domingo, outubro 19, 2008

O dia em que virei negona (ou: cada um tem a Bahia que merece).

A semana teve “de um tudo”, meu povo. Ela começou na terça, com jogo do New York Knicks no Madison Square Garden, com direito a tudo que a gente vê nos filmes: cara pedindo a mulher em casamento e aparecendo escrito no placar, figuras estranhas dançando pra câmera, cheerleaders animadésimas fazendo coreografias incríveis (gravei um pedaço, vou ver se boto aqui), gritos de guerra – “Let’s go Knicks!” e “De-fense, de-fense” – mas nada adiantou. Eles perderam. Tudo bem que ainda não é o campeonato oficial, é tipo um jogo de exibição, mas mesmo assim. Vexame. Bando de pereba. Quando eu morar aqui vou ter que escolher outro time pra torcer. Acho que vou me dedicar ao beisebol. Se algum dia eu conseguir entender as regras.

Teve Museu de História Natural, de novo – dessa vez vi os dinos.

Teve Moma, de novo –com exposição do Van Gogh, “The colors of the night”, com quadros do Museu de Amsterdã.

Teve “O fantasma da Ópera”, ontem na Broadway – sim, Hetie! Lembrei de você! Só quem já foi pode aquilatar o que é. Não tem como não gostar. Não tem. Você pode até questionar o modelo norte-americano de produção de massa, que aquilo é apenas show bizz, mas você estará sendo apenas chato e desagradável – além de mentiroso, porque é impossível não se divertir. É muuuuito legal. Muito. Eu não fazia idéia. Ficamos lá atrás, mas mesmo assim eu gostei muito. Compramos no TKTS que é um esquema que você só compra no dia, mas é pela metade do preço – e aí tem que ser onde tiver ingresso. Pensava em Formiga Mother e Dedinha o tempo todo. Como elas iam amar.

Descobri que aquela música breguésima brasileira “Eu sou teu homem tã nã nãããa...” é d’O Fantasma. Ai, gente. Me senti tãããão ignorante.

E hoje foi a Abssynian Baptist Church, no Harlem.


PÁRA TUUUUDO!


Vocês não estão entendendo! É a coisa mais impressionante. É lindo. É mágico. É que nem nos filmes. Negonas cantando, coros gospels...de fazer Billy Holiday e Sarah Vaughan parecerem as Paquitas. Inacreditável a voz das mulheres. De outro mundo.

A Igreja é linda, com vitrais lindos, pequena e aconchegante. As pessoas vão super arrumadas, de chapéus, ternos e são super amáveis – tem um negão que fica berrando na porta pra quem não tiver reserva, pra ir pra outra Igreja, mas é o jeito dele.

E o pastor? Gente, o pastor era tuda! Depois de falar (bem) do Obama e de um evento em que os dois se encontraram e ele disse: “E aí, Obama? Quando você vai a Igreja?” E ele disse: “Depois das eleições” ele começou o sermão dizendo que queria falar de um problema que ia se agravando com a idade. Super sério. Todo mundo esperando ele dizer qual era o problema e de repente ele manda “I eat a lot”. Me senti numa reunião dos Vigilantes do Peso! Senti que o pastor falava pra mim! Directly to my soul! Hallelujah!

E ele foi falando sobre os problemas de se comer muito, como ele gostava de comer, como isso vai se tornando um problema com a idade...e a platéia morrendo de rir. E depois ele disse que temos que cuidar do nosso corpo físico, assim como o espiritual e “Jiiiisus is our doctor!” Sensacional. E você canta e bate palma...recomendo a todo mundo que vem a NY. Tão fundamental quanto ver a Estátua. Só que tem que fazer reserva antes pela internet – e eles não avisam isso, você tem que ir lá e dar com a cara na porta como eu e Vanor.

A cerimônia é muito bonita. Eles também têm a comunhão, como os católicos – que, além da hóstia tem também o vinho. Umas duas horas e pouca de culto. Ah! Também teve uma apresentação de violino de uma moça que vai tocar no Carnegie Hall terça feira, de uma orquestra fodona que recruta muitos negros e latinos.

Saí de lá “touched by the Lord!” Querendo casar com um negão (cada espetáculo de negão...), ter meus gêmeos neguinhos (e não mais ruivos), chamados Mandela e Martin, e morar na Malcom X, num predinho pequeno daqueles. Aí eu poderia engordar tranqüilamente - já que as mulheres africanas são grandes - me vestiria com aquelas roupas coloridas lindas, me sentaria na esquina e cumprimentaria minhas vizinhas dizendo “Hey sister!”. Yes, we can, como diria o irmão Obama. Oh, we can. And the church says “eimen”!

Saindo dali fui conferir o famoso Silvia’s, restaurante com soul food (comida africana) e música gospel ao vivo. Chegamos lá e estava mega lotado, cheio de brancos (e eu, com minha recém negritude adquirida já não suportava ver tantos branquelos azedos na minha frente). Tivemos que colocar o nome numa lista. Acontece que nesse meio tempo a galera que estava comigo debandou, sobrando apenas eu e menina Gi. A mesa que a gente tinha reservado pra cinco não podia ser remodelada para duas. Daí ficamos sem lugar. Nisso, um cara que mais parecia um rapper-gangsta - preto, preto, preto azul marinho de tão preto, enorme, com cordão dourado e anelão no dedo – perguntou se a gente se importava de dividir a mesa com ele e a amiga dele. Dissemos que não e fomos nos sentar.

Eles eram super simpáticos. Eram de Virgínia – tinham um sotaque que não dava pra entender quase nada, assim como eles também entendiam pouca coisa do que a gente dizia. Não conseguiram sequer entender “Brasil”. Depois, a mulher disse que conhecia, mas o cara parece que nunca tinha ouvido falar na vida. Perguntaram o que se falava lá. O cara disse que a gente parecia da Iugoslávia – mais um país do leste europeu que me confundem. Tsc, tsc, tsc.. E menina Gi é mais branca que eu.

Ela era funcionária dos correios e ele trabalhava com financiamento, mas não entendemos muito bem. Estavam com uma amiga que era personal trainning e tinha vindo a NY fazer um seminário. Daí eles aproveitaram e vieram passear – depois descobrimos que era aniversário de 49 anos dela, que se chamava Sandra. Ele se chamava Allen. E antes de comer, ela fez a gente orar ao Senhor. Eu, recém convertida a Igreja Batista, compartilhei com júbilo daquele momento de fé entre meus irmãos de cor.

Daqui a pouco vem um crioulo (nós, pessoas no gueto, podemos nos chamar de nigger, black ou similares. Para vocês, brancos, por favor: é african-american) grisalho conversar com o Allen e a Sandra. Era o gerente. Quando descobriu que a gente era do Brasil, perguntou em bom português: “de onde?”. Resumo da Opera: o cara vai duas vezes por ano ao Brasil, é amigo da Benedita da Silva, do Abdias Nascimento e quando eu disse que estudava História na NYU ele disse que era um departamento muito bom em História brasileira. Ficou explicando para os meus novos amigos que a Bahia havia sido o primeiro lugar pra onde os negros da Diáspora Africana haviam vindo e coisa e tal. Que as mulheres no Brasil eram lindas, de todas as cores, e que os homens também, pois eram todos malhados e fortes (me deu vontade de perguntar “onde?”). Depois ainda voltou pra perguntar se estava “gostoso” (em português).

Daqui a pouco a cantora tava na nossa mesa cantando parabéns pra Sandra, pois o Allen tinha ido lá falar. E a garçonete deu uma fatia de bolo pra Sandra

Terminamos dando abraços, beijos, com o Allen nos desejando uma boa vida. Sim, Allen. É o que a gente vem tentando. God bless us! Eimen.

Confesso que não gostei muito da comida; pedi costela ao molho barbecue - sem querer, menina Gi me ludibriou, pois eu odeio costela – com pirê (eu falo pirê e não purê) de batata com alho (bom) e uma verdura. Mas adorei o programa.

Me senti como esses gringos que chegam na Bahia e acham tudo lindo.

Depois fomos ao Ground Zero – só no outro extremo da ilha, mas tudo bem – levando apenas uns 20 minutos num trem expresso do Harlem a Downtown. Andamos por lá e pegamos um maravilhoso pôr-do-sol em Battery Park. Um céu azul inacreditável. O reflexo do azul do céu nas janelas espelhadas era tão grande que parecia que o prédio era apenas uma fachada com as janelas vazadas. A água parecia um espelho azul e prateado. Coisa mais linda.


* * *


E o frio, minha gente? Vocês não têm loção do frio. Perto de zero grau. A pessoa tava de meia + meia calça de lã + calça de veludo + segunda pele + blusa fininha + casacão pesado de pele + pashimina no pescoço – e adorando cada minuto. O aquecimento do meu apartamento foi ligado e diz a Grega que agora ele só é desligado na primavera. Ótimo pra secar minhas calcinhas.

Aliás, tomei um susto hoje de manhã quando eles ligaram. Faz um barulho meio bizarro, como se tivesse escapando gás – não, é um aquecimento a água. E é uma Força Superior do prédio que liga. Nós não temos controle sobre ele.


* * *


Assim como eu acho Zorba louca ela deve me achar. Achei que tinha perdido meu cartão do metrô de 81 dólares + chave da portaria + NYU ID. Fiquei puuuta da vida. Procurei de manhã e não achei. Pior: sabia o exato local onde eu devia ter perdido: na escada que fica na porta do meu apartamento. Eu pus a bolsa e uma carterinha de plástico onde eu guardo as coisas mais importantes no chão pra tirar o casaco e as botas (Zorba pede pra tirar os sapatos). E me lembro de ter colocado ali. Passei o dia chateada. Pedi ao Senhor, na Abssyniam, para que ele me devolvesse a chave. Pensei em fazer mais alguma promessa a Toninho, mas como já tinha parado de comer chocolate, achei que qualquer outra privação de cunho alimentício seria assaz dolorosa, quiçá catastrófica para minha sanidade mental. Prometi dar um dólar para o carinha do “one penny for the homless” lá perto da faculdade. Já dei, aliás, alguns pênis (haha) pra ele.

Descubro no metrô que eu tenho como ligar pra um número e pedir pra cancelarem o meu metrocard, pois eu paguei com cartão de débito e tenho o recibo. Chego em casa e conto pra Zorba. Ela diz que vai escrever um bilhete pra afixarmos no corredor do prédio. Eis que...ACHEEEEI! Grito eu. Tava colado no case do meu laptop e quando eu procurei de manhã, na pressa, não consegui ver. Na verdade a gente sabe que é porque o Senhor interviu, mas vamos fingir que é isso. Ou os Gnomos, os mesmo que mexem nos meus textos de madrugada e fazem minha tese ficar uma merda. Que nem São José que colou os cacos da garrafa térmica da Tia Nhanhá.

Fiquei tããão feliz! Enquanto isso Zorba ria da minha cara.

Ela deve achar que eu sou louca. Tomo dois banhos por dia, amo inverno, tomo sorvete perto do zero grau e acho que perco as coisas - e as vezes perco – toda hora.

É que é muita informação nova junta para processar num só dia.

9 comentários:

denis disse...

O KNICKS É TIPO UM BOTAFOGO DO BASQUETE. QUANDO VOCÊ ACHA QUE VAI...NÃO VAI! É O MEU TIME!
VC VIU OBAMA?
BJ. SAUDADE...

denis disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Anônimo disse...

Quando fui ver o knicks entrei no clima do De-fense. Muito legal!!! Quanto ao seu momento negritude, nem consigo imaginar... Só falta fazer cabelo black power... Bjs Karine

Helena disse...

Sister, adorei! Eimén

Joel disse...

Quer dizer então que agora você é a Carrie Black, a Estranha

Amana disse...

God bless the America!
programão imperdível, hein? cheguei a arrepiar com a história!
E ainda tirou onda no restaurante, hein???????
XD
crazy, sista, crazy!
:*

Dani Machado disse...

Minha inveja só está aumentando!!!!!
Rsrsrs

Carrie, a Estranha disse...

Denis!

Hahahaha...Botafogo do basquete foi a melhor definição! Rsrsrsrs...Não, não vi o Obama. Só na TV!

Saudade!

Kaká,

Já sinto meu cabelo black, agora q a escova progressiva já foi, literalmente pelo ralo.

Helena,

And the church says eimen!

Joel,

Sim! Carrie Black, não mais Carrie White.

Amana,

Muito legal! Eu recomeeeeeindo.

Dani,

Só faltou vc aqui!

Bjs

Ana Paula disse...

"Teve Moma, de novo –com exposição do Van Gogh, “The colors of the night”, com quadros do Museu de Amsterdã." Quer dizer vc viu os quadros q eu não vi lá no museu Van Gogh, em Amsterdan? Se deu bem, malandrinha. :)