segunda-feira, outubro 09, 2006

Acerca (e a cerca) do mal



“Lembre-se de que fui criado por você; eu devia ser o seu Adão, porém sou mais o anjo caído, a quem você tirou a alegria, por crime algum cometido. Por toda parte vejo reinar a alegria, da qual estou irremediavelmente excluído. Eu era benévolo, bom; a desgraça tornou-me um demônio. Faça-me feliz, e tornarei a ser virtuoso” (O monstro em diálogo com Dr Victor Frankenstein, do romance de Mary Shelley).


Vendo a notícia de que um maluco entrou numa comunidade Amish, nos EUA, e disparou fogo contra criancinhas, matando-se em seguida, não pude deixar de pensar: Shyamalan é meu pastor e nada me faltará. O cara é um profeta. Pra quem não tá ligando o nome à pessoa - e tá achando que eu pirei de vez e virei Hare Krishna - Shyamalan é o diretor indiano de “O sexto sentido”, “Corpo fechado” e um dos filmes mais fodas de todos os tempos: “A Vila”. Este filme é incrivelmente parecido, guardadas as devidas proporções, com essa história dos Amish. Esse filme – ah, eu vou contar o final, sim; se não quiser saber, pare de ler – conta a história do que pensamos ser uma cidadezinha do século XVIII, cujos habitantes não podem sair dela, porque a floresta ao redor vive cheia de monstros. Eles vivem uma vida feliz e tranqüila, sem grandes confortos como energia elétrica, por exemplo, mas também sem grandes preocupações. Igualzinho aos Amish.


Um belo dia, um maluquinho que era apaixonado por uma garota, ao saber do casamento desta com outro rapaz da comunidade resolve matá-lo. O ferimento não é mortal, mas ele fica correndo risco de vida. É aí que você descobre – sim, leitor, e é agora que eu conto o final, se quiser pule para o parágrafo seguinte – que na verdade eles estão em pleno século XXI e aquela comunidade, regida por um “conselho de anciãos”, foi formada por pessoas que sofreram algum tipo de violência em grandes metrópoles e resolveram se isolar do mundo, numa comunidade tipicamente rural. Tiveram filhos e contaram essa mesma história de monstro pros filhos. A comunidade se vê então diante do dilema: ou deixa a namorada do rapaz, que é cega, sair e “ver” o mundo ou o cara morre. E aí qual o sentido da comunidade que queria se isolar da violência se eles deixam um próprio filho da terra morrer, vítima da violência, em nome do segredo deles?

Em primeiro lugar tem uma discussão incrível sobre a ideologia. O que são os monstros na floresta? Criações mentais que impedem os habitantes de ver o mundo lá fora, ou a verdadeira realidade – aí até podemos entrar em uma discussão sobre o que seja a verdadeira realidade, mas não é o caso. Quantas vezes não fazemos isso? Nos iludimos não apenas com religiões e outras coisas, como criamos os nossos próprios fantasmas que nos impedem de viver a vida? Se você descobre que o monstro não existe, que desculpa vai dar para o seu medo?

E a outra questão - que foi o que me fez associar com a tragédia ocorrida com os Amish – foi o fato de serem ambas comunidades que julgam que o mal está em determinados lugares e uma vez isolado é possível viver feliz. Para usar uma analogia bíblica: talvez o pecado não seja o que entra pela boca, mas o que sai dela. E o que sai dela é fruto de um montão de coisas juntas. Você pode manter seu filho trancado em casa, lendo Monteiro Lobato, sem jogar vídeo-game, sem assistir a porcarias na televisão; você pode ter mil seguranças; você pode tomar todas as precauções do mundo. Você pode até achar que a vida nas grandes cidades é inviável pra você – e eu até entendo isso – mas o fato é que nada é garantia de nada. Nada vai te fazer ficar em segurança.

Se a idéia de um paraíso idílico é sustentada por uma ideologia, então quem são os culpados num caso desses? Ou tudo se resume ao fato de que o cara tinha desequilíbrios mentais? Mas já é o quarto caso nos EUA só essa semana, fora os diversos outros que já ocorreram em outros anos. Por que todo mundo “resolveu” ter problemas mentais ao mesmo tempo? Se não fossem os helicópteros que os Amish tanto condenam – eles só usam carroças – terem resgato as vítimas, poderia ter morrido mais gente (ele feriu 7 meninas, mas só 4 morreram). Se não fossem os telefones de emergência, só permitidos recentemente nas escolas, o socorro poderia nunca ter chegado. Então, a culpa, no final das contas, é dos próprios Amish, coitados?!

Os Amish são pacíficos. Vivem em sistemas comunais. Não são materialistas e não são influenciados pela mídia. Não vivem sob valores capitalistas. Voltando à tragédia: o cara que matou as quatro meninas não era Amish, mas trabalhava na fazenda deles. Saiu de casa e deixou um bilhete de suicídio pra mulher, dizendo que ia se vingar de algo ocorrido há 20 anos. Ninguém explicou do que se tratava.

Provavelmente os Amish e muitos de vocês devem estar pensando: tá vendo, o cara não era um Amish! Se fosse, não teria feito isso. Mas o problema é esse. Sempre vão existir pessoas que não pensam como você e não há como controlar isso. Há, contudo, alternativas mais ou menos inteligentes pra se lidar com isso.

Como diria o Chacrinha: eu vim pra confundir e não pra explicar. Se eu soubesse a resposta, fundaria uma seita, escreveria livros de auto-ajuda e ganharia milhões. Mas arrisco o que eu acho que não seja. Acho que não existe um motivo ou um culpado. Existe todo um sistema apodrecendo. Mas não num sentido puritano babaca de que “ó, temos que voltar a ter valores etc”. Acredito que toda mudança se faz com muita destruição. De vez em quando algumas farpas acertam pessoas que não tem nada a ver. Culpar A, B ou C é fácil. É como inventar monstros na floresta. Diminui a culpa. Difícil é olhar pra dentro da própria sociedade norte-americana – e falo dos EUA só porque eles são o sistema capitalista mais forte e poderoso do mundo, nem pior nem melhor do que outros – e ver que o monstro do Dr Frankenstein tomou vida. A grande decepção do monstro foi descobrir que ele não era o Brad Pitt. O fato é que quase ninguém é Brad Pitt. Se duvidar nem o próprio.

O grande “erro” – se é que dá pra falar nestes termos - do monstro foi acreditar que existia a tal da alegria por toda parte da qual ele estava fora. Talvez esse sentimento de exclusão tenha sido o mais próximo que ele conseguiu ficar da raça humana.

6 comentários:

Dissimulada disse...

Adorei este post ! Parabéns pela fluência e pela lucidez. o mal, infelizmente está na nossa espécie e, se Deus cometeu algum erro, certamente foi esse tal de livre arbítrio.

Joana disse...

po carrie, achei bacana tudo que vc falou! e queria falar umas coisas a esse respeito, de uma visao de quem mora nos estados unidos, porque cada dia mais entendo as diferencas entre a nossa cultura e a deles e as vezes fico puta da vida, querendo criar um pais que junte qualidades dos dois lugares ao mesmo tempo e jogar fora muuuuuita bobagem.. mas nao da ne? sei que vc nao tava falando so disso (da escrotice americana que a gente ve no jornal o tempo todo), mas da escrotice mundial em geral.. acho que vou la no meu blog escrever alguma coisa sobre isso que fiquei meio inspirada!

Carrie, a Estranha disse...

Sim, com certeza vc pode dizer muito melhor sobre isso. Mas não compactuo dessa visão q entrou na moda de "os EUA são os demônios do mundo". Acho apenas q eles unem o pior e o melhor do mundo.
E se eu for estudar aí vou ser sua vizinha. Em Durham, na Duke. Mas agora com mudanças de orientação...não sei.
Bjs

Tereza Cristina disse...

Carrie, confesso que quando assisti "A Vila" fiquei arrepiada de medo: medo dos monstros deles e também dos meus.
Adorei o post.
beijos

Joana disse...

fala serio!! vc vai estudar na DUKE?? poderosa hein!!! super bacana!

Carrie, a Estranha disse...

"Vou estudar" é bondade sua. As agências de fomento à pesquisa brasileira tem um porgrama chamado "Bolsa Sanduíche" que é tipo um estágio no exterior. Todo aluno pode tentar, daí conseguir já é outra história.

Talvez tente e se o professor Jameson me aceitar...quem sabe...no outro ano...vamos ver, vamos ver.

Mas meu orientador tá me dando outras idéias e talvez Duke não seja mais a opção primeira - não pq não é boa o suficiente, mas talvez não esteja adequada a meus novos planos.

E aí, como é vida em Durham? É perto de onde vc mora? Muito frio?