sábado, março 17, 2007

Anjo estabafado


Hoje é aniversário da minha Tia Deceles, irmã da minha mãe. Uma das três fadas que cuidam de mim à distância. Elas moram lááááá em Pasárgada e têm uma casa compriiiiiiida, magriiiiinha, de corredorzããão de tábua de madeira, cheeeia de retratos de queridos e quartos com portas aaaaltas, muito aaaaaltas (tudo é hiperbólico em Pasárgada), onde as pessoas falam segredos ssssussssurrrrrradosss (tudo também é onomatopéico em Pasárgada), outros nem tanto, e contam histórias e causos enquanto as horas escorrem leeeeentamente pelas badaladas dos relógios de parede, sempre regados a café, pois tempo é algo abstrato em Pasárgada. Quando você acha que a casa terminou aí vem a horta. Enooorme. Com uma mangueira que foi plantada pela minha avó, Enedina, que nasceu em 1900. A Vovó Ned. Teria 107 anos se viva estivesse. Morreu quando eu tinha quatro anos, mas eu me lembro dela. Branquinha: pele (ela teve vitiligo), cabelo e alma. Morreu oito dias antes do Vovô Arnaldo, meu avô por parte de pai. Vovô João da Cruz nasceu em 1888. Ano da abolição da escravatura. Muuuuito tempo atrás. Se vivo estivesse teria 129 aninhos (adoro pensar nessas coisas do tempo que passa). Nunca nem sonhou que mais de um século após seu nascimento sua neta estaria registrando parte da sua vida num troço chamado computador, pra botar numa tal de internet, num tal de blog, para ser lido por vários outros netos. Morreu doze anos antes deu nascer, antes também de ultrapassar “os dois machadinhos” que ele dizia serem difíceis de vencer: os 77 anos. Papai também morreu antes dos dois machadinhos. Tio Guido também. Que era igual ao meu avô. Os dois pareciam o Hitchcock, só que mais magros e altos.

Mas então. Não é sobre meus antepassados que eu quero falar. Hoje é aniversário da Tia Deceles. Sim o nome dela é Maria Deceles. Minha avó meio que inventou esse nome. É uma corruptela de Maria Del Celli. Maria do Céu. Ironicamente Tia Deceles não é exatamente alguém angelical. Espoleta, brincalhona, espaçosa, até meio brigona e, o melhor adjetivo para defini-la, inventado sem querer pelo meu primo Cássio quando a tirou num amigo oculto: estabafada. Um misto de estabanada com abafada. Ou estabanada com safada. Ou fada.

Tia Deceles foi vista durante muito tempo como alguém que veio ao mundo a passeio. Sempre muito bonita. Uma mistura de Dina Sfatt com Sandra Brea, nos bons tempos das três. Aliás, Formiga Irmã diz que tia Deceles é uma Mulher Anos 70. Porque algumas pessoas ficam eternamente impregnadas de algumas décadas. Tia Deceles é, definitivamente, uma personagem saída de Dancing Day’s. É assim que eu gosto de me lembrar dela. Ainda que eu mesma nunca a tenha visto assim.

Tia Deceles sempre foi vista como “o palhaço” da família. Aquela que fazia todos rirem. Aquela espirituosa, que sempre dizia a coisa certa na hora certa – ou a coisa errada na hora certa ou a coisa errada na hora errada...enfim, a que dizia. Talvez por ser a caçula, meio avoada para com os assuntos do mundo prático. Sempre muito ocupada com seus namorados (não entremos nesses detalhes, senão ela briga comigo).

Podem observar que eu frisei que são características que são “vistas”. De fora. Porque de dentro sabemos que não é bem assim. O palhaço teve que crescer em determinado momento. A duras penas. O palhaço cambaleou e tombou de um lado pro outro. O palhaço ainda balança. Mas não cai nunca. É quase um João Bobo.

Tia Deceles tem ainda um lado mórbido engraçadíssimo. É a melhor companhia para velórios. Sabe quais as comidas “descem” melhor – estamos falando de velórios do interior, onde os mortos são velados em casa e por isso é servido café com bolo e no final estamos em verdadeiras reuniões sociais, reencontrando amigos e batendo papo – é especialista em epitáfios (já tem o dela pronto e aceita encomendas) e tem uma lista de casos engraçados acontecidos em enterros. Se precisar também conta piadas em velórios ou faz outras animações diversas.

Talvez a sua característica angelical possa ser vista hoje em dia nas suas formas roliças, tal qual seus amigos barrocos. Aliás, barroca é a melhor característica pra definir tia Deceles. Ou “A Gôda”, para os muito íntimos (por pouco tempo, pois ela já emagreceu 15 quilos).

E quando eu ligo pra ela, num dia como hoje, lááá em Pasárgada, pra lhe dar os parabéns, e ela me conta milhares de coisas, falando rápido, dando notícias de amigos e pessoas da família, trocando meu nome com o de outras primas e irmãs – coisa que minha mãe e tias também fazem, pois somos muitos –, eu me sinto subitamente transportada para a Casa Comprida. E chego a ver meus avós tomando chá à noite, logo após terem ido ao cinema; meu tio Guido indo pro colégio interno em São João Del Rey, aos 12 anos de idade; minha mãe ganhando o concurso de miss da cidade; Dedinha indo ao baile com a Neuman e Tia Tatá brincando com Tios Magno e Sérgio, enquanto Leonide faz doces de leite que eu nunca comi, provando que eu consigo enganar o tempo. Sinto o cheiro de tudo isso que eu nunca vivi e do que meus netos (?) vão viver.

Pensando bem eu estava errada quando comecei falando que não ia falar dos meus antepassados. Porque todos eles são eu e eu sou todos eles. Tia Deceles é parte disso tudo. Quando ela se despede com seu indefectível: “então daqui a duas semanas estaremos juntas no Paraíso”, parafraseando a passagem em que Cristo diz isso para o Bom Ladrão, eu penso que o Paraíso de fato existe. E eu conheço um anjo. Em breve estarei deitando minha cabeça no seu farto e fofo colo que a todos abriga, da Maysa ao João Fanquico.

Ela é minha madrinha de crisma. Eu que escolhi. Eu a escolhi pra ser minha madrinha e escolheria mil vezes para ser minha tia querida.

Feliz Aniversário, Gôda. De todo o meu coração. Todo amor pra você neste dia. Te amo muito.

10 comentários:

Rê disse...

você viu o alemao cantando wish you were here? rá! impressionante.
será q ele queria ir no show do roger waters na sexta?

Rê disse...

ops! parabéns para a tia Deceles!

Carrie, a Estranha disse...

Rsrsrs...é, acho q sim!

Hetie disse...

Adorei o post. A descricao. Me senti um pouco eu: tb sou a cacula; tb sou estabanada; tb sou palhaca (ou tive que ser ou tive que aprender a ser p/sobreviver); so nao sou gorda, embora tenha engordado uns 1,5 ou 2 kilos ultimamente; nao moro em pasargada, mas moro no paraiso; tenho 2 afilhadas de crisma que nunca crismei e acho q nem vou; uma eu escolhi ser a madrinha de crisma dela e a outra, a mae dela disse q eu sou a madrinha; e nao sei se elas - uma eh minha sobrinha tb - me ama como vc ama sua tia/madrinha.
Achei interessante.
Voce eh muito doce, Carrie. Beijinhos. Hetie

Carrie, a Estranha disse...

Ô, Hetie! Bigada! Vc é que é, minha linda! E tenho certeza q suas afilhadas tb têm sorte de ter vc.

bj

Milema Medeiros disse...

A deceles é tudo isso msm q vc disse. Semana passada tive o prazer de tê-la ao meu lado durante um enterro. Divertidíssimo!!!!Parabéns Deceles!!!

Carrie, a Estranha disse...

Rsrsrs...Pois é, Mi. Ela é isso tudo e um pouco mais.
bj

Jussara disse...

Tocante texto, Carrie. Quando vc escreve sobre seus entes queridos, parece que seus textos ficam melhores ainda; acho que pq talvez vc coloque sentimento neles.

Anônimo disse...

Venho de uma familia pequenina, sou filha única e não conheci meus parentes paternos, mas os maternos, mesmo os mais distantes, nos poucos contatos q temos me vejo neles, e eles estão em mim, é mais forte e maior do que pudemos imaginar.Parabéns p/ tua tia Goda e pra vc pelo texto.bj
Sandra Lee

Karina disse...

Consegui comentar no post errado 2 vezes. Minha coordenação motora deve estar prejudicada, rs.