segunda-feira, maio 14, 2007

Tênue equilíbrio


Cada pessoa é um universo intransponível fechado em si mesmo. Relacionar-se é tentar estabelecer pontes que diminuam as distâncias, ainda que isso não passe de ilusão – pois no fundo estaremos sempre em nossas próprias ilhas, cercados de vazios por todos os lados. Mas há pessoas que simplesmente não querem que você chegue à outra margem. Mesmo sabendo que é só uma ilusão. Querem preservar seu território a qualquer custo. Certas pessoas só vão – e só deixam você ir – até certo ponto. Não insista. Se você passar dali estará correndo risco. As pontes se quebram no meio do caminho. Esfumaçam-se no ar. E você se vê subitamente caindo num abismo, tentando voltar ao seu lugar de conforto e pensando quanto tempo demorará para se recuperar.

Certas pessoas são um caminhão de carga pesada na subida de uma serra. Mantenha distância. Mantenha uma rotina de olás, tudo bens e como vais cordiais, amáveis e superficiais. Se você aprofundar pode morrer afogado, tragado pela força do redemoinho. Não tocar em certos pontos nevrálgicos. Não conversar sobre aborto, pena de morte ou a invasão do Iraque – porque vocês sempre terão opiniões radicalmente opostas que não serão toleradas por uma das partes, por mais civilizados que vocês sejam. Você tem que manter sempre um pé atrás pra não cair. Botar uma rede de proteção, um pára-quedas extra, um colete à prova de balas – ou salva vidas.

Certas pessoas são sempre um vulcão. Nunca subestime o seu poder. Eles podem permanecer séculos em repouso e entrar em erupção de uma hora pra outra, sem razão aparente. Certas pessoas são como leões domesticados. De repente podem atacar o seu treinador, aquele que lhe dá comida todos os dias e que já deveria ser seu conhecido, apenas porque é da sua natureza. Como a fábula do escorpião.

Aí há um momento em que você se pergunta se já não é hora de parar de tentar. Você chega à conclusão que com certas pessoas não dá. Simplesmente não dá. Você nunca vai ter a medida certa, o tom exato. Cansa colocar compressas nos machucados. Tatear sempre completamente no escuro, sem nenhuma indicaçãozinha de luz, sem pistas, dando topadas a torto e a direito. Pisar em ovos que podem se arrebentar a qualquer momento.

Porque não dá pra cobrar mais do que a pessoa pode te dar. Há que se respeitar isso. O erro é seu que ignorou as placas e os avisos. Um vulcão não tem culpa de ser um vulcão. Quem mandou você chegar tão perto?

Mas que é foda, é. Ter que conviver com vulcões. É como se você andasse o tempo todo em uma corda bamba. Qualquer deslize e pufff! Já era. Tragado pela correnteza. Como um elástico estendido na tensão exata. Mais, arrebenta. Menos, afrouxa. E você não pode simplesmente dar as costas e ir embora. Simplesmente não pode. O vulcão faz parte da sua rota.

Um comentário:

Monica disse...

Conheço bem os caminhões que sobem a serra no mantenha a distância e os vulcões que vivem plácidos aos seu lado e de repente te petrificam como em Pompéia!
Além desses, os vulcões que estão na sua rota e que mantém a distância e a tensão !!!! Lúcida , lúcida, lúcida!!!