sexta-feira, outubro 20, 2006


E eu sigo rumo a estação carioca em busca de um controle universal. Vou pensando em como seria bom um controle que fosse realmente universal que eu pudesse usar na minha vida. Acho que já fizeram um filme com isso. Mas nem o controle é realmente universal. Ele precisa ser específico pra alguns modelos.

Adoro o centro do Rio. Gosto de me confundir à massa anônima de transeuntes que vão e vem. Gosto da mistura de advogados, camelôs e outros trambiqueiros – perdão, não quis ofender os camelôs. Artigos piratas sendo vendidos em cada esquina enquanto policiais entediados olham com desdém para os passantes com metralhadoras semi-automáticas em punho. Pessoas expondo suas chagas em busca de um trocado. Testemunhas de Jeová relatam os Últimos Dias – como se já não os vivêssemos. Penso que percorro às mesmas ruas que Machado, que João do Rio, que Rubem, que muitos outros e de alguma forma seus espíritos se fundem ao meu. Imbuída de uma alma flâneur me deixo levar com o fluxo pulsante de uma metrópole única como o Rio de Janeiro, que foge às definições de metrópole usuais.

É cada vez mais difícil vencer o estado blasé. Novos estímulos são buscados por todos, mas o efeito acaba cada vez mais rápido. O ciclo se fecha e se abre se fecha e se abre a montanha russa sobe e desce sobe e desce.

Rodo o Shopping Avenida Central, mas não me dei conta que ali são vendidos artigos de informática e um ou outro eletrônico. Algumas almas generosas me mandam ir aos camelôs da República do Líbano. Fico com preguiça. Prefiro imiscuir-me com os camelôs locais, nas imediações do prédio. Descubro que a marca do meu dvd é difícil de achar. Ainda sou zoada pelo camelô – comprou na Casa & Vídeo, né? Tem um monte de gente procurando por esse controle. Sacanagem. Eu fui a primeira a comprar o dvd. Minha mãe comprou um lote de meia dúzia e nenhum deu problema. Só o meu. Vai ver é isso mesmo: meu lote era outro. Antes que algum engraçadinho pergunte “já tentou trocar a pilha?”, eu respondo “sim, claro que troquei a pilha. Várias vezes. Várias marcas de pilha”. E o meu dvd possui quase todos os comandos no controle. Logo: sem controle, sem dvd.

O camelô zoador me diz que vai se encontrar com O Fornecedor na segunda feira e que é pra eu passar lá durante a semana. Anota o número do meu dvd. Beleza.

Frustrada, resolvo ir a Leonardo da Vinci, livraria. A Leo da Vinci é a única livraria que não tem frescurinha de café, poltrona e etc. Os vendedores são mal humorados e a dona, a senhora, mais velha – ninguém vai me convencer que aquela senhora não é uma fugitiva nazista – só falta te expulsar de lá se você pede algum desconto, enquanto a maioria das livrarias do Rio dá várias facilidades. Em resumo: os caras ainda acham que são a única livraria séria do Rio de Janeiro, assim como eram há uns cinqüenta anos atrás. Mas, depois de uma volta lá dentro, você começa a achar que eles têm razão. Em que livraria do Rio as prateleiras são organizadas por filósofos/pensadores/escritores? Você pode encomendar o livro que quiser, no idioma que quiser e eles trazem? Carlos Drummond de Andrade fez propaganda de graça através de uma linda poesia que fica afixada na porta? A Livraria da Travessa tenta o que só a Da Vinci consegue.

(Parênteses: Quando Primo Poeta esteve no Rio para registrar sua obra estivemos lá. Seus olhinhos brilharam com as muitas livrarias que fomos, mas na Da Vinci ele ficou horas de papo com o vendedor sobre um poeta baiano obscuro. Primo Poeta é uma das únicas pessoas que consegue demorar mais do que eu numa livraria. Ele é capaz de ficar duas horas em pé em frente à sessão de poesia e quando você o chama ele diz: “deixa só eu perguntar uma coisa ali” e demora mais duas horas).

Ando de um lado pro outro e me deprimo com a quantidade de autores que eu preciso ler. Imagino-me em um assalto à Da Vinci, gritando: “passa todos os idealistas alemães ou morre! Materialistas históricos, anda! Tudo bem, eu poupo os existencialistas. Menos aquele Sartre ali!”.

Saio e entro no Berinjela, sebo. Olhos as novidades, mas nada me interessa. Saio rápido. Entro da Gioconda, café em frente à Da Vinci – Gioconda/Da Vinci...hãn, hãn? Pegaram? Eu demorei alguns anos pra pegar e só depois que Formiga Sister me alertou.

Saio e pego o metrô rumo ao Flamengo. Desço e entro na Mundo Verde, a McDonald`s nas lojinhas naturais. Compro meia dúzia de bobagens, mais três caixinhas de incenso: alfazema => serenidade; cedro => estabilidade e camomila => calmante. Passo longe dos de “amor”, “sensualidade” e “criatividade”. Compro também chá de camomila. Isso tudo mais um cd da Enya e um Frontal é tiro e queda. Tipo receita de gripe: qualquer coisa, mais um doril...

Um pastor maluco berra na Record algo sobre a aparência e cita os Tessalonicenses. Ele cita versículos bíblicos como uma metralhadora giratória. Na Rede TV um outro sujeito diz que a vida é fácil e a gente é que complica. É. Deve ser.

7 comentários:

S. disse...

Vi seu link no blog terapia zero. Adorei, morri de rir com seu assalto à livraria, também quero fazer isso!

Rê disse...

uma estudante de ciencias sociais e comunicação, também leitora fanática e adoradora do centro do rio adora o seu blog ;)

Carrie, a Estranha disse...

Ah, q legal! Novas pessoas! Novas mentes a corromper para o lado negro da força! Comentem mais, comentem mais, eu sou carente!
Tb fiz comunicação. E agora, História. Doutorado.
Bjs

Tereza Cristina disse...

Carrie, comecei a ler o post para marido (que, assim como nós duas, também é adorador do centro do Rio). Ele começou a falar que adora a Berinjela. Não é que no parágrafo seguinte ela foi citada... Mentes em linha....
beijos

Tereza Cristina disse...

Carrie, comecei a ler o post para marido (que, assim como nós duas, também é adorador do centro do Rio). Ele começou a falar que adora a Berinjela. Não é que no parágrafo seguinte ela foi citada... Mentes em linha....
beijos

Joana disse...

carrie, eu adoro esse sentimento que da na gente em cidades bacanas. eu tenho isso em ny. nao to dando de metida, mas ultimamente eh mais perto do que o rio pra mim! mas seu texto me deu a maior nostalgia de passear por cidades interessantes.. ai, morar no interior eh foda!

MM disse...

O assalto realmente está ótemo!

Agora, eu comprei uma vez um controle remoto universal, e ele não funcionou de jeito maneira...