quinta-feira, dezembro 21, 2006


Programinha sobre internet na Globonews com dois jornalistas-blogueiros. A internet é linda, é legal, porque dissemina o conhecimento...essa conversa fiada de sempre. Aí um deles manda a pérola: “quem tem tempo pra ler Guimarães Rosa hoje em dia?”. Não, eu não ouvi isso na Globonews, de um jornalista. Ele só esqueceu de dizer que os blogs mais acessados são das pessoas que escrevem melhor. E por que elas escrevem melhor? Porque lêem.

Acho que nesse debate entre internet, educação e disseminação do conhecimento tem duas coisas perigosas: uma achar que a educação precisa de computador. A outra é achar que o computador prejudica. Nem uma coisa nem outra. O computador é só a ferramenta. Ótima ferramenta, mas se não tiver um escopo o aluno vai entrar ali só pra pegar trabalho (numa das poucas vezes que eu dei trabalho pros meus alunos, 50% colou da internet. E o pior: ainda respondiam dizendo: “ué professora, mas não podia pesquisar na internet?”).

Essas conversas quase sempre vêm seguidas por essa cretinice de “se você não está conectado você não entra no mercado de trabalho”. Pior é que tem gente que escuta e acredita. E investe o seu dinheirinho suado num curso na SOS Computadores ou na compra de um computador quando indo à biblioteca municipal e lendo um bom livro estaria fazendo muito mais pela sua educação e pelo seu futuro profissional. E a gente vive nesse mundo de aberrações. Onde a educação precisa investir em computador e não em capacitação de professores.

Esses dias vi uma matéria falando que “aulas com quadro e giz” são cada vez mais raras e os alunos dizendo o quanto isso é chato, o quanto a aula tem que ser dinâmica, interativa... Reloooou! A escola é um bom período pra gente aprender que a vida não é uma festa. Estudar pode ser legal, mas também é chato e difícil.

Eu dava aula numa universidade particular que investia em equipamentos e computadores e tinha tudo do bom e do melhor. Posso afirmar, sem medo de cometer injustiças, que 30% dos meus alunos eram semi-analfabetos. Pra mim uma pessoa alfabetizada é aquela que lê uma frase, compreende e é capaz de reproduzi-la com suas próprias palavras. Eles não eram. Tinham problemas sérios de dislexia, de não conseguirem manter a atenção, achavam todos os textos difíceis...Só pra piorar: eram alunos de jornalismo.

A gente vive num país em que as pessoas não sabem português e vão fazer cursos de inglês. Como diz aquela velha frase: “o homem que não lê mal fala, mal ouve, mal vê”. O pior é que vivemos num país de mudos, surdos e cegos.

7 comentários:

ella disse...

Eu também vi, esse deslumbramento de achar que o computador é tudo, é coisa de gente que acha que Cultura se concentra num único meio. Também acho que computadores a fim de colocar a periferia "por dentro" do mundo, esquecendo que em Educação o buraco é mais embaixo...
bjs querida.

Rê disse...

essa batalha entre apocalípticos e integrados é muito fascinante (adoro umberto eco!).
de um lado, internet como o robin wood da Cultura. de outro, o desespero de quem vê as idas à biblioteca serem substituídas pelo google. concord que ´pe apenas uma ferramenta, e uma ferramenta que nao substitui toas as outras.

até para copiar um trabalho a internet o aluno tem que ter senso crítico. tem uma historia hilaria na faculdade de um moleque que copiou um artigo na internet do proprio professor que pediu o trabalho (!). ele nao se deu nem ao trabalho de ver quem tinha escrito o artigo que se encaixava perfeitamente (até demais) no pedido o professor.

pode?

Cris disse...

quando eu era professora da "curtura ingresa" um aluno copiou uma resenha inteira, ipsis literis, da barnes and nobles e tentou me empurrar como se fosse dele. como o moleque escrevia mal, qualquer idiota perceberia que aquilo não era da sua modesta lavra. e o cara me achando com cara de besta (todo aluno da cultura acha que eles são espertos e os propfessores imbecis), jurando a mãe morta como tinha sido ele a escrever aquilo. disse que tinha sido uma coincidência. foi patético. quanto à celeuma dos computadores, acho que você está certíssima. claro que é legal ter domínio da ferramenta, mas um PC nunca vai passar disso: uma ferramenta. eu sou entusiasta da internet e de todas as possibilidades que ela abre, mas o cara pra poder aproveitar isso tem que ter comido muito feijão; leia-se: tem que ter ralado muito e lido tudo o que puder ter lido. mas eu acho que esse debate tá só começando. bjs

JH disse...

isso aí, Carrie.
tuas críticas tocam em coisas que estão na ordem do dia e são passadas como "verdades", "maravilhas", "coisas inevitáveis".
concordo quando vc diz que é necessário evitar os extremos. o uso da tecnologia na educação deve ser estimulado como mais um elemento dessa coisa ampla e complexa que é a educação... algo que ultrapassa e deve ultrapassar muros de escolas/universidades.
vê o lance da educação à distância: isso é uma baita patifaria, do jeito que estão empurrando. os que defendem dizem que a educação não deve ficar fora dessa revolução tecnológica. ok... mas vai ver como esses cursos à distância estão sendo implantados! falácia da grossa!
se vc tem a tecnologia a seu lado, compondo com aqueles momentos de diálogo e encontro necessários (Paulo Freire falava dessa "dialogicidade" da educação), beleza! é saber usar a ferramenta... não usá-la com má fé, com esperteza.
paro por aki.
abs/bjs

Cláudio Vianna disse...

BRAVO! É isso mesmo. Leitura é fundamental.

O ensino acadêmico é importantíssimo, justamente por constituir o alicerce de conhecimentos sobre o qual construiremos nossa bagagem cultural. Mas não tem jeito: a principal ferramenta para a aquisição dessa bagagem é a leitura. É pena - pena mesmo - que os sites e blogs com bons textos ainda sejam uma minoria...

Anônimo disse...

Como dizia aquele cara la da minha terra, la nas Minas Gerais:
Nos vai estuda ingreis porque portugueis nois ja sabe.
E isso ai
M

Nessa disse...

Carrie, na universidade em que me formei (Comunicação) acredito que mais de 30% dos colegas eram semi-analfabetos!
saía cada coisa!