domingo, junho 17, 2007

O mundo é estranho



Eu e Formiga Sister estávamos ontem empenhadas na tarefa de obter algum nível de fruição e entorpecimento por intermédio do álcool não tão longe de casa. Depois de algumas combinações que malograram, acabamos indo apenas nós duas para o bar Mofo, nas imediações flamenguísticas. Trata-se (ou deveria tratar-se) de aprazível boteco com ambiente retrô – como o próprio nome já diz e como tudo que é muderno hoje em dia. Até aí tudo bem. Mas não pensei que eles levassem tão a sério a coisa de mofo. Na nossa mesa ao lado, as três moças que bebericavam seus chopps viram nada mais nada menos do que duas baratas transitando livremente. A garçonete explicou que o bar está em obras – como de fato está – mas as moças acharam melhor suspender o pedido e irem embora. Eu e Formiga Irmã, que cogitávamos lambiscar algumas iguarias, conjeturamos sobre a possibilidade de evadirmo-nos do recinto, em função da ameaça do referido blatídeo. Não que eu seja moçoila dada a semelhantes achaques. Meu espírito de caminhoneiro hooligan me faz de uma serenidade tibetana, mesmo quando me deparei com uma ratazana no Manoel e Joaquim (outro boteco) do Largo do Machado. Entretanto há que se considerar certas condições mínimas de higiene. Eu sei que “cozinha de restaurante e passado de mulher se você souber não come”, ou, como diria Bismarck: “quem gosta de lingüiças e cumpre as leis nunca deveria saber como elas são feitas”, todavia há limites. Há limites, meus caros.

Deslocamo-nos então para o Belmonte, boteco conhecido onde nunca avistei insetos nem outros animais, e cujo pastel de camarão SEM catupiry é divino e absolutamente lotado de camarões enormes, tenros e suculentos. Enfim, aqui começa nossa história, paciente leitor.

As mesas do Belmonte são absolutamente coladas uma na outra, de forma que é quase impossível não ouvir a conversa das pessoas. Pois bem. Eis que sentamos ao lado de dois casais, na faixa dos seus 20-30 anos. Ambos namorados, coisa que aferimos em minutos. De repente começa a sucessão de pérolas que me faz realmente pensar o que essa juventude tem na cabeça que não está se drogando tranqüilamente em algum lugar. Tsc, tsc, tsc, tsc.

O que me chocou no diálogo entre os quatro foi uma postura bastante recorrente em casais da minha (hein? Minha quem, cára pálida?) geração. A necessidade de casar. E mais: uma necessidade que é sempre exclusivamente feminina, cabendo ao homem o papel do “garanhão” que está sendo laçado à sua revelia e precisa fazer o gênero negociador.

Vamos aos personagens. Ao meu lado estava o que chamarei de casal A, composto por – vamos usar nomes fictícios para poupar as identidades – André e Márcia. Eu não conseguia ouvir muito bem o que eles falavam. Quem ia me informando era Formiga Sister. Da mesma forma, o casal ao seu lado, que chamaremos casal B, Anderson e Lúcia, era mais audível para mim e menos para ela. De forma que estabelecemos um escambo de informações que tornaram plausível toda a história.

O mais engraçado é que os dois casais estavam relativamente mansos ao chegarmos. Quando o tópico “casamento” foi mencionado a coisa toda começou a degringolar e risinhos histéricos e nervosos podiam ser ouvidos de ambas as partes por ambos os sexos.

Aqui é preciso inserir um adendo. Vocês não têm idéia da cara de F.S. Minha irmã é uma das pessoas mais engraçadas do mundo. E o fato dela ser engraçada se deve, em grande parte, ao fato dela ser a pessoa aparentemente mais normal e séria do mundo. Aí de repente ela solta uns olhares e uns comentários impagáveis. Enfim, sabendo que é impossível reproduzir a expressão facial das pessoas em palavras faço essa mera tentativa. Voltemos a nossa emocionante narrativa.

André e Márcia se conheciam há um ano e três meses e haviam marcado o casamento para abril. O casamento terá mil papagaiadas, do tipo ele cantar uma música pra ela...Ambos eram de Juiz de Fora, mas André mora no Rio. Faz doutorado em alguma coisa relacionada a animais. É colega de Lúcia. Márcia, a namorada de André estava passando o final de semana no Rio. (Eles ainda iam à rodoviária trocar as passagens porque ela decidira ir embora somente na segunda). Márcia é psicóloga e tem os cabelos platinados na altura do cóccix. Manequim 34 no máximo. Lúcia e Anderson namoravam a um mês e meio. Ele, cabelos ligeiramente grandes. Ela com cabelão enorme e louro como 999.839 das mulheres do Rio de Janeiro.

Chamou-me inicialmente a atenção no casal à minha diagonal esquerda, Lúcia e Anderson, o fato de que ela dizia algo sobre desencalhar. Ela não parecia ter mais de 25 anos. O próprio conceito de encalhada, levado a sério, já é algo que me espanta. Ainda mais numa pessoa de 25 anos. Parece que eles tinham sido convidados para serem padrinhos de alguém da família dela. Isso porque eles têm dois meses de namoro – as pessoas não se dão conta de como é chato depois ficar olhando fotos de ex em álbuns de formatura, casamento etc – e começou a rolar uma certa pressão para que eles casassem. Isso porque ele chocou a família dela ao chegar de cabelo comprido. Dá licença que eu vou ali no banheiro injetar uma heroinazinha e depois volto.

E todos riam alegremente achando super divertido e super normal que quisessem se casar com menos de dois meses de namoro. E o que eu acho mais curioso: é bom que as mulheres façam o tipo que “pega no pé” e os homens fiquem sempre nessa postura de “estou negociando”. Porque é isso que se espera de homens e mulheres. As mulheres querem sempre casar e ter filhos, porque é da sua natureza e os homens gostam de espalhar a semente por aí. Literalmente. E há pilhas de teorias biológicas pra comprovar a sem vergonhice masculina e para condenar como puta a mulher que faz isso.

Márcia diz: “com dois meses de namoro eu disse pra ele: o que você quer da vida? Eu sou apenas uma aventura?”. Formiga Irmã ameaçou um desmaio, mas eu disse: força. Vamos continuar.

Quando Lúcia foi ao banheiro, Anderson contou para o casal ao meu lado: “a gente tem a mesma linha de raciocínio, pensa parecido, rola uma química” ao que o outro retrucava palavras de incentivo do tipo “ah é, essa coisa de tempo é relativo, quando bate...”.

Eis que a conversa passou para o tópico “profissões”. André, aquele ao meu lado, começa a contar de um amigo dele: “o cara ganhava quatro mil reais e largou tudo pra fazer mestrado porque não estava feliz”. Gargalhadas. Juro que eu tentei achar a graça da história (e estou até agora procurando). O cara continua: “Eu falei pra ele: cara, o homem corre atrás de três coisas: mulher, carro e dinheiro. Sabe quando vai demorar pra você ganhar isso de novo?”. Enquanto Formiga Irmã me dissuadia da tentativa de suicídio no resto do chopp, lembrou-me o trecho do livro O Chalaça: “o homem corre atrás de três barulhos na vida: do aplauso, do gemido de uma mulher e do tilintar de moedas”. Formiga Irmã pensou que ele ia citar essa frase. Uma otimista, essa minha irmã. Imagina se eles seriam sofisticados a esse ponto. Mesmo porque as mulheres deles não devem gemer. Só se for de dor, mesmo. E aplauso? Certas pessoas não vêem graça nisso.

Eu sei que vocês devem estar pensando: e quem é você, Carrie, para julgar as pessoas? Você é muito melhor que eles? Não. Graças a Deus eu sou muito pior que eles. Só que é isso que me faz melhor. E eu lamento que esse tipo de comportamento machista, ainda que feito de forma jocosa do tipo ela-quer-me-por-a-coleira, reforçado por um sentimento de quase orgulho da mulher, de vou-dar-jeito-nele, seja visto como legal e divertido. E depois essas mesmas mulheres se escandalizam em descobrir as amantes de seus maridos – ou os amantes. Como ó-não-conhecia-esse-lado-dele. E vão criar seus filhos da mesma forma e eles vão reproduzir a mesma coisa.

Chamem-me de idealista, de maluca ou o que for. Mas impressiona-me profundamente que a ambição da maioria das pessoas da minha idade seja casar, ter filho e um emprego de quatro mil reais. Eu sei que pode ter gente que goste realmente dessa vida, e não estou dizendo que ela de fato não seja boa, mas desconfio quando todo mundo quer a mesma coisa. Falo de um padrão que é seguido por tanta gente que eu me pergunto se essas pessoas já se questionaram se é isso mesmo que elas querem. Cumprem essas etapas como se fosse mais uma, como o primário e o ginásio, e se refestelam na poltrona do sofá para assistir ao futebol, com suas latas de cervejas e seus barrigões, afinal de contas eles já casaram, já tem filhos e a vida tem pouca coisa a lhes oferecer. De vez em quando eles pensam em como poderia ter sido a vida se tivessem simplesmente aceito aquele emprego em outra cidade, adiado o filho ou casado com aquela menina maluca ao invés de Maria Eugênia. Mas aí eles abrem outra cerveja e pensam: a vida é isso. Trabalho é chato e casar é isso mesmo; mais dia, menos dia todo homem tem que se submeter a isso. Como se não fosse possível outra forma de vida.

Saímos eu e Formiga Irmã, pensando assim como Caetano: ainda bem que a gente não é mulher.

10 comentários:

Andrea disse...

Chocadíssima, em primeiro lugar, porque adoro O MOFO e em segundo porque me imaginei a única farsante a se divertir "esperando alguém1 no Belmonte só para entrar na intimidade da conversa alheia.

carria, de segunda a quinta, dá um pessoal diferente...publicitários, artistas, que constroem raciocínios ao contrário desses aí mas igualmente babacas.

nervocalm limão disse...

Ainda bem que eu não sou mulher. Vou adotar.
(mas foi o CV mesmo quem disse?)

KARINA F disse...

que post ótemooooooooooooo. concordo contigo. eu demorei e demorei para casar e minhas amigas diziam: mas vc tem que casar, pode perdê-lo, onde já se viu....
não, eu não fiz como elas. aliás, nem minhas amigas são. de duas palavras, nem merda sai, desculpe.mas todas casaram em igreja, bolo, muita gente, mostrando que finalmente DESENCALHARAM,provando a sociedade que agora tenho um homem e o próximo passo é emprenhar para mostrar que meu homem e eu somos viris.
quanta bobagem! casei no cartório, só as pessoas que me importavam estavam presentes...e até hoje, memso com toda a pressão de família,marido, sociedade, me recuso a fazer parte de toda essa palhaçada de que seremos felizes para sempre. prefiro "que seja eterno enquanto dure."

Ione disse...

Ei, Carrie, onde é esse "Mofo"? Já devo ter te visto nessas áreas, não é possível... Eu morava no prédio ao lado do Oklahoma, saca? Vivia ali no Belmonte. Aliás, eu nem ia tanto... Ía mesmo era pro Garota do Flamengo. Nossa, que saudade da picanha na chapa... :-)
Bem, quanto ao post, não me espanta esse tipo de conversa. Eu morro de abuso, mas dou graças a Deus que penso diferente. Teria muito o que falar sobre o assunto, mas enfim... O melhor foi saber que homem quer "mulher, carro e dinheiro". Ai, ai....
Beijos e fique bem!

Carrie, a Estranha disse...

Andrea,

Pois é, eu tb to pra ir ao Mofo a um tempão. E não tive lá uma impressão muito boa. Entretanto, há que se fazer a ressalva das obras. Obra junta entulho. Logo a barata.

Qto às pessoas se segunda à quinta...sei não. Tenho medo de publicitários e artistas q constroem raciocínio. Aliás, tenho birra de publicitários em geral. Agora, o Belmonte é dez.

Nervocalm,

O Caetano disse isso numa entrevista cretina em q perguntaram "o q vc, enquanto homem e branco, acha do..." (não me lembro o q). Aí ele respondeu: em primeiro lugar, "não sou homem e nem branco".

Karina,

Puxa q bacana! Desejo toda a felicidade a vc. E que dure o tempo q durar.

Ione,

O mofo fica na Barão do Flamengo (aquela do posto de gasolina), ao lado de um restaurante peruano.

A picanha do Garota é tudo! Pena é sair com o cabelo "sabor picanha". mas vale a pena. E os acompanhamentos? Hummm...

Dissimulada disse...

Deve ser por isso que a humanidade caminha tão mas tão lentamente...Quando você diz :essas mesmas mulheres ...vão criar seus filhos da mesma forma e eles vão reproduzir a mesma coisa...com isso disse TUDO !

Jussara disse...

Hilária a sua narrativa , Carrie!! impagável!
A frase "e se refestelam na poltrona do sofá para assistir ao futebol, com suas latas de cervejas e seus barrigões" me deu até arrepios, pq conheço gente assim...arrrrgh!! e a vida é tão mais que isso, né? então, acho que o problema não é querer casar, ter filhos e emprego de tantos mil reais, mas fazer isso por obrigação, por conveniência, por pressão, ou como se não houvesse outras coisas pra se fazer na vida.O exemplo do casal de dois meses de namoro ilustra mto bem isso. E o parênteses que vc fez "as pessoas não se dão conta de como é chato depois ficar olhando fotos de ex em álbuns de formatura, casamento, etc." , me fez lembrar de uma historinha que aconteceu com um primo meu; e não foi nem ex-esposa, foi ex-namorada, mas daquelas grudentas, que o chamava de marido com 3 meses de namoro. Foi hilário.

Carrie, a Estranha disse...

Pois é, Jusssara. O problema é modo como se faz as coisas.

bjinhos

Roberta Carvalho disse...

Fui no Mofo só uma vez, com O Orientador, e também achamos muito...mofado. Havia baratinhas "francesas" em tudo qnto é canto e paredes, além do banheiro ser sórdido toda vida. Não volto lá.

julie disse...

nossa, faz tempo q eu não comento, mas não resisti a este post.
a próxima etapa, depois q se casa,e a nível do primeiro ano do resto de nossas vidas, é ouvir aaquelas pessoinhas sorridentes e expectantes "e aí, quando é q vem o neném?", e vc, q demorou p caralho p sair da aba da sua mãe, q demorou p caralho p terminar a faculdade, q demorou p caralho p conseguir andar com as próprias pernas, tá pensando somente q vai curtir p caralho o seu casamento, curtir cada pequena vitória juntos, desde as pequenas coisas materiais até as pequenas coisas aprendidas sobre como viver com o outro, antes de acrescentar uma outra variável eloooorme nessa equação. essas pessoinhas, com suas poltronas e suas cervejas e suas barrigas e seus filhos, essas sim, têm todas q morrer uma morte bem horrível.