segunda-feira, setembro 22, 2008

A janela do meu quarto (uma delas, são 3) dá pros fundos de vários prédios. É uma areazinha comum que, de vez em quando tem uns churrascos. Tudo muito civilizado (sem pagodão ou funk até as 4 da manhã, como aconteceria em qualquer lugar do Brasil). Já vi também uma gordinha loura que tá sempre na lundry e algumas roupas estendidas no varau – se ela estende roupa não sei porque vai na laundry, bom vai ver que não é ela que estende. Mas o mais engraçado são os moleques que ficam à toa o dia todo (eu acho). Devem estar na faixa dos 20/25 anos. Tem um até bem bonitinho, eu o vejo na rua. Eles sempre saem pra atender o celular nessa área e fico escutando os papos (o que eu consigo entender). Sempre com meia dúzia de “fucks” e “doo” (ou Duh)...tem uma menina, também, que eu acho que rola um clima com um dos caras...

Agora, por exemplo. Plena segunda feira e os moleques estão sentados na mesinha, conversando. E eu aqui, prestando atenção neles.

Definitivamente eu preciso ir pra library todos os dias. Estudar em casa não é muito produtivo. O foda é que eu tô com 28 livros aqui. Se for pra lá, tenho que levar alguns e nunca levo os que tô precisando. Sem contar o peso de tudo. Não, não deixo os livros lá, porque alguém pode pegar e mesmo que deixe na Day Shelf (a prateleira do dia. Dã.), eles não respeitam e tiram – e até que eles voltam pra estante demora um século, aí eu tenho que fazer mó périplo pra achar os livros, ir no setor de não sei onde, falar com não sei quem...

Mas aqui é foda. Fico prestando atenção no não-banho da grega, nos moleques...olha que o lugar é até bastante silencioso. Mas cabeça de doutorando é ímã de merda. Qualquer coisa é motivo pra perder a concentração.


Trabalha, Carrie. Trabalha, fia.



* * *

Boa notícia: a agência de fome(nto) que financia minha estada em terras de Tomas Jefferson (como diria Orientador Amado), resolveu atender meu pedido e me pagar extra-folha de pagamento (eles só pagam de 3 em 3 meses, só que como só vou ficar 4, tava fudida). Até sexta recebo e depois recebo em outubro. Bem melhor do que receber tudo em novembro.

Vou gastar tudo chips naturebas e Victoria’s Secrets. Que tá numa promoção de 6 cremes (ou loções ou um creme mais grosso ou água de colônia ou perfuminho) por 30 dóla. Sim. Cinco dóla cada creme. O Jonhson’s no supermercado ou o Vasenol tão mais caros.

Vida dura. Mais uma pra série essa cidade piiiiira as pessoas: Victoria Secret’s é mais barato que Vasenol.

Ando cogitando seriamente a possibilidade de viver de venda de muamba depois que eu terminar o doutorado e até conseguir concurso pra faculdade pública (ou dominar o mundo, o que vier primeiro). Pensem bem: viria a NY com freqüência, curtiria a cidade, compraria coisas baratas e ainda por cima pagava minha viagem e fazia uma graninha. Não é incrível?


* * *


Ontem dei uma andada aqui pelo bairro em uma rua super movimentada que tem grandes marcas de lojas e eu nem sabia. Aí vejo uma loja: “Ipanema Girl. Mini-mercado brasileiro”. Entrei e, sociável como sou, comecei a conversar com a garota. Que era de Campos, interior do Rio, fazia faculdade e veio pra cá pra trabalhar nas férias, gostou e foi ficando. Ao voltar pro Brasil teria que repetir o período passado na faculdade, resolveu sair da faculdade, ficou sem trabalhar, entrou em depressão e voltou pra cá.

Mas a parte mais engraçada foi ela dizendo que no começo ficou um pouco assustada, afinal “as pessoas trabalham demais aqui! Banco abre domingo, tudo abre 7 dias por semana!” (pausa para as gargalhadas). Mas depois ela adorou. “Festa todo dia, museu toda hora!”.

Fiquei pensando na minha amiga Raquel que às vezes entra de manhã na terça pra trabalhar e sai quarta à noite do trabalho.

Como diria Mae West, você pode até tirar a garota do interior – do Rio – mas nunca vai tirar o interior – do Rio – da garota.

Depressão ela vai ter daqui a 10 anos quando ela se der conta de que ainda está trabalhando nessa loja, não tem nem um Greencard, nem um curso superior, quando as festas começarem a ralear e ela se der conta de que já tá meio tarde pra ela voltar pro Brasil. Mas isso é só minha – exagerada - opinião.


* * *

Eu agora finalmente entendo essas pessoas que não tem nada no Brasil e vem pra cá tentar a sorte – estilo Sol, da novela América ou várias pessoas de Gotham City, inclusive uma amiga de infância minha. Se você não tem nada no Brasil – incluindo uma qualificação - é muito, muito difícil que você venha a ter. A não ser que você entre pra algum negócio ilegal ou dê muita, muita sorte você não fica rico. Aqui não. Se você não tem nada, mas está disposto a ralar sem reclamar, como nunca ralou na sua vida inteira no Brasil, se está disposto a fazer coisas que você nem sonhava no Brasil (como faxina e lavar prato, por exemplo) você pode vir a ter a sua casinha de dois andares, dois carros na garagem, saúde, educação e segurança – o que no Brasil é ser rico. Ainda que fique ilegal. Eu finalmente entendi o que é o sonho americano. Ele existe, ainda que o país esteja passando por um período de crise. Você nunca será como eles, nunca será um WASP, mas terá o seu lugar – mais abaixo – na sociedade. O que pra quem tá quase na miséria no Brasil é algo a se considerar. Pela primeira vez eu começo a entender os milhares de habitantes de Governador Valadares e outros interiores que vem pra cá tentar a sorte.

Veja bem: não estou defendendo que as pessoas devam fazer isso. Estou apenas dizendo que, para uma determinada parcela da população brasileira, é uma alternativa muito melhor do que ficar na miséria no Brasil.

Esses dias eu vi um anúncio do metrô que eu fique chocada – e o metrô tem vários anúncios que me deixam chocada. Dizia que se você trabalhava na área do World Trade Center na época dos atentados e desde então tem tosse e outros sintomas que não me lembro agora, procure um serviço de saúde gratuito (aí eles dão o endereço da parada). Mesmo se você for ilegal.

Não é demais, isso? Mesmo você estando errado eles te ajudam. No Brasil mesmo você estando certo, pagando todos os impostos, você não tem direito a nada.

Tem mais um tanto de coisas que eu queria falar, mas o dever me chama.

11 comentários:

Lívia disse...

Da última vez que fui para aí, eu trouxe exatamente 42 cremes da Victoria´s Secret. Um exagero, eu sei. Mas é baratooooo!
Duro foi trazer esse peso todo na mala que tem que despachar (cremes não podem vir na mala de mão, ó vida, ó céus!).
Aproveita tudo aí! É maravilhoso!
Vc já viu as promoções de outlet? Da Nike, Adidas, Puma... Comprei várias camisetinhas por 6 dólares! Bolsas da Levi´s por 10 dólares e calças Guess por 15 dólares.
Não dá para perder! hahahahahaha
Beijos

Anônimo disse...

Com tanta compreensão só falta agora você voltar a confraternizar com sua amiga de infância e dizer que essa mania de brasileiro comprar no crédito parcelado é um absurdo... KKKKKKK Você está muito solidária Carrie. É a distância do Brasil, da família, dos amigos... Compreendo...
Nem me fale desses cremes. Paguei taxa extra devido aumento de peso na bagagem só por causa deles. SÉRIO: isso pesa pacas!!!!! Mas não tenha moderação. Compre mesmo!!! Morro de inveja!!!!! Bjs, Karine

Carrie, a Estranha disse...

Oi Livia,

Não, se quiser me passar esses endereços eu vou adorar!

Karine,

É, pode ser...acho q eles botam alguma coisa na água daqui e a gente sai pensando igual! Hahahaha...

Bjs

Joel disse...

E aí? Vai assistir com a galera da universidade?

Depois de vencer o Leão de Ouro no Festival de Berlim, em fevereiro, "Tropa de Elite", de José Padilha, segue carreira internacional com a estréia no circuito comercial norte-americano desde a última sexta-feira, 19, sob o título de "Elite Squad".

http://cinema.uol.com.br/ultnot/2008/09/22/ult4332u878.jhtm
Aqui tem o trailer em inglês

Olha a sinopse:
"Elite Squad" is an intense and astonishing look at Rio de Janeiro's notorious favelas, the volatile slums on the edge of the city, presenting an intimate look at the city's vast and intricate web of corruption. The elite BOPE force (State Police Special Operations Battalion) combats drug trafficking, keeping order has its price though and their actions make it difficult to distinguish right from wrong and justice from revenge. BOPE Captain Nascimento is facing a crisis: in addition to the pressures of fighting within war zones, the Captain must find and train his own replacement so he can escape the day to day violence and be close to his wife who is about to give birth to their first child. Two of the force's newest recruits, are childhood friends: one is quick on the trigger to maintain order and the other refuses to compromise his ideals. Together they are the perfect replacement. Alone they may not have what it takes to survive."

Se eu encontrar passando em San Francisco eu vou.

Helena disse...

Carrie, quando te vejo "falar" do Brasil parece que estou a ver-te falar do meu! Também quero ir viver o meu sonho americano, sniff...

Helena disse...

faltou: país!, do meu país.

Hasta

Carrie, a Estranha disse...

Joel,

Não me deprime, não, rapaz...como assim, Bial? Eu tento esquecer que o Rio existe aqui...Eu tenho vergonha de ver isso com alguém. Nego vai me perguntar: como assim, isso é mentira, né?

E aí, não vem mesmo a NY?

Helena,

Ah, mas tenha certeza q o seu país ainda deve estar muito melhor do q o nosso.

Bjs

Amana disse...

Calma, bety, calma.
Vc ainda está assim pq o inverno não chegou - espere mais um tiquim e daí vc me conta se o lado de cima é tão melhor q o de baixo... hehehe
tamos aqui, e vamo que vamo!!!
:D

"Mas cabeça de doutorando é ímã de merda."
XD

Virou minha frase - post it!!!
Beijuuuus

Joel disse...

Ninguém aí tem moral nenhuma de perguntar. O bicho pega aí também. E eu falo isso porque já morei aí e vi acontecer. Um belo dia meu pai sai de casa para ir no shopping e quando vira a esquina dá de frente com um tanque. Por causa dos riots do caso Rodney King o exército foi para rua (demorou mais 17 anos até acontecer isso no RJ). E bala perdida também tem muita.

A minha passagem é cheia de m. para trocar. Assim, a não ser que apareça mais um furacão em Miami e a AA flexibilize as regras, desta vez não vai ter big apple no meu caminho. Olho no weather channel.

Carrie, a Estranha disse...

Amana,

Ce num tah entendeiiindo baby! Eu vim aqui pra isso! Pra sentir frio! Eu amo frio! Odeeeeeeeeeio calor, sol, com todas as forcas de meu branco ser!

Joel,

Eh bem diferente...o caso Rodney King foi em LA e a represalia q se seguiu foi em funcao de questoes raciais. Foi um episodio bem pontual, ao contrario do Rio.

Violencia tem em tudo qto eh lugar. Mas as chances de vc ver alguma coisa aqui em NY sao beeeem menores. Disseminado igual eh no Brasil, desse jeito, nao tem nao. As pessoas abrem laptop em praca publica! No Village, q eh cheio de homeless! As casas/apartamentos aqui nao tem grade!! Isso eh muuuuito bizarro! Plena NY e nao tem grade! E as pessoas que moram nessas casas em locais mais distantes? Com gramados, vidro e nada acontece!!!

E bala perdida, aqui? Ah, nao tem mesmo. So se vc for pro Bronx, pra algumas areas do Brooklyn, de noite e se meter no meio de um tiroteio... em Manhattam so se for maluco de McDonalds - que no caso eh bala achada.

Alias, quero muito ver Battle in Seattle, nao sei se vc ouviu falar nesse filme. Sobre os protestos em Seatle, em 99...parece ser bem legal.

Ah, vou torcer pra ter outro furacoa, entao!

Bj

Milema disse...

Eu AMO os cremes da Victoria Secret´s. Queria estar aí...