terça-feira, outubro 24, 2006

O que não aprendemos em 1956


A capa do Globo de hoje mostra duas fotos da Hungria. Uma, de 50 anos atrás, quando tanques soviéticos marcharam sobre Budapeste em represália à revolta húngara. Outra, de ontem, quando as homenagens aos mortos daquele dia somaram-se às pressões contra o primeiro-ministro que foi acusado de mentir (só? Hahaha...) pro país e manifestantes de extrema direita tomaram um tanque velho da extinta União Soviética. As duas imagens, sem dúvida, falam mais do que mil palavras. Dão um arrepio fazendo-nos lembrar a frase do nosso amigo barbudo “A história se repete: a primeira vez como tragédia e a segunda como farsa”. Mas não é exatamente sobre a Hungria que eu queria falar, embora o episódio mereça um parágrafo.

Dona Henriquetta, a velhinha de 87 anos que me habita, estava me contando um pouco sobre isso e ficamos a discorrer sobre aqueles dias. A invasão da Hungria pela ex-URSS em 1956 é, para muitos historiadores – sei lá, pelo menos pra mim é e acho que já li isso em algum lugar, não me lembro onde –, o início da queda do Muro de Berlim. A Hungria fazia parte da antiga Cortina de Ferro formada pelos países do leste europeu, todos sob o regime socialista. Há 50 anos atrás eles se rebelaram contra a opressão da ex-URSS, que não ficou nada feliz e desceu o cacete em geral. De outro ponto de vista, foi o início do fim. O mundo ficou sabendo que Stálin, falecido em 1953, era um ditador sanguinário e que as pessoas não estavam felizes na Hungria (porque, no final das contas, é sobre ser feliz que estamos falando, não é?).

Esse episódio, aliado ao Congresso Internacional do Partido Comunista da União Soviética - quando vários crimes cometidos por Stálin vêm à tona - foi responsável pela debandada de um terço do Partido Comunista do mundo todo, sendo talvez a maior baixa deste. Foi também responsável pela fundação da New Left (Nova Esquerda) na Inglaterra. Foi, basicamente, a constatação de que a esquerda também faz merda. E precisa admitir quando faz merda e rever seus conceitos. Também prende, mata e tortura. E que toda forma de poder é uma forma de morrer por nada. Yeah, yeah. E o que isso adiantou? Nada. Aprendemos com o passado a cometer os mesmos erros.

Para maioria das pessoas, continua o velho maniqueísmo: se você é de esquerda, é bonzinho – e tudo se justifica – e se você é da direita é mau - e não merece crédito. Ou o oposto: “esquerda” e “direita” não fazem mais sentido no mundo de hoje. O que também não acredito. Ainda existe “esquerda” e “direita”. São propostas diferentes para os mesmo problemas – ou talvez problemas diferentes. Caráter já é outra coisa. Independe do lado. Assim como burrice.

No Megazine, suplemento do Globo, de hoje, tem uma coluna de um selumano sem loção expondo várias dicotomias – Madonna x Britnay; Coca x Pepsi e outras tão geniais quanto essas. Fui acompanhando, acompanhando e pensando onde aquela merda ia dar – exatamente como vocês estão fazendo com este meu texto. No final ele conclui brilhantemente: “domingo, mais uma escolha fará a diferença nos próximos quatro anos. Ou deveria”. Nego ganha pra isso? Me contrata aê, Grobo, que eu cobro a metade e escrevo mió. E ainda tenho dipromis de jornalistis!

Não fará (ah! Será que é isso que ele quis dizer? Nooosa! Que genial. Que esperto! Que puuuuxa!). Porque basicamente estamos escolhendo entre duas coisas iguais, mas que tentam nos empulhar como diferentes. E pior: como diametralmente opostas. E pior ainda: como se não houvesse outra opção. Sempre há.

Remember, rememember...

5 comentários:

Anônimo disse...

Ótimo texto, concordo com vc, minha For.
Mas o Sapo Barbudo eu não suporto mais...
Beijos,
For Sis

Rê disse...

o pior é isso, tentarem fazer a gente achar que não há outra opção!
estou desorientada para domingo que vem =(.

cienicas sociais eu faço na afável uerj. comunicação é que eu faço na ufrj!

e não se espante com a megazine. é da mesma organização que produz algo inominável como "Malhação".
Se eles acham que adolescentes normais assistem aquilo, uma comparação entre coca e pepsi é mais do que cabível.`

=*

Tereza Cristina disse...

Essas propagandas do TSE me irritam profundamente. Subestimam nossa inteligência com a "oferta do paraíso" pelo simples ato de votar. Talvez até significasse alguma melhora se as duas opções representassem mais qualidade. Parecem com as propagandas proselitistas do tempo do regime militar: "este é um país que vai prá frente, rou, rou, rou, rou, rou, de uma gente amiga e tão contente..." (irc!!) ou: "O Brasil é o país do futuro! O celeiro do mundo!!!
É como escolher entre a merda e a bosta, com o perdão da palavra. Entretanto, merda/bosta são coisas autênticas, orgânicas e fisiológicas. Sinto que fui injusta coma a merda/bosta....
beijos

Carrie, a Estranha disse...

Sim, sim...concordo com todas vcs!

Tereza, acredita q meu irmão já falou ontem aí em Vitória e voltou? Nem fiquei sabendo! nem sei se foi mesmo na Ufes! Desculpe, mas ele nem me avisou!

Bjs

Tereza Cristina disse...

Jura?? Pôxa vida! Dê um puxão de orelha no "nosso" Rimão. (Mother me deu autorização... rsrsr)
Por fala nisso, beijos para Mother e Formiga Bibi.
Beijos para você e bom fds