sexta-feira, agosto 17, 2007

Misadventuries in my english classes


Arrumei uma professora de inglês neo-zelandesa (acho que já falei aqui) e que mora em Santa Tereza. Mais alternativa, impossível. Ela cobra dez reais a mais pra vir em casa. Dado a minha pindaíba, caí na besteira de perguntar: Você mora muito lá pra cima? Nããão! – respondeu ela - cinco minutos dos Arcos (da Lapa)! Eu, mocinha ingênua, acreditei.

Após umas duas ladeiras, praguejando contra todos os santos, pensando que era a primeira e última vez que eu marcava na casa dela, eu comecei a achar que os dez reais a mais não eram nada (ainda mais levando em conta que eu ia gastar 4 de ônibus, então na verdade seriam 6). Além disso, ia ter o dia fatídico que eu ia me atrasar e, com aquela ladeira, só um táxi me salvaria. No final das contas ainda ia economizar mesmo pagando 10 conto a mais. Cinco minutos! Cinco minutos só se você for um praticante do Pentatlon Moderno! – o que está longe de ser o meu caso. Cacete.

Quando eu olhei o número, estava a léguas de chegar no dela. Putz. Olhei pros lados e vi uma moça subindo, com cara de professora de inglês neo-zelandesa que mora em Santa Tereza. Oi, você é a Fulana? Sou! E você é a Carrie? Isso. Menos mal. Não vou ficar vagando em Santa Tereza. Fomos conversando até a casa dela – que ainda levou uns 10 minutos.

Caras, na boa: eu não sei o que esses gringos vêem em Santa Tereza. Tudo bem, é um bairro bonitinho, gosto de ir lá à noite, de almoçar domingo, de ir no Santa de Portas Abertas (evento em que os artistas plásticos abrem seus ateliês para visitação do público), mas...morar lá? Nem fudendo. Santa Tereza é, hoje em dia, um dos bairros mais violentos do Rio. Há uns cinco anos atrás houve um crime bárbaro (não sei se vocês se lembram) em que o mínimo que os assaltantes fizeram foram escalpelar a dona da casa. Isso. Que nem índio. O mínimo - fora esquartejamento, estupro... O que existe de caso de assalto e estupro naquelas ruas desertas não está no gibi. Eles assaltam e espancam as pessoas. Ah, mas o Rio todo tá assim. No Framengo não tá não, neguinho! Não é à toa que deu no Globo esse domingo que o Flamengo tá virando o bairro mais caro do Rio. Claro. É o único da Zona Sul que não tem favela). E as chances de você ser assaltado morando em um prédio com porteiro no auge da muvuca são bem menores do que morando em uma casa. Sem contar que Santa Tereza tá passando por um processo feroz de favelização. Mas os gringos acham tudo lindo. Very exotic. Hãn hãn. Se eu quisesse bucolismo morava em Andrelândia. Se moro no Rio eu quero civilização, meios de transportes e serviços 24 horas. Nada de bairros que qualquer chuvinha acaba a luz. Don't fuck my patience.

No caminho ela foi me mostrando: aqui mora Fulano, meu amigo. Aqui, Sicrano. Chegamos à casa dela. Enoooorme. Com um rotweiller na porta. Como assim? Não, ela é mansa. Tá bom. Entrei. Realmente a casa é muito maneira. Esses típicos casarões em Santa Tereza, cheio de móveis vintage comprados em brechó provavelmente ali mesmo, algumas peças de arte, quintal...tudo muito lindo, mas eu só conseguia pensar se eu fosse um ladrão, por onde era mais fácil entrar (não adianta, eu tenho um cérebro doentio). Começamos a conversação – ela disse que a primeira aula seria uma conversação pra me avaliar.


Comecei a suar tentando explicar minha tese de doutorado em inglês. Já me embolo pra explicar em português, que dirá em outra língua. Me senti que nem a propaganda do CCAA, com as palavras correndo de mim, porta a fora. Parecia que tinham botado ferrugem no meu cérebro.

E o sotaque da mulher? Gente, é quase um inglês britânico de tão fechado. Como se ela tivesse engolido um ovo. Ela foi dizer “a quarter pass eleven” e eu entendi “a quota pass eleven”. Fiquei pensando: que porra de palavra é essa? Quota? Quota? Ah!!! Quarter! Putz. (Bom, depois que eu confundi “coins” com “condoms” em Londres vocês imaginem só). E ela fala rápido. Muito rápido. E praticamente não existem “Rs” pra ela. Bââââthrom.

Comecei a pensar: putaquepariô. Como é que eu vou passar no Toefl desse jeito?! Tá fueda. A mulher deve tá me achando um cu. E eu ainda caí na besteira de dizer que meu inglês era “nível intermediário”. Há há.

E no meio disso tudo entra o colega de apartamento dela: um músico, rasta, que toca por ali na Lapa. Ela fala em inglês, o cara responde em português. Daqui a pouco outro amigo entra. Esse mora ao lado. Também é músico. O cara entra beija ela, me beija (no rosto) despede e sai. Ela me conta que ele tava indo casar na Austrália. Céus! Eu entrei num portal pra Oceania, só pode ser!

Mas voltando a aula. Depois de pelejar um bom tempo a mulher vira pra mim e diz: você me disse que o seu inglês é intermediário [ô-ou], mas o seu inglês é muito bom. Hein? Acho melhor a gente seguir um livro. Você tem vocabulário de quem lê em inglês. Cuma? Onde você aprendeu inglês? Quase respondi “Warner Channel”, mas disse é, eu assisto muito canais por assinatura, CNN, seriados.... Ela jurou que eu só tô meio enferrujada, por não praticar, mas eu acho que tudo isso não passa de uma estratégia de fidelização; todo professor vem com esse papo. Eles não me enganam. Eu sei que eu sou uma fraude e um dia as pessoas vão descobrir isso. Até lá eu vou enganando.

Acertamos todos os detalhes pra aula que vem – que será aqui em casa, diga-se de passagem – I’m a very lazy person - não só pela distância, mas pra não ter a interrupção de amigos músicos se mudando pra outro continente. Ela não cobrou essa, pois era avaliação (gostei) foi comigo até a saída, pois ia se despedir do tal amigo que ia pra Austrália.

Nossa, que tempo ótimo, hein? – ela diz, enquanto eu torcia a barra da minha blusa completamente encharcada de suor. Eu acho que eu nasci no país errado (Ei, peraí! Essa fala é minha!) Eu adoro sol, praia, samba, futebol...Eu também! Respondi. Nasci no país errado. Detesto tudo isso.

Desci a ladeira pensando em como é estranha a vida.

Mas a mulher parece ser boa. Além disso ela dá aulas no Britannia. As professoras de inglês de plantão podem dizer melhor do que eu, mas tenho uma amiga que diz que classe média estuda na Cultura e no Ibeu; a elite estuda no Brittania. E, conseqüentemente, o ensino é melhor nesta última – infelizmente nesse país, quase tudo que é bão é pra rico. E considerando que a pessoa que me indicou essa professora tem pais em altos cargos na política carioca, acho que é verdade.

Aí, depois – bem depois – eu vou voltar a estudar francês (a sério), e depois espanhol (quero falar bem e direito e não ficar só no portunhol) e aí vou estudar alemão! Depois parto para as línguas mortas... e aí vou dominar o mundo! Eu e meu amigo Pink.


UP DATE: hoje já tive a segunda aula. A teacher disse que como minha casa é no meio do caminho dela e coisa e tal, me cobraria só 5 reais a mais. Formô! Continuo perdendo metade das palavras que ela fala.

13 comentários:

Cris disse...

Não seria "a quarter past eleven"?

chata. eu sei, eu sei.

é mais forte do que eu.

Cris disse...

é 'a quarter past'. muito divertida a historinha, viu. não sei se a zelite estuda no britannia, só sei que a curtura tá cobrando algo que beira os 280 reais. classe mérdia com dois filhos na escola pode pagar isso? eu num pagava nem fudendo. odeio megalômanos, hohoho. bjs

Cris disse...

ah, e sobre a violência em santa: acabei de ler 'a sangue frio'. tô besta com a quantidade de chacinas nos EUA em 1960[!!!!!!!]. tô começando achar o rio uma cidade até bucólica, ahauhauahuahauhaua! bjs

Carrie, a Estranha disse...

É, craro q é past. Sorry. Pobrema da burrona aqui. Mas Cris e Cris, vcs são a mesma pessoa?

bjs

Anônimo disse...

Semestre passado eu tive um professor sul-africano que não tinha sotaque nem americano nem britânico.
Nas aulas de gramática ele dava umas vaciladas que eu ficava sem graça em ter que "ajudá-lo" (pq não queria que o pessoal achasse que eu estava querendo saber mais que o professor).
A parte divertida da aula era tentar fazê-lo falar "Jericoacoara", "Pindamonhangaba" ou "Itaquaquecetuba" ... hohohoho

Mel

estranho disse...

Você não tem "classes", mas "lessons".

"Class" é a reunião de um grupo de estudantes pra ter uma aula.

Embora tenha gente que diz "private classes", é como dizer "square circle".

Cris disse...

no, carrie, eu ainda não tenho personalidade dupla, essa aí é outra cris...

Carrie, a Estranha disse...

Hahahaha...outra Clis (ou outro Clis) plofessola de ingrês! Nãaaaaao!! Rsrsrs...

Nossa, estranho! Como vc é inteligente, hein?

Mel,

Isso é maldade, hein? Rsrsrs

bjs

Tathy disse...

Oi Carrie, ja leio seu blog ha algum tempo, sempre caladinha, mas hoje tive que falar: eu moro em Santa Teresa! E as coisas nao estao tao pretas por aqui nao! Eu perambulo todo dia por essas ruas desertas (por causa do meu cachorro que caminha uma hora subindo e descendo ladeira) e posso te falar que nunca me aconteceu nada! Agora, os gringos alternativos proliferam por aqui mesmo! bjs e boa sorte com o ingles.

Carrie, a Estranha disse...

Oi, Tathy!

Legal! Sempre fico feliz qdo alguém q nunca comentou passa a comentar - não q os velhos comentadores não me deixem felizes, mas...bom, vc entendeu.

É, pode ser exagero de quem não mora aí. Sabe como é, qdo a gente tá de longe, sempre parece pior. Assim como quem tá fora do Rio sempre acha q é mais violento do q realmente é.

Mas eu confesso q sou uma medrosa de marca maior! Rsrsrs...Eu tenho paranóia de lugar meio vazio. Morei a vida toda num bairro ótimo, super sossegado, mas meio deserto, em q não dava pra sair sozinha.

E esse papo de assaltar e espancar eu ouvi de alguém q mora aí.

bjs e comente sempre

Marcia disse...

Tem favela no Flamengo sim! Tem o Morro Azul e andou rolando até um tiroteio básico recentemente. E bem pertinho, no Catete, tem a do Santo Amaro, além de uma outra que não me lembro o nome.
No Rio não existe bairro sem favela, a não ser o Leblon do Manoel Carlos (se bem que tem a Cruzada São Sebastião que é uma favela edificada).

Camila Manfré disse...

Inglês enferrujado por falta de uso existe sim!!!!
Eu fiz Cultura por 4 anos e meio, fiquei 13 anos sem estudar. Conheci meu marido, que é alemão, pela internet e inglês é o nosso idioma oficial. Entre namoro e casamento, quase dois anos de inglês, todo santo dia. Eu acho meu inglês intermediário, mas todo mundo me garante que estou fluente...
Boa sorte com as aulas!!!!

André Rafael disse...

Gentem... não conheço esse pouquinho de Brasil iáiá de que vocês falam.
'Tiroteio básico' é o que a gente imagina do Rio (ou pelo menos os iNgnorantes como eu que só conhecem Búzios e Cabo Frio), mas parece mesmo um outro Brasil (o dos noticiários!).
A propósito, Carrie, você conhece Curitiba?