segunda-feira, junho 22, 2009

Don't kill the messenger

A expressão “não atire no mensageiro” ou “não mate o mensageiro” é simples e direta: não mate a pessoa que trouxe as más notícias. Ela apenas as trouxe. Se a notícia é má, o problema está na notícia e não no mensageiro.

A idéia foi expressa por Sófocles no distante ano de 442 antes de Cristo, em Antígona, e depois em Shakespeare, com Henrique IV, parte II (1598) e também em “Antônio e Cleópatra” (1606-07). Outros a quem teria sido atribuído o dito – com ligeiras alterações – seriam Mark Twain e Oscar Wilde, embora os mesmos não tenham reclamado a autoria (Fonte: “Random House Dictionary of Popular Proverbs and Sayings", by Gregory Y. Titelman).

Lembro-me de um amigo cujo pai morreu e ele recebeu a notícia do vizinho. Ficou anos com raiva do vizinho. Claro que racionalmente ele sabia que não havia lógica nisso. Mas nem por isso ele deixava de sentir raiva. Mas uma coisa é sentir a raiva. A outra é descontar a raiva no vizinho.

Há momentos em nossas vidas em que associamos determinados sentimentos a certas pessoas sem que as mesmas sejam responsáveis pela causa de nossa dor. É inevitável. Claro que o exemplo do meu amigo aí de cima foi gritante. Na maioria dos casos a coisa se dá num plano mais sutil. Atribuímos sentidos às falas alheias que elas na verdade não têm. Enxergamos mensagens ocultas em simples asserções e criamos fantasmas que só existem na nossa cabeça.

Quando somos crianças fazemos essa associação direta e “matamos o mensageiro”. Depois que a gente cresce um pouquinho aprende a separar o que é nosso sentimento do que é a realidade. Ou deveríamos. Se não podemos evitar de sentir o que quer que seja, podemos, ao menos, evitar de despejar no outro. Há que separar uma coisa de outra coisa. Não matar o mensageiro. Por mais que o meu amigo sinta raiva do vizinho toda vez que o veja, pois se lembra do pai morto, não vai descontar sua frustração no sujeito. Isso se chama ser adulto. Isso se chama respeito ao próximo. Ainda mais quando o próximo é realmente próximo.

Quando você conhece a outra pessoa que está falando e tem por ela um mínimo de amizade e respeito, você tenta entender o porquê dela ter dito tal coisa. “Teria sido realmente por mal? Ela quer o meu mal? Depois de tantos anos de amizade é possível que ela tenha dito X ou Y apenas para me fazer mal? Então ela foi falsa esse tempo todo e eu nunca percebi?”. Tenta conversar, tenta se entender e entender as razões do outro. Crianças choram e esperneaim. Adultos sentam e conversam, por mais incômodo que isso seja. Mágoas engordam com o tempo.

Mas infelizmente as pessoas prezam cada vez menos as relações. Jogam pelo ralo anos de amizade por nada. Acreditam que têm tempo, que podem se dar ao luxo de tratar o outro como bem lhe interessam e depois tudo sanar. Lambendo as próprias feridas, acham que podem cuspir nas alheias – sim, pois só as próprias feridas lhe interessam, a dos outros que se danem todas. Só que o tempo não é o mesmo para todos. Quando as feridas de um se cicatrizam não quer dizer que as do outro estejam curadas. Não se pode sair vomitando os próprios sentimentos nos outros e esperando compreensão simplesmente porque “ó, eu estou magoado”. E o que é pior: o mensageiro sequer sabe porque morreu. Não tem nem a chance de se defender. Como nos velhos duelos, você deve ter pelo menos respeito pelo seu oponente e dar a chance igual de se defender.

Mas, o que eu estou falando? Duelos? Respeito? Delicadeza com o próximo? Que bobagem, né? Valores tão antiquados...

Há que se ter cuidado com as palavras. Com os gestos. Tudo tem uma reação na vida. Não ache que porque é o seu irmão, sua melhor amiga, seu marido, sua filha que ela vai ter que entender as suas grosserias, suas respostas enviesadas, seus cumprimentos atravessados, adivinhar seus sentimentos e ficar correndo para consertar tudo, sem ao menos ter sido avisado do erro. Se você não foi capaz de ter todo esse cuidado com a outra parte não espere que tenham o mesmo cuidado com você. Lembre-se de que o outro também tem sentimentos. Não dá pra sair pisando nos outros porque você está mal. Mais uma vez lembrando o bardo inglês: o mundo não para só porque o seu coração se partiu em mil pedaços. Não deixe a mágoa encroar no seu coração. Amanhã pode ser tarde demais.

8 comentários:

Se o "se" não tivesse ficado só no "se" disse...

Esse foi realmente O texto mais belo que li nesse blog, parabéns Carrie, de jeito nenhum vc é estranha, isso foi uma bela aula de psicologia,ou vc tá muito inspirada, ou tá apaixonada, ou ah, sei lá.

Carrie, a Estranha disse...

Hahahahaha...

trinity disse...

Acabei de ler o texto no seu perfil.
MA-RA-VI-LHO-SO!

Karine disse...

Nossa amiga, quanta inspiração... Passei por aqui só para você saber que li e adorei, mas não tenho nada para comentar. Tô pensando se fiz isso... Bjs, Karine

Lilith disse...

Que lindo texto, Carrie. O pior é que a gente só faz isso com as pessoas próximas, que mais nos amam e que mais amamos...bjos.

Carrie, a Estranha disse...

Trinity,

Obrigada!

Ká,

Acho q vez ou outra todos nós fazemos. Ou já fizemos em algum momento da vida. O importante é não deixar virar prática.

Lilith,

Obrigada.

Sim, infelizmente os mais atingidos são sempre os mais próximos.

Bjs

Stella disse...

Ah, mas ninguém quer ser a pessoa que vai dar as más notícias!!
Porque, querendo ou não, fazendo sentido ou não, ela vai ser sempre associada àquela notícia ruim. :/

Beijo

Amana disse...

Eu tenho riso nervoso quando vou dar noticia ruim.
Eh horrivel.