domingo, outubro 01, 2006

Alergia ao mundo


Eu tô alérgica. E puta. Ou melhor: tô puta de estar alérgica. Não consigo ler, me concentrar em porra nenhuma sem ter um acesso de tosse digno de poeta romântico. Tenho vontade de virar minha garganta do avesso e coçá-la com ambas as mãos. Beu dariz tá entupido. Alergia é um troço escroto. Parece frescura até você ter.

Eu nunca fui alérgica. Ou pelo menos nunca soube que era alérgica até morar no Rio. Passei 18 anos de minha existência numa cidade com a maior Usina Siderúrgica da América Latina, e índices de poluição que só foram controlados recentemente devido à pressão ambiental, e só fui ter alergia quando fui pro Rio. Ou melhor, quando tive um namorado alérgico. Minha mãe fala até hoje que ele “me pegou” essa alergia. Às vezes acho que ela tem razão. Só Floid Exprica. Ou espirra. Enfim.

Durante uma crise em que me abriram abscessos na pele e que conicidiu com a defesa da minha dissertação de mestrado eu resolvi procurar um médico-alergista – que aliás era o mesmo desse meu namorado; ando lembrando tanto do meu ex-namorado ultimamente...peraí? “Ultimamente”? Hahahaha...Ele disse que na verdade eu sempre fui alérgica. Que a alergia estava ali, escondidinha, esperando pra atacar. E que, por uma série de fatores ambientais/emocionais/circunstanciais, ela tinha se manifestado agora.

Tudo bem. Aceitei que eu tinha um problema e que era impotente diante dele. Resolvi fazer a porra do tratamento de vacinas. Fiquei mais de um ano tomando vacinas que me custavam 160 reais, de dois em dois meses. Recebi um calhamaço de instruções de como controlar o ambiente em que vivo. Era mais fácil eu me tornar o menino-bolha. Dentre essas descabidas instruções tinham coisas como “não use nada para limpar sua casa exceto álcool”, “saia de casa enquanto a faxina estiver sendo feita” (sim, claro, vou ordenar à criadagem que sirva o meu café no jardim), “não use nenhuma maquiagem em pó”, além de cortar todo e qualquer tipo de perfume ou desodorante/shampoo/sabonete com cheiro. Mandei a real pro médico: não vou fazer isso, prefiro morrer de alergia a ficar fedorenta. Ele deu uma apaziguada na situação dizendo que, de todas essas medidas, as mais importantes eram encapar o meu colchão com tecido anti-alérgico - feito por um cara que já tem conchavo com a clínica - passar pano molhado na casa toda todos os dias e não ter livro no quarto. Na casa toda, doutor? Tá, que seja pelo menos no seu quarto. Todos os dias doutor? Tá, que seja um dia sim, dia não. E os livros, doutor? Não, os livros você tem que tirar. Na medida do possível, segui as recomendações.

Passados alguns meses - um pouco depois do término do meu namoro, antes de eu entregar o projeto de doutorado - tive outra crise. Tossi tanto que distendi um músculo entre as costelas. Mas continuei firme.


Eu adoraria ter uma empregada diariamente, ou 3 vezes na semana, que passasse pano molhado pra mim. Também adoraria ter um cômodo onde eu pudesse fazer a minha biblioteca e tivesse um mordomo inglês chamado William, que citasse Shakespeare no original e que me servisse o chá toda manhã enquanto eu leio a minha correspondência que chegaria numa bandeja de prata, trazida por um mensageiro. Só que não dá. Eu estudo/trabalho com livros. Meu apartamento é pequeno. E tem a minha mesinha de cabeceira, que está sempre lotada de livros que eu nunca consigo terminar.

Quer dizer: passei um ano com um tratamento onde eu fiz grande parte das coisas – a maioria das pessoas que eu conheço abandona ou não tem essa disciplina – pra no final das contas eu estar aqui podre de alergia, com uma tosse de dar meda. Liguei pro meu médico, ele me passou um anti-alérgico e disse que em cinco dias eu melhoro. Cinco dias. Nada de xarope, nada de drogas pesadas de quaisquer espécies.

O tempo todo, durante o tratamento, ele dizia que alergia não tem cura, que é possível controlar os sintomas e que o “fator emocional” também interfere muito. Em situações de estresse a coisa voltaria a atacar. Ah. Que ótimo. Médico quando não sabe a causa apela sempre pro problema emocional. O tal pobrema de neuvro. Afinal quem consegue manter a sanidade 365 dias por ano?

Ou seja: se eu morasse numa casa, num lugar seco, num clima que não sofresse mudanças bruscas (no século XVIII, talvez?), tivesse uma empregada pra passar pano molhado todos os dias no meu quarto, uma biblioteca pra abrigar todos os livros e um estado emocional totalmente equilibrado aí eu não teria alergia. Tá certo. O que me leva de novo a voltar na velha questão: alergia é um pouco de frescura, mesmo. Pois, afinal, quem consegue ter essa vida?

E não me venham falar de homeopatia. Assim como duendes, homem sensível e beleza interior são coisas que a gente diz, até finge que acredita, mas ninguém nunca viu ao vivo. Pelo visto, vacinas também. Alguém conhece uma benzedeira?

Um comentário:

Tereza Cristina disse...

Carrie, achei outras coincidências nas nossa vidas:
eu moro perto de uma das maiores siderúrgicas da A. Latina (CST-Companhia Siderúrgica de Tubarão)e sofro horrores com o "bendito" pó de minério. Uma verdadeira purpurina nas nossas vidas.
Também sou alérgica a insetos. Uma picadinha de pernilongo duuuura semanas...
Quanto à alergia respiratória, desde setembro/04 não tenho nenhuma crise (rinite/faringite/sinusite/ e a pior de todas: bronquite!!), desde que comecei a acupuntura.
Estou muito feliz, pois os episódios eram mensais e os corticóides devoravam meu corpo e o meu bolso também! rsrsr
É, a homeopatia também não resolveu nada comigo. Acho que Escorpião é muito compulsivo e não tem paciência pra esse negócio de doses homeopáticas... rsrs
Torcendo pela sua melhora,
beijinho