quarta-feira, fevereiro 18, 2009

Quase-quase


Uma coisa anda atormentando a já minha tão atormentada alma e eu resolvi dividir essa angústia com vocês, pobres leitores: os quase-legais. Aquelas pessoas que tinham tudo pra ser legais, mas não são. O problema é que elas nem são malas a ponto de você dizer “que maaaala!”. As grandes malas - pesadas, sem alças -, por essas eu tenho respeito. Há uma dignidade em ser uma grande mala. Há que se ter muita personalidade para se ser M-A-L-A. O grande mala é quase folclórico. Quem é de Andrelândia se lembra do Zelso, mala folclórica que povoou nossa adolescência. Zelso é um personagem na sua malice – mas, enfim, vocês não conhecem o Zelso (ou seria Zelço? Ou Zélcio?). Só andava e preto ou de branco, usava chapéu (ou suspensório) e inventava carros e profissões que nunca teve. Dava até gosto ouvir os delírios de Zelcio. O pior são os quase-legais.

Vejam bem que é diferente de dizer que uma pessoa é quase mala. O quase mala somos todos nós. Quem nunca mandou um e-mala dizendo: “te curto pra caramba e se você também gostar de mim vou receber esse e-mail de volta” ou “gente! Realmente deu certo comigo! Faça um pedido e mande esse e-mail pro máximo de pessoas que puder e ele se realizará em 33 minutos!” que atire a primeira alça. Quem nunca contou a mesma história mil vezes; perguntou a mesma coisa mil vezes; ficou bêbado e disse “sabe que eu te considero pra caralho!” – e a variante: “mas o teu irmão é um filha da puta!”; quem nunca sentou no meio de um filme e começou a perguntar quem era o mocinho (ou pior, falou: “caaaara, o final desse filme é completamente o contrário do que você pensa!”) que jogue as próprias rodinhas. Quem nunca cantou Ivete Sangalo; fez chifrinho no outro na hora da foto; se definiu como geminiana com ascendente em touro (ou quaisquer outros signos); apareceu fazendo hang loose, paz e amor ou qualquer outro símbolo cretino; quem nunca fez piadinhas cretinas; passinhos; quem nunca cutucou o interlocutor, pegou no interlocutor, cuspiu no interlocutor que estoure os próprios zíperes! Todos nós somos malas em algum momento. Não é desse tipo de gente que falo.

Falo daquela pessoa que você acha que é legal. Superficialmente ela é legal. Aparentemente é legal. Em geral é inteligente, tem bom papo, fez boas escolhas na vida e não tem grandes dilemas. Se eu estivesse nos anos 70 – ou dentro de uma música do Belchior, o que dá quase na mesma - eu diria que é uma pessoa de cuca legal. Sem grilos. E de fato ela é legal. Você não tem queixas dela. Ela não é mau caráter, não tem nenhuma atitude inconveniente – do contrário seria um mala completo –, não é mentiroso, nem nada. O que te deixa sem graça de não ser amiga dela. Afinal, todo mundo gosta de Fulano. Fulano é tranqüilo, alto astral (em geral adjetivos utilizados para definir o quase legal), amigo da galera. Só você acha fulano meio mala, mas você não consegue determinar exatamente o que há de errado com fulano. Perfeito demais? Humm...pode ser...mas não é isso. Defeitos graves? Não. Ele é quase. Quase legal. Chutou pro gol, mas – uhhhh – na trave. Quem sabe na próxima. Encarnação.

O quase-legal lê jornais todos os dias. E revistas sérias – que tanto pode ser Veja quanto Caros Amigos. Só assiste a programas sérios na televisão – mas não fala mal de novela, nem de futebol, nem de BBB, porque acha que eles têm a sua função catártica a nível de representatividade da identidade nacional. Só não gosta. Pra serem legais eles assistem a uma ou outra bobagem, só pra dizer que não são sérios – do tipo, desenho animado (atenção: não querendo dizer que todo mundo que assiste a desenho está nessa categoria. Eu assisto a desenhos animados e não sou quase-legal. Sou mala, como vocês sabem) ou alguma pseudo bobagem. Aliás, em geral o quase-legal não tem tempo de ver TV. Ele até queria ver mais, mas sabe como é, muito trabalho, muita coisa pra ler. E você fica ali se sentindo um imbecil por saber o nome de todos os integrantes do BBB – olha que dessa vez você nem tá seguindo todos os dias.

Mesma coisa a internet. A Fal esses dias falou que tem ódio de gente que diz “estou passando pouco tempo on line”, quando quase sempre quem diz isso é um blogueiro cuja frase implícita é “tenho loucas e sórdidas aventuras no mundo real, ao contrário de você, seu merda nerd cuja vida se resume ao computador”. O quase legal tem orkut, mas não olha sempre; tem blog, mas não atualiza há dois meses; tem e-mail, mas a melhor coisa pra falar com ele é o celular. Quando ele não deixa no silencioso, porque sabe como é. Ele não quer perturbar ninguém. O quase legal nunca perturba. Afinal, pra perturbar ele precisaria ser um mala total.

O quase-legal tá indo bem, numa direção legal, niqui de repente ele escorrega (tipo esse post, né?). Diz que “na época em que ele teve problemas com o álcool...” e você sabe que o cara a vida toda só tomou Mirinda de uva. Fala: “nossa, estou numa fase muito crazy, cara!” e você percebe que a maior loucura que ele fez foi pedir empada sem catupiry e cuspir a azeitona. Confessa que gosta do Elton John – e, o que é pior, você sabe que é verdade. O quase-legal tem uma imagem completamente desfocada de si mesmo. Ele se acha doidão, maluco, u-hu, descolado, diferente, especial e – o pior de tudo – original. Ele jura de pé junto que é original – como se isso fosse possível desde os gregos. O quase-legal quase entra em depressão. Mas sempre sai a tempo. Quase pira. Quase chuta o balde. Está sempre prestes a largar tudo para fazer uma viagem de auto-conhecimeeeiiinto pela América Latina (coincidentemente depois que ele viu Dários de Motocicleta), mas acaba optando por um Cruzeiro até Porto Seguro. O quase-legal é quase. Ele não vai ao fundo de nada. O quase-legal nunca é ridículo. Não abertamente. Ele tem medo do ridículo.

Eu tenho quase um tipo de admiração por esse tipo de gente. É, vai ver é isso: eu tenho é inveja deles. Eles têm certezas – ainda que não confessáveis. Eles não duvidam de si nunca. Eles são coerentes. Focados. Eles não falam mal dos outros. Nunca. Eles não têm pequenos atos vis. Eles são tolerantes com a diferença. Muito tolerantes. Sempre. Nada os choca ou assusta.

Claro que há graus. Há os muito quase-legais ou os pouco quase-legais. Tem gente que consegue romper e chegar ao estágio mala – mas aí você desconfia que ele na verdade era um farsante. Era um pseudo quase-legal. Ou tava disfarçado. Não é comum o contrário: um quase-legal que virou legal. No entanto, há registros na literatura médica.

Ficou com medo, leitor? Se viu em alguma dessas características? Sorte sua. O maior sintoma do quase-legal é achar que é super legal.

15 comentários:

Amana disse...

gente... o que eu faco agora???
fui vendo uma amiga minha aparecendo na minha frente e... devo avisar? adianta?

mais uma caracteristica: eh uma pessoa que esta sempre envolvida em novas e grandes empreitadas, como aprender uma lingua, estudar para um concurso ("vai ser moleza!"), tocar um instrumento, juntar dinheiro pra uma viagem (de Auto-Conhecimento...), sei la. E se vc acaba de conhecer, ou conhece pouco, da uma sensacao de que nada na sua vida eh tao interessante assim... nada acontece de tao novo e...
A sorte eh q vc encontra a pessoa na semana seguinte e, UFA! ela nao passou no concurso, claro; trancou o cursinho de linguas ("tava muito corrido o horario do almoco!"); desistiu do cavaquinho ("vou tentar o tamborim, agora! mais facil pra carregar!") e usou o dinheiro guardado pra pagar a conta do cartao de credito que ela estourou na ultima liquidacao.
Eh... quase que voce acredita que ela era legal!

Ana Manga disse...

Hahaha, miguxa! Eu ainda não tinha pensado no quase-legal, mas eu totally reconheci a "catiguria". Sempre tive uma raiva inconfessável - mas que faz tempo eu ando confessando mesmo, foda-se - dos bonzinhos. O seu quase-legal parece com o meu bonzinho. Me dá gastura essas pessoas equilibradas, que falam baixo, não vêem novela mas não falam mal, compartilham a árdua batalha de ter que perder meio quilo, fazem loucuras (tomando fanta), sorriem moderadamente e gostam de todo mundo. Acho que o ódio vem do meu tempo de adolescente, em que os meninos pelos quais eu me apaixonava sempre ficavam meus melhores amigos, mas queriam pegar mesmo era a boazinha da sala, da praia ou da rua. As indefesas, que colocam a mão na frente da boca antes de rir e não ficam descabeladas nunca. É raiva mesmo. E pra minha sina, essas pessoas colam em mim como num íman. E eu fico sem graça de chutar. Sempre tem um bonzinho na minha aba. Caráleo.

Mas o quase é um loser. Ou frio ou quente, né? Gente morna é foda...

De mala pra mala, uma beijoca na testa! ;)

ila fox disse...

Quase-legal. Todo mundo vai ter um.

*

Ai Carrie eu nunca mandei um e-mail de corrente não, hahahaha, bom, já fiz a versão escrita mesmo, do tempo que internet era uma coisa muito hi-tech. :-P

*

Existem várias maneiras de ser mala, mas o mala escolhe sempre a pior! hahaha

*

Se "cuca legal" e "sem grilos" são adjetivos dos anos 70 o "alto astral" é dos anos 80. hohoho.
Voltando...

*

Cara, to adorando este post sobre quase-legais! hahaha

*

Carrie, nem sei o que dizer, aiai, só sei que acho que tudo é uma questão de compatibilidades químicas pessoais (aô heim??).
Esta pessoa q vc acha quase-legal tbm é considerada quase-legal por outras pessoas ou só por vc?
As vezes sei lá, encontro pessoas assim tbm, meu gênio não bate com o dela do nada! Todo mundo acha legal menos eu.
Prefiro pensar que foi ela que na outra vida puxou a guilhotina ou que colocou a corda em volta do meu pescoço. Não é possível. :-P

ila fox disse...

Carrie, lembrei desta frase agora:

"Todo mundo fala das pingas que toma mas não mostra os tombos que leva"

Talvez estas pessoas "quase-legais" são justamente as que escondem melhor os tombos, e ninguém gosta da idéia de conviver com seres perfeitos que parecem nunca errar.

A Amana disse bem isso, depois vc percebe que a vida da pessoa na verdade era uma farsa e que ela não era tão perfeita assim.

Acho que no fundo todos nós gostamos das coisas politicamente incorretas...

Lost Girl disse...

"O quase-legal é quase. Ele não vai ao fundo de nada. O quase-legal nunca é ridículo. Não abertamente. Ele tem medo do ridículo."

Sim. Medo nessa hora.

baianices disse...

HAHAHAHAHAHAHAHAHAAHAHA!!!!

Eu to rolando de rir, porque eu conheco o cara, sabe? E ele usava camisa de botao, de manga comprida, com o sueter jogado no ombro, como quem nao quer nada. Tudo isso nos anos 90!!! Era o tiozinho da sukita, mermao. E eu ficava boba como ninguem na thurma desconfiava de um cara que se vestia daquele jeito. Tipo, "eu tenho um visual cool desleixado" mas ele foi pensado e repensado, ele foi analisado no espelho pra dar o tom correto as coisas que eu vou dizer hoje.

Moral da historia e' que eu reencontrei o cara faz uns tres anos e eu queria que a thurma estivesse junto hoje, pra eu poder mostrar a eles que bolha aquele cara e'. Ele e' "total impostor", ele e' uma farsa!

Aaaaaargh! To pedindo pra sair, Carrie. Esse post me causou lembrancas desagradaveis.
Hhahahahahahaha!

Carla (passando mal)

baianices disse...

Carrie, tenta assistir seus programas de tv favoritos pelo hulu.com. Nao precisa baixar, nao precisa dor de cabeca.

mariana disse...

Para a comunidade “estabeleço cumplicidade para ofender”:

"Eu assisto a desenhos animados e não sou quase-legal. Sou mala, como vocês sabem"

Carrie, a Estranha disse...

Mariana (q de Mariana não tem nada...)

Acho q não, hein? Aí seria a comunidade "me auto-deprecio para ofender". Para a comunidade seria se eu dissesse: "eu tb sou quase-legal, por isso posso dizer" ou "eu tb assisto desenho animado, por isso tb sou quase legal e posso dizer")

Amana,

Avisa, avisa! E o cartão estourado foi só pra dizer "ó, como tenh defeitos".

;)

Ila,

Eu acho q as pessoas sequer conseguem enxergar os tombos.

baianices e Lost girl,

;)

Mas é o seguinte, minha gente: não se pode confundir o quase-legal com o MrPerfect. Não são a mesma coisa. O quase-legal passa a imagem de quem tem defeitos, sim - do contrário ele perderia a chance de ser legal, lembremos q ele está tentando ser legal.

Bjs

Amana disse...

E a Sandy, eh o q?
[pra eu rearrumar minha cabeca aqui]

E a pessoua que quando vai falar dos defeitos - tipo, numa dinamica de grupo, ou numa mesa quase-happy-hour, diz que o maior defeito dela eh ser perfeccionista? Ou vaidosa? Ou ansiosa?
Essa pessoa eh o q?

hahahah

obrigada pelos esclarecimentos, oh, oraculo!!!
[meu deus, menos 4 graus! pra que isso, sao pedro! eh carnavaaaaal!]

ila fox disse...

Amana,
Meodeooos, tem gente que fala este tipo de barbaridade em mesa de buteco? achei que fosse só conversa fiada de entrevista de emprego! pelamor...

Meu único consolo é que a Revolução virá e quando vier, esse tipo de gente vão ser os primeiros a dançar. Junto com o povo que bota roupa em cachorro. :-P

Carrie, a Estranha disse...

Amana,

A Sandy é perfeita. Não entra nessa categoria. Mesmo pq vc já viu a Sandy fazer alguma coisa mal feita? Ok, vc pode não gostar do estilo, mas ela canta perfeitamente, casou na Igreja, de véu e Grinalda numa cerimônia discreta, porém simples (nada de castelo italiano), passou pro vestibular de psicologia em quarto lugar na PUC de Campinas (depois mudou pra Letras), se formou essa semana e disse q vai continuar os estudos!! Quer dizer: ainda periga eu ser humilhada pela Sandy num Congresso de Literatura! Entre um filho e uma turnê internacional a mulher vai escrever uma tese q vai revolucionar a perspectiva dos estudos literários, é isso? Só rpa eu me situar. Mas não é esse tipo de gente a quem eu me refiro.

Esse tipo de gente q eu falo é tão legal, tão legal q eles não querem ser perfeitos - a Sandy quer. Eles assumem os defeitos (supostamente, pelo menos). Isso, eles diriam numa mesa de bar q são perfecionista, q se cobram muito, q ninguém é mais implacável q eles mesmos. São defeitos q ainda são qualidades. A Sandy diria q ela é meio mal humorada (e vc ali, pensando: é messs?) ou que queria ser mais dedicada aos estudos (o q é diferente de dizer q se cobra demais, entende?). Não sei se consigo me explicar. Não tem necessariamente a ver com o critério de "perfeição". O quase-legal é q nem o Aguas Quentes. Tinha tudo pra ser legal. Mas não é. Vc quer gostar do cara, da menina, mas ele...vacila. Gente boa, mas vacila. Faz "terapia" e diz frases como "meu terapueta disse...". Entende? Não sei...mas acho q essa sua amiga q vc descreveu pode ser, sim. O quase-legal nunca vivencia uma crise. Vc nunca o encontra mal. Mas ele tem. Só q ele sempre acabou se sair. É gente q vc jurava q era bacana e de repente vc descobre uma comunidade "eu amo a Fernanda Young". Aí a pessoa fala mal do Paulo Coelho, pq é moda, claro, mas compra todos os livros do Roberto Shyniashiki-nunca-sei-como-escreve. Manda msgs do tipo "vc precisa descobrir a Deusa q existe em vc". Acredita no poder das mulheres. Acha q todo homem não está com ela por medo, afinal ela é uma mulher forte (nem passa pela cabeça da criatura q o cara pode nãoe star a fim, simplesmente).

Enfim, é um tema complexo e sutil, confesso.

Ila,

Roupa em cachorro é a morte!

Bjs

Amana disse...

pronto. conceito perfeitamente assimilado.
(ah, e eu nao sabia que a Sandy-e-Junior era assim, achava q ela era... enfim)
Tem duas coisas piores do que roupa em cachorro, Ila: nome de gente metido a besta em cachorro e quando a dona comeca a falar com ele coisas do tipo "vamos, Richard, que a mamae ta chamando!", ou "Katty, vamos sair daqui porque as pessoas nao estao te tratando bem"... eu ja vi, juro. E isso nao eh quase nada, isso eh UO mesmo!

Raquel (NY) disse...

Oh, voce desfazendo da roupinha do Tinho, coitado... Ele vai ficar chateado com voce, voce sabe o tanto que ele ama aquela roupinha dele e nao fica sem ela de jeito nenhum.
Beijos, saudades
Raquel

ila fox disse...

Acho que bicho tem que ser tratado como bicho. Digo, com todo carinho e atenção e cheirinhos na barriga, mas como BICHO.
Me nego a por gato e cachorro meu para dormir em camas multi-coloridas, roupinhas calorentas, perfuminhos fortes... afff, deixa os bichinhos serem bichinhos né?

Carrie,
Seria o quase-legal um quase-perfeito-chato?