quinta-feira, fevereiro 05, 2009

Trenzinho da alegria

Dentre as atividades profissionais de Formiga Irmã, uma delas é ser professora do Estado num supletivo à distância. Não basta ser supletivo, mas tem ser à distância – e como incentivar os alunos a estudar se eles podem largar a escola, no final entrar num supletivo, se formar e entrar numa faculdade pelas vagas do Prouni (numa particular) ou no sistema de cotas (numa federal) e tudo bem, né? Me dê uma – só uminha - justificativa pro aluno freqüentar aulas regularmente? Pois é. Mas voltando ao supletivom à distância: o professor só fica nessas escolas pra aplicar provas e tirar dúvidas de alunos. Quer dizer: ao invés de você ter que enfrentar uma turma de 40 moleques nem aí pro que você fala, ver aluno entrar armado, ter que lidar com tráfico dentro da escola, perder inúmeros alunos pro tráfico, ser ameaçada, jogarem objetos em você, ter que negociar diretamente com o traficante se você quiser dar uma aula em paz, ver metade das meninas da turma grávidas dos traficantes (e dando graças a Deus por isso, já que asseguraram o seu futuro), apanhar e ser morto – que isso, Carrie! Que exagero! – você pode passar pra esse tipo de ensino que é um oásis tendo em vista o cenário geral.

Ontem houve um evento de volta às aulas. Na verdade era pra ser só uma reunião. Formiga Irmã chega e a primeira coisa que a diretora da escola faz é distribuir uma folha com música de famosa cantora muderna chata pra carááááááleo, cujo nome eu não posso dizer, pois corro o risco de comprar a ira divina ou pelo menos dos meus 17 leitores e meio, como diria o Agamenon Mendes Pedreira. Só digo que a mãe dela também era uma cantora de renome que morreu de overdose nos começo dos anos 80, e o nome dela (da filha) é duplo, começando com M (o primeiro) e segundo com R. Mais não digo. Só digo que se ela passasse na frente do meu carro eu acelerava e ainda dava ré - mas eu nem dirijo...

Pensaram que era só isso? Homens de pouca fé! Não contente em ouvir a música, cantar a música, os professores foram convidados a dançar a música. Não sem antes receberem colares havaianos e máscaras – e se você fosse íntima da diretora ainda ganhava aquelas anteninhas que nego dá em formatura. Siiiim, auditório. Eu disse máscara, antena e colar.

Na certa vocês estão achando que eu estou inventando isso, ok. O que eu posso fazer se o mundo é estranho? Não satisfeita, a incansável diretora os manda fazer um trenzinho. Formiga Irmã lá. Vestindo a camisa (e o colar e a máscara) do colégio – ainda que tivesse um calor do cão.


Quem sambar aqui no meio ganha um dia de folga! Vai meia dúzia pro meio. Claro, pois humilhação pouca é bobagem.


Nisso a diretora saca uma espuma – meeeeo deeeeeeus – um tubo dessas espumas de Carnaval e taca na galera. Cuidado com a marroquina, gente! [tradução: escova marroquina, técnica de “relaxamento” capilar que, supostamente conteria menos elementos agressivos ao cabelo e alisaria da mesma forma]. Nesse momento – somente nesse – Formiga Irmã achou que já estava um pouco demais e foi se sentar.


(Eu sei, vocês precisam de um momento pra se recuperar).

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(Eu sei, ainda não foi o suficiente)


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(Eu sei, vocês acham que eu invento essas histórias. Eu mesma duvidei de Formiga Irmã e só acreditei – em parte – depois que ela me mostrou os adereços carnavalescos. Mesmo assim ainda duvido e acho que ela pode ter inventado um pouco).

Aí o professor tem um acesso de fúria, espanca o aluno até a morte e vira um escândalo. Ninguém se preocupa em ver o tipo de professor que está sendo criado. Humilhações de todas as ordens e tipos, das mais baixas às mais altas. O menos humilhante chega a ser o salário. Se fosse só o salário tudo bem. O pior é todo o resto. E que resto.


Vocês já viram a personagem da Sílvia Buarque na novela das oito? A professora do Zeca? Eu não posso ver. Eu passo mal com aquelas cenas. Aquilo me lembra a Esculacho e seus pitboys da Barra. O que era bem pior, porque era universidade.


Eu tenho muita pena de quem tem filho em idade escolar.

Pensando bem, não tenho não. Teve porque quis, não é messs?

5 comentários:

ila fox disse...

Cresci vendo minha mãe chegar morrendo de canseira das aulas (minha mãe é professora), na minha mente de petiz eu pensava "isso não deve ser legal!"

É por isso que penso duas vezes antes de seguir a carreira de professor (eu sou formada em artes plásticas e na teoria somos "treinados" para dar aula, mas acontece que euzinha aqui deveria era ter feito artes gráficas que é mais meu perfil. Enfim).

Minha mãe diz que ser professor é como se tivessemos vários chefes: os alunos, diretores, pais de alunos e outros professores que se acham melhores que você.

Eu heim, to fora.

Lost Girl disse...

hahahahaha! eu precisei MESMO de um momento pra me recuperar de TANTO que eu ria aqui! hahaha! que diretora LOUCA, gente... e garanto que ela achou que estava prestando um super serviço de 'integração', 'descontração', etc. ou então vai usar fotos desse evento pra chantagear os professores mais tarde, não sei.

engraçado que lá no início do post eu lembrei LOGO dessa personagem da novela. Quase não vejo novela, mas uma das poucas cenas que eu vi dessa, foi uma em que esse idiota joga um sapato (algo assim) no rosto da professora. Bem triste mesmo. Virou uma profissão de risco, né? Quem diria...

Será que foi por isso que a diretora enlouqueceu?

Ione disse...

Eu tb precisei da pausa pra me recuperar. Ainda tô me acabando de rir, que coisa mais sem noção!

Como a Lost Girl aí em cima disse, a diretora deve ter enlouquecido...

trinity disse...

Carrie,

Sua narração foi hilária demais!
Parabéns!

Mamãe também foi professora de primário, escola de roça (aquela uma que cada fila é uma série e professor é tudo faxineiro, mestre and merendeira), professor pelo telecurso 2000, projeto minerva (a mesma coisa do telecurso porém via rádio) e até de mobral.
E eu vi muitas coisas loucas que os professores tinham que passar. E disse que nunca querer ser professora hoje penso forma oposto e quero lecionar.

Carrie, a Estranha disse...

Ila,

Perfeita a definição da sua mãe. É isso aí.

Lost Girl,

Foi estojo q o garoto joga na professora.

A diretora teve filho recentemente. Eu acho q ainda é o desequilíbrio hormonal da gravidez.

Ione,

Há uns 5 anos atrás, acho, teve o caso, nesse mesmo local, de uma professora q surtou. Mesmo. Literalmente, não é força de expressão.

Trinity,

Eu acho uma profissão muito legal. Pena q as condições sejam tão ruins. E eu pretendo, ainda, ser professora universitária - q é bem mais tranquilo.

Bjs