e, no terceiro, bate nos dentes. Lo. Li. Ta.Pela manhã, um metro e trinta e dois a espichar dos soquetes; era Lo, apenas Lo. De calças práticas, era Lola. Na escola, era Dolly. Era Dolores na linha pontilhada onde assinava o nome. Mas nos meus braços era sempre Lolita.Teve uma precursora? Teve, sim, teve. Na verdade, talvez até não houvesse Lolita nenhuma se, certo Verão, eu não tivesse amado uma rapariga-menina inicial. Num principado junto ao mar. Oh, quando? Quase tantos anos antes de Lolita nascer quantos eu contava nesse Verão. É sempre de esperar num assassino uma prosa de estilo caprichoso.Senhoras e senhores do júri, a prova número um é o que os serafins, os simples, mal informados e nobremente alados serafins, cobiçaram. Reparai neste emaranhado de espinhos."(NABOKOV, Vladimir. Lolita)


Mas eu prefiro a edição do Globo, com tradução de Jorio Dauster:


“Lolita, luz de minha vida, labareda em minha carne. Minha alma, minha lama. Lo-li-ta: a ponta da língua descendo em três saltos pelo céu da boca pra tropeçar de leve, no terceiro, contra os dentes: Lo. Li. Ta.

Pela manhã era Lô, não mais que Lô, seu metro e quarenta e sete de altura e calçando uma única meia soquete. Era Lola ao vestir os jeans desbotados. Era Dolly na escola. Era Dolores sobre a linha pontilhada. Mas em meus braços sempre foi Lolita”

Mas nada se compara ao original, em inglês, que, de tão lindo, decora uma das sacolas de livros da(o) Strand, o sebo/livraria mais maravilhoso do mundo e um dos meus locais prediletos em NY (no qual eu precisava ir nem que fosse uma vez por semana, só pra dar uma respiradinha):


“Lolita, light of my life, fire of my loins. My sin, my soul. Lo-lee-ta: the tip of the tongue taking a trip of three steps down the palate to tap, at three, on the teeth. Lo. Lee. Ta.

She was Lo, plain Lo, in the morning, standing four feet ten in one sock. She was Lola in slacks. She was Dolly at school. She was Dolores on the dotted line. But in my arms she was always Lolita.


Did she have a precursor? She did, indeed she did. In point of fact, there might have been no Lolita at all had I not loved, one summer, a certain initial girl-child. In a princedom by the sea. Oh when? About as many years before Lolita was born as my age was that summer. You can always count on a murderer for a fancy prose style.

Ladies and gentlemen of the jury, exhibit number one is what the seraphs, the misinformed, simple, noble-winged seraphs, envied. Look at this tangle of thorns”.


O começo da
Ana Cláudia Pantoja

“Nasci num quartinho pequeno, mas tão pequeno que os gritos da mulher que me pariu ricochetearam pelas paredes e acabaram engolidos por mim. Por isso, creio eu, cresci muda. Minha mãe era uma cigana filha do Vento, sem mais morada que o ar que cerca tudo, e mal acabou sua tarefa de trazer-me para este mudo, lavou-se com esmero e partiu para o nada do mesmo modo que veio.Deixou-me, é claro, – ainda que enrolada numa manta – o que na visão dela era o bastante para manter-me viva e aquecida até que o Destino houvesse de encontrar para mim outra mãe com paradeiro mais certo. Muito tempo mais tarde, descobri que ela era regida pela Roda da Fortuna, Arcano Maior, instável e eterna – e perdoei-a sem mais, porque sabia que partira por instinto e que um ida haveríamos de nos reencontrar, as duas”.

(Letícia Wierzchowski – O Morro da Chuva e da Bruma)

5 comentários:

Júlio César Meireles de Andrade disse...

Turvo, crescente de julho...
Tal qual um forasteiro, chegava ao lugar de onde nunca deveria ter saído– assim pensava.Demoradamente pousou os olhos no recém inaugurado relógio mecânico colocado na torre da igreja – como havia ficado bonita a igreja matrizcom uma torre central. Vinte e três horas. Pensou em procurar padre Carlos, mas já pelo adiantado da hora, desistiu; também aquele não era o momento e nem mesmo o padre Carlos mereceria comungar das aflições que o traziam de volta, sete longos anos depois da tragédia...
Muito frio, silêncio aterrador. Onde passar aquela primeira noite que já pronunciava ser longa? Depois de tanto tempo longe, aquele primeiro contato com sua terra natal era ao mesmo tempo, acalentadore turbulento, familiar e tão estranho. Como estavam diferentes as ruas, mais largas e iluminadas pela luz elétrica, que maravilha! Surpreendeu-se com o grande progresso para tão pequena cidade e emocionou-se ao lembrar da infância, quando tudo era escuridão e somente um parco serviço de luminação a querosene funcionava e, quando muito, até às vinte e uma horas.
Tempos idos, escura poesia infantil! Primeira noite:
passou-a quase toda caminhando pelas ruas – amareladas, empoeiradas e, agora, iluminadas! Quanta saudade deste lugar havia sentido desde que partira, um dia, sozinho, pensando em não mais voltar. Se ao menos soubesse que quem ama sempre
volta, quem verdadeiramente ama...
O amor e a saudade são como elásticos que prendem-nos ao torrão natal, quanto mais longe vamos, maior a força com que nos puxam de volta.

(Turvo. Júlio César Meireles de Andrade. Romance inédito que será lançado por volta de 2014)

Paula Clarice disse...

que ideia boa essa serie, Carrie!

ila fox disse...

Ahhh ontem eu estava procurando o começo de Lolita para por aqui... mas que bom q já colocou. Adoro este comecinho. Intenso.

Fer Moraes disse...

amei, amei esse último! puxa, mt bem lembrado pela Stella. e, sim, tbm prefiro a edição da globo rs
;*

[1 raro comentário meu rs)

Stella disse...

Olha, a tradução é da Fernanda Pinto Rodrigues. Mas acho o início intenso e intrigante em qualquer versão.

:D Mas como você mesma disse: nada melhor que o original.