quinta-feira, julho 13, 2006

Escravos de Jó


E então ela olhou pro lado e pensou: será que eu pergunto se ele tá indo pro Rio? Será que vai parecer que eu tô dando em cima dele? Pô, mas ele também tá indo na mesma direção! Qual o problema da gente ir embora junto? A gente vai andando até o ponto, depois ele atravessa e pega a barca. Pronto! Eu podia perguntar se o 740 não serve pra ele...deve servir...não, aí já é dar muito na pinta.

Ela falou que morava no Rio. Como será que ela vai embora? Aposto que é de carro. Tem cara de quem é rica. Será que eu pergunto, tipo, como quem não quer nada: "e aí, tá indo pro Rio?". Bem dexxxcontraído. Putz! Lembrei que fiquei de esperar o Bruno. Merda. Ah, foda-se. Deixo ele prá trás e depois explico que foi uma emergência.

Será que ele deu mole aquela hora? “Pô, eu fico muito sozinho aqui no Rio”. Mas o que ele queria que eu dissesse? "Ah, é, vamos sair então"? Se toca! Mulher nunca convida. É o homem que tem que convidar! A regra é clara.

Será que eu dei muito na pinta aquela hora? “Pô, fico muito sozinho aqui no Rio”. Cala a boca, moleque! Só fala merda. Ela deu aquela olhada meio sem graça. Tipo: "foda-se!". Acho que ela percebeu tudo. Merda. Pronto! Não pergunto se ela tá indo pro Rio nem a pau. E mais: nem vou dar tchau. Vou falar com o professor e fingir que não tô nem aí quando ela passar.

Humm, droga. Tenho que passar na xerox. Daí se perguntar se ele vai pro Rio o que eu digo depois? Além de “peraí que eu vou ao banheiro”, “peraí que eu vou na xerox”? Ele vai pensar: "porra, garota, anda logo!". Sem contar que ele sempre vai falar com o professor todo final de aula. É, deixa pra lá. Porra, mas o semestre vai acabar e eu não vou conseguir passar dessas três ou quatro palavras que a gente fala todo dia! Será que ele tá dando mole? Não. Ele é tão simpático com todo mundo. Odeio homem simpático. Foi ultra mega maxi simpático com a Ana. Saco. Será que ele ta afim da Ana? Pô, eu acho que eu sou melhor que a Ana, sou não?

Isabela. Isabela...Eu sabia que o nome dela tinha que ser lindo. Isa. Bela. Muito bela. Ela deve ter ouvido essa cantada mais de mil vezes...

Acho que ele tá olhando pra cá. Mas basta eu olhar e ele vira o rosto. Saco. Devia ter vindo com a calça preta. Fico mais magra. Deixa eu prestar atenção na aula.

Ela tá olhando pra mim. Não. É pro mané que tá fazendo uma pergunta do meu lado. Porra, tô igual um adolescente! Eu devia ter emendado com um: “o que tem pra fazer de bom aqui no Rio?”. Não. Muito idiota, isso. Ela ia pensar que eu passo o dia em casa estudando e não tenho amigos. O que é verdade.

Devia ter perguntado se ele sente saudades de Curitiba, se ele deixou alguém lá. Não. Aí era bandeira máxima. “Tem namorada em Curitiba?” Dã...

Por que será que ela não veio na aula passada? Sacanagem...aula que vem sou eu que não venho. Assim não dá. O semestre tá acabando.

Pronto, falo ou não falo?

Pronto, ela tá saindo. Nem vai me dar tchau? Vou passar na frente dela.

Ah lá, não disse? Já foi falar com o professor. Ah, foda-se. Não tenho jeito pra essas coisas mesmo. Isso é obrigação de homem!

Sacanagem. Foi embora.

Vou dar uma enrolada no xerox. Quem sabe ele desce enquanto isso?

Ah, agora foda-se. Ela foi embora.

Pô, já ta escurecendo. Vou pegar mó trânsito. Ele não desce mesmo. Foda-se. CDF dos infernos. Será que ele é viado?

Ela deve ter saído muito rápido. Nem rastro.

Sou uma idiota, mesmo. Nunca vou ter coragem de falar. Que que tem de mais dizer “você vai pro Rio?”. Sempre falo isso com a Débora, com o Lúcio. Que que tem demais? Não quer dizer nada, a não ser que eu quero uma companhia.

Ela deve ter namorado.

Ele deve ter namorada lá em Curitiba, dessas que não desgruda, liga todo dia, vem no feriado...

Vou para ali com a galera pra tomar um café. Saco.

Ih, olha ele ali! Caramba! Como ele passou na minha frente e eu não vi? Falo ou não falo? Ah, não, mas ele tá cheio de gente em volta!

Cara, ela tá vindo ali! Porra, mas vai ser foda eu largar todo mundo aqui e perguntar “Pô, tá indo pro Rio”?

Será que eu dou tchau ou finjo que não vi? Ah, não. Agora não dá mais tempo.

Ah, não! Se ela fingir que não viu eu mato essa garota!

Falou pessoal! Tchau!

Tchau. Até semana que vem.

Idiota!

Idiota!


6 comentários:

VanOr disse...
Este comentário foi removido por um administrador do blog.
VanOr disse...

Ah, Carrie!...

Ah, Carrie!...

Por que você não perguntou pro menino se ele vinha pro Rio? Agora você vai ter todo o trabalho de vasculhar o orkut dele, goog-á-lo na internet e ler tudo que ele comentou em blogs pra juntar elementos que possam revelar se o cara tem namorada ou não. Isso tudo quando você poderia descobrir o que quisesse no trajeto pro Rio, papeando ao lado dele. E no final, ainda podia encerrar a carona com a deixa: "Nossa, neste final de semana eu finalmente não terei nada pra fazer! Vou dormir até!"

Se um cara não toma uma atitude depois disso, se mata. Ele é gay. (e minha auto-estima nem sempre é um lixo)

M.Eduarda disse...

A gente complica tanto as coisas né?

beijos

Carrie, a Estranha disse...

Essa história foi livremente inspirada em vários fatos da minha vida - e em várias pessoas tb. Não tem, assim, digamos "a pessoa" concreta.

Mas, como diria Pollyanna Johnson, acho que sou um Ursinho Poof. Ou apenas uma garota estranha com poderes telecinéticos.

lau disse...

todo mundo já viveu essa história que você contou tão lindamente.

Gisa disse...

Adorei a historia, quantas vezes já não passamos por esta situação...e quantas historias não deixamos de começar por pudores de nos expormos.