sexta-feira, julho 10, 2009

Som & Fúria

A nova minssérie da Globo, “Som e Fúria”, é das melhores coisas feitas na Globo nos últimos 15 anos. Ok, talvez eu seja suspeita pra falar, pois a temática é algo que me é particularmente cara – os bastidores de uma companhia shakespeareana de teatro às voltas entre o dilema de manter a qualidade artística e o teatro cheio. Como vocês sabem, em priscas eras eu ensaiei uma carreira de atriz, mas que, para o bem da arte dramática, foi abortada logo nos primeiros anos. Mas eu sou atriz – mas, por favor, não espalhem nem usem isso contra mim em um momento de raiva. Estudei em renomadas casas de arte dramática do Rio e fiz algumas peças. Aliás, uma das coisas que me fez desistir foi justamente o convívio com atores e diretores – temática, esta, enfatizada pela minissérie – além do meu pouco talento, o que me faria ter que estudar o triplo, praticar muito, e ainda por cima insistir demais numa carreira que eu comecei a duvidar. Mas gosto muito das artes dramáticas e meu sonho ainda é conseguir escrever alguma coisa pro teatro.

Com direção do Fernando Meirelles, a minissérie é uma adaptação da uma minissérie canadense “Slings and Arrows”. Mostra o dia a dia da fictícia Companhia de Teatro shakespeareano do Teatro Municipal de São Paulo e as tênues e complexas relações entre público, teatro, produtores, diretores e atores. O ator-celebridade vivido pelo Daniel de Oliveira é convidado pra fazer o papel de Hamlet para trazer mais público. Há os atores mais velhos, a outrora mocinha da companhia – vivida pela Andréa Beltrão – que agora faz não mais a Ofélia, mas a mãe de Hamlet...enfim, tem de tudo.

Mas o personagem mais hilário, que me faz dar gargalhadas, é o polêmico diretor de vanguarda Osvald Thomas, numa óbvia e gritante referência ao também polêmico diretor de vanguarda Gerald Thomas. Não se deram ao trabalho nem de mudar o sobrenome. Ele é completamente afetado, insere palavras em inglês o tempo todo (como o próprio Gerald) e é chamado para substituir o personagem de Felipe Camargo.

Bom, eu fiz um curso com o Gerald uma vez – quer dizer, tentei fazer, já que eram cinco dias e ele só foi a dois e mandou devolver o dinheiro relativo aos outros três dias das pessoas; houve gente muito puta, querendo o dinheiro do curso todo de volta...- e posso dizer que eles foram até bonzinhos com ele pela forma como o retrataram. Me lembro de ter alguns globais filhos de diretores entre os alunos do curso e ele puxava o saco destes descaradamente – vanguarda, sim, mas quem sabe uma boquinha na Globo, não é mesmo? Além disso, fazia cenas inacreditáveis, como se atirar no chão, fazer piadas completamente inconvenientes com os alunos e perder um tempo enorme falando de outras coisas que não de teatro (principalmente de si mesmo). Uma besta completa. Um idiota, que ninguém tem coragem de dizer o quão idiota é por medo de parecer burro. Grosso, afetado, metido, americanizado (no pior sentido que pode existir) e imbecil. Mas, em terra de cego, quem tem um olho é rei e o cara entende um pouco de teatro, mais do que o resto, e por isso fica por aí, fazendo essas coisas. Mas que ele deve estar puto da vida de se ver nessa minissérie, isso deve. Obrigada, Fernando Meirelles! Você lavou minha alma.

Além disso, tem a dupla “do mal” formada pela Regina Case e o Dan Stulbach, que são da Secretaria de Cultura, odeiam Shakespeare e querem transformar o Teatro Municipal em um grande teatro de musicais. Hilárias as discussões sobre teatro comercial e teatro sério entre eles.

Ainda tem Santoro (suspiro!!!!), Débora Falabella e vários atores que eu adoro. Sem contar que tem palinhas do maravilhoso texto de Shakespeare. Uma das cenas mais lindas, aliás, foi feita por um não-ator. Alguns funcionários de uma empresa de plásticos vão fazer um curso no teatro municipal para melhorar as vendas – coisas de RHs cretinos de grandes empresas. O monólogo de Macbeth, quando ele sabe que a rainha morreu (o que diz que a vida nada mais é do que uma história contada por um idiota, cheia de som e fúria, nada significando), é então feito por este não-ator. E é lindo. Muito mais do que o ensaio dos “verdadeiros atores” que rola no palco principal, perdidos em duelos de egos.

Vocês podem ver os episódios todos no site.

9 comentários:

Luís Miscow disse...

GT só sabe falar que trabalhou com Beckett (em Berlim, salvo engano). Aí uma vez na sua (graças a Deus) finada coluna no Globo, ao repetir pelo milionésima vez a história, ilustrou a coluna com uma foto do.... Brecht!!!!

Eu imagino que algum estagiário (sempre eles!) tenha feito a burrada, mas pra mim foi uma comprovação simbólica de que ele não era tão íntimo do mestre assim...

Sem contar a famosa apresentação da ópera "Tristão e Isolda", que meus pais chegaram a comprar pra mim tb, mas eu disse que preferia ir ao Maracanã (o Flu ganhou e, como se sabe, o GT abaixou as calças. Sou um visionário).

Bjos

Luís Miscow disse...

Aliás, ainda no tópico teatro. Do Gerald eu só acho graça, mas raiva mesmo eu tenho do Zé Celso (embora os mudernos do teatro o achem o máximo).

Passei ANOS querendo assistir a uma montagem de "Esperando Godot", e quando ele montou, botou Vladimir e Estragon se beijando! PQP! Eu cheguei a reler a peça pra descobrir se tinha perdido essa parte, mas depois ele confessou que aquilo era da cabeça dele, porque ele tinha "sentido uma tensão sexual latente entre os 2". Ah, vai pra pqp!

Carrie, a Estranha disse...

Hahahaha, Luís...muto bom! Vc precisa ler um conto do Rubem Fonseca, do Lúcia MacCartney, chamado "Asteriscos" onde ele satiriza um diretor de vanguarda. Os críticos da época dizem q ele estava sacaneando especificamente o Zé Celso.

Bj

Lilith disse...

Carrie...também estou acompanhando a minissérie e estou adorando...me emocionei também com a cena do não ator...muito linda...bjus.

Amana disse...

valeu pela dica! cheguei por fora da tv brasileira, e ja sei o que vou sintonizar!
muitos beijos!

ila fox disse...

Não estou assistindo a série, mas agora fiquei curiosa! acho que vou procurar no Youtube! :-D

Em tempo, a série da Globo que mais gostei foi Capitu. Artistas de primeira, fotografia linda e uma trilha sonora espetacular! Nunca me simpatizei muito pela literatura brasileira por causa de sua gramática rebuscada... mas esta série me fez ter outra visão!

Stella disse...

Acredita que eu ainda não consegui assistir NENHUM episódio??? :/
Mas pelo jeito que anda a coisa acho que vai sair em DVD quando acabar, que nem Maysa (que BTW, foi um saco). E aí eu vejo tudo direitinho. ;)
Tem cara de valer a pena. Todo mundo elogiando. E quando eu digo 'todo mundo', estou falando de pessoas que tem bom gosto e que dão boas dicas, sabe? (indireta! indireta! rs)

:D

Boa sexta pra você!!
Beijos

Dimy disse...

Namastê!
Vc esteve no meu bloguito, disse que foi procurar no santogoo e me encontrou...eu já deixei comments aqui, adoro seu espaço e respeito suas opiniões, além de me divertir muito acabo encontrando coisinhas sobre o que eu tambem penso da vida.Como não sei me expressar com tanta clareza venho e coloco links, não poderia fazer isso?Se há algo contra tudo certo, eu não o farei mais.Sabe, escrevo mais para deixar um registro das coisas que mais amei, pensamentos, conclusões, claro que são de outros, mas claro que eu gostaria muito de ter tido perspicácia e língua portuguesa para escreve-los com tanta desenvoltura.
Amo seu blog, é isso!
E eu ,quem sou? como disse, sou o comum dos mortais, vivendo num mundo maravilhoso.
beijos de flores
Dimy

Luís Miscow disse...

Beijos de flores!!!!!

hahahahahahahah
hahahahahahahah
hahahahahahahaha