segunda-feira, maio 28, 2007

Entre Lutero e Erasmo


Por uma dessas estranhas coincidências da vida, uma amiga da época da faculdade – se é que eu posso usar as palavras “amiga” e “faculdade” na mesma frase – veio parar nesse blog, pesquisando sei lá o quê. Ela não sabia que eu era eu, só depois é que descobriu. Nem mora no Brasil. Era uma das poucas pessoas com quem eu falava na época da faculdade e foi bacana reencontrá-la virtualmente. Feliz coincidência.

Ontem, trocando e-mails, ela comenta de outra amiga também da faculdade, que eu também conhecia, que morreu. De acidente de carro. Tava lá, toda feliz com a vida dela, com as coisas que ela tinha sonhado e morreu, deixando filha e marido. Por outra coincidência o acidente foi em Volta Redonda. Numa rodovia que na época nem tinha sido inaugurada. Do nada sai uma picape e arrebenta o carro dela. Infeliz coincidência.

O mais estranho é que ontem eu tava justamente pensando em quais dos meus colegas de colégio estariam mortos. Eu sei é um tema muito estranho para se pensar – ainda mais ontem, que eu estava particularmente bem humorada -, mas eu penso nessas coisas estranhas – e em outras muuuito piores. Pensava: será que a fulaninha, que usava Maria Chiquinha e sentava na terceira carteira ainda está viva? Será que o beltrano, que minha mãe vivia brincando com a dele que a gente ia se casar já morreu (nesse caso eu já estaria viúva)? E aí hoje eu fiquei sabendo disso. Coincidência.

Devemos ter trocado meia dúzia de palavras, mas mesmo assim fiquei chocada. Talvez por saber que ela estava feliz lá na vidinha dela e eu tenho uma teoria maluca de que a gente não pode ser muito feliz, porque isso logo nos é tirado. Não podemos irritar os deuses. É eu sei que não faz o menor sentido, mas é a velha teoria do “ninguém chuta cachorro morto”. Ou, como diria Nelson Rodrigues, “o mineiro só é solidário no câncer”. Não é só o mineiro. É o mundo. Tenho muito medo desse troço chamado felicidade. Quando ela vem assim, em estado bruto. Parece que a vida fica suspensa e você fica pensando: até quando isso vai durar? Porque nada dura para sempre. Nem a tristeza. Essa é a parte boa.

Quando acontece uma tragédia há quem diga que ninguém morre antes ou depois e que tudo está traçado em um plano superior, por uma força maior. Na boa, acho que se Deus existe (e, assim como Dostoiévski, eu prefiro achar que se a Verdade não está em Deus, eu escolho Deus e não a Verdade) ele não tem exatamente um plano detalhado para cada um de nós. Acho que ele tem coisas mais importantes para pensar. Além de tudo sempre existe o livre arbítrio.

E faz realmente diferença saber se é destino ou se é tudo aleatório? Aí sempre vem um desocupado nessas horas dizer que é por isso que "devemos viver cada minuto como se fosse o último". Dããã...Ajudou muito. Isso quer dizer o quê exatamente? Saia a 120 km por hora, encha a cara e transe com o primeiro que aparecer? Oquei, mas e se esse não for o último minuto? Esse é o dilema. Se o último minuto será o próximo ou daqui a 50 anos – e, no caso desta última hipótese, todos os minutos antes do último terão feito muita diferença. E o último será o que menos importa. Quer dizer "seja feliz hoje"? Ué, mas não é o que todo mundo quer, sempre?

Papo brabo pra um fim de domingo/início de segunda né, Leitor? Mas acho que é justamente por ser domingo à noite. “Mas essa lua/ mas esse conhaque/ Botam a gente comovido como o diabo”.

Boa noite/bom dia.

3 comentários:

Anônimo disse...

Eu acho q eu me lembro deste acidente. Uma jornalista, um carro q apareceu do nada...
Foi horrível!!! Há um ou dois anos.
Bjs,
Bibi

Carrie, a Estranha disse...

Foi ano passado, parece.

Rê disse...

me identifiquei mto com seu post. desde o início, "se é que eu posso usar as palavras “amiga” e “faculdade” na mesma frase", até o drummond do final. esse poema tem aparecido mto na minha vida ultimamente, e não sei se é uma coisa boa.
bjos bjos