terça-feira, dezembro 05, 2006

Ciclos


Eu quis o perigo e até sangrei sozinho.
Entenda - assim pude trazer você de volta pra mim,
Quando descobri que é sempre só você
Que me entende do início ao fim
E é só você que tem a cura para o meu vício
De insistir nessa saudade que eu sinto
De tudo que eu ainda não vi.

(Índios – Legião Urbana)


Dia abafado. Cinco anos que meu pai morreu. Fim da minha última disciplina no doutorado. Fins.

Já contei que meu pai era o filho mais velho numa família de treze, né? Meus avós eram portugueses. Vovó lavava roupas e fazia quentinhas pra fora. Vovô era artista. Fotógrafo e pintor – numa época em que essas duas profissões andavam quase juntas. Ganhou três vezes na loteria esportiva. Conseguiu gastar o prêmio todo, nas três vezes, em empreendimentos furados como a Galeria Artística de Veneza. Teve um bar. Comprava tudo do bom e do melhor e era quase sempre roubado pelos funcionários. Zero de tino comercial. Artista (minha bisavó, Carolina, tinha doces olhos azuis, morreu com mais de 100 anos e foi mãe solteira. Só teve dois filhos, um de cada pai. Reza a lenda que meu avô seria filho de um marinheiro dinamarquês. Viking? Bom, isso explicaria meus cabelos vermelhos e meu jeito ogro de ser. Hahahaha... Mas isso é história pra outro post).

Papai trabalhava como um mouro. Dentre as muitas atividades, foi entregador de quitanda, assistente do meu avô e fotógrafo da revista "Vida Doméstica", até ser médico. Já falei dele aqui também. Em algum lugar do passado. No mês de agosto, acho, por ocasião do Dia dos Pais.

Pois é. A vida era dura. Treze filhos. São Cristóvão. Zona Norte do Rio. Nem sempre meu pai levava merenda pra escola. Quase nunca a comida era farta pra 13 filhos. Um dia meu pai entra na cozinha e vê minha avó chegando do mercado. Ela diz que tem merenda pra ele levar pra escola. Oba, ele pensa. Nem sempre pode se dar a esse luxo. Qual a merenda, mãe? Pão com goiabada e banana, filho. Tá aqui, ó. Nesse embrulho. Mais oba ainda! (não me perguntem como pão com goiabada pode ser bom, mas papai jura que era). Merenda e das boas.

Pai passa a mão num embrulho em cima da mesa, enquanto vovó guarda as compras. Segue saltitante e ingênuo pelas ruas de São Cristóvão, como só uma criança dos anos 30 podia ser. Uma criança que ficava feliz em ter um pão com goiabada pra levar pra escola.

Lá chegando, quase não agüentou de ansiedade esperando a hora do recreio. Quase não prestou atenção na aula. Bate sinal, bate sinal! Sinal bateu. Colegas oferecem merendas. Não, obrigado, hoje eu trouxe. Segue orgulhoso com seu lanche. Senta num lugar confortável. Deve ter se sentido feliz, simplesmente por ter uma merenda. Só uma merenda. Abre o papel de pão, enrolado com barbante e...um pedaço de sabão. Como? Hein? Sim, um pedaço de sabão. Mas não é possível? O que aconteceu? Lembrando a cena na sua cabeça, percebe que havia vários embrulhos na mesa. Confundiu os pacotes. Depois em casa, a mãe riu com a confusão toda.

Sei que é uma história engraçada, quase boba, mas eu e meus irmãos sempre morríamos de pena do meu pai quando ele contava isso. Além dessa história, outra que eu morria de pena era a do ioiô feito pelo meu avô de tampa de claybom – e que, claro, foi devidamente zoado pelos amiguinhos, pois, ainda que fossem os anos 30, crianças são crianças e sempre se sacaneiam.

Últimos dias me deixam nostálgica. Desde o colégio, quando a gente trocava as camisas do uniforme assinadas ou agendas onde as pessoas escreviam coisas como "nunca vou me esquecer de você" e "continue assim do jeito que você é". Pessoas que nunca mais vi. Pessoas que nunca mais vou ver. Quantas pessoas que eu poderia ter conhecido melhor... Como diria Baudelaire A uma passante: “tu que eu teria amado”. Se conhecesse. Se desse tempo. Se você parasse. Se a vida não separasse pessoas e coisas.

Fins guardam também a esperança de começos. Dia abafado. Emoções abafadas procurando sair de um jeito menos torto e mais poético. Mas não sei ser poética. Só torta.

Feliz Aniversário, pai. Você também não teve um fim. Só um outro começo. Um beijo.


15 comentários:

Sergy disse...

Um post muito tocante. É curioso quando as pessoas se despedem - por exemplo na escola, ou em outra coisa qualquer - e dizem sempre que nunca se vão esquecer de nós, e estamos todos a mentir, e no fundo sabemos que estamos todos a mentir mas gostamos de fazer de conta que não, por vezes gostariamos de nao ser nós, mas sermos fotos. A foto para mim será sempre mágica, porque cristaliza o tempo a um nivel de excelência que a pintura não alcança e o video detorpe. Não somos mais que joguetes nas mãos das leis da vida e do tempo, embora as suas regras não se apliquem a pessoas como Baudelaire. De facto, com tanto ópio, haxixe e absinto ele provavelmente amou além do que as nossas percepções sensoriais poderiam sequer imaginar. As despedidas são as nossas memórias de como fomos manietados pelo destino. Mas pelo que consigo entender, tu nunca te despediste nem nunca te despedirás do teu pai.

PS - não quero ser chato, mas os dinamarqueses não eram vikings. Se a tua bisavó era do norte de Portugal, pode muito bem ter tido herança celtibera ou visigótica.

bj

Carrie, a Estranha disse...

Ah, mas não são todos vikings? Rsrsrs...Era um país desses...do norte...rsrsrs

Carrie, a Estranha disse...

PS: Descobri q tem o cara traduzido aqui no Brasil!

Bibi disse...

Além dos cinco anos de morte do papai, o seu blog sumiu hoje.
Acordei às 6h15 (mais ou menos a hora q ele morreu) pensando nele e buscando algum consolo. Quando liguei o computador apenas uma tela rosa que perdurou durante todo o dia.
Finalmente a ordem restabeleceu...pelo menos no seu blog!!
Beijos,
Formiga Sister

Carrie, a Estranha disse...

Baru,

É, meu blog deu pane, desde ontem à noite. Mas já voltamos ao normal.

Bjs

Cris disse...

história linda, texto sensível, como você pode dizer que isso não é poético? soubesse eu escrever assim e seria mais feliz. dá gosto vir aqui. bjs

Ila Fox disse...

Não sei nem o que falar dos seu post Carrie... mas deu uma saudade enorme do meu Pai e das histórias dele, mas como ele está vivo, mas mora longe, tenho que me acostumar com visitas rápidas em feriadinhos prolongados...
*
Quanto ao lance da nostálgia nesta época do ano é foda mesmo! Estes dias voltando do trabalho vi na rua um caderno todo depenado, e me lembrei que esta era uma época boa nos tempos de colégio, agendas cheias de saudades, camisetas riscadas, planos, "será que vamos cair na mesma sala ano que vem?"... até que era legal.
*
E este ano para mim é particulamente um fim de ano chato, pois é quando "encerra" de vez esta fase boa da vida, pois o ano passado eu ainda estava na faculdade, então ainda eu tinha aquelas tão esperadas férias! Mas este ano vai ser meu primeiro verão sem férias, sem passar Janeiro inteirinho ao lado do meus pais... snif... bem vinda ao mundo real.

aliki disse...

Que bonito, Carrie, graças ao seu texto seu pai existe até pra esta desconhecida neste paíseco encravado no meio da europa. Não lembro do autor, francês, que escreveu este lindo verso sobre a morte de uma querida pessoa... "elle est entrée en transparence"...
Beijos

Anônimo disse...

Lindas palavras!!! Me emocionei... ...perdi o meu há nove anos,só quem passa por isso,entende essa dor....que para mim,vem das entranhas,realmente..
beijos
Márcia Motta

Anônimo disse...

Lindas palavras!!! Me emocionei... ...perdi o meu há nove anos,só quem passa por isso,entende essa dor....que para mim,vem das entranhas,realmente..
beijos
Márcia Motta

Pierre Vieira disse...

Ô figuraça, que post mais inspirado e profundo, todos que visitam este butiquim de palavras (um ótimo butiquim) certamente ficaram comovidos e felizes pela pessoa que és.

Bella disse...

Carrie, o texto tá lindo, quase chorei no final... é mto poético sim, pode ter certeza.
bj

Roberta Carvalho disse...

Oi sumida,

meu pai morreu há 22 anos, no dia 23 de dezembro. Nunca mais gostei de Natal, mas também fico nostálgica nessa época.

Mas por falar em pessoas que nunca mais vimos, pelo menos meusamigos de escola eu vejo. Outro dia num encontro levamos nossos cadernos onde escrevíamos dedicatórias e ficamos lendo o que uma escreveu pra outra quando tínhamos 14 anos.

Gosto de cultivar minhas amizades, não gosto que elas se percam pela vida.

Saudade

Beijo

M.Eduarda disse...

Que lindo... lindo mesmo...

beijos

Jussara disse...

Carrie, tb fiquei com pena do seu pai no episódio do pão que não era pão, mas sabão; imagino o qto ele deve ter ficado com vontade de comer;não consigo achar graça de situações assim; eu tb tive alguns brinquedos simples, mas isso serve p'ra gente valorizar mais tarde as coisas, e não dar tanto valor assim ao material; é chato, claro, ser zoado pelos coleguinhas, mas no meu caso, isso não chegou a acontecer.

Nossa, tinha mesmo essas coisas de assinar as camisetas e as agendas, e mais os banhos de tinta e etc. Até hj eu sonho às vezes com minhas 'amiguinhas' do ginásio...mas acho estranho.

Belas homenagens.