quarta-feira, agosto 01, 2007

Dez razões pelas quais você (não) deve ser jornalista


Já que temos tantos leitores jornalistas ou estudantes de jornalismo, resolvi elaborar uma lista das razões pelas quais você NÃO deve optar pelo jornalismo. Caso a sua razão não esteja aqui, então é porque você realmente quer ser um jornalista – e me conta aí, porque até eu fiquei curiosa que razão é essa.

Mamãe diz que eu sou uma jornalista. Eu mesma quando vou preencher ficha ou preciso responder rápido digo “profissão: jornalista”. Mamãe também diz que no fim da vida eu serei jornalista. Sabem como é, né? Praga de mãe pega. Só se for pra substituir o Diogo Mainard no Manhatam Conection ou o Arnaldo Jabor. O fato é que nem meu registro no ministério do trabalho eu tirei.

Vamos lá.

Quero fazer jornalismo porque...


1) Gosto de escrever. Mas não quero fazer letras porque não quero ser professor.

Eu caí nessa.

Esqueça. Jornalistas não escrevem. Jornalistas obedecem a uma receita de bolo – o quê, quem, quando, onde, como e porquê. Em inglês, os seis “Ws”. Pirâmide invertida. Mais informação em cima, menos embaixo. Se sua matéria não couber eles cortam teu texto pelo fim.

Jornalistas-literatos como Vitor Hugo, Hemingway, Fitzgerald, Truman Capote, João do Rio e Nelson Rodrigues eram no tempo em que não existia faculdade de jornalismo – antes que alguém me pergunte eu sou, sim, a favor da queda do diploma pra se exercer o jornalismo. Qualquer um pode ser jornalista. Ou você já pensou se resolvessem pedir o diploma dessa turma aí de cima?


2) Quero ser apresentadora de TV


Relouuuu? Conhece Luciana Gimenez, Adriane Galisteu, Angélica, Sônia Abrão? Alguma delas fez Jornalismo? Pois é. Vá fazer uma lipo ou renovar o silicone que você ganha mais


3) Gosto de lidar com gente


Até é uma justificativa. Mas existem diversas outras profissões que também o fazem. Pense bem. Caixa de banco, ascensorista, psicólogo, médico, professor...


4) Gosto de saber o que acontece com o mundo


Idem. Você já pensou em ser diplomata?


5) Quero ser um “formador de opinião”, influenciar o modo como as pessoas vêem as coisas.


Hahahaha...Acho super engraçado esse termo “formador de opinião”. Não se forma a opinião de ninguém. No caso do jornalismo, então, se deforma.

Em segundo lugar, você estará se chocando com um dos princípios básicos do jornalismo que é “ser neutro e imparcial”. Ah, mas a sua imparcialidade é melhor do que as outras, né? Falou, então.


6) Quero estar onde a notícia acontece, vendo a realidade dos fatos.


Hahahaha...pára, pára, assim eu vou morrer de tanto rir.

Em toda a ciência humana se você disser que é possível enxergar a “realidade como ela é” as pessoas vão rir da sua cara. Não, amigo leitor, não estou querendo dizer que o mundo é uma ilusão, que there’s no spoon, mas o que o jornalismo faz, assim como a história, a ciência política ou qualquer outra ciência humana (nem vou entrar nos méritos de que se o jornalismo é ou não ciência), é (re)construir socialmente a realidade. Isso é um pressuposto básico pra área humana. Menos para o jornalista. Jornalistas acreditam que estão vendo os dois lados da história. Mas quem disse que a história tem apenas dois lados? Tá bom, então eles estão vendo todos os lados da história. Impossível. A história tem tantos lados quanto observadores. Não existe “o fato”. Você não anda na rua e tropeça com o fato. Oi, Fato, tudo bem? Mas vai falar isso pra um jornalista? Eles simplesmente não conseguem sequer conceber isso. Pra eles existe a realidade e eles estão transmitindo-a de forma neutra, imparcial e objetiva. Eles vão lá, pegam um pedaço da realidade como quem pega um pedaço de acém ou contra-filé, colocam no prato e servem, dizendo: “toma a realidade”.

E – tcharãn! – é por isso que a gente tem que ter filosofia e sociologia na faculdade de comunicação. Não é pra você ir fumar unzinho no DA e entrar na sala nos cinco minutos finais e querer discutir a Fenomenologia do Espírito, de Hegel, com o professor e fazer comentários geniais do tipo “Marx era muito doido, fessora!”. É pra fazer esse tipo de questionamento.

Pena que, se você realmente tiver um bom professor e entender a aula (coisa rara) e fizer esse tipo de questionamento, você vai ver que está no lugar errado. Porque o atual estágio do jornalismo não deixa que você faça algo diferente disso. Não há como lutar – e nesse caso, não há brechas. Ah, mas eu vou trabalhar na Caros Amigos. Ok, só que ainda assim você estará apresentando um lado só da coisa, entende?


7) Tenho um vago interesse em arte. Quem sabe eu trabalho em algum caderno cultural? Ser crítico...Também odeio química, física e matemática e tenho um grande interesse na área humana, mas não quero ser professor.


Eu caí nessa (vejam bem, eu caí em todas que me faziam fugir de ser professor e hoje o que eu faço? Doutorado. Pra quê? Pra ser professora!)

Meu amigo, as chances de você sobreviver no jornalismo até chegar a uma editoria de cultura são muito poucas. Até lá você vai ter que entrevistar buraco pro Plantão Globo Cidade, fazer cobertura de polícia, ouvir rádio de polícia (trabalho básico pra todo estagiário em grande redação). E ainda que você chegue, a editoria de cultura não tem nada de muito diferente das outras seções - também existe a receita de bolo. Exceto ganhar uns ingressos de graça pra assistir shows. Mas eu prefiro pagar do meu próprio bolso.

Crítica? Você tem muito mais chances de ser um bom crítico se fizer uma faculdade específica de letras, música, teatro...

Lúcia Guimarães existe uma só e o emprego dela no Manhatam Conection está assegurado – ai, como eu odeio essa mulher e tenho inveja...muito mais da Grazi em namorar o Cauã...


8) Amo esportes. Quero ser jornalista esportivo.


Até pode ser uma boa razão. Mas eu tenho um amigo que fez por esse motivo, estagiou na seção de esporte do Globo e mesmo assim odiou. Por causa de todos esses fatores acima descritos.

Porque você não faz educação física?


9) Jornalistas são cool, são in, convivem com gente bacana. Além disso as melhores festas são da faculdade de comunicação e as meninas mais bonitas são de lá.

Cool? In? De onde você saiu, amigo? Do caderno Ela? De uma rave em Vargem Grande? Do São Paulo Fashion Week?

Se você tem até 18 anos, acredite: isso pode parecer uma ótima justificativa, mas daqui a dez anos não vai fazer o menor sentido. Além disso, todas as meninas que eram gatinhas terão embarangado, pois trabalharão que nem o capeta numa redação e não terão tempo de malhar nem de cuidar de nada.


10) Quero ganhar dinheiro e ficar por aí, nas festas, nos eveiiintos, sabendo o que é tendeiiiiincia...


Eveiiintos? Tendeiiiincia? De onde você saiu, amigo? Do caderno Ela? De uma rave em Vargem Grande? Do São Paulo Fashion Week?

A menos que você seja a Fátima Bernardes ou o William Bonner – que ganham na faixa de uns 80 mil por mês, cada um – o salário médio de um jornalista médio num grande centro fica em torno de uns 3 mil reais. Sendo muito otimista. Ralando mais de 10 horas por dia. Isso não é nada em capitais como o Rio e SP. Caso você chegue a alguma editoria, isso pode chegar até seis mil – eu conheço professores universitários que ganham bem mais do que isso, trabalhando bem menos. E você trabalha que nem um corno. Estourou rebelião não sei onde, o ACM foi internado, você não sai do jornal até a rebelião acabar e véinho morrer! Fora os famosos “pescoções” – plantões em que você precisa estar na sua redação ou repartição nos finais de semana e feriado. Claro que rola um rodízio, mas claro que um dia você vai ter que ficar no Carnaval, Natal e Reveillon. Sem contar que todos os grandes jornais estão passando por crises financeiras e se reestruturando. Há cada vez menos vagas.

E, na boa: você jura que ia querer ser que nem a Fátima ou o William?



Por isso, se você se viu em algum desses casos: fuja em quanto é tempo. Não pense: “ah, já estou no sexto período agora eu me formo”. Vai fazer outra coisa da vida. Porque depois que você entrar, fica muito mais difícil sair. E quando você começar a ganhar algum dinheiro, piora. Fica cada vez mais difícil. É uma bola de neve.

E eu nem incluí áreas como Assessoria de Imprensa, pois aí é pior ainda. Eu defendo a tese de que Assessoria não deveria ser uma área do jornalismo e sim de marketing ou publicidade. Aí é vender a alma ao diabo legal.

Mas se, mesmo assim, você quer fazer jornalismo, então você realmente tem a vocação. Ou é muito burro. Ou, como todo adolescente, precisa quebrar a cara por você mesmo – como eu tive - e não ficar ouvindo conselhos de gente mais velha. Isso eu respeito. Não se esqueça: não confie em ninguém com mais de trinta. Eu sou quase uma pessoa em quem não se deve confiar. Quase. Ainda não sou.

16 comentários:

Bella disse...

oiê!
cara, esse texto desanima mesmo hein?? haha!
ainda bem q eu não fiz jornalismo... depois dessa...
na época do vestibular até coloquei tb, mas não passei pq tava na moda e era mto concorrido. acabei fazendo letras q era minha primeira opção mesmo e bem mais fácil de entrar.
isso pq eu não queria ser professora!! hj eu rio de mim mesma! haha!
bjs

Bella disse...

ahh, tb acho q faculdade de jornalismo é meio nada a ver... sei lá, mas cara, não consigo entender pq alguém precisa fazer 4 anos de facul para ser jornalista. até outro dia, esse curso nem existia...
mto mais fácil vc ser de outra área qq e escrever sobre ela....
bjs

Ione disse...

Concordo com vc. E ainda tem mais, colegas puxando o seu tapete por causa da concorrência, uma falsidade danada... E não poder escrever certos fatos por causa dos interesses do jornal para o qual você trabalha. Como eu escrevi no comentário anterior, quando saí do Brasil ainda continuei o curso (se bem que aqui é mais teoria da comunicação, jornalista mesmo não precisa de diploma) mas vi que não era a minha praia e tô na área de tradução.

Andrea disse...

Eu conheço jornalistas felizes. E conheço professores frustrados às pencas. É questão de vocação. Eu não me vejo fazendo outra coisa que não dar aulas, acho que morreria de tédio. E tem gente também que tem esse tesão da notícia, de redação, de gostar mesmo de não parar...mas eu concordo com você que tem muita gente fora do mercado por acreditar nesses motivos errados que você enumerou e principalmente por não ter o perfil para a coisa. Tem gente que gosta de ouvir o radinho da polícia, acredite.

KARINA F disse...

obrigada, obrigada. eutenho umas coisas de louca, de pedir uma resposta a alguma poergunta que eu faco a mim mesma e estou ate arrepeiada. eu nao sabia se deveria largar o curso de jornalsimo. eu sabia que tinha um motivo pra isso mas quqais exatamejnte nao.e todos os que vc citou sao exatamente o que sinto. pode parecer idiota isso que escrevi e realmente e, mas a resposta veio. veio! obrigada, um beijo, zwdrei, vier, funf. tchusssssssssssssssssssss

Anônimo disse...

Jornalismo é uma carreira esquisita, é verdade. O salário não é uma Brastemp, poucas vagas e horas de trabalho intermináveis. Mas há quem ache tudo isso ótimo. Não sabemos dizer quando estamos trabalhando e quando não estamos. E somos felizes assim.
Alguém já perguntou porque um médico fica 12 horas vendo feridas, medindo temperaturas e abrindo vísceras?
Carrie, respeito por você não ser feliz como jornalista. Mas tem gente que é.

nervocalm balas disse...

Não sei se você sabe, mas eu estudei jornalismo. Caí logo na número um: achei que jornalismo era viver de escrever, mas na faculdade descobri que era viver de falar com pessoas, muitas pessoas, ou seja, meu pior pesadelo. Acabei me formando, sei lá como, mas nunca trabalhei como jornalista, não tenho registro, nada. O curso em si é uma perda de tempo (ai, quem me dera ter feito outra coisa) e a obrigatoriedade do diploma, claro, é uma piada.

Bella disse...

concordo com a andréa tb. realmente tem gente, que apesar de td, se identifica com a profissão. como eu disse, tava na moda qdo eu fiz vestibular, fazer jornalismo então eu tenho váriossss amigos nessa área e mtos deles não se arrependem da escolha mesmo.
e tb existem profs frustrados, com certeza. inclusive, dependendo da onde vc trabalhe como professor, vc tb é obrigado a seguir uma linha na qual a sua vontade não impera mto... ou não impera nada mesmo. e td aquilo no qual vc acreditava vai por água baixo...

Carrie, a Estranha disse...

Oi, Gente!

Sim, eu concordo com todos vcs. Claro que devem existir jornalistas felizes. Eu realmente não conheço nenhum, mas claro que deve haver. Só quis listar q as razões mais comuns pelas quais um jovem escolhe essa carreira são errôneas. Mas, se vc achou algum outro motivo - e como eu disse, alguns dos motivos que eu listei são consideráveis - para fazer jornalismo, que bom. Só acho q é uma das áreas em q as pessoas mais cometem enganos.
Qto ao médico, q alguém aí citou, bom eu entendo perfeitamente o fato de uma pessoa passar 12 horas vendo feridas. Talvez porque meu pai tenha sido médico. Isso se chama ajudar ao próximo. Agora, jornalismo...sinceramente eu não consigo ver uma função útil no jornalismo. Não da forma como ele é feito atualmente. No passado sim, mas isso q virou hoje em dia, não. E acho q voltaríamos a ter um jornalismo de qualidade se caísse a exigência de diploma - aliás em quase todo mundo é assim - e se pedisse apenas uma formação universitária. Porque, convenhamos, quem, quando, onde, como, por quê e o quê até macacos amestrados aprendem. Pensar é outra coisa. Pensar qualquer curso da área humana te ensina - quer dizer, não ensina, mas dão as ferramentas para tal.

E, claro q existem milahres de professores infelizes. E médicos, e dentistas e arquitetos e atores e músicos...

Karina F,

Vc é louca. Completamente biruta. mas eu gosto de vc mesmo assim. Aliás, eu gosto de vc justamente por isso. E não é q eu não leie o "seu" blog. Eu leio um blog ou outro, de vez em qdo.

bj a todos

Cris disse...

outra piada de mau gosto: curso de turismo. tive uma turma de alunos de turismo esse semestre na faculdade [os quais, seguindo a lógica do curso, eram, obviamente, turistas...] e fiquei pensando: meu deus, pra quê? pra que essa cultura maldita do diploma? um bom curso de pós-graduação não resolveria o problema desse pessoal? enfim, o mundo está cheio de coisas incompreensíveis mesmo...

Fábio Santana disse...

hahaha... muito perspicaz... estava rodando na internet e olha onde vim parar... ah, mas não se preocupe, não faço jornalismo.
Inté!

jorhana disse...

pow gente..tava tão animada..e agora o que eh que eu faço?? gosto de lidar com pessoas , de me comunicar, e alem de tudo meu pai tem uma revista de animais, e ai eu pensei:"hum..eh uma forma legal..jornalismo assim poderei assinar a revista e tal..etc".
estou prestes a fazer o Pss, ai qd resolvo pesquisar mais um pouquinho..encontro esses comentarios completamente desmotivadores :(

Carrie, a Estranha disse...

Cris,

Com certeza! Forma de extorquir dinheiro das pessoas, né?

Fábio,

Acho q te vi no blog do Júlio. Seja bem-vindo.

Jorhana,

Ué, mas então! Vc listou boas razões para se fazer jornalismo. Vc já tem garantia de emprego e gosta de lidar com pessoas. Ótimos pressupostos. Tb me parece q não tem gdes ambições de ganhar dinheiro. Pronto! Vc não vai se decepcionar. Está escolhendo pelas razões certas!

Bjs a todos

Anônimo disse...

Interessante tudo o que li. Terminei o 3º período do curso de jornalismo e ainda não fiz a rematrícula para o próximo semestre...de repente me senti um peixe fora d'água, desatualizada, desestimulada. Então preferi esperar e pensar melhor se realmente queria voltar ao curso. E esse "pensar está durando 1 mês, sendo que as aulas começaram à 2 semanas...rsrsrs
Enfim, tive dúvidas até agora. Mas passeando pelo Google (Santo Google de todos nós!), encontrei esse blog e entrei...e li o texto, tópico por tópico...
Aiií! Obrigada!!!!!!
É, eu quero ser jornalista. Tudo bem que em alguns dos tópicos eu não me identifiquei mesmo, do tipo ser apresentadora...mas sim, eu gosto de escrever, não sei ser imparcial (ainda), tenho a necessidade de estar bem informada e eu quero poder fazer alguma coisa pelo meu País!
É, eu quero ser jornalista e trabalhar numa redação de jornal. Quero quebrar a cara e não me importo em passar natais e feriados trabalhando.
Só não quero continuar ganhando bem como eu ganho hoje (Funcionária Petrobras) e ir para o trabalho todos os dias frustrada com meus gerentes, commminhas funçoes. Ter úlcera por causa da Petrobras??? Prefiro morrer como jornalista. Fazendo o que eu nasci pra fazer. Amanhã vou renovar minha matrícula na faculdade e mesmo que eu nunca consiga mudar o mundo, eu vou viver sabendo que EU faço as minhas escolhas, que EU sei o que é certo e errado e que EU não sou só mais uma.
Obrigada mesmo pelo seu texto super baixo-estima! Tenho certeza que estimulou mais pessoas do que imagina.

Carrie, a Estranha disse...

Puxa, Anônimo! Q bom! Fico feliz q tenha ajudado as pessoas a se decidirem. Foi essa a minha intenção: fazer com q as pessoas se decidam pelos motivos certos. E não pelos errados.

bj

KARINA F disse...

vc acertou em cheio. eu sou louquinha, completamente biruta. mas fiquei feliz que vc gosta de mim....sabe, todo mundo diz isso de mim.... acho que é porque eu não penso antes de falar, de escrever.....isso me traz problemas, mas fazer o que....sempre fui assim. beijos, darling.