domingo, julho 31, 2011

Em todo caso...


...segue um dos posts da série POA, afinal, tava pronto mesmo...

Em Copacabana, num dia muito quente do mês de junho (justamente quando começa o inverno no Brasil), eu tomava meu chimarrão e assistia, em um jornal na televisão, à transmissão de cenas de um carnaval fora de época, no Nordeste. [...] As imagens mostravam um caminhão de som que reunia à sua volta milhares de pessoas seminuas a dançar, cantar e suar forte. O âncora do Jornal, falando para todo o país de um estúdios localizado ali no Rio de Janeiro, descrevia a cena com um tom de absoluta normalidade, como se fosse natural que aquilo acontecesse em junho, como se o fato fizesse parte do dia-a-dia de todo brasileiro. [...] A seguir o mesmo telejornal mostrou a chegada do frio no Sul, antecipando um inverno rigoroso. [...] Seminu e suando, reconheci imediatamente o lugar como meu, e desejei estar não em Copacabana, mas num avião rumo a Porto Alegre. O âncora, por sua vez adotara um tom de quase incredulidade, descrevendo aquelas imagens do frio como se retratassem outro país (chegou a defini-las como de “clima europeu”).[...]
Pela primeira vez eu me sentia um estranho, um estrangeiro em meu próprio território nacional; diferente, separado do Brasil. Eu era a comprovação de algo do que não me julgara, até então, um exemplo: o sentimento de não querer ser brasileiro tantas vezes manifesto pelos rio-grandenses, seja em situações triviais do cotidiano, seja na organização de movimentos separatistas (RAMIL, Vitor. A estética do frio. Conferência em Genebra. Porto Alegre: Satolep Livros, 2004, pp.9-10)*

Não é segredo pra ninguém que me lê há algum tempo que um dos sentimentos que eu carrego mais fortemente arraigados em mim é o da estranheza. Daí o pseudônimo de Carrie – e também uma homenagem a um dos meus livros prediletos. É, eu sei que parece que é legal ser assim, que toda unanimidade é burra (pobre Nelson! Não sabia que se tornaria, com essa frase, uma unanimidade), mas é difícil ser assim no dia-a-dia. Como diria Formiga Irmã, falando de uma moça que tem um avantajado e descomunal traseiro que chama a atenção dos homens por onde passa: “ai, um sábado à noite eu gostaria de sair com essa bunda. Mas no dia-a-dia ela é pouco prática”. Pois é. É muito legal ser eu, mas no dia-a-dia é pouco prático.

Particularmente uma das minhas estranhezas, talvez a mais explicável, seja a disfunção territorial. Sem dúvida eu nasci se não no país errado, com certeza no estado errado. Tenho muito mais identificações com Minas Gerais do que com o Rio de Janeiro – menos com a comida, cada vez mais eu detesto a comida mineira, gordura animal não é comigo. Até mesmo com São Paulo – que eu conheço pouquíssimo – eu tenho mais afinidades. Basicamente a questão do calor é a primeira delas. Eu não consigo imaginar porque fazer 40º a sombra pode ser sinônimo de alegria, alto astral e não sei mais o quê. Enfim, sou totalmente alheia ao trinômio samba-praia-futebol que caracteriza todo carioca.

Talvez isso se deva à Gotham City que é uma cidade na fronteira dos três estados (Minas, Rio, SP), embora pertença ao segundo. O nosso sotaque não é como o do restante do Rio. Estamos no meio de tudo – daí a escolha de Getúlio Vargas para fazer aqui a sua siderúrgica - e não somos nada exatamente. Síndrome de Brasília, guardada as devidas proporções.

Isto posto, minha primeira impressão ao chegar ao Rio Grande do Sul foi de entendimento. De toda essa estranheza de que fala o Vitor Ramil. Se ser um estado subtropical num país tropical. De ter tidos que lutar – e muito – pelas suas fronteiras.

Além disso, como já dito em outro post, os caras estão muito mais próximos geograficamente da Argentina. Natural que muitas afinidades venham de lá e não do Rio de Janeiro. Por exemplo, a tradição literária (até um tempo atrás li que o número de livrarias em Buenos Aires superava o do Brasil inteiro. Não sei se ainda é assim). Posso estar falando besteira, não sei os números em relação a isso, mas me parece que as pessoas lêem muito mais no sul do que no restante do país. Novamente me perdoem se eu reduzo a complexidade do tema, mas eu arriscaria que ficar dentro de casa ou em um ambiente fechado leva a atividades introspectivas, dentre as quais a leitura. Como diria Caetano, “só é possível filosofar em alemão”. Não me entendam mal, não quero fazer nenhuma apologia a determinismos geográficos de qualquer sorte. Lógico que há outros fatores que influenciam, mas, no caso brasileiro – e do Rio Grande do Sul, em particular – eu chutaria que é também e em grande medida por esse motivo.

Essa suspeita - de que eles lêem muito - foi confirmada por uma professora da PUC com quem eu conversei, do Rio, e que mora lá há 10 anos. Segundo ela, os alunos da PUC são muito bons muito em função do quanto eles são acostumados a ler. 

Pode ser. Mas também desconfio que seja porque é a PUC. Assim como os alunos da PUC do Rio também são muito bons. Faculdade concorridas tendem a selecionar melhor.

(continua...)

* Um dos presentes dados pela doce e querida Silvana. 


4 comentários:

ila fox disse...

Eu gostava de comida mineira até mudar pra minas... hoje eu não aguento mais tanta fritura, tanta gordura, socorro!

Gazzy1978 disse...

Eu super me identifiquei com o texto q vc postou! Engraçado é ser paranaense, nunca vi um povo ser tão contraditório, que ao mesmo tempo que quer ser paulista, também quer ser catarina e até gaúcho.

Acho q paranaense é o brasileiro q não deu certo: pq é um povo alegre com quem conhece, mas não fala com estranhos (arrumar emprego aqui, sem indicação, é um martírio); gosta do frio, mas quer praia; curte um feriado, mas acha um saco que no Carnaval só tenha desfile de escola de samba na TV; quer ir pra praia, mas reclama do calor, da areia, do mar e daí resolve tudo indo pra Floripa; e qd tá frio, fica torcendo pro verão chegar e parar de sentir frio.

Paranaense/curitibano é contraditório.

Yêda Alencar disse...

Carrie,
Me identifiquei muito. Eu sinto o msm em relação a cidade q eu moro, no caso Teresina/Piauí. Amo frio, aqui tb passa dos 40º (na sombra), nos últimos meses do ano. Aqui o trinômio é Forró, Boite, Forró (não sou mt de forró, gosto de alguns mais antigos, mas nada q me faça pagar pra ouvir, haha). E bom, não estamos no meio de nada interessante (e aí, meu desconforto aumenta mais ainda), "e não somos nada exatamente". Mas, qualquer dia vou com passagem só de ida, pra qualquer outro lugar.

Silvana disse...

E o frio voltou no fim de semana. E o ar sentiu e estragou sexta à noite. Timing perfeito. Dedinhos congelados mas trabalhando que prazo é prazo. Sete graus neste minuto. Saudade, bom entrar aqui e te ler de novo.
Beijo...