sexta-feira, março 13, 2009

Lições da crise

Ontem eu vi uma matéria no Bom Dia Brasil que me deixou estarrecida. Era sobre um acampamento de sem-tetos...na Califórnia, um dos estados mais ricos do EUA. Centenas e centenas de pessoas que perderam tudo por causa da crise, inclusive as suas casas e estão morando em barracas de camping. Um pequeno detalhe de uma crueldade assustadora: os bancos, que tomaram as casas porque as pessoas não conseguiram pagar as suas hipotecas, não tem o que fazer com as mesmas e elas estão apodrecendo – na minha ignorância eu fico pensando: não teria sido melhor negociar com as pessoas? A matéria mostrava centenas de famílias chegando todos os dias e o prefeito dizendo que vai ter que regularizar o acampamento, porque os abrigos na cidade não tem como acolher todos. Cenário apocalíptico. Mistura de Woodstock com assentamento do MST.

Para além da tragédia pessoal – e eu sei que quem mais se ferra são sempre os menores; quem é muito muito rico sempre dá um jeito de se safar – eu acho que essa crise toda...boa. Pode ser o início de uma grande mudança no mundo (This is the dawning of the age of Aquarius/ The age of Aquarius/ Aquarius! Aquarius!). Calma, calma.

Impossível não pensar que Marx deve estar dando pulinhos de alegria lá de cima (ou lá de baixo, como preferirem), afinal ele disse tanto que a burguesia criaria a mais incrível sociedade já vista, com os maiores tesouros e riquezas, mas embutidos nela estariam os germes da sua própria destruição e haveria o dia em que todo sólido se desintegraria no ar, todo sagrado seria profanado e os homens seriam por fim “compelidos a enfrentar de modo sensato suas condições reais de vida e suas relações com seus semelhantes”. Quer dizer, uma vez tudo destruído, nos defrontaríamos com o que realmente importa. Ok, não falemos em destruição, afinal em 1929 fantasmas apocalípticos também rondaram o capitalismo e ele saiu mais forte do que nunca e não será agora que o mundo vai acabar – pelo menos não num sentido literal. Não é preciso ser economista pra saber que as crises são inerentes ao capitalismo e o mundo vai se safar dessa. Ainda sobreviveremos algumas centenas de anos até que o homem consiga por fim a si mesmo. Ou quem sabe antes disso Deus, numa animada partida de sinuca, resolva acertar a Terra com um meteoro qualquer, como volta e meia aparece nos noticiários: “meteoro passa de raspão pela Terra”. Gosto muito de pensar que tudo pode estar por um triz nesse exato momento. Faz colocar as coisas sob perspectiva.

Mas voltando a falar da crise...Queria acreditar que todas essas pessoas vão se rebelar e perceber a força que têm e tomar suas casas de volta à força, invadir a Casa Branca e fundar um governo popular, mas não acredito nisso – e uma vez tomado o poder, o que fazer com ele, não é verdade? Os exemplos têm nos mostrado que uma vez no poder, somos todos corrompidos por este – e eu realmente gostaria de levar a sério os anarquistas, mas não dá.

Pensando aqui com meus botões, arrisco: seria muito pensar que o mundo pode sair um pouco mudado disso tudo e pra melhor? Falo de uma mudança menor. De mudanças de valores. Mínimas, que sejam, mas cada vez mais eu me apego nas mudanças mínimas.

Não é preciso ter ido aos Estados Unidos para perceber como, embora estejamos globalizados e cada vez mais nos pareçamos – pelo menos nas grandes metrópoles -, o apelo ao consumo é gritante naquele lugar, muito mais do que em muitos outros. O tempo todo você é bombardeado com informações de que não é bom o bastante, magro o bastante, louro o bastante, esperto o bastante, rápido o bastante, bem sucedido o bastante, mas que...SEUS PROBLEMAS ACABARAM! A solução está sempre a um click, um telefonema, um produto no carrinho, um corte de bisturi, um livro de auto-ajuda, uma seita, um guru ou qualquer solução rápida que você possa comprar. Sei que essa é uma análise simplista das coisas – que, claro, são sempre muito mais complexas – que aqui caminhamos pra isso também, mas os EUA conseguem condensar o melhor e o pior do mundo e, em última instância a coisa toda se resume ao TER = SER. No mundo atual, pautado por valores ocidentais em sua maioria, existe quem têm. Quanto menos você possui, mais diminuído está. Então, me perdoem se eu estou sendo muito ingênua, mas acredito que essa crise possa ser, no final das contas, benéfica para se não mudar valores da sociedade estadunidense – e do mundo a reboque -, pelo menos desacelerar um pouco as coisas.

Dentre as muitas avis rara que habitam o vasto cabedal da minha família, tenho um tio que diz que o mundo acabou em 2000. Ele acha que Nostradamus de fato acertou e que o mundo acabou em 2000. Tudo o que estamos vivendo a partir de então são dias pós-apocalípticos. Adoro ouvir suas teorias. Não só porque me seduz a perspectiva de viver em tempos pós-apocalípticos (o que me tornaria uma espécie de heroína saída das páginas Alan Moore, Alan C. Clarke ou Krank Herbert, quem sabe com uma roupa de couro preta – ah é, eu seria magra no meu sonho -, pulando pelos telhados de Gotham City, enquanto o resto do mundo dorme sem se dar conta do perigo, como também tendo a concordar com ele, em parte, embora discordemos sobre o efeito disso. Para o meu tio o fim do mundo é péssimo. Pra mim, não. Acho que vivemos o fim do mundo, sim. (Talvez os historiadores do futuro dirão que o nosso mundo acabou com a queda das Torres Gêmeas, em 2001). Vivemos o fim do mundo, como o conhecíamos – como na letra do REM. E isso é ótimo. Afinal, esse mundo já vivia podre há alguns séculos.

Quem sabe agora, possamos finalmente enfrentar de modo sensato nossas condições reais de vida e nossas relações com os nossos semelhantes. Pra além do efeito, acho que o que essa frase quer dizer é simples: quem sabe isso sirva pras pessoas pensarem o que elas estão fazendo das suas vidas e o modo com elas estão se relacionando umas com as outras. Se realmente vale a pena passar a vida num emprego X, só pelo salário, se vale a pena casar e ter filhos porque, bom, isso é o que todo mundo faz e quem sabe eu vou me arrepender no futuro se não fizer, afinal esse é o curso natural das coisas. Quem sabe...

As chances aparecem – pro mundo e pras pessoas. Se elas vão aproveitar ou não, aí já é outra história.

É, estou muito otimista, hoje.

5 comentários:

ila fox disse...

Carrie,
Também vi esta matéria e fiquei chocada. A gente imagina que o tal do sonho americano mantém todo mundo seguro e feliz num mundo de grama verde e cerquinha branca...
O negócio tá feio.
*
Carrie, indo na onda das teorias do seu tio, vou dizer a minha teoria!
Acredito que o mundo só vai mudar DE FATO no dia que acontecer uma invasão extra-terrestre sabe? daquelas com direito à nave mãe chegando para aterrorizar a galera.
Só assim a humanidade vai criar consciência de que somos uma coisa só.

Mais ou menos o mesmo "fenomeno" de quando tem copa do mundo, que a gente vê corinthiano abraçado com palmeirense e tal... afinal, todo mundo é brasileiro né? é assim que penso.

*

Já me tornei uma heróina de Alan Moore, veja no meu Orkut depois, haha. :-P

Carrie, a Estranha disse...

Ila,

Essa dos aliens é boa, hein? Gostei.

Bjs

Stella disse...

Eu acabei de ver a manchete dessa matéria num site (acho que no do MSN). "Cidade das barracas".
Mamãe já tentou me explicar como funciona isso e porque ninguém pode ficar com as próprias casas até a situação se estabilizar, mas não entra na minha cabeça. Não dá pra acreditar mesmo. Mania de americano de fazer hipoteca da casa.
Concordo muito com essa teoria de que estamos vivendo o pós-apocalipse. Afinal, o mundo parece revoltado conosco em todos os sentidos. Quase como se estivesse tentando expelir os parasitas dele, que é o que somos mesmo, né?

Esse deve ser o tempo das oportunidades. Oportunidade de mudar, de mudança. Porque nesse ritmo não vai ter mesmo muito o que mudar no futuro, nem quem mude.

Beijos, Carrie!

p.s: você conheceu o Jack Bauer???? (sobre o post anterior)

Carrie, a Estranha disse...

Sim, Stella! Eu "conheci" o jack Bauer! Rsrsrs

Roberta disse...

"Os donos do capital vão estimular os trabalhadores a comprar bens caros, casas e tecnologia,
fazendo-os dever cada vez mais, até que isso se torne insuportável.
O débito não pago levará os bancos à falência, e eles terão que ser nacionalizados pelo Estado"

Karl Marx
O Capital, 1867