terça-feira, janeiro 26, 2010

Notícias portenhas

Estou aqui, neste momento aportada em Buenos Aires, a cidade que eu mais amo no mundo – eu fico em dúvida entre Buenos Aires e Nova York, mas pra uma não ficar com ciúmes da outra, quando estou numa, digo que ela é a minha cidade, assim as duas não brigam comigo.

Chegamos aqui às 7:30, 8. Como nossa cabine é exterior, começamos a ver guindastes e containers cruzando o nosso campo de visão. Tomamos um café e rumamos para Calle Florida. Há um onibusinho da prefeitura que nos leva até o ponto de táxi. Chegando lá, vimos uma tabela com os preços para as principais atrações e locais de interesse em Bue. Em dólar e em pesos. A corrida para a rua Florida dava 6 dólares ou 24 pesos. Seis dólares, minha gente – na volta, descobrimos que é ainda mais barato, pois deu apenas 13 pesos. Sim, pesos. Mas, em se tratando de “táxi pra turista”, achei bem justo. Aliás, isso me chocou muito. Quando fomos entrar no táxi o cara que estava organizando as corridas veio nos perguntar se poderíamos ir com uma garota que também estava indo pro mesmo lugar. Quer dizer, o cara podia ter enfiado a garota em outro táxi, para lucrar mais, mas preferiu colocá-la em outro táxi, junto conosco. Resultado: deu 1 dólar e meio pra cada uma, mas a menina deu dois dólares feliz da vida, dizendo que não precisava de troco.

Agora eu vos pergunto: quando é que isso aconteceria na rodoviária do Rio? No Rio você precisa avisar os turistas pra eles não pegarem os taxistas da rodoviária e sim atravessar a rua e pegar os que estão passando. O que me deixa de cara com Buenos Aires é como um povo tão pobre, com uma economia tão fudida, colonizado por espanhóis que faziam o mesmo sistema de exploração que era feito no Brasil pelos portugueses pode ser tão mais educado, gentil e organizado. E os brasileiros ainda alimentam essa estúpida rivalidade Brasil x Argentina – que, a meu ver, vem muito mais da parte dos brasileiros.

É eu pisar nessa cidade e eu me sinto muito bem. Pode ser que eu dou sorte, mas todo mundo puxa papo, as pessoas são gentis e particularmente gentis quando sabem que você vem do Brasil e ainda por cima do Rio. Mas, eu sou estranha. Eu achei os novaiorquinos super simpáticos, então vai ver a coisa é comigo. Acho que eu já disse isso aqui. Acho que os argentinos têm um jeito que se parece muito com o meu jeito: uma alma meio trágica, um jeito meio abrupto de dizer as coisas, mas no fundo um poço de sentimentalismo. Vai ver vem daí a identificação.

E eles têm brio. Tem garra. Porte natural. O país pode estar uma merda, mas parece que eles estão dizendo com o olhar: “sou argentino, porra!”. É uma decadência cheia de brio. Como aquela tia velha que perdeu todo o dinheiro, mas ainda se veste com as melhores roupas – mesmo que elas estejam rotas e puídas. É uma nobreza que transcende as aparências. Se a situação aqui não estivesse tão ruim eu me mudava pra cá. Pensando bem, quem sabe um pós-doutoradozinho? Como diria um professor meu argentino: “Buenos Aires é um belo cenário”. Acho que vou comprar uma camisa da Argentina – e ser linchada no Brasil.

Aliás, decidi hoje que vou voltar em breve pra passar uns 20 dias aqui. Sozinha. Vou me hospedar perto de onde a gente ficou em 2005 (um hotel na Lavalle, perto da Florida), passar os dias sentadas nos cafés vendo as pessoas passando lá fora, escrevendo e lendo, fumando charutos, entrando calmamente em todas as milhares de livrarias, comendo a maravilhosa carne argentina, chapando vinho e fazendo longas caminhadas pelas ruas. No que eu estava falando isso, saiu um velhinho daqueles com uma carinha super mal humorada. Formiga Irmã não titubeou: “e vai ser amiga deste velhinho!”. Sim, serei amiga de todos os velhinhos mal humorados de Buenos Aires e falaremos mal da turba delirante de turistas brasileiros que vem ávida por torrar o dinheiro de sua economia emergente.

Se você nunca veio a Buenos Aires, corrija logo esse erro na sua biografia. Venha para cá já. É muito mais barato do que uma viagem pro Nordeste.

Mas continuando nossa história, fomos pra Florida e descemos já em frente às galerias Pacífico, meca do consumo portenho. Me senti como uma inglesa desembarcando no Rio. Tudo pra gente é muito barato. A proporção tá de 1 dólar = 3,78 pesos e 1 real = 2,10. Não que eu viaje para fazer compras – não vou perder meu tempo fazendo compra – mas, já que to aqui mesmo resolvi dar uma olhada em maquilage, já que estou tendo que usar horrendas bases brasileiras. Minha cútis é assaz oleosa, de modo que é difícil encontrar bases que me favoreçam. Encontrei uma Lâncome a 170 pesos, mais um pó compacto de mesma marca e dois batons Revlon, totalizando 120 dólares. Ah é: muitas lojas aceitam dólares e reais e isso é bom. Mesmo assim fizemos uma pequena troca peso pra miudezas.

Andamos um pouco pela Florida, que é praticamente um calçadão de Juiz de Fora, um pouco maior. Estava um sol de rachar, com um esplêndido céu azul. Calor, mas suportável. Só fui em uma livraria, mas não comprei nada.

O cruzeiro tem sido...hilário. Sim, a melhor palavra para descrever tudo isso é hilário. É um mistura de Las Vegas com Titanic. Têm momentos únicos de puro glamour. É um fantástico estudo antropológico do lazer da classe média. Aliás, fiquei bastante interessada em saber qual a classe econômica que este cruzeiro atinge. Embora seja um programa que pode não ser muito barato dependendo da cabine que você escolhe, há a opção de pagamento em dez vezes. Quer dizer...qual será o público real de um Cruzeiro desses?

É um luxo quase ostensivo no saguão central. Os corredores são puro Titanic, as escadas idem, tudo acarpetado, com muitos detalhes em dourado. Elevadores panorâmicos, teto envidraçado...

Há umas três pisicinas frias, de água salgada e umas quatro jacuzzis, com água quente. Um toboágua gigante e uma infinidade de espreguiçadeiras. Toalhas, toalhas e mais toalhas. Há um funcionário só para dobrar toalhas e recolher toalhas. Há sempre dezenas de toalhas limpas na piscina. O interessante é por mais lotado que esteja o navio, há espaços absolutamente desertos. Claro que se você quiser pegar a aula de salsa na beira da psicina, vai rolar uma certa muvuca, mas tem como fugir. Por outro lado, não dá pra fugir dos garçons filipinos dançando a macarena no meio do seu jantar. Quase desmaiei de tanto rir. Filmei tudo, depois posto aqui.

A pista de corrida é muito pequena e eu só fui um dia. Tentarei ir na academia. Tem uma aula de spinning de frente para o mar que parece ser incrível. E vazia. Os quartos são bem confortáveis, o serviço de quarto idem (arrumam o quarto duas vezes) e as coisas funcionam muito bem.

A comida. Realmente é o que todo mundo diz: muita comida. Quase tudo gira em torno da comida dentro do navio. Uma semana de comida aqui alimentaria o Haiti durante uns 5 anos. Me sinto meio como o Hans Castorp, o personagem de A montanha mágica, de Thomas Mann, isolado no sanatório para tratar de turberculose. Come, descansa, come, descansa, dorme. Quer dizer, têm os shows, os eventos todos, mas eu só dou uma olhada nisso tudo.

Tem comida quase 24 horas à disposição. Café da manhã com tudo que se têm direito, almoço num buffet self service (confesso que gosto mais do restaurante do almoço do que do jantar), lanche, jantar (com cinco, seis pratos, mas aquele estilo pouquinha comida e nem sempre é muito bom) e uma ceia à meia noite. Fora isso tem pizza quase 24 horas. A qualquer hora do dia têm pizza num dos restaurantes. E também frutas e água.

A bebida é cara. Quer dizer, é em dólar e por isso cara, então não dá pra ficar tomando porre. Vocês se lembram do Salim, aquela entidade turca (nós não turco, nós libanês!!!) que me habita sempre que eu viajo? Pois é. Ele já deu as caras de modos que eu trouxe garrafinhas de plástico pra encher de água no buffet e trazer por perto, evitando que eu gaste com o frigobar. E vocês pensando que eu estou dando vexame? Tolinhos. Nêgo desce com garrafa de um litro e meio, com garrafa térmica e enche de água quente, café e volta pro quarto.

Bom, tem muito mais coisa pra contar, mas agora eu preciso tomar banho, porque logo mais vamos ver um espetáculo de tango com um jantar com a maravilhosa carne argentina.

Ah é: aqui pega todos os canais brasileiros. Mas eu só descobri hoje. Dããã. Pelo menos não foi no último dia. A internet é 0,50 centavos de dólar, 1h = 10 dólares e 3h = 24 dólares. Sendo assim, vou entrar aqui bem rápido.

Em breve volto para contar os outros dias. Ficamos aqui em Bue até amanhã de tarde. Depois, Uruguai.

11 comentários:

ila fox disse...

Tenho vontade de conhecer a Argentina e também dar um pulinho ali na patagônia, ver pinguins. :-)

Carmen disse...

Inveeejaaaaa! kkkkkkkkkkkkkk
Engraçado que domingo uma vizinha estava contando do cruzeiro que fez pro Nordeste (pelo visto esse negócio é a nova moda!), e me falou várias coisas q vc está postando, rs.
Aaaaaaaah, eu quero ir também!
Olha, qt à B.A., que tal Reveillon por lá? Topas?
Já começo a me preparar desde agora!
Besitos corazón!

***GrAzI disse...

Que delícia heim??? Concordo com vc sobre Buenos Aires... adoro o povo, a cidade e tbém arrisco sem dó passar uns dias sozinhas aí... dá-lhe café e livro! rsrsrrs...
Beijos!!!

Marcele disse...

Invejaaaaaaaaa tambémmmmmmm. Mais inveja ainda do seu jantar de hj a noite.... carne argentina! ahhh, como eu queria! Mas vou ter q me contentar com pizza de frigideira... hehehe.
Adorei Buenos Aires (e os argentinos!) e quero voltar certeza!
Bjs e aproveite!!!!

anna v. disse...

Vou a BsAs em abril. Depois me manda as melhores dicas!
No mais, divirta-se e coma alfajores Jorgito.

nervocalm disse...

Outra invejosa aqui!

Vai pra Montevideo? Toma um refrigerante Pomelo por Bopla, que é da terra, e um sorvete marmolado de dulce de leche Conaprole por mim. Ai, ai... Ai, ai, ai, ai, ai...

trinity disse...

Continue filmando, fotografando, aguadro anciosa por mais postagens!

Alan Pascal disse...

buenos aires é massa

Carrie, a Estranha disse...

Ila,

Tem q conhecer. É muito bom.

Carmen,

Mas tá muito longe! Vamos algo mais perto.

Grazi,

E o q mais uma pessoa precisa pra ser feliz.

Marcele,

Então vc sabe do q estou falando. Karine já veio tb?

Anna V.,

Ah, minhas dicas são as turísticas de sempre. E coisinhas do tipo andar na rua e ficar vendo o povo.

Tô com uma cacha deles aqui. E mais muitas outras marcas.

Bel,

Vou a Punta del Este apenas.

Trinity,

Vou postar as fotos assim q der.

Alan,

Nem me fale.

Bj gde gente.

Alexandre Avelar disse...

BA é sensacional mesmo. Tenho um amigo que está para fazer um pós-doc lá dividindo ainda com Paris. Mole?
Mas vc deu sorte com taxistas. Há muito pilantra lá também que adora passar dinheiro falso para turistas. Mas nada que tire o brilho da cidade, óbvio.
Já ouviu falar do Interescuelas? Então, é a ANPUH Nacional deles. No ano passado, foi em Bariloche e um amigo meu apresentou trabalho ( aliás, o cara é de Volta Redonda ). E o melhor é que dá para apresentar em português numa boa, segundo ele. Boa pedida, hein, hein?

nervocalm disse...

Deve ter marmolado em Punta também. ;)