domingo, janeiro 14, 2007

Anônima

(Para Nelson Rodrigues)

A vida inteira nunca lhe chamara pelo nome. Começara quando ainda eram namorados. “Ele vem me buscar hoje à tarde, papai!”. “Mas qual é o nome deste rapaz, Lúcia Helena?”. “Você verá papai! Que curiosidade!”.
O namorado achava estranho, mas lhe fascinava a idéia de um pudor quase infantil por parte da amada. A mania perdurou durante todo o namoro. A mãe, Dona Eulália, sempre consolava o marido dizendo: “coisas da juventude de hoje! Tudo se ajeita com o tempo! Com o noivado isso passa!”.
O noivado veio e a coisa não passou.
Mas com o casamento certamente tudo seria diferente. Ledo engano.
Na cerimônia, tiveram que mudar os votos, pois não havia meio de fazê-la falar: “eu, Lúcia Helena Franco aceito você, fulano de tal, como legítimo esposo”. O padre ameaçou não realizar a cerimônia e só conseguiram porque Lúcia era sobrinha do Bispo.
E a mania perdurava no dia a dia de casados. “Ele foi trabalhar hoje cedo”. “Meu filho, não puseste as roupas para lavar?”.
Um dia o marido chamou-lhe a atenção. “Está muito sem jeito esta coisa de não me chamar pelo meu nome. Muito. Não está direito, compreende?”. Ao que a esposa retrucava: “meu filho, você não entende! Há certas coisas, entre um homem e uma mulher, que não devem ser ditas”.
As amigas provocavam-na com freqüência. “Como é mesmo o nome todo do seu marido, Lúcia?”. Ao que ela sempre conseguia escapar: “você sabe até que parte, Elvira?”. Nada fazia Lúcia dizer o nome do marido. E não era um nome feio - não que fosse um dos mais bonitos. Era simplesmente um nome como outro qualquer.
Na hora do sexo, o marido pedia: “diga meu nome, ao menos uma vez, estamos a sós!”. Ao que ela sempre respondia com apenas duas palavras: “nem morta”.
Os anos transcorreram normalmente para o casal. Não tiveram filhos e não eram o casal mais apaixonado do mundo, mas viveram felizes durante bastante tempo. Lúcia não era bonita nem feia, gorda nem magra, alta nem baixa, morena nem branca. O marido era figura simpática, sem maiores atrativos, sem muitos pecados mas também sem muitas virtudes.
Ele aprendeu a aceitar a estranha mania da mulher e nunca mais tocou no assunto. As pessoas ao redor também. As vizinhas deixaram de comentar o fato e de bolar estratégias para fazê-la falar o nome do marido. De vez em quando, uma ou outra desavisada, vizinha recente, cometia alguma gafe do tipo, mas era logo advertida pelas demais.
Até que um dia, o marido amanheceu com uma tosse que não se curava e perdurou por meses, vindo a falecer no mesmo ano. Durante o velório, a mesma contenção, a mesma abnegação que sempre demonstrara em vida contaminara a esposa. As pessoas iam e vinham, diziam as frases de sempre. “Grande homem”. “Excelente esposo”. Na hora do enterro, ao descer o caixão no túmulo, um grito cortou o ar quase como um som irreal – essa irrealidade que costumam ter as coisas quando são por demais verdadeiras. “Alfredo!!”. Era a esposa. Um grito rouco, desesperado, quase inumano, um som gutural, como se as cordas vocais não estivessem preparadas para aqueles vocábulos, como deve ter sido o primeiro som do primeiro homem. Um grito de 50 anos. A figura plácida e serena se transformara numa espécie de animal acuado, resfolegando, indócil como um touro na porta de uma arena. Como se nunca ela houvesse proferido palavra alguma exceto aquela. Desfaleceu num misto de dor, gozo e loucura. Os joelhos dobraram e teve de ser carregada pelos familiares e amigos. Nunca mais se ouviu de sua boca palavra alguma.

Um comentário:

Cláudio disse...

Carrie, MUITO BOM este conto!