domingo, agosto 13, 2006

Dias dos Pais


Hoje é domingo, dia dos pais. Meu pai morreu há 5 anos atrás – no dia 05 de dezembro faz cinco anos. De câncer. De próstata – o que é uma péssima piada do destino, já que ele era médico urologista. Se ele estivesse vivo estaria com 80 anos. Faria 81 no dia 27 de outubro.

Quando eu nasci ele tinha 51 anos e minha mãe 40. Quando ele ia me buscar na escola eu tinha vergonha porque as pessoas perguntavam se ele era meu avô. Mas eu demorei algum tempo até perceber o quão jovem meu pai era – e minha mãe ainda é, apesar dos seus 70 anos. Não apenas fisicamente.

Eu sei que é fácil endeusarmos as pessoas que já morreram. Não se trata disso, pois meu pai tinha defeitos como qualquer ser humano. Era explosivo (adivinhem quem eu puxei?), ranzinza, às vezes grosso e ríspido. Chegava a ser mal educado em certas ocasiões. Dizem meus irmãos mais velhos que ele era duro na queda. Foi amolecendo com o correr dos anos. Mas ele era simplesmente uma pessoa do tipo que já não se faz mais. Por uma série de motivos cuja descrição, ainda sim, não seria suficiente.

Eu poderia retratar os diversos ângulos do meu pai. Do filho mais velho – depois que seu irmão Nelson morreu ao 19 anos, vítima de meningite, fato que foi decisivo na escolha de sua carreira como médico – que trabalhava, estudava e ainda dava duro nos meus tios, todos mais novos - já que meu avô era um tanto quanto “sossegado” e vovó sustentava a casa lavando roupa pra fora e vendendo quentinhas. Poderia falar no jovem carioca, que nasceu em São Cristóvão, bairro pobre do Rio, às margens do morro do Tuiuti e que, ao se formar como médico, foi desbravar o interior de Minas onde conheceu minha mãe. Poderia falar do cara que foi morar em Acesita, cidade com a siderúrgica de mesmo nome, em busca de oportunidade de emprego. Mais uma vez, buscando emprego, ele foi parar em outra cidade, também com outra siderúrgica, e que prometia emprego para quem se dispusesse a enfrentá-la: Volta Redonda. Lá ele fez sua vida. Foi casado com a mesma mulher por 41 anos e foi apaixonado por esta, tendo 5 filhos. Começou e terminou no mesmo hospital. Talvez tenha morrido num dos quartos onde sua mulher teve um de seus filhos. E onde ele mil vezes atendeu. Ao lado do grande edifício que havia sido sua casa grande parte da vida. Mas nada disso seria suficiente.

Poderia falar no sujeito que me ensinou que a melhor herança que se pode deixar para um filho é o estudo, que só trabalhando duro se chega a algum lugar, mas que é preciso trabalhar no que se gosta, pois a vida é muito curta pra gente perder tempo sendo infeliz. E também no homem que me ensinou que o amor é a coisa mais importante do mundo, mas que é preciso demonstrar esse amor sempre. Tem também o pai atleta, que mesmo passando dos 70, fazia esportes. Tem ainda o sujeito que foi fazer medicina pra ajudar os outros e cuja alcunha de “médico dos pobres” eu só vim a descobrir no dia do seu enterro. E, é claro, poderia falar do exemplo de vida e morte que ele deu ao enfrentar um câncer onde ele, mais do que ninguém, sabia tudo que ocorreria. E nunca reclamou. E nunca esmoreceu. E sempre acreditou – talvez no estranho lugar que a gente tem dentro da gente que insiste em acreditar, mesmo quando as evidências dizem o contrário – que sairia do hospital. Mas nada disso seria suficiente.

Poderia falar da sua fé e religiosidade, que o levaram até o fim a assumir diversos compromissos na paróquia que frequentava, da sua admiração pela Teologia da Libertação e sua amizade com "padres comunistas". Mas, pra quê? Vocês poderiam dizer que eu estou exagerando.

E se eu fosse começar a falar no sujeito engraçado, que me contava histórias, que fazia teatrinho no meu berço, que se fantasiava e encenava peças comigo, que me fez gostar de teatro, música e literatura – pois sabia que verdadeiros médicos cuidam também da alma e pacientes não são pedaços de carne - que vivia estudando em seu escritório, pois sabia que um bom profissional não pára nunca de estudar...bom, aí eu não pararia de escrever hoje. São tantas histórias, gargalhadas e bagunças e filmes do Jerry Lewis na Sessão da Tarde...mas nada disso seria suficiente. O tanto que eu chorei também não foi suficiente.

Acho que eu não fiquei triste o suficiente quando ele morreu por dois motivos. O primeiro é que se eu fosse ficar triste o suficiente eu não estaria mais aqui. Pois seria completamente e absolutamente insuportável. A segunda é porque é como se ele ainda estivesse comigo, por mais estranho que isso pareça. E a terceira, que eu descobri agora, é: o que é suficiente quando se trata de amor?
Segue então, mais uma tentativa de homenageá-lo e descrevê-lo, dessa vez não minha, mas emprestada (boto também a versão em inglês que é bem mais bonita do que essa tradução que eu não sei de quem é):

Funeral Blues (W. H. Auden)
Stop all the clocks, cut off the telephone,
Parem os relógios, cortem o telefone,
Prevent the dog from barking with a juicy bone,
Impeçam o cão de latir,
Silence the pianos and with muffled drum
Silenciem os pianos e com um toque de tambor
Bring out the coffin, let the mourners come
Tragam o caixão, venham os pranteadores
Let aeroplanes circle moaning overhead
Voem em círculos os aviões
Scribbling on the sky the message: "He Is Dead",
Escrevendo no céu a mensagem: "Ele está morto",
Put crepe bows round the white necks of the public doves,
Ponham laços nos pescoços brancos das pombas,
Let the traffic policemen wear black cotton gloves.
Usem os policiais luvas pretas de algodão.
He was my North, my South, my East and West,
Ele era meu norte, meu sul, meu leste e oeste,
My working week and my Sunday rest,
Minha semana de trabalho e meu domingo,
My noon, my midnight, my talk, my song;
Meu meio-dia, minha meia-noite. Minha conversa, minha canção.
I thought that love would last for ever; I was wrong.
Pensei que o amor fosse eterno, enganei-me.
The stars are not wanted now: put out every one;
As estrelas são indesejadas agora, dispensem todas;
Pack up the moon and dismantle the sun;
Embrulhem a lua e desmantelem o sol;
Pour away the ocean and sweep up the wood
Despejem o oceano e varram o bosque
For nothing now can ever come to any good.
Pois nada mais agora pode servir.

12 comentários:

Celso disse...

Bom dia, Carrie.
A saudade do meu pai, neste dia, é tão grande quanto a sua, e, neste ponto, identifico-me com o que você escreveu sobre o seu pai. Parabéns. Eu também tive o melhor pai que um ser humano poderia sonhar em ter, um pai corajoso, honesto, trabalhador, que enfrentou tudo na vida com muita coragem, desde o rompimento com as raízes (e para o homem do campo, do Brasil rural, isso era difícil) até o enfrentamento da luta do dia a dia no trabalho e do preconceito filho da puta contra os nordestinos.
Em tempo: meu pai também tinha câncer na próstata, e já em metástase, e sua morte deste mal foi antecipada por um enfarte fulminante do miocárdio na noite do dia 30 de dezembro, quando caiu morto em meu colo.
No Ano Novo, enterrei meu pai e não chorei, como nunca chorei a morte dele, pois ele está dentro de mim, no fundo da minha alma e ao longo da minha vida, para sempre.
Vou amá-lo para sempre, e meu maior sonho, um dia, é poder reencontrá-lo.
Feliz Dia dos Pais para você também.
Beijos,
Celso

Anônimo disse...

Betinho merece!
Feliz dia dos pais - para nós, formigas, que continuamos a acreditar que ele tá por aqui.

beijos, com algumas lagrimas envergonhadas neste domingão de sol carioca
Formiga Sênior

Leo disse...

:~
Daria um filme a história do seu pai. Ainda bem que com o meu, a relação é mais entre amigo, do que aquela "velha" hierarquia de 'eu sou pai e mando nas coisa'.

Jussara disse...

Nossa Carrie, que bonito; mesmo com meu bom e velho pai ainda vivo,graças a Deus, me emocionei(e chorei)com a hist. de vida do seu, que muito se parece com a do meu.Assim como se parece com a do pai do Celso,pois meu pai tb migrou do nordeste para o sudeste, e de lá pelo Brasil afora...e tb sofreu e trabalhou mto...
Sempre leio seu blog(inclusive já li o antigo),mas quase nunca comento;por isso então,aquele post onde vc diz que os comentários no seu blog são poucos, não vale,rs,já que eu leio tudo,apenas não me manifesto. ;-)

Anônimo disse...

Obrigada, Jussara! Mas uma das coisas mais legais em se ter um blog é ver a reação das pessoas - mesmo quando elas não gostam. Por isso, não vale ler e não comentar! Rsrsrs...tudo bem. Sei q têm muita gente q lê nunca fala nada, pois cada um é de um jeito, né? Tem gente q gosta de se expor mais, outros menos e às vezes não se tem nada pra falar, mesmo.
Enfim, blogueiro é um ser carente! Se não fosse, não escreveria em blogs!
Mas muito obrigada pela sua manifestação, q bom q vc gostou do texto e fez vc reforçar o sentimento pelo seu pai.
Um beijo

Carrie

VanOr disse...

Carrie, siamesa adorada,

Postei hoje um texto sobre o dia dos pais e eu tinha certeza que você faria o mesmo, porque, afinal, somos gêmeas. Só não podia imaginar que você me arrancaria tantas lágrimas com essa linda homenagem ao grande homem da sua vida. Nós somos um reflexo de nossos pais e, enquanto imagens indissolúveis uma da outra, sempre o traremos por perto, por dentro, sob a pele e na essência daquilo que compreendemos como amor.

Pela criatura instigante que você é, faço idéia do quão maravilhoso foi seu criador. Pelo falta que ele lhe faz hoje, te oferto meu colo e meu mais profundo carinho. Que o pai -- não aquele abstrato e infalível, mas o que você teve de concreto -- esteja sempre contigo, te impedindo de entrar em furadas, te protegendo e te estimulando a ir avante. Amém.

Anônimo disse...

beatiful, baby...
bjs.
v.

osvjor disse...

belo texto, Carrie White

Milema Medeiros disse...

Estou aos prantos com seu texto, primeiro pq achei maravilhoso e segundo pq meu pai representa absolutamente tudo pra mim.Um bjos grande

Jussara disse...

Oi Carrie.
Eu não sou blogueira ,mas de carência eu entendo,rs...realmente quem escreve,deve gostar de saber o que as pessoas pensam;por isso,vou tentar me manifestar mais vezes,rs;uma das coisas que achei interessante foi a coincidência do seu pai ter a mesma idade que o meu tinha,qdo eu nasci(no meu caso tenho irmãos bem mais velhos que eu), e acho q somos(vc e eu) da mesma idade tb. Tb sempre me identifico com as coisas amorosa-sentimentais que vc escreve...às vezes me emociono,às vezes dou risada,como no caso do ex que devia ser irmão,pra ter sumido ,ou no caso dele ser um super-herói,hehe(depois que vi o último filme do Super-homem,essa tese se reforçou ainda mais pra mim,rs).Nessas horas nem sei o q escrever,pq o riso facilmente poderia se converter em choro.Mas como eu já disse,eu leio tudo e gosto bastante.
Abs.

Carrie, a Estranha disse...

Mi,

Q bom...

bjs

Jussara,

Eu tenho 29 anos. Meus quatro irmão (dois homens e duas mulheres) são todos mais velhos q eu; 10, 12, 15 anos - a mais próxima de idade é Formiga Sister, mesmo assim, ela é 9 anos mais velha q eu.

Mas não é ótima minha teoria de ex-super herói ou irmão? Menina, achei fantástica essa descoberta. Ainda não vi Superman...
Por isso q eu gosto do Homem Aranha. A mulher soube de tudo e teve q se conformar. Não é muito mais honesto? Rsrsrs

Bjs

Jussara disse...

Oi Carrie,
Somos da mesma idade sim. Eu tenho só dois irmãos,um é 8 anos mais velho, e o outro,14. Queria mto ter tido uma irmã, de preferência mais velha(ela até existiu,mas faleceu ainda bebê).

A sua teoria do ex super-herói ou irmão é ótima mesmo,rs.No último filme do Super- homem,ele deu uma sumidinha básica de 5 anos,pode?lógico que a Lois Lane ficou uma fera...mas no fim,elas sempre acabam aceitando os caras de volta...dizem que é o amor, fazer o quê?mas neste último filme ,ele quebrou um pouco a cara,pq,n sei se vc já sabe, mas ela se casou com outro...mas tem um elemento novo na hist.,pelo qual sempre torci desde que assistia ao filme, qdo pequena.

Abs.